O Caminho Perfeito na Dieta

Proêmio

O Rei se encontrava na sala dos holocaustos. Os Brâmanes, com trajes brancos, a seu lado, recitavam seus mantras, avivando o fogo que crepitava no altar, colocado no meio da sala. As línguas claras das chamas saltavam das madeiras perfumadas, sibilando e torcendo-se ao lamber as oferendas de manteiga, de aromas e de suco de soma, alegria de Indra. Ao redor da pira, um arroio espesso e lento, de cor escarlate, fumegava e corria, absorvido pela areia, porém renovado sem cessar; era o sangue das vítimas que ainda há pouco balavam nos campos. Uma delas, uma cabra com grandes chifres, estava estendida com a cabeça atada para traz, com erva munja; um sacerdote apoiou a faca no seu pescoço esticado, murmurando: "Eis aqui, ó deuses terríveis, o princípio dos numerosos Yajnas, oferecidos por Bimbisara; regozijai-vos vendo correr o sangue e gozai com a fumaça da carne tostada nas chamas ardentes; fazei com que os pecados do Rei sejam transferidos a esta cabra e que o fogo os consuma ao queimá-la; vou dar o golpe fatal!"

Porém, Buda disse docemente: "Não o deixeis ferir, grande Rei!" E, ao mesmo tempo, desatou os lagos da vítima, sem que ninguém o detivesse, tão imponente era seu aspecto.

Então, depois de haver pedido permissão, falou da vida que todos podem tirar, mas ninguém pode dar; da vida que todas as criaturas amam e pela qual lutam; a vida, esse dom maravilhoso, caro e agradável a todos, mesmo para os mais humildes; sim, um dom precioso para todas as criaturas que sentem piedade, porque a piedade faz o homem doce para com os débeis e nobres para com os fortes. Emprestou às mudas bocas do seu rebanho palavras enternecedoras para defender sua causa; demonstrou que o homem que implora a clemência dos deuses não tem misericórdia, ele que é como um deus para os animais; fez ver que tudo o que tem vida está unido por um laço de parentesco, e que os animais que matamos nos deram o doce tributo do seu leite e de sua lã, e depositaram confiança nas mãos dos que os degolam. Falou também do que os livros sagrados ensinam, de uma maneira certa, isto é: depois da morte, alguns de nós se tornam pássaros e amimais e estes se tornam homens, transformando-se a chispa viajante em fogo purificado. Por esse motivo, o sacrifício seria um novo pecado, se fosse detida a transmigração, à qual está destinada a alma.

Ninguém – ajuntou – pode purificar com sangue seu espírito; se os deuses são bons, não podem comprazer-se com o sangue derramado; e se são maus, não podem lançar sobre a cabeça de um animal amarrado o peso de um cabelo, dos pecados e erros, pelos quais se deve responder pessoalmente. Cada um deve dar conta de si próprio, segundo esta aritmética invariável do universo, que distribui o bem ao bom e o mal ao mau, dando a cada um sua medida segundo seus atos, suas palavras e seus pensamentos; esta lei exata, implacável e imutável vigia eternamente e faz com que todos os futuros sejam frutos dos passados. Falou assim com palavras tão misericordiosas e com tal dignidade, inspirado pela compaixão e a justiça, – que os sacerdotes se despojaram dos seus ornamentos e lavaram suas mãos vermelhas de sangue, e o Rei, aproximando-se, o saudou com as mãos juntas.

Entretanto, Nosso Senhor continuou ensinando quão feliz seria a terra se todos os seres estivessem unidos pelos laços da benevolência e não se alimentassem senão de coisas puras, sem derramamento de sangue; os grãos dourados, os frutos brilhantes, as ervas saborosas que brotam para todos, as pacificas águas, bastariam para alimentar e saciar todo o mundo. Tanto convenceu aos sacerdotes o poder das suas nobres palavras que eles próprios derribaram seus altares inflamados e lançaram longe a faca do sacrifício.

No dia seguinte, foi proclamado um decreto pelos arautos, em todo o reino, que foi gravado sobre as rochas e colunas, nos seguintes termos: "Eis aqui a vontade do Rei: Até agora se tem dado a morte a animais para oferecê-los em sacrifício e para a alimentação; porém, a partir de hoje, ninguém derramará o sangue de um ser vivo, nem comerá sua carne, porque já sabemos que a vida é única e que a misericórdia está reservada para Os misericordiosos”.

 

Tal foi o edito Promulgado, e desde aquela época uma doce paz reinou sobre todas as criaturas: o homem, os animais e os pássaros, sobre aquelas praias do Ganges, onde nosso Senhor pregou a paz com doce linguagem e santa piedade.

– A Luz da Ásia – Vida e doutrina de Gautama, fundador do Budismo, de Edwin Arnold, p. 116-119.

 

Please follow and like us: