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O big negócio da comida. A ‘macdonaldização’ da comida

O supermercado tem muita coisa para comprar. Mas pouca coisa para comer… E não estamos falando dos produtos da seção de limpeza ou de cosméticos. Trata-se do que está dentro de embalagens caras e sedutoras, que sugerem alimentos "frescos", "vindos direto da fazenda", "sustentáveis" ou "saudáveis". Um disfarce pretensamente pastoril, a mascarar uma realidade nada bucólica: as engrenagens cruéis e antiéticas de grandes conglomerados empresariais.

A reportagem é de Raquel Ribeiro e publicada pela Adital, 16-09-2010.

A despeito do poder e da grana envolvida, muito deste drama tem sido paulatinamente discutido por uma série de audazes ativistas, escritores, cineastas e jornalistas. Estratégias, segredos e mentiras da multimilionária indústria alimentar são revelados em Food,Inc, concorrente ao Oscar de melhor documentário. Dirigido por Robert Kenner e narrado por Michael Pollan e Eric Schlosser -autores de O Dilema do Onívoro e País Fast Food, respectivamente-, o filme mostra que "um véu é deliberadamente colocado e mantido, pela indústria alimentar, entre nós e a fonte de nossa comida". O roteiro se prende exclusivamente ao que acontece nos Estados Unidos, mas a realidade brasileira (e global) é praticamente e mesma: as terras e a produção agrícola se concentram nas mãos de poucos, a imprensa é expulsa de granjas e abatedouros, multinacionais dominam o processamento e a venda dos alimentos. E o governo tem as mãos igualmente atadas – ou no Brasil não é relevante a bancada ruralista e o lobby da agroindústria, assim como a defesa dos transgenicos e de interesses de empresas como Cargill, Monsanto e Friboi?

Pois bem, vamos aos fatos. O filme aponta que:

– Em 40 anos o modo de produção de alimentos mudou mais do que em 2000 anos de história.

– No inicio do século, um agricultor produzia o suficiente para alimentar de 6 a 8 indivíduos. Hoje, um único trabalhador rural gera "comida" para até 126 pessoas.

– O MacDonalds é o maior comprador de carne bovina dos EUA. E um dos maiores compradores de carne de frango e de porco, batatas, tomates e até maçãs…

– Herdeiro do fast food, esse sistema alimentar industrial tem por objetivo produzir de forma rápida, barata e em grande escala. Cada trabalhador é treinado a exercer uma única tarefa (como descascar batatas ou separar a coxa da sobrecoxa). Isso permite pagar pouquíssimo e substituir a mão de obra com facilidade.

– A industria alimentar é movida apenas pelo lucro. Danem-se custos ambientais e sociais, os danos à saúde pública e os direitos dos trabalhadores e dos animais.

– Nos EUA, um pequeno grupo de grandes corporações controla quase toda a comida que circula no mundo, da semente até o supermercado. Hoje, quatro corporações controlam 80% do mercado de alimentos.

– Uma única fazendeira autorizou a entrada de Robert Kenner em sua granja. As câmeras mostraram frangos morrendo antes e durante o transporte. Conseqüência, segundo ela, da engorda rápida promovida por antibióticos colocados nas rações. A coragem da fazendeira teve um alto preço: a Pardue encerrou o contrato que tinha com ela.

– Naturalmente, o gado vive solto no pasto, comendo capim e engordando de forma gradual. Porém, o milho e a soja são subsidiados pelo governo norte-americano, alcançando preços tão ínfimos que são irresistíveis ao criador de gado. Os animais foram confinados e obrigados a se alimentar basicamente desses grãos, passando a engordar muito mais depressa. Com o tempo, sobrecarregados pelo esforço imenso para digerir o milho (sem uma moela como a das aves), os estômagos dos bovinos desenvolveram uma cepa potencialmente letal da bactéria Escherichia Coli. Quando se constatou que a superbactéria ameaçava contaminar toda a carne bovina dos EUA, em vez de mudar a dieta do gado, a indústria encontrou uma solução química: lavar toneladas de carne com milhões de litros de cloro e amoníaco.

Boa parte do que comemos hoje é geneticamente modificado (quando não é transgênico ou clonado), traz resquícios de antibióticos, pesticidas e outros venenos. E esse alimento – em especial as carnes – tem maior risco de impregnação por bactérias muitas vezes fatais. A indústria alimentícia está nos matando. O curioso é que a palavra vegetarianismo não é mencionada uma única vez nesse documentário. Nem a mãe de um menino que morreu após comer um hambúrguer de carne contaminada por E. coli pôde contar, publicamente, o que mudou na sua dieta após a desgraça. O motivo? Nos EUA dá processo! Caso da apresentadora de TV Oprah Winfrey que afirmou no ar, na época da doença da vaca louca, que nunca mais colocaria um hambúrguer na boca. Influente, corajosa e rica, respondeu ao processo e ganhou a causa, mas teve que gastar mais de um milhão de dólares com os custos judiciais do processo. E quem não tem esse poder e essa fortuna, o que fazer diante de um cenário onde aparentemente somos reféns? Seja um consumidor consciente! Somos nós que estamos no final dessa cadeia, bancando todo o processo (com ajuda dos incentivos governamentais, claro). FOOD, Inc. nos lembra de como a indústria do tabaco entrou em declínio por conta da pressão dos consumidores. Na hora das compras, devemos escolher o que é produzido localmente, vegetais e frutas da época e alimentos orgânicos. Consumir é uma forma contundente de votar. Literalmente, todos nós votamos, no mínimo três vezes por dia. E nosso voto pode ser contra ou a favor dessa indústria maligna, dependendo do que escolhemos consumir.

Falta agora um documentário que exponha as perigosas relações entre a indústria alimentícia e a farmacêutica…

Contra-ataque

Uma reportagem de Christine Kearney, da Agência Reuters, diz que após o lançamento de FOOD, Inc, associações comerciais representativas da indústria de carne nos EUA, que movimenta 142 bilhões de dólares por ano, se uniram para refutar as alegações feitas no filme. Lideradas pelo Instituto Americano da Carne, criaram sites, incluindo o Alimentos Seguros.com. "A campanha delas afirma que os alimentos norte-americanos são seguros, abundantes e de preços acessíveis".

Para saber mais:

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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