O absurdo da agricultura moderna

Adaptado de artigo de José A. Lutzenberger

Destaques:
    – A agricultura hoje está nas mãos das grandes empresas.
    – A agricultura atual produz *menor volume e menor variedade* de  alimentos por hectare.
    – Essa agricultura desperdiça energia, esgota o solo, destrói culturas tradicionais, prejudica a saúde, põe as sociedades civis em risco e retarda o desenvolvimento dos países causando dependência.

Adaptado do artigo de José A. Lutzenberger.

O longo artigo original foi publicado no livro "The Meat Business – devouring a Hungry Planet" (O Comércio da Carne – Devorando um Planeta Faminto), editado por Geoff Tansey e Joyce D'Silva em Londres (Earthscan Publications Ltd) em 1999. Além desse livro o artigo já foi publicado em vários outros lugares.

Lutzenberger é um ambientalista gaúcho, conhecido e respeitado mundialmente por suas lutas conservacionistas, as quais começou no início da década de 70. Ultimamente, tem concentrado seus esforços na defesa de um desenvolvimento sustentável, principalmente na agricultura e no uso dos recursos não renováveis, procurando alertar sobre os perigos que a
globalização, nas suas atuais tendências, representa para a humanidade a nível ecológico e social. E-mail: fundgaia@zaz.com.br ]

Atualmente, as grandes empresas estão controlando a maior parte da produção agrícola através da biotecnologia. Esse é um processo que vem se desenvolvendo nos últimos 75 anos.

A agricultura foi inventada entre 10 e 15 mil anos atrás, e nos últimos 2 ou 3 mil anos surgiram algumas culturas diversificadas e sustentáveis adaptadas para o local, principalmente na Europa, Ásia, México, América Central, Andes, e em algumas regiões na África.

Muitas dessas culturas ainda estavam intactas até o final da Segunda Guerra Mundial. As poucas remanescentes estão agora sendo desestruturadas para dar lugar às monoculturas que esgotam o solo e os recursos naturais.

A indústria tem conseguido gradativamente tirar das mãos dos agricultores as atividades de retorno garantido e lucrativo, deixando para eles apenas as atividades de risco:  má colheita devido a mau tempo e a dependência de insumos agrícolas que devem ser adquiridos dessas empresas.

A proposta dos métodos da agricultura moderna é que eles seriam a maneira mais eficiente de resolver o problema do abastecimento mundial tendo em vista a explosão populacional. Mas isto é uma ilusão. Os métodos agrícolas tradicionais poderiam ser aperfeiçoados com o conhecimento científico atual.

O problema fundamental da agricultura moderna é que ela não é sustentável. Mesmo se fosse tão produtiva quanto se alega que é, o desastre está sendo apenas adiado.

O progresso não precisa ser direcionado para monoculturas gigantescas, altamente mecanizadas e com toda a parafernália dos fertilizantes comerciais e venenos sintéticos, e a produção agrícola sendo transportada pelo mundo todo à custa de combustíveis fósseis.

A grande monocultura foi uma invenção do colonialismo. Os poderes coloniais não podiam extrair muito do campesinato tradicional com suas safras altamente diversificadas, para a subsistência e direcionadas para os mercados regionais locais.

As potências colonizadoras queriam grandes quantidades de algodão, açúcar, café, chá, cacau e outros. Isto resultou na marginalização de milhões de pessoas e também no tráfico de escravos da África para as Américas, uma das maiores calamidades da história humana.

Com poucas exceções, os camponeses tradicionais desenvolveram métodos sustentáveis. Os agricultores chineses, por exemplo, por três mil anos obtiveram alta produtividade dos seus solos sem comprometer a fertilidade. Ao contrário, eles desenvolveram e mantiveram uma fertilidade máxima do solo.

Os agricultores orgânicos modernos estão aprendendo a se tornar cada vez mais sustentáveis, com colheitas ótimas e métodos localmente adaptados, enquanto recuperam e mantém a biodiversidade nos seus cultivares e a paisagem circundante.

A agricultura moderna tem se desligado da lógica dos sistemas vivos naturais. Todos os ecossistemas naturais partem de um solo estéril como o da encosta de um vulcão e evoluem até que um clímax de atividade biológica máxima e sustentável seja atingido.

Os sistemas de agricultura moderna fazem exatamente o oposto, ao impor a agroquímica e a agressão mecânica ao solo, degradam o meio ambiente e empobrecem a biodiversidade.

A agricultura moderna obtém sucesso exaurindo o solo e substituindo a fertilidade perdida por nutrientes que vêm de fora. Fertilizantes comerciais, tais como fosfatos provêm de minas que estarão brevemente esgotadas.

O nitrogênio, o mais importante elemento na produtividade da agricultura moderna, embora venha da atmosfera e acabe voltando para ela, é obtido pela síntese de amoníaco Haber-Bosch, um processo que consome enorme quantidade de energia, principalmente energia de combustíveis fósseis.

Mesmo quando é energia de hidroelétricas, essa eletricidade poderia estar economizando combustíveis fósseis em outro lugar. Todos os outros insumos, tais como os agrotóxicos e a cada vez mais pesada maquinaria, são também grandes consumidores de energia.

A agricultura orgânica é um esquema para colher energia solar via fotossíntese. Enquanto todas as formas de agricultura tradicional têm um balanço de energia positivo, na agricultura moderna o balanço é negativo.

Quase todas as suas operações ditas de alta produtividade requerem mais energia fóssil nos insumos do que está contido em seu produto. É como explorar um poço de petróleo com uma máquina que consome mais combustível do que ela extrai do poço.

Um outro argumento comum a favor da agricultura moderna é que ela é tão eficiente que apenas 2% da população poderiam alimentar todo o resto.

Até a virada do século, na maioria dos países, quase 60% da população trabalhava no campo. No final da última Guerra Mundial ainda era quase 40%. Atualmente, nos países desenvolvidos, o percentual tende a menos de 2% da população.

Quando se afirma que nas economias modernas somente 2% das pessoas podem alimentar a população total, em comparação a 60 ou 40% no passado, isto é uma ilusão baseada em uma falsa comparação.

Na economia como um todo, o antigo campesinato era um sistema de produção, manipulação e distribuição de alimento que também produzia seus próprios insumos. A fertilidade do solo era mantida com esterco, rotação de cultivos, plantas companheiras, adubação verde, composto, cobertura morta e descanso da terra; as sementes eram selecionadas do melhor de cada safra; animais de carga e tração supriam a energia; os moinhos usavam vento ou água como fonte de energia limpa.

O processamento era mínimo e era feito na propriedade ou na aldeia, cujos artesãos também contavam como população rural. O mesmo se aplicava aos utensílios, arados, enxadas, carretas, etc… A maior parte da produção agrícola era entregue quase nas mãos do consumidor na feira semanal. Segunda, terça, quarta-feira, …

Hoje em dia, o agricultor moderno tende a ser apenas uma pequena engrenagem em uma enorme infraestrutura tecnoburocrática que requer até mesmo legislação especial e pesados subsídios. Comparado com seus ancestrais que faziam quase tudo que estava relacionado
com a produção, processamento e distribuição de alimentos, o agricultor moderno não faz muito mais do que passar o trator e espalhar veneno.

Após a Segunda Guerra, quando a Alemanha estava totalmente devastada, os habitantes das cidades puderam se espalhar pelo campo e fazer a troca de qualquer coisa de valor, um relógio, um anel, um piano, por alimento. Os camponeses tinham comida, tinham cereais, feijão, batata, verduras, frutas, leite, queijo, animais e muito mais.

Atualmente, um colapso na energia, no transporte, especialmente na importação de fertilizantes minerais e ração para gado, no sistema bancário e mesmo nas redes de computadores e comunicações, seriam suficientes para provocar uma escassez de alimentos. É digno de nota que os militares não pareçam estar preocupados. A segurança nacional depende de uma agricultura sadia e sustentável.

O sistema atual de produção e distribuição de alimentos (incluindo fibras e alguns outros itens não comestíveis) começa nos campos de petróleo e todos os tipos de minas para metais e outras matérias-primas, passa pelas refinarias, siderurgias e plantas de alumínio, etc.

Passa pela indústria química, a indústria de maquinária, o sistema bancário, o sistema de transporte (consumindo principalmente combustíveis fósseis), computadores, supermercados, indústria de embalagens e um novo complexo de indústrias que não existiam no passado – a indústria de manipulação de alimentos que, infelizmente faz a desnaturação e a contaminação de alimentos com aditivos artificiais não nutritivos.

Se quisermos comparar o agricultor de hoje com o tradicional, então todas as horas de trabalho nas indústrias acima mencionados e em algumas outras, assim como alguns serviços, tal como as empresas de lanches rápidos e distribuição de alimentos, onde elas direta ou indiretamente contribuem para a produção, manipulação e distribuição de alimentos, precisam ser adicionados.

Isto tudo deveria até mesmo incluir as horas de trabalho que correspondem ao dinheiro que, em outras profissões, precisa ser ganho para pagar os impostos que financiam os subsídios. É ignificativo que a maior parte dos subsídios vai, não para o agricultor, mas para o complexo industrial.

Um balanço completo deste tipo certamente mostraria que numa economia moderna, em torno de 40 ou mais por cento de todas as horas de trabalho vão para a produção, manipulação e distribuição da comida. Mas os economistas convencionais de hoje, aqueles que nossos governantes escutam, colocam as fábricas de tratores e colheitadeiras com a indústria de maquinária, as fábricas de fertilizantes químicos e agrotóxicos com a indústria química e assim por diante, como se não tivessem nada a ver com alimentos.

O que temos, então, com umas poucas exceções, é redistribuição de tarefas e certas formas de concentração de poder nas grandes corporações, e não mais eficiência na agricultura.

A AGRICULTURA MODERNA ESGOTA OS RECURSOS NATURAIS

Destaques:
– A agricultura de hoje produz menos do que a tradicional:  3 ton/hectare
versus 15 ton/hectare de antigamente.

Quase sempre o moderno sistema de produção e distribuição de alimentos, além de não ser mais produtivo em termos de eficiência de mão de obra, tampouco é mais eficaz em termos de produtividade por hectare. Em muitos casos, tais como na criação intensiva de animais, ele é mesmo destrutivo, consumindo mais alimento do que produz.

No sul do Brasil, durante a última metade do século XX a grande floresta subtropical do Vale do Uruguai foi completamente arrasada, deixando apenas algumas pequenas relíquias. A floresta foi derrubada e queimada com a quase total destruição da madeira, para abrir espaço para a monocultura de soja.

Isto não foi feito para aliviar o problema da fome nas regiões pobres do Brasil, mas para enriquecer uma minoria com a exportação para o Mercado Comum Europeu para alimentar gado. As plantações de soja estão entre as mais modernas – grandes, altamente mecanizadas e com os habituais insumos químicos.

Essas plantações brasileiras não são, de maneira alguma, atrasadas quando comparadas ao mesmo tipo de plantação nos USA. No nosso clima subtropical o agricultor tem a vantagem suplementar de poder plantar trigo, cevada, centeio ou aveia, mas também de fazer feno e silagem no inverno sobre o mesmo solo, mas poucas vezes o faz.

Comparado ao que os nossos colonos faziam em solos similares, a produtividade é baixa, raramente mais do que três toneladas de grãos (total, verão e inverno) por hectare. O camponês, que produzia para alimentar a população local, facilmente produzia 15 toneladas de comida por hectare, diversificando com mandioca, batata-doce, batata inglesa, cana-de-açúcar e grãos, mais verduras, uva e todos os tipos de frutas, feno e silagem para o
gado, além de porcos e galinhas.

Mas esses camponeses não produziam PIB (produto interno bruto). O PIB só reflete fluxo de capital e não leva em conta autosuficiência e comércio local. A conta do PIB interessa ao banqueiro, o governo e as grandes corporações transnacionais, mas nada tem a ver com o bem estar das pessoas e da população.

Quando estatísticas das Nações Unidas declaram que quase a metade da população mundial vive com menos de dois dólares por dia, isso leva a falsas conclusões. Ninguém viveria com dois dólares por dia se tivesse que comprar sua comida, roupa, utensílios no supermercado ou Shopping Center. No período áureo de nossa colonia no Rio Grande do Sul, anos trinta, o colono podia não ter um tostão no bolso, mas sempre tinha mesa farta e viviam bem.

Apesar desta realidade, a política agrícola oficial tem sempre apoiado os grandes às custas dos camponeses. Centenas de milhares deles tiveram que desistir e partir para as cidades, freqüentemente para as favelas, ou mais para o norte em direção à floresta Amazônica.

Uma devastação tremenda foi feita com dinheiro do Banco Mundial no estado de Rondônia, e os pequenos agricultores que lá foram assentados, não sabendo como cultivar nos trópicos e sem apoio, em geral fracassam, deixando para trás devastação, enquanto novas áreas da floresta são desmatadas.

No Brasil central, o cerrado, o equivalente sul americano da savana africana, está hoje sendo quase totalmente destruído para dar lugar a mais plantações de soja, uma das quais cobrindo centenas de milhares de hectares contíguos. Em biodiversidade, o cerrado é tão ou mais rico quanto a floresta tropical.

Alguns argumentam que os índios camponeses em Chiapas, México, são atrasados porque produzem somente 2 toneladas de milho por hectare comparado com 6 nas plantações mexicanas modernas.

Isso é somente parte do quadro pois as plantações modernas produzem seis toneladas de milho por hectare e é só. Os índios produzem uma colheita mista, entre seus pés de milho, que também servem para suporte de variedades de feijão que são trepadeiras. Eles plantam legumes, abóbora, morangas, batata doce, batata inglesa,tomate e todo tipo de vegetais, frutas e ervas medicinais.

A partir do mesmo hectare eles também alimentam seu gado e galinhas. Eles facilmente atingem 15 toneladas de alimento por hectare sem fertilizantes comerciais ou pesticidas e sem assistência dos bancos, governos ou corporações transnacionais.

A marginalização desses camponeses é um dos maiores desastres dos tempos modernos. Ao chegar nas favelas das cidades, eles terão que comprar comida cultivada em monoculturas que são menos produtivas do que eram eles. No final das contas acaba existindo menos comida e mais pessoas para alimentar. Existe excesso em alguns lugares e falta em outros.

Freqüentemente a terra é então usada pelos criadores de gado que raramente produzem mais do que 50 quilos de carne/hectare/ano. Centenas de histórias similares poderiam ser contadas. No caso de Chiapas, cada vale tinha sua língua e cultura diferentes. Quando a terra perde seus camponeses, temos a morte de uma cultura.

 

Please follow and like us:

O absurdo da agricultura moderna

Adaptado de artigo de José A. Lutzenberger

Destaques:

  • A agricultura hoje está nas mãos das grandes empresas.    
  • A agricultura atual produz *menor volume e menor variedade* de  alimentos por hectare.    
  • Essa agricultura desperdiça energia, esgota o solo, destrói culturas tradicionais, prejudica a saúde, põe as sociedades civis em risco e retarda o desenvolvimento dos países causando dependência.

O longo artigo original foi publicado no livro "The Meat Business – devouring a Hungry Planet" (O Comércio da Carne – Devorando um Planeta Faminto), editado por Geoff Tansey e Joyce D'Silva em Londres (Earthscan Publications Ltd) em 1999. Além desse livro o artigo já foi publicado em vários outros lugares.

Lutzenberger é um ambientalista gaúcho, conhecido e respeitado mundialmente por suas lutas conservacionistas, as quais começou no início da década de 70. Ultimamente, tem concentrado seus esforços na defesa de um desenvolvimento sustentável, principalmente na agricultura e no uso dos recursos não renováveis, procurando alertar sobre os perigos que a
globalização, nas suas atuais tendências, representa para a humanidade a nível ecológico e social. E-mail: fundgaia@zaz.com.br ]

Atualmente, as grandes empresas estão controlando a maior parte da produção agrícola através da biotecnologia. Esse é um processo que vem se desenvolvendo nos últimos 75 anos.

A agricultura foi inventada entre 10 e 15 mil anos atrás, e nos últimos 2 ou 3 mil anos surgiram algumas culturas diversificadas e sustentáveis adaptadas para o local, principalmente na Europa, Ásia, México, América Central, Andes, e em algumas regiões na África.

Muitas dessas culturas ainda estavam intactas até o final da Segunda Guerra Mundial. As poucas remanescentes estão agora sendo desestruturadas para dar lugar às monoculturas que esgotam o solo e os recursos naturais.

A indústria tem conseguido gradativamente tirar das mãos dos agricultores as atividades de retorno garantido e lucrativo, deixando para eles apenas as atividades de risco:  má colheita devido a mau tempo e a dependência de insumos agrícolas que devem ser adquiridos dessas empresas.

A proposta dos métodos da agricultura moderna é que eles seriam a maneira mais eficiente de resolver o problema do abastecimento mundial tendo em vista a explosão populacional. Mas isto é uma ilusão. Os métodos agrícolas tradicionais poderiam ser aperfeiçoados com o conhecimento científico atual.

O problema fundamental da agricultura moderna é que ela não é sustentável. Mesmo se fosse tão produtiva quanto se alega que é, o desastre está sendo apenas adiado.

O progresso não precisa ser direcionado para monoculturas gigantescas, altamente mecanizadas e com toda a parafernália dos fertilizantes comerciais e venenos sintéticos, e a produção agrícola sendo transportada pelo mundo todo à custa de combustíveis fósseis.

A grande monocultura foi uma invenção do colonialismo. Os poderes coloniais não podiam extrair muito do campesinato tradicional com suas safras altamente diversificadas, para a subsistência e direcionadas para os mercados regionais locais.

As potências colonizadoras queriam grandes quantidades de algodão, açúcar, café, chá, cacau e outros. Isto resultou na marginalização de milhões de pessoas e também no tráfico de escravos da África para as Américas, uma das maiores calamidades da história humana.

Com poucas exceções, os camponeses tradicionais desenvolveram métodos sustentáveis. Os agricultores chineses, por exemplo, por três mil anos obtiveram alta produtividade dos seus solos sem comprometer a fertilidade. Ao contrário, eles desenvolveram e mantiveram uma fertilidade máxima do solo.

Os agricultores orgânicos modernos estão aprendendo a se tornar cada vez mais sustentáveis, com colheitas ótimas e métodos localmente adaptados, enquanto recuperam e mantém a biodiversidade nos seus cultivares e a paisagem circundante.

A agricultura moderna tem se desligado da lógica dos sistemas vivos naturais. Todos os ecossistemas naturais partem de um solo estéril como o da encosta de um vulcão e evoluem até que um clímax de atividade biológica máxima e sustentável seja atingido.

Os sistemas de agricultura moderna fazem exatamente o oposto, ao impor a agroquímica e a agressão mecânica ao solo, degradam o meio ambiente e empobrecem a biodiversidade.

A agricultura moderna obtém sucesso exaurindo o solo e substituindo a fertilidade perdida por nutrientes que vêm de fora. Fertilizantes comerciais, tais como fosfatos provêm de minas que estarão brevemente esgotadas.

O nitrogênio, o mais importante elemento na produtividade da agricultura moderna, embora venha da atmosfera e acabe voltando para ela, é obtido pela síntese de amoníaco Haber-Bosch, um processo que consome enorme quantidade de energia, principalmente energia de combustíveis fósseis.

Mesmo quando é energia de hidroelétricas, essa eletricidade poderia estar economizando combustíveis fósseis em outro lugar. Todos os outros insumos, tais como os agrotóxicos e a cada vez mais pesada maquinaria, são também grandes consumidores de energia.

A agricultura orgânica é um esquema para colher energia solar via fotossíntese. Enquanto todas as formas de agricultura tradicional têm um balanço de energia positivo, na agricultura moderna o balanço é negativo.

Quase todas as suas operações ditas de alta produtividade requerem mais energia fóssil nos insumos do que está contido em seu produto. É como explorar um poço de petróleo com uma máquina que consome mais combustível do que ela extrai do poço.

Um outro argumento comum a favor da agricultura moderna é que ela é tão eficiente que apenas 2% da população poderiam alimentar todo o resto.

Até a virada do século, na maioria dos países, quase 60% da população trabalhava no campo. No final da última Guerra Mundial ainda era quase 40%. Atualmente, nos países desenvolvidos, o percentual tende a menos de 2% da população.

Quando se afirma que nas economias modernas somente 2% das pessoas podem alimentar a população total, em comparação a 60 ou 40% no passado, isto é uma ilusão baseada em uma falsa comparação.

Na economia como um todo, o antigo campesinato era um sistema de produção, manipulação e distribuição de alimento que também produzia seus próprios insumos. A fertilidade do solo era mantida com esterco, rotação de cultivos, plantas companheiras, adubação verde, composto, cobertura morta e descanso da terra; as sementes eram selecionadas do melhor de cada safra; animais de carga e tração supriam a energia; os moinhos usavam vento ou água como fonte de energia limpa.

O processamento era mínimo e era feito na propriedade ou na aldeia, cujos artesãos também contavam como população rural. O mesmo se aplicava aos utensílios, arados, enxadas, carretas, etc… A maior parte da produção agrícola era entregue quase nas mãos do consumidor na feira semanal. Segunda, terça, quarta-feira, …

Hoje em dia, o agricultor moderno tende a ser apenas uma pequena engrenagem em uma enorme infraestrutura tecnoburocrática que requer até mesmo legislação especial e pesados subsídios. Comparado com seus ancestrais que faziam quase tudo que estava relacionado
com a produção, processamento e distribuição de alimentos, o agricultor moderno não faz muito mais do que passar o trator e espalhar veneno.

Após a Segunda Guerra, quando a Alemanha estava totalmente devastada, os habitantes das cidades puderam se espalhar pelo campo e fazer a troca de qualquer coisa de valor, um relógio, um anel, um piano, por alimento. Os camponeses tinham comida, tinham cereais, feijão, batata, verduras, frutas, leite, queijo, animais e muito mais.

Atualmente, um colapso na energia, no transporte, especialmente na importação de fertilizantes minerais e ração para gado, no sistema bancário e mesmo nas redes de computadores e comunicações, seriam suficientes para provocar uma escassez de alimentos. É digno de nota que os militares não pareçam estar preocupados. A segurança nacional depende de uma agricultura sadia e sustentável.

O sistema atual de produção e distribuição de alimentos (incluindo fibras e alguns outros itens não comestíveis) começa nos campos de petróleo e todos os tipos de minas para metais e outras matérias-primas, passa pelas refinarias, siderurgias e plantas de alumínio, etc.

Passa pela indústria química, a indústria de maquinária, o sistema bancário, o sistema de transporte (consumindo principalmente combustíveis fósseis), computadores, supermercados, indústria de embalagens e um novo complexo de indústrias que não existiam no passado – a indústria de manipulação de alimentos que, infelizmente faz a desnaturação e a contaminação de alimentos com aditivos artificiais não nutritivos.

Se quisermos comparar o agricultor de hoje com o tradicional, então todas as horas de trabalho nas indústrias acima mencionados e em algumas outras, assim como alguns serviços, tal como as empresas de lanches rápidos e distribuição de alimentos, onde elas direta ou indiretamente contribuem para a produção, manipulação e distribuição de alimentos, precisam ser adicionados.

Isto tudo deveria até mesmo incluir as horas de trabalho que correspondem ao dinheiro que, em outras profissões, precisa ser ganho para pagar os impostos que financiam os subsídios. É ignificativo que a maior parte dos subsídios vai, não para o agricultor, mas para o complexo industrial.

Um balanço completo deste tipo certamente mostraria que numa economia moderna, em torno de 40 ou mais por cento de todas as horas de trabalho vão para a produção, manipulação e distribuição da comida. Mas os economistas convencionais de hoje, aqueles que nossos governantes escutam, colocam as fábricas de tratores e colheitadeiras com a indústria de maquinária, as fábricas de fertilizantes químicos e agrotóxicos com a indústria química e assim por diante, como se não tivessem nada a ver com alimentos.

O que temos, então, com umas poucas exceções, é redistribuição de tarefas e certas formas de concentração de poder nas grandes corporações, e não mais eficiência na agricultura.

A AGRICULTURA MODERNA ESGOTA OS RECURSOS NATURAIS

Destaques:

  • A agricultura de hoje produz menos do que a tradicional:  3 ton/hectare versus 15 ton/hectare de antigamente.

Quase sempre o moderno sistema de produção e distribuição de alimentos, além de não ser mais produtivo em termos de eficiência de mão de obra, tampouco é mais eficaz em termos de produtividade por hectare. Em muitos casos, tais como na criação intensiva de animais, ele é mesmo destrutivo, consumindo mais alimento do que produz.

No sul do Brasil, durante a última metade do século XX a grande floresta subtropical do Vale do Uruguai foi completamente arrasada, deixando apenas algumas pequenas relíquias. A floresta foi derrubada e queimada com a quase total destruição da madeira, para abrir espaço para a monocultura de soja.

Isto não foi feito para aliviar o problema da fome nas regiões pobres do Brasil, mas para enriquecer uma minoria com a exportação para o Mercado Comum Europeu para alimentar gado. As plantações de soja estão entre as mais modernas – grandes, altamente mecanizadas e com os habituais insumos químicos.

Essas plantações brasileiras não são, de maneira alguma, atrasadas quando comparadas ao mesmo tipo de plantação nos USA. No nosso clima subtropical o agricultor tem a vantagem suplementar de poder plantar trigo, cevada, centeio ou aveia, mas também de fazer feno e silagem no inverno sobre o mesmo solo, mas poucas vezes o faz.

Comparado ao que os nossos colonos faziam em solos similares, a produtividade é baixa, raramente mais do que três toneladas de grãos (total, verão e inverno) por hectare. O camponês, que produzia para alimentar a população local, facilmente produzia 15 toneladas de comida por hectare, diversificando com mandioca, batata-doce, batata inglesa, cana-de-açúcar e grãos, mais verduras, uva e todos os tipos de frutas, feno e silagem para o
gado, além de porcos e galinhas.

Mas esses camponeses não produziam PIB (produto interno bruto). O PIB só reflete fluxo de capital e não leva em conta autosuficiência e comércio local. A conta do PIB interessa ao banqueiro, o governo e as grandes corporações transnacionais, mas nada tem a ver com o bem estar das pessoas e da população.

Quando estatísticas das Nações Unidas declaram que quase a metade da população mundial vive com menos de dois dólares por dia, isso leva a falsas conclusões. Ninguém viveria com dois dólares por dia se tivesse que comprar sua comida, roupa, utensílios no supermercado ou Shopping Center. No período áureo de nossa colonia no Rio Grande do Sul, anos trinta, o colono podia não ter um tostão no bolso, mas sempre tinha mesa farta e viviam bem.

Apesar desta realidade, a política agrícola oficial tem sempre apoiado os grandes às custas dos camponeses. Centenas de milhares deles tiveram que desistir e partir para as cidades, freqüentemente para as favelas, ou mais para o norte em direção à floresta Amazônica.

Uma devastação tremenda foi feita com dinheiro do Banco Mundial no estado de Rondônia, e os pequenos agricultores que lá foram assentados, não sabendo como cultivar nos trópicos e sem apoio, em geral fracassam, deixando para trás devastação, enquanto novas áreas da floresta são desmatadas.

No Brasil central, o cerrado, o equivalente sul americano da savana africana, está hoje sendo quase totalmente destruído para dar lugar a mais plantações de soja, uma das quais cobrindo centenas de milhares de hectares contíguos. Em biodiversidade, o cerrado é tão ou mais rico quanto a floresta tropical.

Alguns argumentam que os índios camponeses em Chiapas, México, são atrasados porque produzem somente 2 toneladas de milho por hectare comparado com 6 nas plantações mexicanas modernas.

Isso é somente parte do quadro pois as plantações modernas produzem seis toneladas de milho por hectare e é só. Os índios produzem uma colheita mista, entre seus pés de milho, que também servem para suporte de variedades de feijão que são trepadeiras. Eles plantam legumes, abóbora, morangas,batata doce, batata inglesa,tomate e todo tipo de vegetais, frutas e ervas medicinais.

A partir do mesmo hectare eles também alimentam seu gado e galinhas. Eles facilmente atingem 15 toneladas de alimento por hectare sem fertilizantes comerciais ou pesticidas e sem assistência dos bancos, governos ou corporações transnacionais.

A marginalização desses camponeses é um dos maiores desastres dos tempos modernos. Ao chegar nas favelas das cidades, eles terão que comprar comida cultivada em monoculturas que são menos produtivas do que eram eles. No final das contas acaba existindo menos comida e mais pessoas para alimentar. Existe excesso em alguns lugares e falta em outros.

Freqüentemente a terra é então usada pelos criadores de gado que raramente produzem mais do que 50 quilos de carne/hectare/ano. Centenas de histórias similares poderiam ser contadas. No caso de Chiapas, cada vale tinha sua língua e cultura diferentes. Quando a terra perde seus camponeses, temos a morte de uma cultura.

Please follow and like us:

Deixe uma resposta

WP Facebook Auto Publish Powered By : XYZScripts.com