Nosso futuro roubado

Passei por alguns momentos intensos em palestras nas universidades de Brasília e Goiânia. Estou calmamente sentado lendo um jornal quando uma mulher vem, com curiosidade, bater um papo com aquele “gringo”. Ao longo da conversa, mostro a ela o primeiro livro sobre soja. Quando vamos embarcar, ela não quer devolver o livro imediatamente. “Eu vou ler o livro no avião”, diz ela. Com uma mistura de satisfação e nervosismo, eu aguardo. Ela é de uma indústria de produtos químicos de Cuiabá! O nosso breve encontro na sala de espera provocou um debate acirrado entre os demais passageiros: defensores e opositores da maré de soja no Mato Grosso. 

Nosso futuro roubado 

Ao chegar em Cuiabá, a mulher sumiu. Sinto-me roubado. Gosto de dar livros, mas não para um representante da indústria química. Nesse caso, ou eu empresto ou vendo um livro!

Não consigo imaginar um símbolo mais apropriado para os dias em Cuiabá: “nosso futuro roubado” (1). Sobre o poder da indústria química e como eles, de passagem, roubam o nosso futuro. Por acaso, eu ainda me encontro com ela no aeroporto, parecendo totalmente inocente. O livro já estava no carro. Um pensamento passa por mim: “Será que deixo que ela fique com o livro e, assim, contrabandeie um outro ponto de vista para ‘a química’?” Eu olho diretamente em seus olhos e peço o livro de volta. Ela baixa os olhos desconcertada e se apressa em direção ao carro. Não vou me deixar roubar por aqueles que, dia após dia, roubam nossas sementes e nosso futuro. 

Nosso futuro, além da mentira 

Com um grupo, vamos fazer uma caminhada na Chapada do Guimarães. São todas pessoas apaixonadas por este planalto único, pessoas que trabalham pela virada. Além da química. Dentre as muitas considerações, uma história em especial permanece na minha lembrança. Trata-se de um engenheiro agrônomo que, por experiência própria, sabe como esse mundinho funciona: 

“É bom que você realize essa turnê e denuncie esse sistema, mas nós temos que, principalmente, desenvolver outras técnicas, além das práticas deles. Além disso, toda a indústria da soja aqui está baseada em uma grande mentira! Ela está prestes a implodir, como desabou o castelo de cartas das construções financeiras nos Estados Unidos. Com seus já conhecidos efeitos: uma crise econômico-financeira mundial, com milhões de vítimas. Um balão de ar semelhante está sendo insuflado por aqui. Trata-se de apenas 500 sojicultores, que estão numa rixa permanente. Suas terras não estão seguras. Eles querem tomá-las uns dos outros. Enquanto isso, diariamente ocorrem baixas: envenenamento daqueles que moram perto das lavouras, violência contra aqueles que se atrevem a resistir. Há pouco tempo, alguém defendeu uma tese de doutorado sobre o tema. Com um gravador, ele foi entrevistar individualmente muitos grandes sojicultores. Sabe o que se descobriu? Muitos deles têm uma dívida equivalente a oito ou até dez vezes o próprio patrimônio. Quando será que esse balão vai explodir? Quem é que vai se beneficiar com isso?” 

Monsanto e companhia 

Se eu quisesse alimentar minhas raízes religiosas em uma igreja em Cuiabá, eu estaria com problemas. Em pelo menos três igrejas um grande cartaz anuncia: “Esta Igreja foi restaurada pela Monsanto, em parceria com o governo do Mato Grosso”. Será que existe descaramento maior? Em Guarapuava, são “apenas” os fazendeiros que contribuem no financiamento da nova catedral. Em Ijuí, Monsanto financia “apenas” o time de futebol local. Cuiabá está comemorando seu 290º aniversário e aqui as igrejas estão sendo restauradas pela indústria química. A nós, só nos resta ficar calados. Reticência religiosa. Deus é Aquele a quem você atribui o poder sobre sua vida. Aqui, “Deus” é representado por Monsanto. Seu enviado, seu Messias é o governador em exercício, Blairo Maggi. Enquanto isso, surgem regularmente estudos de regiões com números extremamente elevados de câncer. Entre outras, a cidade de Sapezal é atormentada com um número expressivo de doentes. Maggi fundou Sapezal em 1994. 

Primavera silenciosa com muitas mortes 

O nosso futuro pode ter sido deliberadamente roubado, mas os minerais podem ajudar na recuperação. Nós visitamos José Carlos A. Ferreira, do Instituto Holístico de Agricultura Orgânica. Ele estudou e viveu durante anos nos EUA e assim se deparou com personagens históricos que são totalmente desconhecidos no Brasil. Julius Hensel e Albert Howard, por exemplo. Ou Robert Rodale, assassinado em 1990. Assassinado? Vários personagens passam em revista durante a conversa. Assassinatos ou mortes em circunstâncias misteriosas. Mahatma Gandhi foi assassinado por um fanático religioso. É assim que nos ensinam e deve ser verdade, mas também é um fato histórico que o lobby químico somente conseguiu entrar na Índia após a morte de Gandhi. O presidente brasileiro Juscelino Kubitschek acidentou-se de um modo estranho. Coincidência ou não, em seu segundo mandato ele queria desenvolver a agricultura num sistema mais orgânico. Presidente Kennedy: assassinado. É o próprio Al Gore quem afirma que isso ocorreu após ele ter criado uma comissão de investigação no Senado, levando a sério as denúncias de Rachel Carson. Carson, cujo livro “Silent spring” [Primavera silenciosa], de 1962, causou tanta controvérsia. Ela foi a primeira a descrever as terríveis consequências da agricultura química. Seu livro é um marco para o nascente movimento ambientalista. 

A lembrança de nossos minerais 

Enquanto isso, José, com seu ”Rockall” (2), lançou os fundamentos do caminho para a mudança. Literalmente, com sacos de rocha moída. Ele mistura mais de 13 ingredientes diferentes de diversas formações rochosas. Os resultados podem ser vistos imediatamente na sua propriedade. Com 200 g desse adubo natural por metro quadrado ele consegue um rendimento 15 vezes maior. Trata-se da remineralização do solo. As plantas não necessitam apenas de nitrogênio, fósforo e potássio, mas também de selênio, gálio, vanádio, irídio e cromo. Nós ainda estamos ”presos” à herança e à visão ”química” unilateral de Justus von Liebig da agricultura. Após a Primeira Guerra Mundial, a indústria química converteu seu aparato bélico em produtos químicos para aumentar a produtividade na agricultura. Eles invocavam – e a agricultura convencional ainda invoca – a visão de Justus von Liebig (1803-1873). O que não estão contando nos cursos de “bioengenharia” (note a palavra: não é mais ”agronomia”?) é que, no final de vida, von Liebig achou que havia sido mal interpretado pela indústria. E o que é ainda mais ocultado é que ele tirou sua própria vida. Seu contemporâneo, Julius Hensel, tinha como objetivo o mesmo aumento na produtividade, mas com a utilização de rochas moídas e sem prejudicar o meio ambiente. Já no século XIX, ele afirmava: ”Alimentos saudáveis, provenientes de um solo saudável geram pessoas saudáveis, nutridas e ainda podem eliminar a fome do mundo”. Hensel não cometeu suicídio, mas até hoje se mantém silêncio sobre ele. E a quem isso interessa? 

O produto de Rockall pode ser utilizado tanto em vasos para plantas quanto em plantações de soja. Poucos têm conhecimento, mas o Mato Grosso é o maior produtor de soja orgânica do mundo, e isso com base nesses minerais. Enquanto um agricultor convencional, utilizando muitos agroquímicos, consegue colher 54 sacos de 60 kg por hectare, esse sistema de cultivo orgânico chega a 56 sacos por hectare. E isso, obviamente, sem o custo de produtos químicos caros. 

Alguns efeitos desse caminho:

  • Elevado desenvolvimento dos microorganismos do solo;
  • Liberação contínua dos elementos minerais, aumentando o seu aproveitamento pelas plantas;
  • Aumento da capacidade de retenção de umidade e nutrientes;
  • Efeito tampão contra a acidificação;
  • Melhora da estrutura do solo;
  • Redução da erosão;
  • Melhora da resistência das plantas quanto ao ataque de insetos, organismos patogênicos e doenças fúngicas;
  • Aumento no sistema radicular das plantas;
  • Redução no tempo e no custo de irrigação, uma vez estabelecido o sistema;
  • Melhor sabor e qualidade nutricional dos alimentos;
  • Alimentos orgânicos que alcançam preços superiores no mercado;
  • Crescimento animal saudável;
  • Eliminação da dependência aos fertilizantes agroquímicos;
  • Proteção dos mananciais contra a poluição dos fertilizantes solúveis;
  • Proteção aos trabalhadores e famílias da exposição química;
  • Economia no balanço energético;
  • Ingresso na agricultura do futuro com práticas sustentáveis.

 

Afinal, o que estamos esperando para nos livrarmos dessa dependência química coletiva (3)? 

Luc Vankrunkelsven,

Chapada dos Guimarães, 4 de abril de 2009. 

  1. Our stolen future” [Nosso futuro roubado], de Theo Colborn, Dianne Dumanoski e John Peterson Myers. A edição brasileira, de 1997, contém um prefácio eletrizante de José A. Lutzenberger, pioneiro do movimento ambiental brasileiro.
  2. Visite o site www.rockall.com.br.
  3. Nós estamos sendo bombardeados com análises sobre a destruição planetária causada pela humanidade atualmente. Felizmente, existem milhares de histórias de esperança de grupos, cientistas e pessoas comuns, que percorrem as trilhas da recuperação. No Brasil, o excelente livro “Biologia da Conservação” – de Richard B. Primack e Efraim Rodrigues (Londrina: Editora Vida, 2002) – é prova disso. Para crianças no contexto escolar, recomenda-se “A escola sustentável. Eco-Alfabetizando pelo ambiente”, de Lucia Legan (São Paulo: Imprensa Oficial, 2004).
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