Nosso futuro em nossas próprias mãos

A revista semanal Veja desta semana contém uma propaganda sobre 290o aniversário de Cuiabá. Cuiabá como a “cidade verde”. Cuiabá como portal de entrada da região amazônica. 

Verde? Não há  muito mais para ver. Nos últimos 15 anos, construíram-se grandes avenidas, edifícios altos foram levantados sem planejamento urbano aparente. As árvores tiveram que desaparecer. Aqui e ali ainda resta uma lembrança do passado: mangueiras. Sim, aqui havia muita manga (1). Esse sumiço, provavelmente, não está relacionado com a gestão de áreas de preservação natural do Brasil, nas quais as mangueiras se revelaram um problema devido a sua rápida dispersão, tal como outra conhecida espécie exótica, o pínus norte-americano. As exóticas – como o eucalipto australiano ou, no caso, a mangueira da Índia – podem perturbar o equilíbrio natural em outros ecossistemas. A cidade está cada vez menos suportável devido ao aumento da temperatura média. Veículos 4×4 dominam a cena urbana. A água é intragável. Os peixes do rio Cuiabá foram dizimados. 

Um ramo verde em uma cidade aquecida 

Mesmo assim, da terra queimada, de troncos mortos podem surgir ramos novos. Coorimbatá é uma cooperativa de pescadores e outras pessoas que querem vincular seu futuro conjunto em uma economia solidária. Trata-se de uma aliança inédita entre o mundo acadêmico e as pessoas com poucas oportunidades, com pouca formação. Curimbatá é um peixe pouco apreciado. Foi exatamente por isso que eles escolheram essa espécie para dar nome à cooperativa. Isso me faz lembrar do projeto de “Cor da Rua”, em São Paulo: “lixo luxo”. Fazer produtos bonitos para enfeitar e mobiliar sua casa a partir de lixo. Artesanato também, próximo ao luxo. Mas luxo com o orgulho de pessoas que, juntas, lutam por um mundo melhor. A partir da base. 

Nicolau Priante Filho me mostra o lugar e conta a história. O presidente Sebastião Magalhães acrescenta suas contribuições, na qualidade de pescador-presidente. Em português, soa agradável: pescador e pesquisador. Quase se poderia afirmar que existe uma relação óbvia entre a sabedoria popular dos pescadores e a erudição do pesquisador… desde que esse último tenha coragem de deixar sua torre de marfim. E foi exatamente isso o que Nicolau começou a fazer, há 10 anos. As palavras-chave são “confiança” e “relações humanas”. Tradicionalmente, Mato Grosso é uma região de extrativismo individual: garimpeiros, pescadores, caçadores. Devido às muitas migrações de todo o Brasil, tornou-se uma sociedade bem diversificada, mas não havia muitos incentivos para cooperação. As circunstâncias davam mais motivos para desconfiança do que confiança. A chegada da soja como um grão milagroso não melhorou esse cenário. O que é especial nesse projeto é que ele trabalha em rede com os mais diversos parceiros. A cooperação ultrapassa os limites das partes, de modo que ninguém pode se apropriar do projeto, mas pode apoiá-lo. Foi isso que testemunhei no lançamento do projeto “pró-jovem” e na solenidade de entrega de um caminhão para a cooperativa. Foi um momento tocante, ver políticos de todos os partidos, juntamente com os pescadores, na entrada da prefeitura na Várzea Grande. As palavras do secretário de Meio Ambiente permaneceram na minha memória: “A agricultura familiar é o melhor capital de um município”. Isso soa incomum no Mato Grosso, que prioriza principalmente a agricultura empresarial voltada para a exportação. Coorimbatá está se expandindo por todo o estado do Mato Grosso e recebeu, em 2004, um prêmio como modelo de inovação tecnológica. 

Sobre mangas, peixes e jacarés 

Como há menos peixes – mas também porque em determinados meses do ano é proibido pescar – eles buscaram juntos por alternativas. Ainda existem mangueiras na cidade, mas em menor quantidade do que antigamente. As frutas simplesmente caem nas ruas e não são consumidas. Eles começaram a recolhê-las e a secá-las. Outras frutas se seguiram: banana, abacaxi, caqui e mamão.

Como engenheiro, Nicolau conseguiu junto à universidade a instalação de um secador que consome 15 vezes menos madeira do que equipamentos similares. Nesse mesmo período, em parceria com diversas organizações, eles construíram um pequeno frigorífico próximo à comunidade de pescadores. Como cada pescador pode pescar apenas 100 kg por semana, o frigorífico não de se viabilizou economicamente. Por isso, recentemente, junto com criadores de jacarés certificados pelo Ibama e pela Secretaria Estadual do Meio Ambiente (SEMA-MT), eles fizeram um acordo para adequar o frigorífico para o abate e processamento de carne de jacarés! Para um leitor europeu soa muito exótico, mas a carne de jacaré parece ter gosto semelhante à de frango e de peixe. O propósito do programa de criação em cativeiro é exatamente proteger o animal da extinção no Pantanal. Espera-se, assim, evitar a caça ilegal dessa espécie e, ao mesmo tempo, ampliar a base econômica da cooperativa. Os resíduos das diversas unidades de processamento são reunidos para produzir um húmus um adubo orgânico saudável, que não agride o meio ambiente. 

Modelo 

Nos últimos 15 anos, o poder dos supermercados tem aumentado em todo o mundo. Até a Nestlé, com “apenas” 3,1% de todo o mercado mundial, Kraft com 3% e Unilever com 2,9% tiveram que se defender contra as grandes gigantes internacionais Wal-Mart, Carrefour e companhia. Juntas, estas últimas já ocupam 12% do mercado mundial com suas marcas próprias. Ou seja, marcas para as quais elas não precisam da Nestlé e do resto do setor de produtos alimentícios. Elas exercem pressão sobre os agricultores e a indústria de alimentos em todo o mundo. Os consumidores são confrontados com os fatos consumados – por exemplo, são vendidos produtos do outro lado do mundo, em vez de privilegiar produtos locais que podem auxiliar no desenvolvimento da economia regional.

Mas existem exemplos de que é possível agir diferente. A rede de supermercados Modelo pode servir de exemplo. Se você tiver a sorte encontrar um diretor visionário, o negócio pode ser fechado em 1 minuto. Foi isso que aconteceu com Coorimbatá e Modelo. A resposta do diretor, na curta negociação: “O capitalismo é bom para a produção, mas ruim para a distribuição. O comunismo é bom para a distribuição, mas ruim para a produção.” A parceria entre Modelo e Coorimbatá já existe há 10 anos. Os produtores e os seus preços não são submetidos à pressão do mercado comum. Assim os consumidores têm à disposição valiosos produtos da própria região. Além disso, os produtos são provenientes do círculo da economia solidária. 

Por causa da crise econômico-financeira, novamente está se discutindo e escrevendo muito sobre o fenômeno do capitalismo. Será que a relação de igualdade entre Coorimbatá-Modelo poderia representar um novo caminho, que vai além do capitalismo global dominante? 

Luc Vankrunkelsven,

Cuiabá, 8 de abril de 2009. 

  1. http://www.blogdobrasiliense.com.br/index2.php?option=com_content&do_pdf=1&id=1424.
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