Noeli Santisteban

Minha família é da Espanha, tinha tudo pra gostar de carne. Mas apesar da tradição espanhola estar muito próxima da minha geração( meus avós por parte de pai e mãe eram imigrantes), nos foi passado muito mais da parte artística da cultura, que dos hábitos alimentares, em si. 

Aos 5 anos, vi minha avó cortar o pescoço de uma galinha e fritar o sangue (um prato espanhol que meu avô adorava).O cheiro do frango morto no quintal e o do prato, pra mim passaram a ser o mesmo. Devo ter comido frango nesta vida, mas nao me lembro do gosto. Passei a me recusar a comer essa carne e isso foi aceito com muito respeito pelos meus pais.Nunca mais minha avó matou uma galinha e nem meu avô comeu o tal prato. 

Quando estava um pouco mais velha, minha mãe me comprou peixinhos. A partir daí, nao consegui mais comer peixe. Olhava para os meus e para os que estavam mortos e me sentia envergonhada. Como poderia ter alguns peixes como animais de estimação e comer outros??? 

Quando eu tinha uns 6 anos, estávamos em férias na Praia Grande quando acordei com gritos de um porco sendo morto pelo vizinho. Daí pra frente, festas como Natal e Ano Novo,passaram a ser um inferno, pois passei a reparar os leitões 
dependurados em açougues, a compulsividade com que se compra Perú (nunca comi!!), galinha, cabrito. Como uma festa que representa o nascimento de Jesus, um homem que era só compaixão, tem que ser celebrada às custas de tanto sofrimento dos animais???? 

Ao começar o curso primário, uma das primeiras coisas que os professores ensinam (ou ensinavam) é que "a vaca NOS DÁ o leite, o couro e a carne". Quando ouvi isso fiquei revoltada. A vaca não dos dá nada!!! Nós é que lhe tiramos o direito à maternidade e a VIDA!! A partir daí, carne só se fosse "disfarçada"(no meio de vegetais, com um ovo em cima ou dentro de algum bolinho). 

Aos 15 anos, decidi parar de comer qualquer tipo de carne. Um dia estava sentada à mesa com os meus pais e estávamos discutindo sobre o sofrimento dos animais criados para abate. Meu pai, então disse: "eu, por mim, não comeria carne. Só como porque vocês compram". Neste momento eu sugeri que todos nós parássemos e a proposta foi aceita. Passamos a pesquisar receitas vegetarianas e, apesar de eu saber que meu pai comia um "franguinho"escondido de mim, aos domingos, na casa de uma tia, a família passou a viver mais harmonicamente. Mas voltei a comer peixe.Tive um acidente com queimaduras graves na pele e no hospital, só me serviam camarões e pescado ( acho que tem a ver com recuperação de tecido). 

Por 16 anos, fiquei longe da carne de galinha e da vermelha, comendo peixe ocasionalmente. Dos 33 aos 36, vivi um período complicado na minha vida pessoal e acabei quebrando o jejum da carne vermelha, algumas vezes. Eu estava em desequilíbrio e acabei me deixando influenciar por alguns carnívoros. Aos 37, começou um novo ciclo e não só parei de comer qualquer tipo de carne, como, recentemente, deixei de tomar leite e usar couro. Ainda como queijo, de vez em quando, assim como ovo, quando sou obrigada a comer fora de casa. Venho comprando queijo e leite de soja. Hoje moro nos EUA e aqui há mais recursos para se seguir uma dieta vegan. Em qualquer supermercado se acha produtos não derivados de animais.Uso tênis imitando couro e só compro sapatos baratos. Nao compro nem uso nada que tenha sofrido dor. Só compro produtos que não tenham 
nada de orígem animal e, claro, que não foram testados neles. 

Do meu ponto de vista,o vegetarianismo é consequência de amadurecimento 
da ética. Apesar de respeitar e entender, discordo dos que defendem a causa dos animais e comem carne. Digo que compreendo porque nossa cultura "modela" noso caráter, enquanto não acordamos para nosso verdadeiro propósito como seres em evolução, em direção à luz. Converso pacientemente e com muito carinho, quando sou requisitada a falar sobre vegetarianismo. Há que se dar espaço para que cada um atinja o ponto de conscientização. Ser vegetariana é mais que uma opção. É uma consequência de um conjunto de fatores e pra cada pessoa a decisão chega em momentos e por razões diferentes. É uma mudança de estágio de vida, que eu desejo, do fundo do coração, pra todos os humanos. Pois junto com a transição, solidifica-se o conceito de "Ética Humana", que é uma 
benção para nosso espírito.  
 

Noeli Santisteban 
California 
USA 

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