No restaurante

À noite, saímos jantar com um grupo de colaboradores da Fetraf. Há somente um prato com peixe no cardápio. Pelo jeito, não é pedido com muita freqüência, pois sou servido muito mais tarde que os demais integrantes do grupo. Trata-se de tilápia, uma espécie provavelmente 90% criada e alimentada com esterco de porco. Isto se acreditarmos na história contada à delegação de Wervel, em 2005, em Concórdia (SC). A travessa com iscas de peixe circulam a mesa como tira-gosto. Todos saboreiam.

Vamos pagar a conta junto ao caixa. Ao lado, uma dezena de revistas da poderosa agroindústria: Revista Nacional da Carne, Agromais (ou seja, mais do mesmo), Sabores do Sul, e outras do gênero. Procuro, inutilmente, uma revista de agricultura familiar ou uma voltada aos vegetarianos.

[Foto 50]

Soja e alternativas durante o curso da capacitação da Terra Solidária

 

Obviamente há muito trabalho a fazer na ‘capital da carne’. E é realmente necessário ter coragem para se tornar vegetariano neste contexto.

Será que os 40 cientistas falavam de outro planeta? Ou então será provado que os cientistas de Southampton tinham razão em sua tese de que crianças com QI mais elevado têm maior tendência para se tornarem vegetarianos na idade adulta (6)?

Se for verdade, aqui, na ‘capital da carne’, a situação seria desoladora.

 

Chapecó, 21 de novembro de 2006.

 

(1)   Veja: <http://www.vegetarianismo.com.br>; <http://www.svb.org.br>; <http://www.ivu.org>. Nestes sites podem ser encontrados, entre outros, debates sobre se é desejável, ou não, a inclusão de soja na alimentação dos vegetarianos. No primeiro site, no tópico soja, é possível ler a íntegra do livro do ‘Navios que se cruzam na calada da noite. Soja sobre o oceano’ (Curitiba: Editora Gráfica Popular/Cefuria, 2006), do mesmo autor.

(2)   Veja: <http://www.vegetarisme.be>.

(3)   Noëmi Weis, em Foz do Iguaçu, está fortemente engajada na introdução de produtos de soja na merenda de escolas e creches. Ela alcança, diariamente, 40 mil crianças e, indiretamente, também suas famílias. Mais sobre este tema no livro sobre soja. Lucie Morren, da Asociación Soya de Nicaragua (Soynica), Nicarágua, há vários anos tenta introduzir soja na dieta dos nicaragüenses por meio de grupos de mulheres. Veja o site <http://www.soynica.org.ni>; <soynica@soynica.org.ni>.

(4)   De kunst van het tofu-maken [A arte de fazer tofu] já existe há 2 mil anos, numa diversidade chinesa desconhecida. O meio rural da China é uma coletânea de minorias étnicas, cada qual com sua própria forma secular de preparo de tofu e outras aplicações da soja. Veja o interessantíssimo documentário da TV Arte (transmitido no dia 24/10/2006): ‘Tofu in China’ [Tofu na China]. O filme trata somente de soja para consumo humano. A novidade das últimas décadas – soja como ração animal – não é discutida. Mais informações junto a Wervel.

(5)   Veja: <http://www.newscientist.com/channel/opinion/science-forecasts/dn10580>.

(6)   Veja: <http://www.soton.ac.uk/mediacentre/news/2006/dec/06_138.shtml>.

Children with a high IQ are more likely to become vegetarian

University of Southampton,

SOUTHAMPTON

SO17 1BJ

Telephone: +44 (0)23 8059 3212 / Fax: +44 (0)23 8059 3285

Email: press@soton.ac.uk

 

Um ponto de luz: parece que algumas instituições estão começando a entender… Um professor de uma escola agrícola, em Chapecó, relatou que recentemente eles começaram a mudar o cardápio. Reduziram o consumo de carne. Tanto os professores quanto os alunos estão descobrindo que até um ‘gaúcho’ pode viver sem ou com pouca carne. E eles se sentem melhor. Detalhe interessante: é uma escola voltada para a agroecologia. Talvez seja possível, a partir da visão agroecológica da vida, provocar rachaduras nas muralhas que cercam a ‘capital da carne’.

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