Não entrevista – Eduardo Bueno (Peninha)

    Éramos seis: Jorge (que fez a foto que estava aí em cima), Nora, Gerbase, Luli, Giba e Zé Pedro. Contra apenas um: Peninha. Começamos às nove e fomos até quase meia-noite, mas o gravador foi desligado antes, porque sentimos que ninguém teria saco de transcrever tudo aquilo (e a conversa tomava rumos impublicáveis). Pensamos em ter um(a) estagiário(a) para fazer esse trabalho tão importante, que tornou famosa a Dona Nelma, do Pasquim. Mas, por enquanto, estamos nós mesmos (Gerbase, Luli e Giba) nessa labuta. Como havia o compromisso de lançar o NÃO dia 15, esta entrevista vai ser publicada em pelo menos duas partes. Aqui estão as duas primeiras fitas, mas ainda há mais. À medida em que novos trechos forem transcritos, eles serão devidamente acrescentados e anunciados em nossa capa. Aproveite, caro leitor. E divirta-se, como nós nos divertimos naquele 7 de julho de 1998. Dia em que o Brasil ganhou nos pênaltis da Holanda na Copa do Mundo (e considerou-se o "King of the world", até entregar tudo pra França, que teve reis muito mais chiques que os nossos). E noite em que Peninha Bueno explicou coisas, desmentiu lendas e admitiu que há um Eduardo Bueno "de verdade" e um personagem chamado Peninha. Para o bem desta entrevista, ambos gostam de falar de si mesmos.

GERBASE – Vamos começar a entrevista do NÃO 56, com o Peninha. Está aberta a sessão.

(silêncio; todo mundo se olha, ninguém fala nada)

GERBASE – Bom, na qualidade de editor, tenho a obrigação de começar. Peninha, a primeira história confusa que eu ouvi a teu respeito foi a edição do "On the Road", que me parece uma coisa histórica. Aquele livro, naquele momento, naquela editora (Brasiliense), e o famoso problema de quem realmente traduziu. Eu queria que tu me falasse um pouco desse momento e se ele foi realmente importante.

PENINHA – Pô, foi demais. Bom, eu li "On the road" pela primeira vez em espanhol, o que é vergonha suficiente, já que essa entrevista é uma espécie de auto-açoitamento. Então eu li "En el camino" (e não "On the road"), pela primeira vez, em 1976, comprado em Buenos Aires, onde eu tinha ido por causa da Zero Hora, o que é mais uma vergonha no meu currículo. A primeira vez que eu tinha ouvido falar em "On the road" tinha sido através do livro "Rock: o grito e o mito", do Roberto Muggiati, diretor de redação da revista Manchete, o que é mais uma vergonha que se acrescenta ao meu currículo. Eu só tinha ouvido falar disso em 75 ou 74, na verdade meio via Bob Dylan. Eu nunca tinha ouvido Bob Dylan até 1974, quando então ouvi o disco "Before the flood", que changed my life, ridiculamente, como a de tantas outras pessoas. E aí comecei a me relacionar com tudo que tivesse a mais tênue ligação com Bob Dylan, e "On the road" tinha uma intensa ligação com Bob Dylan. Então fui ler, em espanhol, com uma tradução feita em 58, em Buenos Aires, o que é uma história incrível. O livro é de 51, se passa em 49/50, e ficou 8 anos rolando…

GERBASE – (interrompendo) Mas quem é que traduziu a porra, Peninha? É isso que eu quero saber.

PENINHA – Ah, não. Vocês vão ter que ouvir tudo!

(protestos dos entrevistadores)

PENINHA – Quem traduziu aquela merda inteira fui eu! Inteira! Tudo! E por incrível que pareça é o seguinte: eu guardo tudo que eu fiz na vida (só é impossível achar na hora que eu quero), mas eu tenho 57 caixas cheias de papel, nas quais eu tenho a tradução original do "On the road" feita a máquina de escrever…

ZÉ PEDRO – A idéia do título é tua?

PENINHA – Não. A idéia é do Caio Graco. E eu acho o título muito ruim, a gente teve umas brigas muito grandes…

GIBA – Qual era a tua proposta de título?

PENINHA – Era "Na estrada", que hoje eu acho meio ruim.

GIBA – Saiu "Pé na estrada".

PENHINHA – Saiu. Depois eu tive mixed feelings total com esse "Pé na estrada", porque a minha vida estava muito envolvida com esse livro. Eu fui duas vezes na tumba do Jack Kerouac, em vários lugares onde ele esteve…

GERBASE – Onde ele tá enterrado?

PENINHA – Em Lowell, Massachussetts, onde ele nasceu. Mas tem alguns antecedentes que são interessantes. Eu li o livro em inglês e ofereci pra quase dez editoras brasileiras, não vou citar nomes, e aí as pintas diziam "não"…

ZÉ PEDRO – Alguma editora gaúcha?

PENINHA – Claro, evidentemente, ofereci pro Ivan Pinheiro Machado, que não ficou muito interessado.

GERBASE – Ele não conhecia?

PENINHA – Acho que não conhecia.

GERBASE – Nem o movimento beat?

PENINHA – Talvez também não. Mas o "Uivo" (nota do editor: "Uivo – Kaddish e outros poemas", de Allen Ginsberg, L&PM, 1984) é dele, o que é um super-mérito. Quando eu entrei na L&PM ela já tava editando o "Uivo".

GIBA – Mas a coleção beat…

PENINHA – É minha.

GIBA – Claro, o Ivan fez depois, a partir da repercussão do "On the road"…

PENINHA – Que eu tinha oferecido pra ele cinco anos antes! Eu li o livro em 75, depois em inglês em 76, e decidi que o livro tinha que sair no Brasil em 78, quando eu saí da Zero Hora. Aí eu fui pros Estados Unidos e fiz uma viagem muito semelhante à do Kerouac, estive em vários lugares… Aí voltei e comecei a fazer uns ensaios em casa, era um absurdo, uma loucura, eu querer fazer aquela tradução. Inclusive quero dizer que a Gigi tem muito mais participação em "On the road" que o Antonio Bivar…

GIBA – Que está creditado como tradutor…

PENINHA – "Tradução: Eduardo Bueno E Antonio Bivar", o que é um absurdo, embora se esse foi o preço que eu tive que pagar para conhecer e para conviver com o Bivar foi baratíssimo, porque é uma pessoa maravilhosa, um santo russo, despojado, morando num quartinho desse tamanho. Fiquei na casa dele, é veadaço, cheguei a temer que de repente, bababá, mas… o cara é iluminado. Então ofereci o livro pra um monte de editores, ninguém quis, o Ivan entre eles, mas não houve essa coisa de insistência de minha parte, embora tenha falado duas vezes. O fato é que eu resolvi traduzir em 79 e comecei a fazer testes comigo mesmo em casa. Em 80 eu já tinha oferecido pra umas cinco editoras, aí conheci o Reinaldo Moares em Porto Alegre. Eu tinha recém entrado no "Pra começo de conversa", fazia uma semana, era a minha primeira matéria, sobre o lançamento de "Morangos mofados", do Caio Fernando Abreu, na coleção "Cantadas literárias", que tinha estourado, tinha vendido 35 mil exemplares, o Luís Schwarcz tava aparecendo pro Brasil inteiro, a Brasiliense tava renascendo, é um momento muito incrível, porque se reflete na Companhia das Letras, hoje, que é a editora que conseguiu trazer tudo de volta pra São Paulo. Então a Folha, que quer ser o grande jornal nacional, mas é localista pra caralho, e a Veja, evidentemente, (começa a gritar, enlouquecido) E A PARMALAT E O PALMEIRAS, PORQUE A PARMALAT E O PALMEIRAS ESTÃO HÁ ANOS QUERENDO FUDER O GRÊMIO E NUNCA CONSEGUIRAM! (acalma-se rapidamente). E esse fenômeno Parmalat e Palmeiras se reflete em Folha e Veja…

GIBA – Qual foi o resultado do último Grêmio x Palmeiras? (Palmeiras 5×1)

ZÉ PEDRO – O Grêmio agora joga contra a filial deles…

PENINHA – É… E o Grêmio agradece à Parmalat pela existência do Juventude…

LULI – Peninha, quais são os livros imperdíveis que nunca foram lançados no Brasil?

PENINHA – Agora eu tô nessa trip total de século 16. Entrei no século 16 e não pretendo sair tão cedo.

ZÉ PEDRO – Pelo menos não nesse século…

PENINHA – É. Sério mesmo. Tô numas de escrever um livro com TUDO que aconteceu no Brasil entre 1500 e 1599, tudo mesmo. Mas voltando à polêmica, que entrevista chata!, mas é culpa de vocês, aí eu fui fazer essa matéria pro "Pra começo de conversa", com aquele cara que era diretor de redação antes de vocês… (olha para Jorge e Zé Pedro)

JORGE – O Ênio Rocha.

PENINHA – Isso, foi o Ênio que me levou pra lá, essas histórias são muito malucas. É que tudo tem importância, eu juro por Deus, embora eu seja egocêntrico.

GERBASE – Vocês foram colegas ao mesmo tempo na TVE? Jorge, Zé, Peninha, Ana…

GIBA – E o Beto Andrade, a Keta… E até o Wander Wildner.

GERBASE – Que catrefa, meu Deus!

PENINHA – Eu preciso contar como é que eu entrei na TVE, porque isso ninguém sabe. Eu tava lá no Coojornal. Tinha saído da Globo, onde eu ganhava um monte de grana… Eu considero o doutor Roberto Marinho o melhor patrão da história da humanidade, e se o Jorge Furtado disser algo contrário eu cubro ele de porrada. Eu faria um chupinski no doutor Roberto Marinho (bate três vezes na mesa e aproxima-se do microfone), e não precisa de Viagra, que fique registrado!, se o doutor Roberto botar a piça pra fora eu chupo! (risadas generalizadas) Porque é o melhor patrão do mundo, pelo menos que eu conheço, dentro das minhas limitações… É o maior patrão do jornalismo no Brasil. Como é bom trabalhar na Rede Globo…

JORGE – E a defesa dele aos comunistas no golpe de 64…

PENINHA – Então, cara! Tudo. O doutor Roberto é perfeito do início ao fim, embora eu seja um homem muito neurótico e o tenha criticado na minha História do Brasil. Mas isso foi o outro Eduardo Bueno. O VERDADEIRO Eduardo Bueno, aqui se revelando, adora o doutor Roberto.

JORGE – Mas como é que tu foi parar na TVE?

PENINHA – Eu saí da TV Globo porque a TV Globo era de direita e eu era de esquerda e vim pro Coojornal…

JORGE – Tu achava isso nessa época?

PENINHA – Achava de verdade. Total. E vai ver por isso os meus recalques hoje se extrapolem, e aí o meu ódio ao PT (levanta e começa a gritar), ÓDIO TOTAL ABSOLUTO, IRRESTRITO, E NÃO SEI COMO EU TÔ FALANDO COM ESSA GENTALHA QUE TEM UMA CERTA RELAÇÃO COM O PT. (acalma-se) Porque é o seguinte, que fique claro o seguinte: como é que eu o posso me relacionar com o Olívio Dutra? O Olívio Dutra é colorado, carnívoro e cachaceiro. E eu sou gremista, vegetariano e maconheiro. Então não dá! Enquanto ele tá comendo uma ovelha, sujando de graxa animal o bigode dele, vendo um jogo do Inter e bebendo cachaça, eu tô fumando uma bomba, vendo um jogo do Grêmio e comendo alpiste!

JORGE – Mas certamente não com o Britto.

PENINHA – Evidentemente que não com o Britto. Longe do Britto! Embora o governador Britto seja gremista, e a gente sempre tem alguma… E ele trouxe a GM, que patrocina o co-irmão, que ia fechar, e a gente não ia ter com que se divertir…

JORGE – Mas como é que tu foi parar na TVE?

PENINHA – Tá, agora eu vou contar…

ZÉ PEDRO – Eu sei como ele foi parar na TVE. Ele vai contar a história errada.

PENINHA – A história errada é a seguinte. Eu ganhava 65 mil cruzeiros por mês na TV Globo. Uma Brasília zero, que era o carro da rapeize na época (quem tinha uma Brasília no início de 1980 tava bem), custava 60 mil. Em valores de hoje, eu ganhava na Globo uns 12 mil dólares, imagino eu. E eu saí e vim ganhar 16 mil cruzeiros no Coojornal. E aí no início foi legal, mas na real era uma bosta, tinha veleidades stalinistas nítidas. Teve idas e vindas, eu saí e voltei pro Coojornal em 82. E ia ter a Copa, que só poderia ser transmitida pela TV Globo, que tinha comprado os direitos exclusivos. Mas tinha uma brecha na lei, que permitia que a TVE exibisse os jogos. E aí todo mundo dizia: queremos a TVE, viva a TVE, liga na TVE! E até eu entrei nessa, feito um ridículo, o que é mais uma vergonha para o meu currículo.

GIBA – (rindo) Aí tu foi pra TVE transmitir a Copa.

PENINHA – Não… Eu ofereci uma pauta pro Coojornal pra fazer uma materiona sobre a TVE, provando pros nossos leitores que eles tinham que ver a Copa na TVE, porque eles certamente teriam uma programação maravilhosa durante a Copa, show do intervalo com Fernando Vanucci e tudo o mais. Então subi o morro Santa Tereza, marquei uma entrevista com o Ênio Rocha. Aí entrei, quando botei o pé, a primeira pessoa que eu vi foi a Rô, depois foi a Ana, depois (olhando para o Jorge) foi tu. Era uma rapaziada, num lugar maravilhoso, um monte de gente legal…

JORGE – Vista boa, estacionamento…

PENINHA – Exatamente. E pôr do sol. E um monte de mina provavelmente comestíveis. E diretamente comestíveis. Ou facilidades, até quem sabe, quiçá comestíveis. Aí eu: báááá… Tava esperando e passou um monte de gente, só não passou o Zé Pedro, porque tava trabalhando, alguém tinha que estar trabalhando naquela merda. E o Zé Pedro já cavando, alpinista social que é, já cavando a sua Mercedes, já querendo derrubar a mãe de Jorge Furtado, já pensando em botar no meio da mãe do Jorge Furtado, em comer o pai do Jorge Furtado, que era o presidente e que tinha sido o irresponsável por tudo isso. E eu pensava: o cara é casado com aquela Dercy Furtado, e ainda botou o filho, que botou todo esse tipo de gente aqui dentro. Aí fui falar com o Ênio Rocha, nem fiz pergunta nenhuma da entrevista, e disse pra ele: "Vem cá, cara, como é que tu não percebeu que tá faltando eu nessa TV? Tem que contratar a mim; eu tenho que ficar aqui, orientando essa juventude…" Porque na época eu já era um homem vivido, um profissional, e vocês estavam dando seus primeiros passos na…

JORGE – Na direção errada.

PENINHA – Isso. Aí eles me procuraram, me ligaram várias vezes para a minha casa, queriam que eu fosse apresentador do "Pra começo de conversa", eu acho, mas eu não apareci pro teste, o Cunha Júnior fez, e tinha mais é que ser ele mesmo, era muito melhor apresentador…

ZÉ PEDRO – E faz um sorteio…

PENINHA – E faz um sorteio… Ele que lançou essa história do dindin…

JORGE – Mas jamais começaria uma matéria com a frase "Grandes aves pretas da família dos cracídeos…"

PENINHA – Jamais…

GIBA – Tem um episódio, antes da tua entrada na TVE, do qual eu já ouvi várias versões, mas nunca ouvi a tua, até porque duvido que tu tenhas condições de descrever, que foi a entrevista coletiva com o João Havelange na Copa de 78. Tu lembras desse entrevista?

PENINHA – (esforçando-se) Cara… Eu não me lembro. (risadas generalizadas)

JORGE – Alguém disse que quem lembra dos anos 60 provavelmente não os viveu.

PENINHA – Mas isso foi em 78…

GIBA – É verdade que tu perguntou pro João Havelange o que ele achava do Led Zeppelin?

JORGE – Pink Floyd! Eu já ouvi essa história como Pink Floyd.

GERBASE – É uma dúvida que corre há muitos anos e que o NÃO vai dirimir agora!

GIBA – Duvido que ele consiga!

JORGE – Peninha, tu conversou com alguém, que te contou, e tu contou tão melhor do que ele que tu passou a lembrar como sendo contigo.

GIBA – Não! Várias pessoas me contaram como sendo o Peninha, mas nunca ouvi ele falar a respeito.

PENINHA – (ar de dúvida) Eu acho que não aconteceu. Mas eu não tenho certeza. (mais risadas de todos)

JORGE – Provavelmente ele nem saiu do hotel.

ZÉ PEDRO – Questão de ordem! Dentro dessa história das mentiras penísticas, é verdade que tu abordaste a Fernanda Torres com o intuito de praticar o ato, e que inclusive praticou-o, dizendo que tinha feito o roteiro do Dorival? (nota do editor: "O dia em que Dorival encarou a Guarda", curta de Jorge e Zé Pedro, vencedor de Gramado 86, no qual o Peninha não escreveu nada)

GIBA – Não foi a Fernada Torres. Tá errado. Corrige, Peninha.

PENINHA – Não tenho condições de corrigir… Mas não foi exatamente assim. Entre as várias mentiras, e algumas verdades aditivadas, depois da primeira abordagem a essa senhorita…

GIBA – Mas foi a Fernanda Torres?

PENINHA – Não. Foi a Patrícia Pillar.

ZÉ PEDRO – Patrícia Pillar? Não é verdade! (alguém tosse; todos riem) Isso prova que não é verdade. Ele me contou como a Fernanda Torres, o Giba sabia que era a Glória Pires, agora ele tá falando que é a Patrícia Pillar…

PENINHA – Olha, não sei… A lista é… Ah, tem a Mariana Moraes, exatamente, que não entrou nem na lembrança…

ZÉ PEDRO – É mentira.

PENINHA – Vamos por partes. Querem saber da Patrícia Pillar ou da Fernanda Torres?

ZÉ PEDRO – Nós não queremos saber desses teus assuntos! (mais risadas) Tu não perguntou pro João Havelange sobre o Led Zeppelin?

PENINHA – Vamos voltar. Eu não me lembro. Eu fiz vinte anos durante a Copa, e teve uma festa com uma homenagem ao repórter mais velho e ao repórter mais jovem da Copa. O mais velho era um holandês de 78 anos, e o mais moço era eu, que ainda tinha 19. E aí, pô, foi um lance muito emocionante no Centro de Imprensa, e uma espécie de trampolim pra mim exibir as minhas várias habilidades malabarísticas, ficar falando um monte de coisa no ouvido de um monte de gente. E nessa Copa estava o Nélson Motta, que é uma pessoa maravilhosa, apesar de eu achar ele horrível no Manhattan Connection…

JORGE – Eu torço pra ele ali…

PENINHA – Eu torço pro Jabor. (vaias dos entrevistadores; Peninha se levanta e começa a gritar) PORQUE O JABOR É DE DIREITA, E É PRA ESSE PESSOAL DE DIREITA QUE A GENTE TEM QUE TORCER. (acalma-se um pouco) A gente tem sido prejudicado há anos, tamos sendo oprimidos, a imprensa tá na mão da esquerda…

GIBA – Ainda?

PENINHA – Ainda. O Globo é de esquerda! Aliás, outra coisa tem que ficar clara, depois eu volto pra onde vocês quiserem, mas alguém tem que falar: o Globo é o melhor jornal do Brasil, disparado! Ele é um bilhão de vezes melhor que a Folha há quatro anos! Não acredito que vocês ainda lêem a Folha. Atualmente eu não leio jornal nenhum, porque não tenho dinheiro, mas é o seguinte: quando eu fiz o Caderno 2 (nota do editor: caderno de cultura do jornal Estado de São Paulo) junto com o José Onofre, ele era cento e um bilhão de vezes melhor que a Ilustrada, e as pessoas que nem nós liam a Ilustrada. É inacreditável, a Folha tem umas coisas patéticas, horrorosas, ridículas, mesquinhas. A Folha fez uma História do Brasil pior que a da Zero Hora! Fez com o pior papel e com o pior fotolito pra economizar. De um jeito obtuso, de um jeito cem por cento Zero Hora. Tava tudo programado na Zero Hora pra sair em papel couchê, 120 gramas, com um tamanho muito maior, mas depois que o maior jornal do País fez um assim, eles já tão em dúvida, não sei como vai ser. A Zero Hora poderia ter sido o primeiro jornal do Brasil a lançar um colecionável 100 por cento feito no Brasil e vendeu pra Folha por uns caraminguás. Por isso o Globo é melhor.

GERBASE – Esses colecionáveis tão dando muito dinheiro.

GIBA – Principalmente porque eles são pagos com dinheiro público.

PENINHA – É… Talvez.

(aqui há uma pausa, para trocar o lado da fita, em que, aparentemente, se discutiu a possibilidade de lançar uma auto-biografia não-autorizada do Peninha, em que ele fale de tudo o que quer, em vez de ficar enrolando e não respondendo às perguntas do NÃO)

ZÉ PEDRO – Quinze segundos pra tu contar a história da pergunta pro Havelange.

JORGE – Tu tava com o Nelson Motta e aí…

ZÉ PEDRO – Eu vou marcar no relógio: quinze segundos.

PENINHA – O Nélson Motta tava com o irmão do Chacrinha, que ganhou um dinheirão pra fazer um documentário sobre a Copa de 78. E eles tinham uma pedra mágica…

(aqui há uma longa digressão sobre o cotidiano dos jornalistas brasileiros durante a Copa, tão divertida quanto impublicável. Mas o Peninha, é claro, não soube responder à pergunta. Depois o Jorge tenta fazer o Peninha falar de livros que ele não leu, e o Peninha cita "A Moreninha". O Giba diz que essa é uma manobra para o assunto voltar a ser as mulheres. E o Peninha acha que o Giba tava falando a sério.)

PENINHA – Pelo menos uma história de mulheres de Gramado eu tenho que contar.

GERBASE – Claro. Se não, tu fica mal…

PENINHA – Não! Talvez seja por isso. Como eu fico tão mal na história, e banquei o anti-herói, tenho que contar. É com a Patrícia Pillar, que chegou em Gramado e caiu direto naquela festa de abertura do Festival, e vocês sabem quantas páginas dariam, num livro sobre o festival, aquela festa de abertura. Nós poderíamos escrever um livro só sobre as festas de abertura do festival de Gramado.

GIBA – Eu participei de quinze e não escreveria mais de cinco linhas.

PENINHA – Isso depende de quantas linhas tu gastou na festa. (muitas risadas) E daí a Patrícia tava lá, chegou, nem foi no cinema, caiu direto na festa, e caiu numa armadilha total. Eu morei em Gramado e sei que um dos caras mais insuportáveis de Gramado tava grudado nela. E aí eu olhei pra ela, cara, e claro, também movido pela cretinice, mas, juro por Deus, que com 85 por cento de altruísmo, fui lá e resgatei ela do braço desse cara, que tava com o braço em cima dela…

GERBASE – Quanto por cento de altruísmo?

PENINHA – 85 por cento. Juro! Foi na pura boa-vontade, ou quase pura…

ZÉ PEDRO – Foi com 15 por cento de sacanagem… Ou seja: não tem nada que te absolva nisso.

PENINHA – Peraí, mas tu já olhou pra Patrícia Pillar…

GIBA – Eu queria dizer, em defesa do Peninha, que 85 por cento de altruísmo com a Patrícia Pillar é um nível que eu acho bem alto. (risadas de todos)

PENINHA – Aí eu tirei a mão do cara e disse pra ela "vamos embora" e levei ela ali pra frente do Serrano. E ficamos conversando. E aí os meus 15 por cento cresceram, e cresceram, e CRESCERAM… (mais risadas gerais)

JORGE – Deixa nos 30…

PENINHA – E aí, quando eu tava chegando nos 30 por cento, ELA, juro por Deus, ELA disse (faz voz rouca e sensual) "Vamos subir no meu quarto…" E tinham se passado 20 minutos, 18 minutos, desde que eu tinha conhecido ela…

ZÉ PEDRO – Que que tem?

PENINHA – Foi rápido. E aí eu "Sim, claro!" Aí subimos… E aí é o seguinte: eu não como ninguém depois de fumar. Não há a menor possibilidade. Eu não trepo depois de fumar nem fudendo!

(mais de dez segundos de risadas)

GERBASE – Mas voltando pra história…

ZÉ PEDRO – Nós estamos no momento em que ele levou o Havelange pro quarto…

GERBASE – Registre-se: ele NÃO comeu.

NORA – Esse assunto tá encerrado.

PENINHA – Não! Peraí, eu preciso encerrar. Aí, como eu não como ninguém depois de fumar, disse pra ela assim: "Quem sabe tu… (bem rápido) vai tirando a roupa… Não! Quem sabe a gente…"

GERBASE – Toma um banho…

PENINHA – Não! Vamos dar uma volta. E aí a mina: "Dar uma volta?" Claro. Eu vou dar a real: aquela festa de abertura é tão ruim que pior não pode ficar. Então as pessoas perdem todas as esperanças. "You, that cross that gate, leave behind all your hopes…" Que é quando se entra no inferno…

GIBA – Só que o Dante escreveu isso em latim.

PENINHA – Exatamente. Mas aí, no mais amargo fim da festa, quando todo mundo vê que não há nada a perder, às vezes melhora, e eu convidei ela pra descer, dizendo que talvez a festa estivesse melhor. Eu pensava: a gente pode dançar um pouquinho, descontrair, principalmente eu, e depois eu convido ela pra tomar um iquinho no meu apartamento…

ZÉ PEDRO – Um ique…

PENINHA – Pois é, um plano perfeito. Descemos. Quando descemos, tava tocando uma musiquinha, e eu já fui assim, no embalo, porque eu tenho muita cintura, e aí se aproxima quem? O Dudu Guimarães! E diz a famosa frase (imitando o Dudu): PENIIINHAAA, TU JÁ MELHOROU DA TUBERCULOSE?

(vinte segundos de risadas)

GIBA – Que era uma frase verdadeira… (nota do editor: o Peninha teve tuberculose meses antes)

PENINHA – Claro. E a Patrícia Pillar… (Peninha começa a esfregar violentamente a boca com as mãos; todos riem; alguns choram)

ZÉ PEDRO – Mas a história do roteiro, afinal…

PENINHA – A história do roteiro é com a Mariana Moraes, que eu juro que não me lembrava…

ZÉ PEDRO – Tu já falou que era a Fernanda Torres. Não acredito em nada do que tu diz.

GERBASE – Peninha, depois de algum tempo em São Paulo, tu vieste pra Porto Alegre, junto com o Augusto Nunes, com o propósito de transformar a Zerto Hora num jornal decente.

PENINHA – Exatamente.

GERBASE – Bom, um monte de gente foi pra rua da Zero Hora, mas houve um anúncio de que então os salários das pessoas que tinham ficado iam melhorar. Eram menos pessoas, as mais competentes. E, que eu saiba, isso nunca aconteceu. Até que ponto o Augusto Nunes sabia disso, que o jornal ia continuar pagando mal?

PENINHA – Pois é. É que é difícil ser objetivo. O Augusto esteve no Estadão… Eu não me dou mais com o Augusto (segue-se uma pequena e confusa digressão sobre a amizade e o rompimento com Augusto Nunes). Mas o Augusto fez coisas incríveis, coisas poderosas, o Estadão estava morrendo e…

ZÉ PEDRO – O Gerbase perguntou sobre a Zero Hora…

GIBA – Mas isso deve ser uma preliminar importante.

PENINHA – Isso. O Estadão estava se fudendo, porque a Folha era muito mais eficiente. Os caras iam fechar um jornal de 120 anos. Aí o Augusto, que já era um cara polêmico, foi levado para uma casa completamente conservadora, e o que ele conseguiu fazer lá, na área salarial, foi incrível. Os salários eram ridículos, eram menos da metade da Folha. Aí ele assumiu o Estadão por causa de um xadrez da luta sucessória da família Mesquita, que depois veio a sacrificá-lo, e teve uma liberdade de grana quase total. E nenhuma liberdade editorial. Ele tinha que despachar tudo com o doutor Júlio, na sala do doutor Júlio, e o doutor Júlio…, e eu gosto de chamar esses caras de doutor, porque a gente se bota numa posição de motorista de táxi… E o Augusto tinha que despachar cada vírgula com o velho, que decidiu, entre outras coisas, que o nome "Cazuza" não saía no seu jornal, porque cuspiu na bandeira brasileira. Aí o Luís Antônio Giron conseguiu um furo total, o disco novo do Cazuza, com ele já doente, só o Giron tinha ouvido, e não saiu uma linha no Estadão. E a Folha publicou cinco dias depois. E a competição lá é total, dupla Gre-Nal total, até no sentido ridículo da coisa. Bom, quando o Cazuza morreu, o Augusto teve que pedir autorização pra publicar a morte do Cazuza! E o lance é o seguinte: ele me contratou por 4 mil reais. O Zé Onofre, que era meu chefe, ganhava 7,5 mil reais, era o diretor executivo do Caderno Dois. Eram vinte e cinco pessoas, a gente roubou o Paulo Francis da Folha, eu participei do processo, do qual me orgulho total. E estreitou os laços com o maravilhoso Paulo Francis, ao qual venero, um homem límpido…

GERBASE – Mas tá, muito bem, o Augusto e tu saíram do Estadão…

PENINHA – Quando o Augusto veio pra Zero Hora ele teve uma super liberdade editorial, como ele nunca tinha tido. Eu desfrutei desse liberdade junto com ele, a gente podia escrever o que quisesse, fazer o que quisesse, claro que guardadas as devidas proporções. O Augusto ouviu o seguinte dos Sirotsky: se quiser fazer um jornal de esquerda, de direita, de gay, de lésbica, não interessa, o que interessa é que dê grana, que renda a mil. Claro que eu tô exagerando, como sempre, e claro que a Zero Hora se propõe como um jornal governista. Mas tem mais é que ser governista, dou a maior força, é óbvio, evidente, que é um jornal governista…

GIBA – Até porque ser governista dá lucro.

PENINHA – Será? Não sei. Talvez. Acho que eles acham menos arriscado ser governista e dar lucro que não ser governista e dar lucro.

GIBA – Quando é que eles conseguiriam a CRT sem ser governistas?

PENINHA – Eles conseguiriam a CRT de qualquer maneira. O poder da grana é total. E agora eles têm muita grana, não só por serem governistas, mas por sua competência/incompetência. Mas o fato é que Augusto teve liberdade editorial e não teve dinheiro. Não tinha como contratar as pessoas. Esbarrava ali nas instâncias superiores… Exatamente o contrário do Estadão. Mesmo assim ele conseguiu a Sandra Simon, que é editora-executiva, e outras várias pessoas, mas eu não vou falar do salário dessas pessoas. Eu ia falar, sou boca grande mesmo, mas não vou falar porque me lembro que fiquei puto quando falaram do meu. O meu rompimento com o Augusto aconteceu porque ele deu uma entrevista ridícula, saindo da Zero Hora, para o jornal do sindicato, vocês lembram? Cara, morreu! Eu disse: "Cara, you are dead as a fucking dodo." (inaudível). Falou pro sindicato, que é uma coisa repugnante, ridícula, e por isso o PT também é ridículo, porque está ligado aos sindicatos, tá ligado à CUT, que é uma coisa doentia, e vocês sabem disso, intensamente, apesar de terem uma visão macro que também faz sentido, mas o PT é uma coisa repugnante, burra, tola, e eu sou thouraniano total, o melhor governo é o que menos governa, só existe o lance individual, não existe o lance coletivo, é escrotésimo, e no caso do sindicato é escroto total. (começa a falar muito rápido, entusiasmado) E eu fui visitar a Delta Airlines, onde não tem NENHUM funcionário sindicalizado, e às vezes eu me sinto um hidrófobo de direita, que não sou, mas, pô, o seguinte, eu vivi anos na esquerda, eu participei das assembléias do Coojornal, da fundação do PT, conheci o Zé Onofre, que era tesoureiro do PC, e, bá, cara, o ódio voraz dele pela esquerda me contaminou. E claro que também não existe, por outro lado… Mas o lance corporativista foi horrível ali na Zero Hora. E também do sindicato. E não existe isso. Só existe a pessoa.

ZÉ PEDRO – Mas aumentaram o salário?

PENINHA – Aumentaram de muita gente. Agora, é o seguinte: a Zero Hora tem um salário ruim porque é um jornal ruim. E é ruim porque nós somos uns merdas. É uma vergonha como nós somos uns merdas. Uma vergonha. O Brasil tem a seleção que merece. Porto Alegre tem o jornal que merece. Cada um tem o que merece. A culpa é nossa! É uma loucura. E quando eu fui pra Zero Hora, um cara decente, maravilhoso, luminoso, vocês não deram muita força.

(protestos generalizados; começa uma história confusa sobre a chegada do Peninha na Zero Hora, misturada com os seus primeiros tempos de faculdade e jornalismo. Peninha diz que Giba foi o primeiro da turma no vestibular da Fabico e ele, Peninha, foi o sexagésimo terceiro, o que é uma prova de que o vestibular é injusto e não pode mesmo existir, porque ele, Peninha, é um milhão de vezes melhor que o Giba)

ZÉ PEDRO – Eu já te vi várias vezes falar de ti na terceira pessoa, como o Pelé. Ou, no caso, como o Peninha. Ou então fala "eu tive uma atitude penística". Eu sinto que tu vive um personagem, o Peninha. E nem sempre tu sabe se tá vivenciando esse personagem ou tu mesmo…

PENINHA – Esses anos de análise fizeram bem pra caralho pro Zé Pedro… Sem ironia, tô falando sério. Que fique registrado.

ZÉ PEDRO – Não tô preocupado… Eu tava aqui, te vendo responder as perguntas do modo mais "Peninha" possível, levantando, gritando, etc., e eu queria saber se algum dia tu te levou a sério e, se tu nunca te leva a sério, se tu não acha que isso é um grande desperdício, considerando toda essa tua capacidade.

PENINHA – Certo. Eu só me levo a sério escrevendo. Só vale o que tá escrito. Não tá escrito, nem me lembro…

GIBA – Transcrito vale?

PENINHA – Vale. Se eu não soubesse que isso vai ser transcrito não estaria falando desse jeito. Mas eu acho que é um desperdício total e é um equívoco da minha parte. E o preço que eu pago pela representação desse personagem já me deu um monte de coisa em troca, mas também já me tirou um monte. O que me dá em troca é uma empatia imediata com um monte de gente. Mas o jeito que eu conheci o Bob Dylan foi muito incrível, mas essa história eu não vou contar, porque ainda vou escrever a respeito. Esse lance de ser o Peninha – que tem um lado muito genuíno e um lado que é, evidentemente, parte do meu show (mas o lado genuíno é muito mais intenso) – abre muita porta, tenho certeza, ou pelo menos é a maneira que o Peninha abre as portas. Mas, depois de um certo tempo, não só cansa o interlocutor, como deve ser o caso de vocês agora, mas também impede que as relações se aprofundem.

ZÉ PEDRO – Eu tô usando impressões que eu reuni de ti ao longo dos anos, e essa é uma entrevista muito esclarecedora. E muito definidora e definitiva…

GIBA – Definidora tá certo. Mas espero que não seja definitiva.

ZÉ PEDRO – Eu sinto que quando tu fala das traduções, dos livros, tu fala com uma intensidade mais autoral, como Eduardo Bueno, e quando tu conta as coisas do jornalismo, tu tá sempre falando cercado por pessoas mais "importantes", como o Augusto Nunes, o Zé Onofre, o Francis, e tu passa a ser um personagem satélite, o Peninha. Tu não acha que seria o caso de trocar o teu apelido?

PENINHA – O Augusto um dia me chamou e disse: "Peninha, à medida em que os anos se passarem, esse teu apelido vai ficar cada vez mais ridículo".

GIBA – Quem te deu esse apelido?

PENINHA – Foi o Boró, por vingança. E essa história do apelido foi muito incrível, mas não dá tempo de contar. Mas as minhas duas filhas mais velhas me chamam de Pena, o que já é benção suficiente. Se bem que Pena e Peninha são coisas muito diferentes.

GIBA – E tu acha que ainda dá pra trocar de apelido?

ZÉ PEDRO – Eu proponho que os leitores do NÃO 57 mandem novos apelidos para o Peninha.

GERBASE – Está aberto o concurso: "NÃO DÁ UM APELIDO PRO PENINHA".

(aqui a entrevista deveria ter parado para trocar a fita, mas ninguém parou, e o resultado é essa troca meio brusca de assunto)

GERBASE – O Peninha não respondeu a nenhuma pergunta ainda.

PENINHA – … o futuro novo não se sabe qual é. Mas se o Zé Pedro não responder esta pergunta, fica provado que ele não tinha controle de criação sobre a TVE…

GERBASE – … uma estória quentinha…

PENINHA – Quentinho mesmo era o pai do Jorge Furtado, que era muito mais importante que o pai do Zé Pedro. No começo do "Pra Começo de Conversa", eu sempre dizia uma frase na abertura, eu disse mais de 300 diferentes. E aí a gente abriu pros ouvintes e ganhou uma… Qual foi a melhor frase de abertura do programa, Zé Pedro? A primeira frase foi "Surfando nas ilhas , na saliva…" Surfando… não me lembro.

ZÉ PEDRO- Me lembro é de um furo que tu ligou a cobrar de Los Angeles, e o Cândido Norberto não autorizou a ligação, e o Zé da portaria ficou nervoso no telefone e berrou: "Não posso atender a ligação" e bateu o fone no gancho.

PENINHA – Não me lembro exatamente qual era o furo e eu tenho boa memória pra estas coisas , mas nesta eu não era o personagem principal. Mas eu quero dizer uma coisa sobre o Giba Assis Brasil. Quando eu era casado com a Gigi, ele foi na cobertura da Gigi, e naquela época, vocês moravam nuns pardieiros, com os pais, eu já morava numa cobertura, e agora todos vocês moram em lugares maravilhosos, e eu me fudi na vida e não tenho nem apartamento. Vim aqui para conhecer o apartamento maravilhoso do Jorge Furtado. Se vocês acham que eu fiquei feliz, foi uma coisa completamente fingida. (gritando) Ele comprou este apartamento, ele comprou este apartamento, e eu não. (mais calmo) Mas voltando ao Giba, ele chegou e disse para mim e a Gigi que era a favor do extermínio de todos os cachorros na China, começou a falar sobre os cachorros que tinham sido mortos pelo Mao Tse Tung. (falando mansamente) E eu e a Gigi em tenra idade, já virando vegetarianos, e compreendendo a dimensão intrínseca de toda a vida, das formigas e das minhocas, como vimos em "Sete Anos no Tibet", ficamos totalmente horrorizados com aquela proposta de genocídio e concluímos que o Giba era um homem radical, que não merecia jamais confiança, prova que hoje ele está filiado ao PT e é um homem perigoso que quer a bagunça, que quer a invasão de terra, da propriedade privada…

GIBA – Eu provavelmente estava falando dos cachorros quentes.

ZÉ PEDRO- Qual que tu acha que vai ser a ideologia do próximo século?

PENINHA – Uma coisa individual virtual. Individualidades tornadas ainda mais esquizofrênicas por causa da computação, e aí entrarão forças do mal que usarão esta suposta alienação pra exercer um domínio aparente. E as energias mentais destas pessoas, supostamente esquizofrênicas ligadas apenas no seu individualismo, ligadas cada um ao seu computador, produzirão uma energia tão forte, como aquela dos lamas do Tibet, porque vocês sabem que a terra só não é invadida pelos extraterrenos porque, quando os tibetanos meditam enviam uma energia tão grande que este campo de força os impedem de entrar na terra. Porque os extraterrestres estão atrás do aroma vegetal que é uma coisa raríssima no universo, só tem na Terra, então vem os seres extraterrestres do mal pra caralho super-afim de se apoderar da Terra.

GERBASE – Tu teve formação católica?

PENINHA – Estudei no Anchieta por 8 anos e me fez muito mal. É um dos piores lugares que eu já passei na vida, só tenho más recordações.

ZÉ PEDRO- É verdade que a tua maior frustação, apesar de ser um cara brilhante, foi nunca ter trabalhado no cinema gaúcho?

PENINHA – Talvez, mas antes de responder esta pergunta quero dizer sobre esta entrevista, quero dizer que fazia 2 meses e meio que eu não fumava, quero dizer que este pessoal – quando eu era vegetariano eu achava e continuo achando horrível fumar cigarro e agora eu fumo – todos eles não têm um cigarro. Então eu não fumo há anos, não tenho um cigarro pra fumar e ainda me deram vinho. Isto perturba meu raciocínio.

GERBASE – E a natureza de Ganchos (SC)?

JORGE – Tu acredita realmente que tudo na natureza deve ser preservado, inclusive o vírus da AIDS?

PENINHA – Eu sou totalmente religioso e gostaria de me dedicar inteiramente só a meditar, mas é meio difícil para mim. Minha religiosidade é meio oriental evidentemente, ligada meio ao hinduísmo, em reencarnação, mas no âmago da minha mente a única coisa que existe é a tal da reencarnação e energias cósmicas, só que pra isto tem que ter um monte de posturas, ioga disto, daquilo. Abrir mão de tudo. Meu maior delírio é virar um andarilho rezador. Tem um monte de truque na mente. Mas voltando a Ganchos. Eu era um bunda-mole absoluto até o dia em que ouvi "Like a Rolling Stones", do Bob Dylan, me lembro da inflexão da luz daquele momento, me lembro da roupa que eu estava vestindo, quando eu ouvi ele e o The Band tocando no "Before the Flood", comecei a fumar um monte, tive visões e foi a primeira coisa que ajudou muito a mudar minha vida. Eu chegava em casa louco, pra almoçar com meu pai e minha mãe e aí eu dizia as coisas mais horríveis pra minha mãe (começa a berrar): "Tu é horrorosa, tu enche o meu saco pra caramba, vai te fudê…" na mesa. O que me fez muito bem, porque depois eu passei a amar muito profundamente meu pai e minha mãe. Eu chegava pensando: "não posso dar bandeira, não posso dar bandeira". Como vocês todos já passaram por isto, eu começava a falar baixinho e meu irmão perguntava por que eu tava falando baixinho e eu respondia: "EU NÃO ESTOU FALANDO BAIXINHO, ÁGUA, ÁGUA, ÁGUA, JÁ PEDI ÁGUA VÁRIAS VEZES", e aí começaram a achar que eu estava ficando perturbado mental: "EU NÃO SOU UM PERTURBADO MENTAL COISA NENHUMA!" Porque quando tu tinha cinco anos tu me enfiou uma espada de plástico, eu nunca me esqueci, porque tu chegou atrasada no colégio, achei que tu tinha morrido, eu fiquei sozinho no Largo do Arouche em São Paulo, vi teu corpo coberto por jornal cheio de sangue, meu pai e minha mãe vão morrer assim atropelados tenho certeza, eu tinha cinco anos de idade, e durante cinco anos da minha vida, em São Paulo, pra onde vocês me levaram, eu tinha visto um acidente assim, vocês iam morrer assim, e aí tu chegou meia hora atrasada no ginásio Nuno de Andrade, onde eu tava, em 1964, e aí disseram: "O Brizola vai botar fogo em Porto Alegre!" E aí eu comecei a chorar: "Não tinha Porto Alegre. Não tinha Porto Alegre." Me deram água com açúcar, foi a primeira vez que eu tomei água com açúcar em minha vida, eu não sabia da ligação do açúcar com os seres humanos. Foi a primeira vez que me transformaram num "sugar blues", mas depois eu virei macrobiótico e fiquei sete anos sem comer açúcar, me livrando desta droga maldita , mas aí eu lembrei da minha mãe. Ela sempre chamou o Brizola de "O Pequeno Nero da Praça da Matriz", e é isto mesmo que ele é: "O Pequeno Nero da Praça da Matriz" .

JORGE – Vocês tinham empregada?

PENINHA – Claro, empregadas que a minha mãe chama de "inimigas pagas". Uma estragou uma estola dela. Ela se chamava Rosa..

JORGE – A empregada ou a estola?

PENINHA – Bom, voltando pra natureza e Ganchos. Quando eu viajei pela primeira vez, a natureza se revelou pra mim como verdadeiramente uma obra de Deus. Só via Deus na sua magnanimidade, foi com a Gigi, em 77, em Canela. Eu já pensei em convencer diversas pessoas a descrever a primeira viagem da vida delas. Pessoas bem mais velhas que nós, meio que ligados à Ana, esta turma dela, muitos deles são artistas e desenham muito e vários escrevem. Então eu propus pra eles um livro. Embora eu tenha "mixed feelings" com viagem, como o principal objetivo desta entevista é esclarecer vocês, que ainda vivem nas trevas. Mas a verdade é que a viagem abre o terceiro chacra. Evidentemente, todos vocês sabem que o corpo humano tem sete chacras, que são sete centros de energia. Sendo que o último deles se chama "O Olho todo vidente", aqui na cabeça, por isto todos os santos são representados com aquela auréola em volta. Mas aí nós vamos entrar no cristianismo, e o cristianismo é uma coisa horrorosa, tudo mal-entendido, em relação à India que tem 7 mil anos né? Então quando tu viaja e abre o terceiro chacra, aquelas coisas que tu vê tu veria se tu abrisse espontâneamente o terceiro chacra. Então eu abrindo o chacra, tive esta sensação de Deus, que apesar de ser muito legal foi por um método que não é o real, verdadeiro, como seria pelo ascetismo, que pelas posições da ioga tu faz ele subir até aqui, aí a coisa é a fuder, e eu experimentei as sensações de alguma forma, e algumas delas viajando, o que não é considerado válido espiritualmente. Vi tudo aquilo lá e aí virei um panteísta. E durante anos minha religião foi panteísta ou xintoísta, quando tu acha que a natureza é animada, se vocês viram Dersu Uzala, que é xintoísmo, que é considerada uma das religiões mais primitivas, uma das mais rasteiras, se é que existiria uma hierarquia. Dando um corte brusco, que eu sou um mau editor, a Gigi possui 180 hectares de praias em Santa Catarina e eu era casado com ela, desfrutava de tudo aquilo, porém eu desfrutava de uma forma zen, sem interesse, entregue ao equilíbrio absoluto com a natureza e nunca passou pela minha cabeça possuir sequer um pequeno torrão daquela gigantesca propriedade. Eis que certa manhã acordamos, viajamos e subimos ao pico culminante do nosso terreno. Infelizmente, havia um pequeno problema, embora eu, viajando, não tivesse notado: no pico, duas cercas de arame farpado, delimitando um certo limite, eu naquela contemplação de onde se viam oito praias, num pico de 286 metros, chamado pico do Risque, onde tem uma placa de bronze da Varig, pois é o mais alto píco do litoral sul do Rio Grande do Sul e se formou durante a Gondwana, aquele granito se elevando, um bilhão de anos atrás, formando aquela paisagem suntuosa, estávamos lá vendo tudo aquilo, índios carijós caminham, dois mil anos antes de Cristo, jesuítas se aproximam, 1637, vamos encontrar Manuel Rodrigues e Jerônimo Leitão, pela primeira vez com os Carijós, talvez tenha sido ali, naquele exato ponto, Cabeça de Vaca naufragou aqui, em 1541, partindo a pé numa jornada distante até Assunção pelo Piabiru, numa trilha indígena que tinha 60cm de largura e estava marcada, tudo isto passando ali na minha frente, quando de repente se aproxima um homem. Vestindo uma bermuda, uma calça e um cajado, se aproxima daquele mesmo lugar onde sua filha e seu genro viajam, bate o cajado no chão e diz: "Tudo isto é meu! Comprei por uma bagatela." E aí eu fiquei problemático. Até aquele dia eu era um cara legal.

GIBA – Aí tu virou de esquerda, é isto?

PENINHA – Tem uma cara bom na mesa. Aquele dia eu virei de esquerda, tudo era de todo mundo.

ZÉ PEDRO – E a estória do Tadeu?

PENINHA – Foi a primeira ou a segunda vez que eu fui com o Grêmio para o interior. Foi a primeira vez que uma língua de fogo do Espírito Santo desceu sobre a minha cabeça. A gente foi a um Gre-Nal aqui, eu e o meu irmão, numa época que o Grêmio perdia sempre, mas isto foi há muito tempo atrás, Giba Assis Brasil.

GIBA – Lembra o resultado do último Gre-Nal? (Inter 5×2)

PENINHA – Não me lembro, teve Gre-nal? De qualquer forma foi tanta humilhação… Mas foi bom aquele 5 a 2. Mas eu tinha certeza que ia ser 4 a 0 pro Grêmio. Eu fui ao Beira-Rio, com o meu irmão, eu tinha uns 11 ou 12 anos, o Tadeu foi em 72, e isto que eu vou contar foi em 71, o Inter entrou em campo, começou a aquecer e veio provocativamente em direção à torcida do Grêmio, quando eu vi o Lula, o ponteiro-esquerdo do Inter. Deus fez assim e mandou um raio de fogo de inspiração sobre a minha cabeça, acendeu a minha cabeça e eu disse assim: "Ula, Ula, ula, pau no cu do Lula", mas com tanta intensidade e genialidade, Da Vinci pintando na tela, que em instantes o estádio inteiro foi tomado por "Ula, Ula, Ula, pau no cú do Lula", fazia eco, eu me achei lindo e eu dizia "Deus, Deus, obrigado!"

GIBA – Eu quero deixar claro que eu já vi esta mesma descrição com o episódio do Tadeu. Então agora tu vai ter que inventar outra.

PENINHA – Tu que tá confundindo. A do Tadeu é da língua de fogo de novo. Bom foi a primeira vez que eu fui pro interior acompanhar o time do Grêmio, era de ônibus e era muito ruim. Chegamos no estádio às 11 da manhã e às 11h15 aconteceu uma coisa extraordinária. Morreu o pai do lateral direito do Inter de Santa Maria, Tadeu Menezes. Bom, aí, tá, morreu, né? Aí começou o jogo, houve controvérsias se ele ia ou não jogar , e aí o Tadeu numa demonstração de amor à camiseta – do Inter de Santa Maria! vai toma no cu, né? – resolve jogar. A bola cai perto do alambrado, estádio do interior, uma semi-língua de fogo veio e eu disse: "Tadeu, teu pai se fudeu!" E ele ficou muito mal, mas chegou a fazer um gol, foi 3 a 1 pro Grêmio.

LULI – Mas isto é coisa que se diga pro pai do cara?

PENINHA – Como não? Em futebol vale tudo.

JORGE – Mas tu acha que a vitória do Brasil na próxima semana ajudaria o Fernando Henrique a se eleger?

PENINHA – O meu ódio atual e já de um longo tempo ao Fernando Henrique, eu achava que era o cara mais preparado que já assumiu esta nação, e eu só voto em quem é maconheiro, mas maconheiro militante, que nem o Gabeira. Eu só voto no Gabeira, "Quem fuma, senta e cheira vota no Gabeira". Gabeira é meu ídolo, adoro Gabeira, venero Gabeira. Nos últimos anos eu não votei nenhuma vez, não fui, não justifiquei, vou ter que pagar uma multa. Uma vez eu já cheguei tão baixo, que eu já pedi pro Barrionuevo livrar minha cara lá, porque cara, vivo no outro mundo mesmo e em todos. Eu nunca tive esperança nestes políticos. Um dos poucos que eu votei foi no boiolão aí. Uma das primeiras coisas que eu fiz pela Zero Hora foi cobrir a Rio 92, e o Collor foi fodaço na Rio 92, foi um estadista total. Claro, sabemos hoje quem é, e sempre soubemos. Mas eu acho que o PT é catastrófico, mas é uma coisa que tem que ser testada em uso e já tá na hora.

JORGE – Tu acha a administração petista péssima?

PENINHA – Não acho péssima. Acho surpreendentemente legal, a mais legal que eu já vi, mas mesmo assim pobre, mas acho que tem coisas que eu não posso dizer porque vocês têm relações comerciais fortes com o PT e…

LULI – Tu pode dizer o que tu quiser…

JORGE – Nós não temos segredo nenhum…

PENINHA – Nem eu tenho segredo nenhum.

ZÉ PEDRO- Mas, quando tu fala do PT, tu fala como erudito, como se fossem todos ignorantes, sem cultura, tudo o mais…

PENINHA – Não, existe um bilhão de pessoas muito mais qualificadas e inteligentes que eu no PT, e de erudição também. O Tarso Genro e um monte de gente respeitável por um lado. Mas o Tarso Genro é desprezado dentro do PT, coisa inacreditável, muito reveladora. Eu convivi bastante com a base do PT, me disseram que o PT não tinha eleitores suficientes no bairro Moinhos de Vento, então precisava gente do Moinhos de Vento pra se inscrever no PT, quem me disse isto foi o Chico Daniel, um cara que vocês não conheceram…

GIBA E LULI – Conhecemos muito bem.

PENINHA – Ele espalhou que um grande amigo meu, o Luiz Fernando Flores era do MAC, mas isto eu vou escrever na minha auto-biografia. E este Chico Daniel era de esquerda total, uma figura patética, ele fazia alguma coisa de personagem malucão. O Luiz Fernando Flores era o cara mais careta do mundo, com um óculos horrível e o apelido dele era Babão. Esta pinta entrou na Zero Hora do mesmo jeito que eu, era indicado pela direção, então todos combinaram que iam destruí-lo, embora eu tivesse passado por este processo porque era amigo do Fernando Ernesto, cheguei na sala dele e disse: "Oi, tio, tem um emprego aí?" "Onde tu quer trabalhar?" "No esporte, porque o que sai de erro na Zero Hora…" "Chama o editor de esporte aí." O editor de esporte chamava-se Antonio Oliveira e tava nos Estados Unidos, cobrindo o torneio do Bicentenário da Independência, no qual tinha Neca e Beto Fuscão na seleção brasileira, um dos motivos que levaram o Brasil a ser campeão e o goleiro Taffarel, aquela barreira intransponível.

GIBA – Taffarel em 76, tá louco?

PENINHA – Era só pra ver se vocês tavam ligados. Daí o Boró foi chamado na sala do Fernando Ernesto, que disse: "Este é o Eduardo Bueno, vai trabalhar conosco no Esporte". Boró respondeu: "Mas nós não temos vagas". E o Fernando: "Este é o Eduardo Bueno que vai trabalhar conosco no Esporte". Aí os caras combinaram de me destruir durante 6 meses, ninguém falou comigo, um ano depois isto aconteceu com este Luiz Fernando Flores que entrou nas mesmas condições, e eu participei da destruição dele, feito um escroto, porque este Chico Daniel disse "Este cara é do MAC, Movimento Anti-Comunista". E aí era o seguinte: Era a maior seca de Porto Alegre, que até virou a música do Nei Lisboa : "Se esta seca durar mais um mês / vou-me embora para o Paraguai" . E este Luiz Fernando na saída da Zero Hora, pergunta "Vamos fumar lá em casa?". Nunca acreditei que ele pudesse fumar e descobri que era um dos maiores loucos de Porto Alegre.

LULI – E como foi a estória da prisão na Independência?

PENINHA – Esta estória tem que contar. Numa sexta-feira, o Augusto Nunes disse: hoje a gente tem que jantar com o fulano de tal lá, às 3 da manhã. "Não vou, são 3 da manhã, já falei pra Ana que eu vou pra casa". Saímos às 3 da manhã e fomos no Sargent Pepper´s. Quando eu saí, tinham quebrado o vidro do meu carro, roubaram a minha pasta e a minha agenda, onde tinha o telefone da casa do Bob Dylan, da casa do Crumb, da casa do Gilbert Shelton, da casa do Willian Bourroughs, da casa da Kim Basinger, todos conseguidos por mim, da casa do Tom Berenger, da Daryl Hannah, mas o que me interessava era o do Bob Dylan mesmo. Cheguei em casa, levei um esporro da Dona Ana, carro quebrado e sem agenda. Voltei pra Zero Hora na segunda-feira e disse que tinha sido roubado, e a minha secretaria Loraine disse: "Peninha quando é que nós vamos fazer estes documentos de novo?". "Só no dia em que eu for preso." Naquele dia, em que eu já tava queimado em casa e ainda tinha tomado um porre, o Augusto chegou pra mim e disse: "Vamos sair com o Gabeira." "Não, não vou sair com o Gabeira." Mas fomos para o Bar Líder e ficamos eu, ele e o Gabeira até uma da manhã, eu já de cara, achando que ia apanhar da Dona Ana. E o Augusto diz: "Não sei chegar no Hotel Everest, tu leva o Gabeira pra casa." Fui levar o Gabeira de cara já, e o Augusto saiu pra comer alguém, ele come uma mina por dia, em qualquer lugar que for, o que aparecer, inclusive a Roswita e a mim ele comeu várias vezes. E aí eu fui levar o Gabeira, parei na frente do Hotel, cinco pra uma, e o Gabeira engatou uma primeira, meu irmão, e tocou até às duas, era que nem eu falando, falando da minha relação com o Augusto, ele achava que o Augusto sugava energia de mim.

ZÉ PEDRO- Ele queria dar pra ti?

PENINHA – Não. Eu só vi o Gabeira com umas puta-mulher. Eu conheci o Gabeira dando em cima da Gigi, e a Gigi é uma puta mulher, principalmente de astral. E um dia, descendo a Mostardeiro, porque eu fiquei amicíssimo dele, depois fui eu que trouxe ele aqui pra Zero Hora, eu que inventei o nome da coluna dele, "Etc e tao", que é um nome do caralho, porque eu sou o maioral, que é uma coisa que está escrito no Peninha´s Paper, que é uma coisa que deu todo aquele trabalho, sou melhor que todas estas pintas juntas. Anyway, sai do hotel às duas, mas como vocês já agüentaram tudo isto eu vou ter que dizer uma coisa, que eu sei que vou me fuder, mas este jornal é feito pra fuder. O Gabeira disse assim: "Peninha há um componente homossexual na relação do Augusto Nunes por ti", que era uma coisa interessante. Mas descendo a Mostardeiro com o Gabeira eu disse: "Pô, Gabeira, já te chamaram de veado." "Mas eu sou veado mesmo, porra." Confesso que fiquei quase chocado com esta declaração. Mas confesso que eu adoro ele, tô pensando inclusive em casar com ele. De qualquer maneira, saí às duas da manhã e quando eu chego às duas e vinte na delegacia da Tristeza, conhecem aquela casinha pequeninha naquela praça?

GIBA e GERBASE – Uma cena do "Verdes Anos" foi feita ali.

PENINHA – Pois naquela praça tinha uma batida policial. Eu morava há três anos naquele lugar e nunca havia tido nenhuma barreira policial ali. Eu passava todas as noites naquele ponto, a esta hora ou depois, aí tem dois guardas e me fazem assim, me param e o cara diz pra mim: "Tudo bem?" "Não, tudo mal." "Documentos." "Não tenho nenhum", e naquele dia já tinha saído a Zero Hora, e o Dinho, que fazia a página três, tinha dado uma nota dizendo que eu tava desesperado com a perda do telefone da Kim Basinger, que depois o Paulo Santana repetiu, e por causa de ele ter dito isto, minha agenda apareceu. Tudo bem não, mas o meu "Tudo bem não" era o seguinte: "Eu vou apanhar da Dona Ana, eu sou uma besta.." . "Tudo bem, então o seu carro vai ser retido".

ZÉ PEDRO- Tu acha que tu é uma besta? Tu tava dizendo agora mesmo que tu era melhor que toda a editoria do Segundo Caderno.

PENINHA – Não, eu acho que sou uma besta, no fundo, no fundo eu sou uma besta. Eu sou um profissional talentoso, mas é muito fácil ser um profissional talentoso, principalmente se tu vive no Brasil. Escrever bem é muito fácil. É um monte de truque tolo . Acontece o seguinte, eu leio muito , tenho uma visão diferenciada do mundo, mas levo a minha vida como uma besta. Não consigo anotar telefone. E aí o cara disse: "Seu carro vai ser recolhido." "Tudo bem pode levar o meu carro". "Mas o senhor tem que ir junto." E eu disse numa boa: "Meu amigo, eu moro ali, o senhor sobe o morro, eu sou boy lá na Zero Hora." Esta parte é ficção mas o plano mental é perfeito. "Eu sou boy lá na Zero Hora e moro num casebre aqui, então se o senhor for até ali, o senhor vai falar com a minha senhora, que tá meio braba comigo faz tempo, e a gente é bem limpinho, uma negrinha muito limpinha, então o senhor leva o meu Passat, caindo aos pedaços, o senhor vê, um cara que tem um Passat, e me leva até ali, leva o meu Passat, pode ficar com ele. Evoluiu depois de algumas horas pro seguinte: "Eu sou DONO da Zero Hora, e eu moro numa mansão ali, e eu vou fuder contigo, eu vou destruir com a tua carreira, eu vou embora agora". "Não, tu tá preso". "Então tu me prende, me algema, tu vai me algemar, porque eu vou destruir contigo". Tudo isto por medo da nega véia, entendeu. Nestas situações, tu te torna um cara completamente macho. É que nem aquela estória do cara que tiraram todo o dinheiro dele, mas quando foram tirar a aliança, ele cagou os cinco bandidos a pau. "Mas como? o senhor nunca bateu em ninguém e cagou 5 bandidos fortíssimos a pau?". "É que, se eles tirassem a minha aliança, minha mulher não ia acreditar, ia achar que eu ia estar num motel, então eu dei em todos eles".

LULI – E tu tava com alguma coisa em cima na batida?

PENINHA – Eles nem olharam nada, o que eles queriam era documento. "Não, negócio é o seguinte, meu amigo, o senhor vai ter que me algemar. Eu tô resistindo à prisão. Eu vou te detonar." Eu já tinha até dito. "Tu conhece a Kim Basinger?". "Conheço". "Pois eu já fui na casa dela, há pouco. Fiquei nove horas com ela. E ela tava de bermuda, e eu não comi porque não quis, porque ela é muito feia e dinheirista e idiota, entendeu". O que é a mais pura verdade, vocês concordariam se tivesse visto, embora ela tenha melhorado. E aí, quando eu ia ser algemado, já eram 5 e 20 da manhã, o Rogério Mendelski, que mora na zona sul, vinha passando pra fazer o programa dele às 6 da manhã.

LULI – Mas que cu sair de um guarda pro Rogério Mendelski!

PENINHA – Ele olhou e disse: "Vocês tão loucos, tão prendendo um marajá da Zero Hora. AAAAhhhh. Eu era o boy e ele era o Rogério Mendelski, e eu tinha derrubado a coluna que ele tinha lá, uma coluna social que ele tinha, o que eu me orgulho de ter ajudado a derrubar, porque ele tem mais é que fazer este papel que ele faz aí , mas eu não tô fazendo juízo do valor do que ele faz, não tô me protegendo porque a estória do Rogério Mendelski iria mais longe, mas como eu sou muito dúbio de acordo com os conceitos de vocês, então tem algumas coisas do Rogério que são diferentes. Mas de qualquer maneira eu não me dou com o Rogério Mendelski, quer dizer dou : oi, oi. Até acho legal e isto é um aspecto penístico. "Vocês tão prendendo um marajá". "Pode ir embora doutor, pode ir embora doutor". Então foi esta a estória. No outro dia, voltei e contei esta estória pro Augusto, que foi na reunião de editores e contou esta versão, mas já falando de outro jeito, brincando porque ele tinha uma coisa de humor. Foi uma cagada dele, embora ele tenha dado umas muito piores deste tipo de falar pra aquela gentalha. Estas pintas deste jornal do sindicato, era uma gentalha imunda, completamente burra, torpe, tola, eu não queria estar dizendo isto porque vai contra o meu objetivo de ser um andarilho iluminado. Isto atrai carma pra mim, mas é isto, cara. E aí criaram a estória de que eu, o Augusto e o Gabeira tínhamos sido presos juntos por porte de cocaína. E o Gabeira foi muito engraçado: Ele dizia: "Porque eu não cheiro pó porra nenhuma , eu sou maconheiro, eu sou maconheiro"… E, eu, que apesar de tudo, acho o pó e o cigarro duas coisas do demônio, literalmente do mal, esta entidade que controla o elemental destas duas coisas são do mal…

GERBASE – Mas Peninha este teu livro que saiu da estória do Brasil, pela Folha e RBS..

PENINHA – Não, mas agora eu vou te responder quem foi que traduziu o "On the Road". A Gigi me ajudou muito. Ela traduzia à mão. O primeiro um terço do livro sozinha, porque eu não sabia porra nenhuma de inglês. Era um delírio da minha parte. Sabia inglês assim, tinha ido, tinha viajado, tinha falado. Tinha aprendido inglês por causa do Bob Dylan, entendeu? A Gigi tinha morado nos Estados Unidos e ela é mais inteligente pra livros que eu.

LULI – Tu tá conseguindo criar tua filha na macrobiótica?

PENINHA – Sim, ela não come animais mortos. Porcaria até come, assim como açúcar e farinha branca. Tem que comer, né? Não dá para dizer não come isto, não vai tomar guaraná. Eu acho que ela tem que comer carne algum dia na vida dela, até para saber. Mas eu acho que ela é muito espiritualizada, esta criança que nasceu. Quem conhece quadro de Krishna sabe. Quando queima incenso, ela entra em outra total. E foi um guru Hare Krishna americano na minha casa, outro dia destes, por muito acaso, a Lúcia é meio ligada aos Hares Krishnas, e ele precisava de um e-mail. Ele recebe tipo 40 e-mails por dia. Mas que filme patético aquele "Sete anos no Tibet". Horrível. E um guru na tua casa é uma coisa muito poderosa, porque eu ando com uma asa negra em cima de mim há mais de um ano. Botaram um puta olho em mim, tá muito ligado na coisa da Zero Hora. Fui até num centro espírita, a Lúcia primeiro jogou uns tarôs. A Lúcia fez três coisas diferente. Nas três não apareceu ela. Só aparecia eu, e os caras diziam: "Tem uma pinta assim, assim?" "Tem, por acaso é meu marido". "Mas, se este cara ainda tá vivo, o cara é muito forte, porque tem olho demais na pinta, ele tem duzentos raios em cima". Passei um período muito difícil de astral, de grana, de tudo.

ZÉ PEDRO- Tu vai voltar pro jornalismo?

PENINHA – De jeito nenhum. Eu vou me meter no século dezesseis. Eu vou ficar bem conhecido, embora não seja este o meu objetivo, por um lado é o de todo mundo. Não serei conhecido durante minha lifetime. Serei o artista incompreendido… Mas minhas limitações para fazer o que eu quero fazer são muito grandes. Mas eu posso fazer de um jeito, que não foi feito ainda no Brasil. Embora já tenha sido feito nos Estados Unidos. Quero escrever sobre os Bandeirantes, sobre jesuítas e bandeirantes, de 1500 a 1680.

ZÉ PEDRO – Mas não tentando fazer proselitismo, mas eu me lembro que tu sempre cultuou a cultura americana, mas agora tu fica falando dos bandeirantes, parece um brasilianista.

PENINHA – É um entrevistador brilhante. Matou, eu sou um brasilianista. Sou um americano que resolveu estudar o Brasil. Mas eu escrevi aqui no meu livro da História do Brasil, acho que ninguém se fragou…

GIBA – Olha que a Luli leu o livro todo.

LULI – E recomendo nesta edição do Não.

JORGE – Eu li bastante também.

PENINHA – (pegando seu livro na mão) Olha aqui os Brasilianistas : O melhor da estória do Brasil, tudo foi escrito melhor sobre o Brasil pelos americanos. Mas o Brasil é o pior e o melhor lugar do mundo ao mesmo tempo. É Yin-Yang. Embora existam lugares piores.

GIBA – Se pode dizer literalmente isto sobre o cinema americano.

PENINHA – Exatamente.

GIBA – Às vezes até no mesmo plano.

PENINHA – Como é bom conviver com gente inteligente, eu que vivo tão sozinho.

LULI – Porque tu não sai, né?

PENINHA – É. Eu venero os Estados Unidos, sou muito afim de escrever sobre os Estados Unidos, mas eles escrevem muito bem sobre si mesmos. Eu sempre digo que me acho o maioral, mas eu sei o meu tamanho de maioral. Aí tu pensa nos Estados Unidos, e é Gore Vidal, Truman Capote, Norman Mailer, algum dia eu poderei escrever como eles, não, em toda a minha vida eu não poderei escrever um décimo como eles.

GIBA – É igual à história do Borges, que disseram pra ele "Tu é o maior escritor do século". E ele respondeu: "Pois é, que século pequeninho".

PENINHA – Um quinto do Gore Vidal pra mim tava bom. E aí os americanos já escreveram sobre tudo. Então eu resolvi escrever sobre o Brasil primitivo, porque eu tenho horror do Brasil atual. Tenho vergonha de morar aqui.

ZÉ PEDRO – Pô, Peninha, o Bob Dylan tocou no Opinião.

PENINHA – Por causa do Bob Dylan, não pelo Opinião.

LULI – Por causa dos dois.

GERBASE – O Bob Dylan no Opinião é o equivalente ao Papa na frente da Casa Catraca.

LULI – Não, semelhante ao Papa na catedral da Praça da Matriz.

(Peninha atende o telefone em inglês e diz que vai mandar um trabalho em duas horas, o que é mentira porque a entrevista durou mais de 3 horas).

PENINHA – Vou ter que ir daqui a pouco. Prometi entregar o projeto da minha vida, daqui a duas horas.

GIBA – Quer uma força?

ZÉ PEDRO – Alguém no Brasil te interessa?

PENINHA – Eu só consigo me interessar pelo passado, sou um homem atrás do meu tempo. Tenho muito pouco interesse pelo futuro. Tenho certo receio do presente, porque eu sou muito incompetente para ver o que tá acontecendo. É como num jogo, eu só sinto na hora, mas só consigo comentar depois que o jogo acabou. O passado me deixa mais seguro, é esta estória proustiana, eu repassava a minha vida o tempo todo, tudo.

LULI – Peninha, tu não foi pra Três Coroas ver o guru lá?

PENINHA – Fui, mas o guru é carnívoro, ele é legal, encontrei ele na saída dos "Sete anos no Tibet" porque faltou luz, ainda bem para ele, né? Mas eu não gostaria de viver no Brasil, e sim nos Estados Unidos, todos os documentos para o meu trabalho estão lá, mas eu gosto da terra brasileira, da geologia, o meu amor pela terra brasileira é muito grande.

ZÉ PEDRO – Mas nem os absolutos, tu gosta? Chico Buarque, por exemplo?

PENINHA – Eu tenho horror do Chico Buarque. O pai dele sim , o Sérgio Buarque de Holanda. O Chico me deprime total, me joga, é que nem um aspirador. Já conheci ele bêbado, inchado. O Caetano eu só ouço se alguém põe.

 

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