Não coma nada que tenha rosto

Bem-vindo ao mundo peculiar de Nina Rosa, militante incansável do movimento de proteção aos animais

Gisela Anauate

A PROTETORA EM AÇÃO 'Também eu preciso de proteção', diz ela

Nina Rosa Jacob, diretora do instituto de proteção animal que leva seu nome, é dona de uma antiga caminhonete Hilux. O carro é uma síntese de sua personalidade: a cor branca suja de lama denota a disposição para o trabalho árduo. O porte imponente mete medo nos opositores. O grande espaço interno é o coração capaz de abrigar todos os bichos. Os adesivos colados nos vidros e no pára-choque trazem mensagens do tipo: 'Não coma nada que tenha um rosto' e 'Justiça pelos animais'. Não há provavelmente ninguém no Brasil que lute tão intensamente pelos animais como Nina Rosa.

Aos 62 anos, moradora de São Paulo, Nina é uma mulher de notável energia. Antes de ser ativista, foi modelo e produtora de moda. A postura habitualmente elegante, típica de quem atuou no mundo das passarelas, está comprometida por uma fratura no joelho. Por conta dela, está andando de bengala. E tomando antiinflamatórios, o que não é rotina para quem optou pela medicina alternativa. 'O problema no joelho é um sinal de que eu tenho de parar um pouco e pensar no futuro', diz ela, com voz e sorriso suaves. Nina afirma que já teve sinais como esse em outros momentos de sua vida. O mais decisivo, segundo ela, foi aquele que a levou a largar a carreira de produtora. 'Não agüentava pensar no salto que a modelo ia usar como a coisa mais importante do mundo', diz. Daquela época, sobraram alguns fiéis amigos. Um deles é a atriz Sílvia Pfeifer, que trabalhou como modelo em vários desfiles produzidos por Nina. 'Ela sempre foi muito espiritualizada, ao contrário das pessoas do mundo da moda', diz Sílvia.

Como modelo, Nina estrelou campanhas de marcas como Rolex e Johnson & Jonhson's. Ainda aparecia em revistas de moda quando resolveu virar vegetariana. Com 33 anos e morando em Nova York, ela conta que foi almoçar com uma colega num restaurante vietnamita. A garota, olhando o cardápio, teria dito: 'Não como carne, pelos animais'. Segundo Nina, foi um estalo. 'Tinha amigos vegetarianos, mas jamais havia ouvido algo que fizesse tanto sentido.' De lá para cá, diz, nunca mais colocou um bife na boca. Não foi fácil a aceitação da família, afirma ela. Um de seus irmãos, Nicolau Jacob Neto, cria gado para abate em uma fazenda em Bonito, Mato Grosso do Sul. 'Ela nunca tentou fazer com que eu virasse vegetariano', conta ele. 'E eu nunca tentei fazer com que ela comesse carne.'

Nina se dá melhor com animais do que com gente. Mas isso não a incomoda

No caminho da espiritualidade, Nina transitou entre correntes esotéricas e religiões como budismo e espiritismo kardecista. Só aos 50 anos diz ter percebido que cuidar do bem-estar animal era a grande missão de sua vida. Ela conta como começou uma jornada solitária recolhendo animais domésticos abandonados na rua. 'Dava banho, curava feridas, vacinava', diz. Nessa época, já havia se tornado vegana, vegetariana radical que renega todos os produtos de origem animal. O acupunturista e psicólogo Fernando Travi, amigo de Nina, lembra uma cena que mostra a relação apaixonada dela com os animais. Eles viajavam juntos quando um passarinho bateu na parte traseira da caminhonete. Nina, que dirigia, imediatamente freou. 'Ela deu ré no meio da estrada e desceu para pegar o passarinho na pista, mas uma carreta o atropelou', diz Travi. 'Ela pegou o passarinho, foi mata adentro, atravessou uma cerca e o enterrou ao pé de uma árvore.'

O Instituto Nina Rosa, criado em 2000, começa a gozar de prestígio internacional entre os defensores de animais. 'Um dos grandes méritos de Nina é sua visão holística: não apenas respeita profundamente os animais, mas o meio ambiente e as pessoas', diz Elizabeth MacGregor, representante da WSPA. Trata-se da maior associação de grupos defensores de animais em todo o mundo. O WSPA atua em 130 países. 'O Instituto Nina Rosa é referência no Brasil e começa a ganhar visibilidade lá fora', afirma Elizabeth.

PASSADO ELEGANTE Nina Rosa estrelou campanhas publicitárias e apareceu em revistas femininas. Foi também produtora de desfiles no exterior

Nina sonha com um mundo vegetariano. Recentemente ela produziu o documentário A Carne É Fraca, no qual são mostradas imagens de animais prestes a ser abatidos. Algumas cenas são chocantes. Por exemplo, uma em que pintinhos são jogados numa caixa para depois serem moídos. Nina afirma ter estado em todas as filmagens. O vídeo vem provocando alguma comoção. Há uma comunidade no Orkut com 860 membros dedicada a discuti-lo. Não são poucos, ali, os depoimentos de quem diz ter virado vegetariano depois de ver o documentário.

Nina parece se dar melhor com os animais do que com as pessoas. Isso a incomoda? A resposta mais provável é não. 'Não me relaciono bem com gente', admite. 'Mas tenho facilidade total em lidar com animais, seja uma formiga, um boi ou um cachorro. Sempre me senti fora do padrão, mas, quando percebi que havia outras pessoas que pensavam como eu, foi maravilhoso.' Nina faz campanha contra o consumo de tudo que no seu entender afete o meio ambiente. 'Meu maior sonho é que floresça a consciência de que a natureza é sagrada', diz ela. 'Minhas ações mexem com muitos interesses. Preciso, também eu, de proteção.' Essa última frase é acompanhada de um riso e de uma intenção brincalhona: 'Vou tatuar um dragão no peito para cuidar de mim'.

VEGETARIANOS NOTÁVEIS

Fotos: Thaís Antunes/ÉPOCA e reprodução

Fonte: Revista Época

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