Mude a sua dieta e salve a Amazônia

Ambientalistas relacionam o desmatamento na região aos hábitos alimentares dos moradores dos grandes centros urbanos e levantam o debate sobre a importância do consumo consciente

Pablo Nogueira

Militantes do Greenpeace protestam em frente a uma lanchonete do McDonald's na Inglaterra: rede de fast- food usa soja brasileira para alimentar frangos

Homens e mulheres com fantasias de galinha de 2 metros, protestando e carregando faixas com slogans. Foi essa a cena com que se depararam os gerentes de unidades do McDonald's de sete cidades da Inglaterra quando chegaram pela manhã para abrir suas lojas, em 6 de abril do ano passado. As lojas estavam cobertas de folhetos que mostravam Ronald McDonald segurando uma serra elétrica. Algumas "aves" entraram nas lanchonetes e se acorrentaram às cadeiras, sendo retiradas pela polícia. Por trás do fuzuê estava a organização ambientalista Greenpeace, que buscava chamar a atenção para seu mais recente relatório, no qual acusa as redes de fast-food de contribuir para a devastação ambiental. Resultado de um ano de investigações em dois continentes, o texto chama-se "Comendo a Amazônia" e mostra como a soja plantada em zonas desmatadas era importada pelas cadeias de lanchonetes para alimentar os frangos criados em cativeiro na Europa para rechear McChickens. "Como detectamos que a maior parte da soja brasileira vai para a Europa, queríamos alertar o cidadão comum para o fato de que ele, de alguma forma, está participando da destruição da Amazônia", diz Tatiana Carvalho, responsável pela campanha do Greenpeace contra a soja predatória na Amazônia.

Seis horas depois do início do ataque das galinhas, a direção do McDonald's ligou para a coordenação do Greenpeace e pediu trégua. O resultado foi uma parceria inesperada e poderosa. A pressão exercida pelos dois fez com que os maiores responsáveis pelo comércio de soja no Brasil – os grupos internacionais Cargill, ADM, Bunge, Dreyfus e o nacional Amaggi – se reunissem para debater o tema. Em julho do mesmo ano, as duas principais associações de plantadores de grãos do Brasil anunciaram uma moratória de dois anos para o financiamento da soja plantada em terra desmatada depois daquela data. Ou seja, não haveria dinheiro para bancar a derrubada de mais floresta. A moratória ainda está em vigor, mas os resultados só devem começar a aparecer no ano que vem. "Mas já podemos ver que em regiões onde a soja estava avançando muito rápido, como nos arredores de Santarém, no Pará, a expansão diminuiu de um ano para cá", diz Tatiana.

Gabriel, 5 anos, parou de comer carne vermelha depois que teve aulas de ecologia na escola: aos poucos, o consumo consciente ganha espaço

A campanha do Greenpeace é na verdade a expressão mais bem-sucedida de um debate que aos poucos ganha espaço entre os ambientalistas. Será necessário mudar a nossa dieta a fim de preservar o planeta? É o que sugere João Meirelles, da ONG Instituto Peabiru. Com mais de duas décadas de atuação no ambientalismo, Meirelles diz que o foco do Greenpeace está equivocado e que é a pecuária, e não a soja, o principal vilão do desmatamento. E sustenta seu discurso com números: dados do Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia) mostram que 77% das áreas desmatadas na Amazônia Legal se destinam à criação de gado. Entre 1990 e 2003 o rebanho total da região subiu de pouco mais de 26,6 milhões para mais de 64 milhões de cabeças, ou 140%. "Trata-se do maior avanço da pecuária sobre uma região no planeta", diz Meirelles. "Cerca de 85% da carne produzida na Amazônia se destina ao mercado interno, principalmente do Sudeste e Sul. São Paulo, Minas, Rio e Paraná são os grandes responsáveis por comer a Amazônia", afirma Meirelles, que, aliás, vem de uma família de dez gerações de pecuaristas e já administrou fazendas de gado antes de aderir ao ativismo ecológico. Agora que mudou de lado, ele quer conscientizar as pessoas. "Vale a pena destruir a Amazônia em troca de uma dieta carnívora?"

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"A pecuária está crescendo na Amazônia, e vai crescer ainda mais. A lei diz que podemos explorar 20% da Amazônia. Ou vamos transformar a região numa reserva internacional? Aí cabe perguntar aos outros países, principalmente aos desenvolvidos, o seguinte: se eles puderam explorar o território deles, por que não podemos fazer o mesmo com o nosso?", diz Nehmi. Ele também refuta a idéia de mudar a dieta para combater o desmatamento. "O verdadeiro problema é o crescimento populacional, que acarreta aumento no consumo. Posso aceitar usar menos celular ou andar menos de automóvel para preservar o ambiente. Mas pedir a um homem que pare de comer não faz sentido."

A preservação da Amazônia não é o único argumento para defender mudanças na dieta. Num estudo publicado em julho na revista "Earth Interactions", os geólogos americanos Gidon Eschel e Pamela Martin, da Universidade de Chicago, avaliaram como o consumo médio de carne pelos americanos se reflete na emissão de gases de efeito estufa, como metano e óxido nítrico. Segundo eles, o total de metano e óxido nítrico produzido pela pecuária nos EUA jogou na atmosfera o equivalente a 232 milhões de toneladas de CO2 apenas em 2003. É como se, graças a sua dieta, cada um dos 291 milhões de americanos fosse individualmente responsável pela emissão de 800 kg de CO2. Os pesquisadores dizem que o americano que optar por reduzir o consumo semanal de hambúrger, passando de dois para um, conseguiria diminuir em 100 kg de CO2 sua participação na emissão dos gases. O estudo mostrou também que, mesmo o consumo de carnes brancas como frango e peixe, pode ter impactos importantes sobre o efeito estufa. "Há fontes ocultas de emissões de gases que estão relacionadas a escolhas que fazemos diariamente, mas sem consciência", afirma Pamela, que se define como 95% vegetariana.

Como salvar o planeta?

Colheita de soja em Mato Grosso. Desmatamento na região já bateu o 1,25 milhão de hectares

Talvez essa virada dietética já tenha começado. Em julho, o beatle Paul McCartney declarou em entrevista que "a Amazônia está sendo desmatada pelo gado de hambúrgueres" e fez uma defesa do vegetarianismo. Aqui no Brasil, o pequeno Gabriel Ornelas, 5 anos, aderiu à onda desde o ano passado, quando aprendeu na escola que os puns da vaca contribuem para o aquecimento. A mãe, a psicóloga carioca Liana Fonseca, diz que o filho nunca foi lá muito fã do alimento. Mas isso não diminui sua precoce consciência ambiental, que se revela também em outros momentos. "Certa vez, ele viu um amigo do pai jogando lixo na rua e explicou a importância de fazer a coleta correta. De outra, pediu à empregada para não jogar o óleo na pia", lembra a mãe. Indagado pelos professores sobre ações que podem salvar o planeta, Gabriel sugeriu carros menos poluentes, coleta seletiva e "compartilhar brinquedos com as criancas pobres".

Bravo, Gabriel. A necessidade de consumo consciente – seja de brinquedos, de carros, ou de comida – é uma realidade com a qual temos de conviver. Mesmo quem não pensa em mudar hábitos alimentares não pode mais se furtar a avaliar os impactos ambientais de suas opções cotidianas. O planeta agradece.

PARA LER
– "O Livro de Ouro da Amazônia", João Meirelles. Ediouro
– "Comendo a Amazônia", Greenpeace.

PARA NAVEGAR
– Relatório do Greenpeace "Comendo a Amazônia"
– Livro "Pecuária na Amazônia: tendencias e implicações para a conservação"

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Terra de graça

Queimada na Amazônia: Brasil desmatou 3,2% da área total da floresta apenas nos últimos cinco anos

O avanço da pecuária sobre a Amazônia está sendo acompanhado de perto por Paulo Barreto, pesquisador sênior do Imazon, autor de vários estudos e livros sobre o tema. Ele conta que, até 1964, o rebanho da Amazônia Legal contava 1,5 milhão de cabeças. O processo de crescimento começou com a decisão dos governos militares de abrir estradas na região na década de 1970. O salto veio mais tarde. A Constituição de 1988 aprovou a criação do Fundo Constitucional do Norte, que oferece crédito agrícola a taxas que podem chegar a 6% ao ano. A isso soma-se o fácil acesso à terra na região. Além de ser mais barata – com o dinheiro para comprar 1 hectare em São Paulo é possível adquirir até 15 em Rondônia -, ela pode, em alguns casos, sair de graça, devido ao pouco controle do estado brasileiro sobre a região. "Alguns fazendeiros ocupam terra pública e tentam legalizar a produção, mas o processo burocrático pode levar 25 anos. Enquanto isso, eles continuam por lá. Outros usam documentos falsos e se apossam de uma área", diz Barreto. "Isso é quase um subsídio público."

Desmatar é mais barato
Barreto afirma que esse acesso barato ou mesmo gratuito age de maneira a estimular a expansão. "Na hora em que quer aumentar a produção, o proprietário tem duas opções: ou investe em produtividade, gradeando o solo, comprando maquinário e investindo em genética, ou adquire mais terra, desmata e segue no modelo de criação extensiva. Ao fazer a conta ele vê que o modelo extensivo sai muito mais barato. Essa fronteira aberta é um incentivo econômico perverso ao desmatamento", diz.

Desde o final da década passada, o mundo vem assistindo ao crescimento econômico dos chamados países emergentes, como a China e a Rússia. Esse crescimento se reflete num aumento mundial da demanda por carne. Simultaneamente, regiões exportadoras, como os EUA e a União Européia, tiveram seu acesso ao mercado internacional reduzido por conta da proliferação do mal da vaca louca em seus rebanhos. Os produtores do centro-sul do Brasil aproveitaram a oportunidade, e hoje somos o principal exportador mundial, mandando para fora 25% do que se produz por aqui. "Mas não houve desabastecimento do mercado interno. O avanço sobre a Amazônia permitiu aumentar a produção e compensar as exportações", diz Barreto. Para ele, a proposta de redução de consumo de carne por parte das populações do Sul poderia, sim, ter um impacto importante na questão do desmatamento. "Mas sou cético quanto à possibilidade de isso acontecer. Se o governo agisse com mais firmeza na questão fundiária e revigorasse a fiscalização, já poderia conter a expansão do modelo de pecuária extensiva na região."

Boi fez história no Brasil

Inspeção de carne no RS antes de exportação. Consumo mundial em 2005 foi de 265 milhões de toneladas

Para Victor Nehmi, do Instituto FNP – uma das principais consultorias de pecuária do País -, o crescimento da atividade na Amazônia segue uma tendência que faz parte da história nacional. "Os primeiros bovinos chegaram ao Brasil ainda no século 16, entraram pelo Nordeste e abriram o País. É natural que a produção migre para terras mais baratas. Hoje os pecuaristas estão sendo expulsos de estados como São Paulo ou Minas e se realocam em lugares onde o hectare é mais barato, o que viabiliza a produção extensiva. Não é consequência do aumento da exportação", diz. Ele também contesta os cálculos que estimam o número de bovinos para a Amazônia Legal, pois dentro dessa definição entram também parte do Maranhão e os estados de Tocantins e Mato Grosso.

Este último abriga sozinho 22 milhões de bois. "É um erro contabilizar o rebanho do Mato Grosso, pois o estado abriga áreas que possuem outro tipo de vegetação, como o cerrado", afirma. Para avaliar o crescimento da pecuária na floresta, Nehmi prefere trabalhar com o número do rebanho calculado por sua consultoria para os estados da região Norte do País. Esses números sugerem um crescimento mais modesto, de 20 milhões de cabeças em 1998 para 28,5 milhões hoje.

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