Minha vida e minhas experiências com a verdade – Gandhi

Acompanhar os caminhos de Gandhi, no final o século XIX, em busca de uma alimentação ética, saudável e "espiritual" é mais do que curioso; seu relato coloca-nos em contato com outra dimensão do vegetarianismo. Impossível ler sua biografia e continuar o mesmo. Tente. Aqui, reproduzimos apenas um trecho do livro; mas ele dá uma dimensão da grandeza e profundidade dos ideais do Mahatma.

O livro Minha Vida e Minhas Experiências com a Verdade, Mohandâs Karamchand Gandhi, você encontra nas livrarias e bibliotecas.

 
"17. Experiências de dietética"

Á medida que me estudava e me escrutava mais atentamente, a necessidade de modificar-me, em profundeza e em superfície, impunha-se-me cada vez mais. Desde que reformei inteiramente as finanças e o meu modo de vida – ou mesmo antes disso – procurei mudar de regime alimentar. Percebi que os autores que tratavam do vegetarianismo tinham examinado muito minuciosamente o problema, abordando-o sob o ângulo da religião, da ciência, da prática e da medicina. Do ponto de vista da ética, haviam chegado à conclusão de que a supremacia do homem sobre as espécies animais inferiores não implicava que a humanidade considerasse estes últimos como presas, mas que o tipo mais evoluído protegia o inferior, e que havia auxílio mútuo entre eles, assim como de homem para homem. Tinham feito ressaltar também essa verdade, a saber, que o homem não come por prazer, mas para viver. E alguns dentre eles, em conseqüência, propunham e efetivamente praticavam a recusa de tocar não somente em carne, mas também em ovos e leite. Do ponto de vista científico, alguns haviam concluído que a estrutura do corpo humano provava que o homem não tinha sido feito para a alimentação cozida, mas era um animal frugóvaro; que não fora feito para consumir senão o leite materno, e que, possuindo dentes, devia entregar-se à alimentação sólida.

Do ponto de vista médico, esses autores propunham que se abolissem todas as especiarias, todos os condimentos. Referindo-se a argumentos práticos e de economia, demonstraram que o regime vegetariano era o menos dispendioso de todos. Esse conjunto de considerações teve o seu efeito sobre mim e travei conhecimento com vegetarianos desses diferentes tipos nos restaurantes do regime que eu freqüentava. Existia na Inglaterra uma Sociedade Vegetariana, que publicava o seu boletim semanal. Tornei-me assinante desse boletim, inscrevi-me na Sociedade e não tardei a surpreender-me membro do Comitê Executivo. Aí entrei em contato com os que eram considerados pilares do vegetarianismo e lancei-me em experiências pessoais de dietética.

1889

Deixei de consumir doces e condimentos que recebera de casa. Tendo mudado de direção o progresso do meu espírito, a minha paixão pelos temperos esgotou-se por si mesma. Adorava agora os espinafres cozidos que me haviam parecido insípidos em Richmand, cozinhados sem condimentos. Muitas outras experiências semelhantes ensinaram-me que a verdadeira sede do paladar não é a língua, mas o espírito.

Bem entendido, o argumento econômico estava sempre diante dos meus olhos. Havia, naquele tempo, um grupo que considerava nocivos o chá e o café, e preferia o cacau. Convencido como estava de que não se devia consumir senão os artigos necessários ao sustento do corpo, abandonei o chá e o café, de modo geral, e os substituí pelo cacau.

(…) Na Inglaterra, encontrei três definições de carne. Segundo a primeira, só tinha direito a esse nome a carne dos pássaros e a dos animais. Os vegetarianos que a aceitavam abjuravam a carne dos pássaros e dos animais, mas comiam peixe, para não falar em ovos. De acordo com a segunda definição, a palavra carne aplicava-se à carne de toda criatura viva; não se pensava, pois, em tocar em peixe, mas os ovos eram permitidos. A terceira definição englobava não somente a carne de toda criatura viva, mas igualmente os seus frutos, conseqüentemente o leite e os ovos. Seu eu me ativesse à primeira, poderia comer tanto os ovos como o peixe. Mas estava convencido de que a definição adotada por minha mãe era a que eu devia observar. Se, portanto, quisesse cumprir o voto que tinha pronunciado, devia renunciar aos ovos. Renunciei a eles, Foi uma dura privação, pois que a mais simples indagação provava que, mesmo nos restaurantes vegetarianos, os ovos entravam na feitura de muitos pratos. O que significa que, salvo nos casos em que eu sabia de que se tratava, tinha de decidir-me, não sem constrangimento, a perguntar se tal ou qual prato continha ovo – porque numerosos pudins e bolos não estavam isentos dele. Mas, se a revelação do que era meu dever me impunha essas dificuldades, simplificava também a minha alimentação. Simplificação que, por sua vez, me causava muitos aborrecimentos, pois tive de renunciar a diversas iguarias pelas quais tomara gosto. Essas dificuldades foram passageiras: a estreita observância de meu voto proporcionou-me delícias interiores evidentemente mais sãs, mais sutis e mais duradouras.
(…) O entusiasmo do neófito pela fé que acaba de abraçar é maior do que o da pessoas que nasceu na mesma religião. O vegetarianismo representava então, para os ingleses, um culto inédito. E igualmente para mim: como já tivemos oportunidade ver, eu era, ao chegar, um carnívoro convencido, e a minha conversão intelectual ao vegetarianismo devia vir mais tarde. Cheio de zelo dos novos convertidos, decidi criar um clube vegetariano no bairro em que vivia – Baywater. (…) O clube prosperou algum tempo, mas extinguiu-se ao cabo de poucos meses, porque, fiel ao costume de mudar-me, periodicamente, deixe o bairro. Não obstante, essa breve e modesta experiência instruiu-me, de modo ligeiro, sobre a organização e a direção de uma instituição."

 
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