Minha primeira década de vegetarianismo

Em 2006 eu completo 10 anos de vegetarianismo, contrariando previsões catastróficas que determinavam minha morte, desnutrição ou debilidade mental severa.

Eu não sou o tipo de pessoa que fica saindo por aí tentando converter quem está ao seu redor para seguir sua linha de raciocínio. Por este motivo eu jamais catequizei ninguém. Acho que cada um faz o que quer de sua vida. Entretanto, aos que se interessavam e perguntavam o motivo de minha escolha, eu honesta e francamente respondia.

Apesar de eu jamais interferir na postura de ninguém, muitas pessoas chegavam até mim com suas dissertações e ponderações. Suas críticas não perguntadas e suas opiniões não queridas chegavam até mim em avalanches, o que eu despretensiosamente sempre ouvi, com o ar daqueles que sempre procuram aprender, mesmo na escola dos ignorantes.

E dentro dessa postura eu passei os últimos 10 anos de vegetarianismo, uma opção de vida com a qual me identifiquei totalmente. Não houve apenas um motivo para esta escolha: houve uma conjunção de fatores. Fatores que para mim pesaram, mas que para outros talvez não sejam relevantes. Aos que não concordam comigo, eu reservo-lhes o direito de seguirem suas vidas sem maiores culpas. Não sou a dona da verdade.

Como comentei no texto Cerne Bom, Cerne Ruim, não existe bem, não existe mal: existe aquilo que nos equilibra, e aquilo que nos desequilibra. Pois bem. Em minha jornada eu identifiquei aquilo que me desequilibrava, e aquilo que me equilibrava. Ao me deparar com os conhecimentos que me equilibravam, eu imediatamente me identifiquei, adotei, "vesti". E assim foi com o vegetarianismo.

Até 1996 eu possuí a mesma alimentação de meus pais, onívora. De tudo comia, sem maiores preocupações. Entretanto, ao chegar na adolescência, eu precisei mudar. Como boa adolescente que fui, tive minha fase de desequilíbrio, descontrole, ou até mesmo… desespero. Havia coisas erradas, sentimentos errados, valores errados. No meio de toda aquela tempestade, um anjo apareceu em minha vida e me encaminhou para que eu tivesse aulas de yôga (é, aquela com o acento circunflexo no "o"). Fiz apenas 2 meses de yôga, mas esse curto período foi suficiente para que eu lá encontrasse o conhecimento necessário para me reequilibrar. Lá encontrei orientações alimentares, declarações francas sobre os fundamentos filosóficos dessa escolha. E então para sempre parei com todo tipo de carne, incluindo-se peixes…

Contrariando a expectativa de alguns, eu não morri. Ao contrário: ao ficar mais equilibrada, vários problemas de saúde que tive desapareceram (incluindo-se uma enxaqueca hereditária que, dentre outras coisas, fazia-me enjoar freqüentemente). Quanto ao aspecto nutricional, para que não haja dúvidas: anualmente faço um check-up. Os médicos que me atenderam (3 diferentes até hoje) são unânimes em dizer que eu tenho uma saúde de maratonista. E não é falácia: faço rigorosamente 1,5h de caminhada/dia, no ritmo em que meu calçado permitir. E tenho disposição para me exercitar muito mais, apenas não o faço porque tenho noção de equilíbrio, e excessos não são bem vindos. E meu trabalho exige muito raciocínio, pois trabalho com produção de textos, animação e programação, e tiro de letra. Não tenho qualquer sinal de desnutrição, tenho ossos, sangue e mente sãs. Reflexo de uma dieta equilibrada. Assim como no onivorismo, também no vegetarianismo é necessário ter uma dieta equilibrada para a manutenção da saúde. Todos os grupos alimentares devem estar presentes, sem excessos.

Assim como um onívoro que se alimenta primordialmente de carne tem problemas nutricionais graves (colesterol alto, obesidade, falta de vitaminas, etc), um vegetariano que tem uma dieta pobre, baseada em, por exemplo, batatas fritas e arroz, também terá problemas sérios. Todos precisam que ter cuidado nutricional.

Uma dieta com proteínas, carboidratos, sais minerais e vitaminas é essencial para todos os seres humanos. No caso dos vegetarianos, existem fontes vegetais para se adquirir os aminoácidos complexos presentes em carnes: soja, feijão e outros alimentos possuem essas propriedades. O único componente que realmente PODE trazer problemas a um vegetariano QUE NÃO COME NADA DE ORIGEM ANIMAL (ou seja, não come nada de laticínios nem ovos) chama-se vitamina B12.

A vitamina B12 está presente no capim sujo (especificamente: com cocô) que as vacas comem. É produzido por microorganismos. Esse capim sujo entra no trato gastrintestinal das vacas e lá é absorvido pelos seus intestinos, entrando na carne e no leite. E os microorganismos podem ficar no intestino da vaca se reproduzindo e continuando a produzir B12.

Os microorganismos podem passar da vaca para o ser humano pela carne. Ao entrar no trato intestinal humano, da mesma forma que com a vaca, os microorganismos podem se fixar e continuar a produzir B12. Por isso, quando temos uma pessoa que não ingere nada de origem animal, ela pode "milagrosamente" não ter carência de B12. São os microorganismos que se fixaram em seu intestino e estão fazendo o serviço.

Existe uma forma de um vegetariano que não come laticínios nem ovos conseguir ter B12: não lavando bem seus vegetais (ou seja, mantendo um pouco de cocô). Como isso é nojento e perigoso, porque além da B12 podem vir outros microorganismos não amigáveis junto, é recomendado a esses vegetarianos contarem com a sorte de seu intestino ter os microorganismos produzindo B12, e fazer exames periódicos para ver se está tudo certo. Caso não esteja, pode ser necessário tomar algum suplemento vitamínico. Felizmente, esse não é meu caso.

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