Milho e soja diferentes

 

Enquanto degustamos o licor de laranja, a conversa prossegue. A ‘situação normal da soja’, em 2007, parece ser bem distinta da normalidade conhecida até o final da década de 1990. Como bem sabemos, não há nada de errado com o milho e a soja em si. São duas espécies extraordinárias. A soja é, há milhares de anos, uma espécie sagrada na China. O mesmo ocorre com o milho na América Central há milênios. Elas integram o fundamento de culturas muito diversas. É o modelo dominante – a monocultura destas duas espécies – que traz morte e destruição. Sidimar relata: “Até uns dez anos atrás, eu ainda via os agricultores cultivarem milho e soja em consórcio. Como milho e feijão.” É realmente um consórcio extraordinário: o feijão fixa o nitrogênio gratuito do ar e o fornece ao milho. A soja ou outras fabáceas (leguminosas) fornece proteínas. O milho fornece carboidratos (energia) e muito mais. No Brasil, o milho não é destinado apenas para ração animal, como na Bélgica, mas para o preparo de polenta e outros alimentos nutritivos. Na Guatemala e em muitos outros países, o feijão e o milho ainda são cultivados em consórcio. No Brasil ainda vejo, na propriedade de muitos agricultores familiares, abóboras cultivadas em meio ao milho. As recordações continuam: “Os agricultores armazenavam, cuidadosamente, as sementes de suas variedades de soja. Atualmente, quase toda a soja é plantada simultaneamente e colhida quase na mesma época. Observa-se muita movimentação no mercado de máquinas agrícolas. É claro que isto é interessante para a indústria, que vende um número maior de colhedeiras; afinal, todos querem colher na mesma época. Antigamente, as pessoas eram mais espertas: as diferentes variedades de soja permitiam que soja e milho pudessem ser semeados em épocas diferentes na mesma safra. Até dez anos atrás, era possível colher soja de março a junho. É claro que a colheita era manual, pois era em sistema de policultivo. A mecanização e, principalmente, o monopólio das sementes acabou com isso.”

Outra pessoa continua: “Os sistemas estão se dando as mãos. Há vários anos utilizamos o sistema de plantio direto (semeadura direta após a colheita da cultura anterior, sem arar o solo), o que é bom. Mas, como é obrigatório fazer o plantio numa determinada época – em outubro –, a vegetação de inverno ainda não secou. Neste sistema, o solo não é mais arado – o que é um grande progresso, pois ocorre menos erosão. Mas, como a soja precisa ser plantada em outubro, os fazendeiros forçam a morte da vegetação de inverno aplicando Roundup ou outro herbicida à base de glifosato. A erosão diminuiu, mas o uso de agrotóxicos aumentou. Eles deviam voltar a utilizar variedades de soja que podem ser plantas em novembro ou dezembro, aí não haveria necessidade de aplicar herbicidas. É um claro exemplo de como os modelos agrícolas e seus fornecedores de insumos se mantêm mutuamente.”

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