Mesmo assim…

Após a queda do muro de Berlim, em 1989, seguiram-se os anos silenciosos da década de 1990. A grande vitória de um modelo, o capitalismo, era um fato. Muitos chamaram o período de ‘a década perdida’, mas talvez possamos dizer também que, nesse silêncio, houve o deslocamento de algumas questões muito fundamentais. Desde 1995, a agricultura e os alimentos foram completamente inseridos na lógica neoliberal de globalização. O acordo agrícola da Rodada do Uruguai e a criação da Organização Mundial do Comércio (OMC) ainda eram fatos recentes e já se ouviam os primeiros protestos dos agricultores. Em 1996, a FAO realizou uma Cúpula Mundial sobre ‘Fome no mundo’. Para o movimento mundial de camponeses Via Campesina, esta reunião de cúpula era o momento ideal para lançar o novo conceito de ‘Soberania Alimentar’. Neste conceito, não são os conglomerados de indústrias químicas, nem os grandes atacadistas, processadores de matérias-primas e supermercados que comandam o espetáculo e, sim, a ‘agricultura familiar’. Alimentos e agricultura estão mais seguros nas mãos dos camponeses. Nas mãos dos povos e de seus governos.

O acordo Trade Related Intellectual Property Rights (TRIPs) [Direito da Propriedade Intelectual Relativo ao Comércio] envolvendo, inclusive, seres vivos – foi um dos principais tópicos de negociação da Rodada do Uruguai. Principalmente os milhões de agricultores – que, cuidadosamente, passam suas sementes de geração em geração – pressentiam que, com este acordo de ‘patenteamento de sementes’, está sendo cortada a veia vital da agricultura familiar. O ataque aos fundamentos da diversidade de culturas – agrícolas e alimentares – mobilizou cada vez mais massas populares. Centenas de milhares de agricultores da Índia se uniram para defender suas sementes. Durante a Cúpula da OMC de 1999, em Seattle, Estados Unidos da América, a crescente insatisfação culminou num enorme protesto de rua. Em 2001, observamos o nascimento do ‘Fórum Social Mundial’, em Porto Alegre, Brasil. É digno de nota que, nestes encontros, os representantes da agricultura familiar são os mais organizados mundialmente.

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