Mato Grosso: do desmatamento para a recuperação?

Há oito anos que visito regularmente o Brasil, mas nunca senti necessidade de me deslocar até o Mato Grosso, o estado da Região Centro-Oeste do Brasil onde, por várias décadas, se repetem as famosas histórias de bangue-bangue do “velho oeste” norte-americano. Esse estado – quase do tamanho da França – não é o parque de diversões de um tal Blairo Maggi? O homem chamou minha atenção pela primeira vez numa entrevista, no ano de 2000. Na ocasião, ele foi apresentado como o “maior sojicultor do mundo”? Ele ameaçou, naquela época: “Se os movimentos ambientalistas e os sindicatos continuarem criando problemas, vou plantar soja na África. Lá não há resistência.”

Nesse meio tempo ele se tornou governador do estado que possui Floresta Amazônica e Cerrado, o “mato grosso” que deveria ser erradicado. No último trimestre de 2007, o desmatamento aumentou novamente de maneira vertiginosa. O Mato Grosso é responsável por cerca de 54% desse desmatamento. Mas o que esperar quando o economista se torna também o abade do mosteiro? O homem possui uma concentração de poder econômico e político sem precedentes. Porém, ele gosta de afirmar que, em seu estado, tudo ocorre “dentro da legalidade”. 

Ou seja, nada que me atraísse para a quente cidade de Cuiabá. Até que Maria José Adão me fez um convite enfático. Ela estava, com seu amigo belga Luc Kruyfthooft, na exposição de livros e teatro em Bruxelas “Aurora no Campo” [Dageraad over de akkers]. “Você deve vir a Cuiabá. Nós vamos montar um programa completo e quebrar o silêncio.”

Hesitei por longo tempo: “Será que adianta alguma coisa? Torturar-me novamente com as imagens terríveis da destruição que não respeita nada nem ninguém?” 

Além da soja, além de Blairo Maggi 

Finalmente tomei a decisão. Vou me deslocar das lavouras de soja em Cascavel (Paraná) para a maior lavoura de soja do Brasil. Maria José Adão e Degair Aparecido de Oliveira entram em ação. A cidade de Cuiabá e eu próprio jamais esqueceremos! Em suas primeiras tentativas de estabelecer contatos, eles se deparam com um muro de silêncio. Ninguém ousa arriscar o pescoço na nova “Califórnia” brasileira. Quem é que pode contestar a história de sucesso do agronegócio, da soja, milho, aves e algodão?

Mesmo assim… em Mato Grosso existem pessoas que ignoram as críticas e trabalham com persistência para mudar a situação. Carlos Raimundo dos Santos e Cleonice Terezinha Fernandes são algumas das que apoiam estas iniciativas. Por exemplo, por meio do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do Mato Grosso (Sebrae-MT), sua equipe nos recebe. Eles estão conscientes da imagem que o Mato Grosso tem no exterior.

“Nossas campanhas de conscientização, na Europa, têm alguma influência sobre a política no Mato Grosso?”, pergunto timidamente. “Sim, é claro, quando Blairo Maggi vai ao exterior promover o Mato Grosso e o agronegócio, ele sente bem a resistência. A crise pela qual estamos passando agora nos proporciona a oportunidade de fortalecer o outro lado de nosso maravilhoso estado.” Ou seja, é novamente uma “crise”, o que expõe novas oportunidades. Será verdade? 

Enquanto isso, o deus Moloque1 dá continuidade a seu trabalho de destruição. Desde a crise da soja, em 1973, seu preço nunca esteve tão alto. Como será possível proteger os quatro ecossistemas únicos dessa região contra a destruição total?

Quatro?

  1. O Pantanal localiza-se nos estados do Mato Grosso do Sul e Mato Grosso. Não é possível plantar soja nas áreas alagaveis, mas a região está sendo cercada pelo Ouro Verde, provocando uma perigosa redução no nível do lençol freático do Pantanal.
  2. O Cerrado, com sua biodiversidade única, este sim está sendo rapidamente coberta de soja… Felizmente, ainda é possível salvar uma parte.
  3. Ao norte: o “portal” para a região amazônica.
  4. O rio Araguaia. Esta região rica em rios e com praias únicas geralmente não é mencionada, mas, às vezes, é catalogada como um quarto ecossistema.

Vou ficar aqui apenas três dias para todas as palestras e trabalho com a imprensa, mas também para um longo passeio. Percorremos a estrada que atravessa a maravilhosa reserva “Chapada dos Guimarães”. Ufa, nenhum pé de soja à vista. Alonso Lamas dá risada: “É, vai ser difícil plantar soja aqui. A região está cheia de rochas.” Felizmente, para Alonso e para a incrível biodiversidade deste pedaço de Cerrado, mais rica do que a Floresta Amazônica. Alonso já trabalha há 21 anos com espécies tropicais. Ele é originário do estado do Piauí e é, no Brasil, o especialista na utilização de espécies tropicais em uma economia de menor escala e mais vinculada à população. Durante a viagem de jipe, imediatamente fica clara a forma de trabalho do Sebrae: eles nunca trabalham sozinhos, mas buscam o maior número possível de parceiros. Eles trabalham principalmente com grupos; o serviço se encarrega de contratar especialistas para apoiar novos experimentos. 

Plantas tropicais 

Seguimos para Campo Verde. O Campo já não apresenta mais a diversidade de tonalidades de verde de outrora, pois agora está ocupado por soja, milho e algodão. A Sadia possui lá diversas granjas de aves e a suinocultura está em ascensão. Mesmo assim, o governo de Campo Verde não trilha um único caminho. Não somente os grandes que têm autorização para ocupar o espaço, mas os pequenos também recebem apoio. Há 1200 famílias que moram em assentamentos. Vamos visitar um assentamento do MST: são sete famílias, como um oásis no meio de um triste deserto de soja. Eles ocupam a área desde 1995. Gradativamente, eles conseguiram a posse legal das terras. No final de 2007 eles iniciaram o cultivo de espécies tropicais num sistema agroflorestal. É impressionante a coleção de plantas formada a partir de quatro “biomas/ecossistemas”. 

E porque cultivar plantas tropicais?

Alonso: “Desde os anos 1970, é moda cultivar e comercializar espécies de plantas tropicais, na Europa e nos Estados Unidos. Descobriu-se que 80% dessas plantas têm origem no Brasil, mas o próprio Brasil não se ocupava delas. Alguns exemplos são gritantes. A petúnia é originária do leste do Paraná. Pois bem, atualmente o cultivo de petúnia está integralmente na mão de japoneses. A primeira pessoa que começou a comercializar uma espécie brasileira foi… um belga, há 127 anos!”

A partir de 2002, começou a crescer o interesse, no Brasil, de também usufruir desse tesouro. É bonito ver como este local renasce como uma “fênix” dessa terra queimada. E como as famílias, com seus filhos, nos mostram o resultado de seu trabalho com orgulho. Aqui também fica evidente o modo de trabalho do Sebrae: é criado todo um sistema de cooperação entre produtores ecológicos de plantas ornamentais, comerciantes de plantas, paisagistas, decoradores, etc. 

O assentamento é  a prova viva do que o Departamento de Estudos Sócio-Econômicos Rurais (Deser: www.deser.org.br) relacionou recentemente. É claro que são números gerais, e os dados podem variar consideravelmente de propriedade para propriedade e de região para região. Eles indicam, porém, uma clara tendência de que a agroecologia apresenta melhores resultados do que a convencional em todas as frentes. Os sistemas agroflorestais são os campeões em termos de produção, renda, investimentos reduzidos e geração de trabalho. Veja o quadro a seguir: 

  Sistema
  Agr. Convencional Agroecológico Agroflorestal
Produtividade/ano 3.000 kg/ha 5.000 kg/ha 10.000 kg/ha
Receita (R$ por kg produzido) 0,30/kg 0,50/kg 0,80/kg
Custo dos insumos (em termos de percentual da renda) 70% (*) 30% 5%
Geração de trabalho 1 emprego/70 ha 1 emprego/8 ha 1 emprego/3 ha
       
(*) Este valor não inclui os elevados custos dos danos ambientais e sociais.

 

Uma presença internacional com intuito de apoio às bases 

Na segunda-feira somos recebidos pelo sindicato dos professores. Surge um diálogo bastante interessante com professores que sabem muito bem o que está em jogo em seu país. Eles demonstraram muito interesse pelo DVD “A vaca 80 tem um problema”. A diretoria inicia a produção de cópias. Eles vão divulgá-lo para todos os professores membros do Sindicato dos Trabalhadores do Ensino Público (Sintep) de Mato Grosso. Um programa de TV com o autor de “Aurora no campo. Soja diferente” deve apoiar o trabalho. Aparentemente, um estrangeiro pode dizer em voz alta e sem reservas o que muitos aqui pensam, mas não ousam ou não podem falar abertamente. 

Nunca foram vendidos tantos livros… E sim, Maria José, eu fiquei com outra imagem do Mato Grosso. Obrigado!

Também vou torná-la conhecida na Europa. Na esperança de reverter a maré em tempo. A cooperação, em ambos os lados do oceano, é extremamente necessária para isso. 

Luc Vankrunkelsven,

17 de março de 2008. 

Postscriptum:

No mesmo dia recebi um pacote promocional multicolorido do Mato Grosso (MT) e um livreto simples do Sindicato dos Trabalhadores do Ensino Público.

No primeiro material de propaganda, ricamente ilustrado, o governador do estado elogia efusivamente a natureza exuberante e o fantástico agronegócio do Mato Grosso. Ele inicia com uma expressão americana “abrasileirada”: “terra abençoada por Deus!” Após uma descrição lírica da natureza inebriante, segue: “O agronegócio é o carro-chefe da atividade econômica do estado do Mato Grosso. Mesmo com 60% de seu imenso território sendo considerado área de preservação, o estado está predestinado a ser o maior fornecedor de alimentos do Brasil. Utilizando pouco mais de 8% das terras, o estado já é o maior produtor nacional de soja e algodão e o principal produtor de milho, arroz, açúcar e etanol. Também é o líder na produção de carne bovina e apresenta forte crescimento da avicultura e suinocultura.” E conclui: “Este é o local da perfeita harmonia entre o homem e a natureza.”

É de ficar sem palavras.

Só que o governador esquece de dizer que essa história de sucesso somente é possível às custas de muitas vítimas. Por exemplo, em 2005, no município de Lucas do Rio Verde (novamente “verde”) foram utilizados quase 3 mil toneladas de agrotóxicos. Isto dá uma média de 8,5 kg/hectare, ou 102 kg/por habitante ao ano, ou 682 kg/morador da zona rural ao ano.

Alô biodiversidade? Alô natureza? Alô benção de Deus?  

Na revista “Novos Rumos”, do Sintep/MT, encontro títulos reveladores e artigos chocantes: “Juína – MT, setembro de 2007. Imagens da truculência e do retrocesso”; “Amazônia, uma região de poucos”; “Mato Grosso: crescimento e degradação – o desafio é a sustentabilidade”; “Assim são os maus” (escrito por Dom Antonio Possamai, bispo emérito de Ji-Paraná); “Em terra de coronel não existe lei!”, que inclui o tópico “A simbologia das agressões”; “O nenhum somos nós, cara pálida!”; “A ausência do estado e o surgimento da truculência social”. 

E quem é que está  com a razão? O Egito possui suas maravilhosas pirâmides, mas elas foram construídas às custas de quantas dezenas de milhares de escravos? A cidade de Ouro Preto (em Minas Gerais) era rica em ouro, mas quem é que o extraía da terra? De qual desenvolvimento “sustentável” é que estamos tratando afinal?

Ainda ouço as palavras de Blairo Maggi na Universidade Agrícola de Wageningen (em 15 de outubro de 2007), assegurando: “Vocês querem soja ‘sustentável’? Nós vamos fornecer! Vocês demandam, nós produzimos.” O ministro da Agricultura do Brasil balançava a cabeça afirmativamente. 

O Mato Grosso pode ter se tornado o centro do mundo agrário, mas também é um estado de grande silêncio, o estado com mais violência no campo. A imensa região abriga o maior número de pessoas em regime de trabalho escravo, depois do Pará. Em 2005, foram libertados nada menos do que 1411 trabalhadores de situação semelhante à escravidão. E isto porque o Ministério do Trabalho investigou somente 25% das denúncias.

O trabalho de ONGs e de organizações como o Sebrae é fantástico, mas devemos cuidar para que estas iniciativas não continuem sendo ações marginais num deserto de morte e destruição. Uma redução insignificante na festança de purpurina e grana para uma pequena elite?

Quem ousa quebrar o silêncio, denunciar as injustiças?

Neste imenso país, fica claro que a Igreja Católica faz efetivamente seu trabalho e continua denunciando abusos e irregularidades, mesmo que as igrejas neopentecostais, em ascensão, preguem que as vítimas voltem seus olhos exclusivamente para o Céu. Religião como ópio do povo e benção para o capital. ”God bless America! Deus Abençoe o Mato Grosso!” 

Mas ainda existe uma teologia libertadora e uma prática ousada de cristãos que combatem Moloque a partir de suas vítimas. Junto com todas as pessoas de boa vontade.

Além do silêncio.

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