Artigos de jornais e revistas

Mastercard discrimina vegetarianos – Claudia Reis

Olá pessoal

Venho através desse e-mail manifestar meu profundo desagrado quanto à infeliz campanha da Mastercard "Não ter um amigo vegetariano não tem preço".
 
Dois pontos me atingem fortemente nessa campanha: o fato de eu não comer carne e a profissão que sigo ser da área da comunicação.

Sobre o fato de não comer carne, passo a vocês a minha experiência individual, que no entanto, é compartilhada por muitos dos que têm a mesma postura que eu: os restaurantes nos discriminam explicitamente: garçons fazem cara feia porque pedimos para trocar de prato quando percebemos que a iguaria que acabamos de servir contém carne, e não existe nenhuma placa informando do que se trata o alimento; os amigos carnívoros que mantemos por várias outras razões, dentre elas, a telerância para com as pessoas que pensam diferente de nós, perguntam dentre risos se realmente não queremos provar a carne que está deliciosa, e sim, somos taxados de chatos porque em determinados momentos somos incitados a explicar o porquê da nossa opção a favor da vida, sem discriminação à qualquer espécie do mundo animal, porque optamos por não matar, não verter sangue e preferimos as espécies vegetais em nosso cardápio. Muitas vezes nossa escolha nada tem a ver com saúde, mas sim com sensibilidade. Acredito que quem criou a infeliz campanha nunca olhou nos olhos de um boi, nunca pensou que sim, apesar de a galinha ser desengonçada ela merece ser respeitada pelo simples fato de estar viva, e que, apesar de tudo, ainda que os assassinatos signifiquem a alimentação da população humana (e nesse caso, existem alternativas que poderiam alimentar ainda mais pessoas que não através da carne), os criadores acondicionam frangos e bois de maneira que eles não movimentem músculos para que a carne seja mais macia; matam filhotes que ainda não desenvolveram a musculatura pelo mesmo motivo; separam pintinhos em dois grupos: os sadios, para que cresçam tomando hormônios a fim de desenvolverem rapidamente as partes consideradas nobres, e os que nascem defeituosos são jogados (e essa expressão não é para causar impacto, eles realmente são arremessados) em galões para que morram naturalmente de fome, de sede e assassinados uns pelos outros e acabem virando adubo.

Acredito que chegará o dia em que o homem perceba que o crime de colocar os animais ao seu serviço significará o mesmo que a escravidão dos povos negros: uma aberração sem tamanho e sem perdão. Antigamente se dizia que os negros não tinham alma. Um absurdo? Pois naquela época (fim do século 19) isso era um pensamento recorrente e aceitável pela sociedade – a branca, é claro. E os animais? Hoje se aceita tranqüilamente a idéia de enclausurar, torturar (as empresas de cosméticos e remédios estão aí para provar que os testes em animais nada mais são do que tortura totalmente dispensável e substituível por métodos além de mais humanitários, também mais eficazes), assassinar em benefício da espécie humana, aquela dita mais inteligente que as demais existentes no planeta. Pois aí mora a contradição: se a espécie humana é a mais inteligente, porque não pensa formas de agir com menos crueldade? Um leão matar um coelho para se alimentar ainda é aceitável, pois afinal, o leão se guia pelo instinto. E o ser humano, que se gaba de ser racional e controlar seus desejos? Por que continua preferindo ingerir carne simplesmente em nome de seu paladar? Isso é ser racional???

Ao que se refere à comunicação em si, fico profundamente indignada ao costatar mais uma vez que a propaganda continua se valendo do cômico, calçado no preconceito, para fazer vender. Fico me perguntando como se deu o infame processo de criação dessa campanha, imaginando o indivíduo que a criou se achar o da "sacada genial" por ter sido capaz de tamanha "originalidade". Claro que não livro de igual infâmia a criatura da empresa de cartões que aprovou a campanha. Lamentável é perceber que existem tantas e tantas e tantas e tantas opções, tantas e tantas e tantas e tantas outras formas de se fazer vender sem lançar mão do preconceito, da incitação à repulsa do diferente (será que estamos muito longe de ideologias propagadas pelo skin heads e pelos nazistas, só para citar dois exemplos?) e ainda me questiono o grau de ingenuidade das duas empresas em nem sequer imaginar que a Mastercard teria um único cliente mais humano, ou seja, que não come carne. Vai ver que esses tantos que estão se manifestando não signifiquem muito para a empresa, são uma gota no meio do oceano. O problema, nesse caso, é reduzir as estatísticas unicamente a quem se declara vegetariano. Será que essas pessoas não têm família, amigos, conhecidos que, apesar de não compactuarem com suas visões de mundo, ainda assim os aceitam como são (e olha que não comer carne não é considerado   – ainda – um defeito) coisa que a empresa assume não fazer? Indivíduos que, multiplicado pelo "reduzido" número de vegetarianos, também se colocará contra a empresa?

Que tal "rever seus conceitos", assim como outra marca anunciou em comerciais recentemente? Que tal propagandas menos preconceituosas? As mais humanas também vendem, se é que vocês não sabem, basta colocar um pouco o cérebro a funcionar…..

Bom, pra vocês não terem que se dar ao trabalho de me responder, já colei a resposta padrão que vocês têm enviado aos que estão reclamando à empresa logo aí abaixo.

Obrigada
Um abraço
Cláudia Schaun Reis – jornalista
Florianópolis – SC

A MasterCard tomou conhecimento da sua manifestação e lamenta o fato ocorrido em relação ao anúncio publicado na última semana.
Entendemos sua posição e informamos que já providenciamos o cancelamento da veiculação da peça publicitária, salvo nos veículos onde não havia tempo hábil para isso por já estarem impressos.

Gostaríamos de enfatizar que em nenhum momento houve a intenção de discriminar nenhum cidadão ou segmento social.

Em nome da MasterCard e da McCann-Erickson, solicitamos que aceite nosso pedido formal de desculpas.
   
Claudia e Priscilla

Contatos: 9902-1790 / 9114-5285

 

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