Mais uma vez sobre os transgênicos

Na Bélgica, enquanto o parlamento flamengo finalmente resolveu votar o altamente criticado “decreto de coexistência”, vou fazer uma palestra em Guaraciaba, cidade próxima a Anchieta, “a capital das sementes crioulas”. Enquanto estou me preparando, me deparo com as mais conflitantes notícias. 

Por exemplo, os agricultores familiares no Mato Grosso – o estado com a maior produção de soja do Brasil – estariam abandonando algumas variedades de soja transgênica. Motivo?

“Estamos vendo cada vez menos soja transgênica por aqui. Ela não tem uma boa performance”, disse Jeferson Bif que, com os seus 1800 hectares cultivados com a dupla soja-milho, definitivamente não é um pequeno produtor. Ele disse que obteve produções médias de 58 sacas (60 kg) por hectare com a soja convencional na última safra, enquanto os campos plantados com soja transgênica no mesmo ano produziram dez sacas a menos. Boas notícias? Sim, mas o que fazer com o fato de que as grandes empresas de sementes e agrotóxicos estão focadas exclusivamente em soja transgênica? Será que, daqui a dez anos, ainda será possível comprar sementes de soja convencional? 

Outra notícia: “Projeto de lei que proíbe o uso de alimentos geneticamente modificados nas merendas de escolas municipais de Porto Alegre (RS) foi apresentado nesta terça-feira à Câmara Municipal pelo vereador Beto Moesch (PP). A iniciativa poderá beneficiar 56 mil estudantes de 95 escolas municipais da capital gaúcha.” Esse seria o único alimento com garantia de estar isento de Organismos Geneticamente Modificados – OGMs. É que o Rio Grande do Sul se tornou um mar de soja transgênica. E mais uma boa notícia: 21 pesquisadores renomados de diversos países se opuseram aos experimentos em seres humanos (adultos e crianças) com o Golden Rice (1) nos EUA.  

Por fim, uma notícia “não tão boa”: parece que Dow Chemical, devido a problemas financeiros, está sendo forçada a vender seu lucrativo ramo Dow AgroSciences. Assim, o número de seis grandes gigantes do ramo de agrotóxicos e sementes (sementes, pesticidas e produtos farmacêuticos em uma mão) se reduz a somente cinco concorrentes: Monsanto, Dupont, Syngenta, Bayer e Basf. Agora eles podem acelerar ainda mais a erosão genética e impor as sementes vinculadas aos produtos químicos de seus próprios conglomerados. 

Uma morte lenta e silenciosa 

No ano de 1996, a soja transgênica entrou sorrateiramente na Europa (vinda dos EUA), assim como no Brasil (vinda da Argentina). Na Europa, na forma de ração animal. No Brasil, na forma de sementes-piratas, com o conhecimento da Monsanto. Após anos de tolerância – para tornar os agricultores dependentes da soja Roundup Ready – chegou a hora da verdade: pagar royalties. E, diante do fato consumado, o governo foi quase que obrigado a liberar a soja transgênica. Na Europa, não foi diferente. Milhões de toneladas já estavam entrando antes de haver uma legislação sobre o assunto. 

No Brasil, após a soja, o milho geneticamente modificado também foi liberado. Atualmente está  em curso um debate acirrado em torno da liberação de arroz transgênico. Embora a soja esteja presente na composição de milhares de produtos, com o milho e o arroz a situação se torna bem mais concreta. Ambos são alimentos básicos do brasileiro. Isso é especialmente verdade no caso do arroz, que pode ser consumido sem processamento. É chegada a hora, portanto, de ouvir um especialista: Antônio Inácio Andrioli. Uma intervenção bem oportuna, pois o lobby da biotecnologia genética está distorcendo os argumentos dos movimentos ambientais e dos movimentos de solidariedade com os países em desenvolvimento: “Os transgênicos poupam o meio ambiente porque exigem menos agrotóxicos. Os OGMs ajudam a combater a fome no mundo.” 

Eu encontrei seu texto no interessante site do Fórum Carajás (3) e reproduzo alguns trechos: 

(…) A fome é um problema distributivo e não técnico. Assim, temos de discutir as causas da desigualdade social, ou seja, temos muito mais produção do que consumo. Mas o problema clássico da fome é o difícil acesso aos alimentos produzidos, por parte de uma maioria que passa fome e está abaixo da linha da pobreza no mundo. Paradoxalmente, a maioria das pessoas que passam fome no mundo são agricultores que vivem no meio rural, exatamente num local onde poderiam ser produzidos alimentos. Um elemento central para entender isso – e que também nos remete à produção dos transgênicos como fator importante – é o fato de os pequenos agricultores não terem conseguido sobreviver ou serem inviabilizados na atividade agrícola devido à monocultura. Eles têm dificuldades de conseguir sobreviver no mercado, porque precisam aumentar a área de produção para tornar viável a monocultura. 

Nessa história toda, a produção de OGMs é um fator importante. 

A base que está  por detrás disso é muito simples: a idéia liberal que fundamenta a lógica do mercado, de que o agricultor deveria se especializar – isso significa que ele diminui o próprio acesso à alimentação, portanto não produz mais comida para si mesmo –, na expectativa de receber dinheiro suficiente para comprar alimentos. Essa lógica não funciona, porque, ao aumentar a produção dessas monoculturas, ocorre a diminuição de seu preço e um aumento dos custos em função dos problemas técnicos gerados por esse modelo de cultivo. Como acontece essa inversão, há uma menor renda agregada para o trabalho desses agricultores, que estão se endividando para comprar novas terras, insumos, e alguns até perdendo suas terras para pagar as dívidas, se tornando assim agricultores sem terras. 

Um problema técnico e estrutural. 

Então, temos um problema estrutural, ou seja, um empobrecimento dos pequenos agricultores, o que contribui para aumentar a fome no campo e o êxodo rural. E é  claro que, se utilizarmos a tecnologia dos transgênicos – que contribuem para o aumento dos custos de produção e ao mesmo tempo são cultivos que têm uma produtividade inferior aos convencionais –, aprofundaremos a lógica de dependência das técnicas. O agravante é que, como nunca antes visto, agora temos a dependência desde a gênese do alimento.

O agricultor que planta a soja transgênica irá pagar royalties não só sobre a soja, mas também sobre o próprio glifosato que está embutido nesse pacote de compra das sementes. A empresa fatura duas vezes, enquanto o agricultor paga duas vezes. Essa é uma das grandes explicações para o aumento da desigualdade social e da fome na agricultura. É uma vergonha para o mundo ter 900 milhões de pessoas passando fome, mesmo numa situação de superprodução de alimentos. 

Além de ser um problema político e de distribuição, essa crise alimentícia é também um problema de produção, pois estamos produzindo alimentos que não consumimos, como a soja, os quais têm servido para a criação intensiva de animais na Europa. Os produtos oriundos dessa soja passam a interferir nos mercados mundiais quando apresentam um valor mais abaixo em relação ao preço desses mercados, o que faz com que localmente a produção seja atingida e cause mais fome. Um exemplo claro disso é a exportação de frango brasileiro para a Europa. Os europeus compram esse produto a um preço que permite descartar as partes que eles não comem. O que não é consumido passa a ser doado para a África. Isso tem destruído a produção africana de frango, porque é uma concorrência insustentável. 

IHU On-Line – Além de contribuir para a desigualdade social, em que medida a produção de transgênicos também aumenta os impactos da crise ambiental e financeira? 

Antônio Inácio Andrioli – Um dos grandes problemas da crise é a utilização de fonte energética limitada. Não temos condições de continuar produzindo uma agricultura através de químicos resultantes e derivados de recursos fósseis. Os transgênicos são apenas uma nova fase da indústria química. Não é por acaso que as empresas químicas financiam os transgênicos. As plantas produzidas através da transgenia são imunodeficientes, ou seja, são piores do que as plantas desenvolvidas através do melhoramento genético tradicional. Então, a indústria química construiu uma forma de vender mais produtos químicos com falsos argumentos de estamos numa nova fase em que se substituiria a química. Essa agricultura tem gerado no mundo uma dependência enorme de importação desses produtos, pois, para importá-los, muitos países têm aumentado suas exportações agrícolas. Isso faz com que se destruam os recursos naturais através das monoculturas. 

No capitalismo, com a lei das vantagens comparativas, cada agricultor deveria conseguir se aproveitar de uma situação em que ele possa ter os menores custos, ou seja, produzir o que é mais adequado para um determinado momento do mercado e ter uma vantagem comparativa em relação a outro produtor. Essa vantagem comparativa em relação ao outro fez com que hoje tivéssemos a generalização dessa lógica: cada país produzindo o que tem menor custo, ampliando o mercado mundial. O fato é que, com uma situação de comércio mundial generalizada – e o Brasil se insere dentro dessa lógica ao apostar na agroexportação –, surgem problemas claros, na época não apontados pelos liberais. O transporte, por exemplo, se baseia no uso de combustíveis fósseis e o valor desse transporte precisa ser embutido nos custos do produto. Esses gastos (ambientais e financeiros) poderiam ser destinados à melhoria da qualidade de vida, da produção de alimentos etc., ao invés de ser usado para destruição da natureza. Entramos assim na lógica da mundialização do capital com a expansão do comércio e daquilo que os liberais anunciavam como a grande esperança em termos distributivos. 

Como sabemos, na lógica da concorrência se destroem muitos recursos e investimentos. Surgem, então, como resultado final disso, as crises que fazem com que se destrua a produção para que os preços não caiam.” 

(…) 

Na entrevista, o pesquisador comenta ainda muitos outros aspectos dos transgênicos. Por exemplo, que somente 10% das pesquisas mundiais sobre as consequências dos transgênicos para a saúde dos consumidores são independentes: 90% foram pagas… pela indústria química. E aí, como ficamos quando defendemos que as crianças reduzam o consumo de carne na merenda escolar, trocando-a por produtos à base de soja? Se a soja for Roundup Ready [transgênica], ela contém cem vezes mais glifosato do que a soja convencional…

De fato, uma morte silenciosa, lenta e invisível? 

Sim, ainda estamos longe de alcançar nossos objetivos. Os poderosos ditam o alimento que consumimos e qual veneno devemos encontrar em nosso prato (4). Seu argumento? “Com os transgênicos, são necessários menos agrotóxicos e vamos resolver o problema da fome”. Alguém conseguiu entender?  

Luc Vankrunkelsven,

Ijuí, 25 de março de 2009. 
 

  1. http://www.i-sis.org.uk/SPUCTGM.php.
  2. http://www.panna.org/resources/panups/panup_20090226#3.

    (3) Veja http://www.forumcarajas.org.br. Leia a entrevista na íntegra no tópico ”Articulações” (10/3/09): “Milho transgênico: uma morte lenta e silenciosa”, que reproduz a entrevista especial com Antônio Inácio Andrioli, concedida com exclusividade à IHU On-Line: http://www.unisinos.br/ihu/index.

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