Luis Mello


Luís Mello, 31 anos, paulistano, professor de Kung Fu e Budismo

O professor paulistano de Kung Fu e Budismo Luís Mello, 31 anos, não come carne vermelha desde os 17 anos. Aos 19, parou de comer qualquer carne. Laticínios e ovos, só come de forma indireta. "Nunca gostei muito da carne vermelha, por causa das gorduras, dos nervinhos. Sempre senti um certo nojo. Antes, eu gostava muito de salame, justamente porque não parecia carne. Às vezes até sinto vontade de salame. Mas, quando lembro da fábrica que visitei, sinto nojo."

"Aos 17 anos, comecei a estudar budismo e, conforme fui me aprofundando, acabei parando de comer carne", diz o dono Instituto Lohan, uma escola de Kung Fu e Tai Chi Chuan. Muitos budistas comem carne. Eu parei de comer carne porque não vejo diferença entre um animal e um ser humano. Há várias formas de se interpretar os ensinamentos de Buda. Não precisa ser vegetariano para ser budista, mas há muitos budistas vegetarianos. Por dois motivos. Primeiro, o budismo acredita em reencarnação. Os seres humanos já passaram por todos os estágios da vida. Já fomos seres unicelulares, peixes, aves, mamíferos. Fomos animais e fomos evoluindo. O budista evita tirar a vida de qualquer elo desse ciclo."

Os vegetais não fazem parte desse ciclo de vida? "Sim, mas o vegetal não tem a consciência de si próprio. O vegetal é um coletivo de vidas. O ideal, na verdade, seria nos alimentarmos de grãos, que não são a vida propriamente, são sementes. Para o budismo, o animal tem a mesma consciência que o ser humano. A única diferença é que ele está aprisionado pelo instinto. O ser humano tem a opção de negar o instinto. Não precisa mais, por exemplo, caçar para sobreviver. Se por algum motivo tivesse de comer carne para não morrer, eu não teria problema em fazê-lo. Mas isso é muito hipotético. São muito raras as situações em que isso realmente seria necessário."

No início, Mello diz que ser vegetariano complicou um pouco sua vida social. "Mas, depois, você não come carne, não bebe, não vai alugares onde estão enchendo a cara. Os amigos respeitam. Se vou a uma festa que só tem carne, opto por não comer. Tenho amigos que optam por não ofender o anfitrião. Não condeno quem come carne. A base do budismo é a compaixão."

"Tem gente que mistura. Diz que faz mal para a saúde. Eu jamais diria isso. As pessoas confundem. Eu digo que não quero matar para comer. Comer carne traz um karma ruim. Significa que você eliminou uma existência da terra para sobreviver. Você transforma sua barriga em um cemitério."

Mesmo assim, diz que não fica pregando ou insistindo para as pessoas se tornarem vegetarianas. "Na escola, nós temos vários vídeos. Se as pessoas pedem, nós mostramos. São vídeos de como os animais são judiados, do tempo que eles levam para morrer… muito tempo."

Mello acha que esse é um instrumento eficaz. "Se mostrassem um vídeo dos bois recebendo uma porretada na cabeça no Mc Donald's, metade das pessoas não comeria hambúrgueres. A maioria das pessoas, se tivesse que matar, não comeria carne. O comércio faz a carne chegar pronta no prato. Você não pensa que tem de matar para comer."

Não se convence com o argumento de que os animais fazem isso o tempo todo.

"Acontece com os animais porque eles são animais. Nós somos uma forma de vida mais privilegiada. Temos capacidade de optar. O que é o mal? Tudo depende da intenção. Criança não tem conhecimento. Mas, a partir do momento em que você sabe e faz força para não pensar nisso…"

Diz que tem saúde muito boa. Há anos não precisa ir ao médico. Resfriado, pega um a cada 2, 3 anos. "Saúde não é a questão que mais me pega. Mas é importante. Um bife leva sete dias para ser digerido. Nosso intestino é de herbívoro. Por isso, a gente fica mais sonolento. Demora mais para reagir. O Kung Fu é uma manifestação física do budismo. Nós trabalhamos com o chi ( a energia interna). Se come carne, precisa de muita energia para digerir. Em épocas de treinamento mais duro, os praticantes de kung fu, mesmo os carnívoros, não devem comer carne vermelha."

Mello é casado com uma vegetariana. Ele acha difícil, quase impossível, um vegetariano viver com alguém que come carne. "Eu gosto de comer. Tenho prazer em comer. A base da minha alimentação é massa. Como muita pizza."

As pessoas tentam enganá-lo na hora de servir um prato? "É difícil enganar, porque o gosto de carcaça é muito forte Você sente o gosto de um corpo." Diz que às vezes pede um croissant de queijo ou pizza, e te dão um de calabreza ou frango, por engano. Eu embrulho, passo mal, sinto nojo. Tenho de tirar rápido da boca. Tem pessoas hostis que te chamam de louco."

Diz que alguns de seus amigos radicalizam. Alguns, além de vegan, são naturistas. Ou seja, não comem nada industrializado. "Aí restringe demais. Só pode comer em casa. Ficam lendo rótulo para saber se tem algum transgênico. É muito trabalho. Para mim, se eu não comer carne, já está bom."

  Fonte: Época

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