Lobão

  Lobão: Aquele que não livra a cara de ninguém – 20a semana de 2004

Pasquim – Fernando de Castro & Outro

Lobão não conta tempo quando o assunto versa sobre colecionar desafetos ou desagrados. Quem já o viu em entrevistas, sabe disso. Sobre este aspecto, sua atuação como artista – embora muito provavelmente ele renegue esta afirmação – funde-se (e por vezes ofusca-se, até) com a do rebelde determinado a desconstruir qualquer nome ou entidade de conceito estabelecido do cenário nacional. Este hábito lhe agrada, assim como a uma legião de adoradores de suas músicas e suas opiniões. Seja no campo da música, no pátio das letras ou no deserto dos salvos políticos, Lobão jamais se esquiva de uma resposta, geralmente irônica e pessimista. Não há ídolos sacramentados que escapem ao deboche de suas análises (Caetano, Chico Buarque e Gilberto Gil estão entre seus favoritos) e verdade seja dita: é difícil contra-atacar suas opiniões, ainda mais quando Lobão saca de seus argumentos. Celebrado tanto pelo seu talento musical – virtude inconteste – quanto por sua rebeldia convicta, Lobão virou uma espécie de herói da cena musical alternativa, entre qualidades, muito pela sua atuação em prol de uma política de inclusão de novos músicos no mercado sem, entretanto, que para isso eles tenham que se submeter aos abusos estabelecidos pelo mercado que dita ordens e meios. Para tanto, Lobão não economiza críticas a ninguém.

Aos 47 anos, algumas músicas antológicas, diversas prisões no currículo e figurinha non grata pelas (antes) temidas gravadoras – classe a qual ele decretou guerra e donde vem conquistando elogiáveis baixas do exército inimigo, diga-se de passagem – sua auto-estima parece ser inabalável. De fala frenética e articulação impressionante, não por susto lhe caberia a possibilidade de um dia lançar-se ao universo das artes cênicas, se este fosse seu agrado. Lobão, antes inteligentíssimo, é cênico. E dos bons. Atualmente debruçado no exercício de lançar novos artistas (para tanto, fundou a Universo Paralelo Records, e com ela a revista Outracoisa, publicação bimensal que sai com os lançamentos da gravadora encartados), Lobão segue incansável no choque contra os hábitos correntes do mercado fonográfico. E vive o instante consagrador de ver algumas de suas principais bandeiras tremulando perante o nariz torcido de seus inimigos – ou seja, todo mundo que o tachou de maluco no passado. Seu modelo independente de divulgação e venda de discos em bancas (idéia ‘roubada’ do comediante Ary Toledo, e que deu origem à Universo Paralelo) é um sucesso que vem seduzindo outros artistas que antes se faziam duvidosos quanto ao resultado deste formato. Seu A Vida é Doce, por exemplo, vendeu 100 mil cópias em todo o país sem ter sequer uma música tocando nas rádios. O projeto de sua autoria, que obriga as gravadoras a numerar os CDs postos no mercado, a fim de garantir a transparência do volume real de vendas, virou lei.

Seu mais recente – vá lá, nem tão recente assim – embate, no entanto, é um tanto mais ambicioso: eliminar o jabá das gravadoras, convertendo este tipo de prática em crime.
Para tanto, o músico já se anunciou determinado a ir até onde for necessário.
E, evidentemente, falar tudo aquilo que muita gente do meio não está confortável para ouvir.

Fernando de Castro

Entrevistadores :: Claudia Furiati, Fernando de Castro, Jesus Chediak, Lencinho, Marcelo Janot, Monique Cardoso, Manoel Magalhães, Pedro Henrique Peixoto, Ricky Goodwin, Vinicius Rocha, Zezé Sack, e Zélio. Fotografou: Frederico Rozário
 
Lobão [já sai falando] – O hip hop carioca é a coisa mais nova que tá acontecendo aí. O hip hop paulista tá ortodoxo, estagnado, perdeu o humor.

Marcelo Janot – MV Bill tá indo no Faustão…

Lobão – O humor é fundamental. A Dança do Patinho é sensacional! E outra coisa: acontece com o funk carioca o mesmo que aconteceu com o samba no início do século passado. É tido como o cocô do cavalo do bandido quando é a melhor coisa que tem atualmente no Brasil. Bem, pode não ser a melhor, mas é a mais genuína transformação no metabolismo de colonização. O hip hop ainda é um falso absoluto, copia Public Enemy, já o funk carioca era o Miami Bass mas agora não é mais, é samba de roda… (bate o ritmo com palmas) “Pai Francisco entrou na roda…” e pau no burro! O hip hop e o funk cariocas criam uma outra linguagem, mais genuína embora com elementos reciclados. No início do século, também torciam o nariz pro samba: “Essa coisa de umbigada… é coisa de negro!”

Ricky Goodwin – Inclusive a associação com a criminalidade é a mesma.

Lobão – Samba era coisa de maconheiros. Na época da malandragem, quem fosse pego com unha grande na mão direita ia preso, por ser violonista. Já se dizia no Cais do Porto que o cavaquinho era o instrumento ideal porque neguinho podia tocar algemado. O funk sofre a mesma coisa, dizem que a voz é bizarra, grotesca, mas veja a batida… (batuca com a boca) É samba de roda. O comentário social que o funk faz, a sexualização que ele promove, é muito parecido com o que o samba foi. O samba era muito mais alegre, volátil, brincalhão, não tinha essa coisa de “agoniza mas não morre”. Ficam botando o samba na CTI! Eu soube que vão botar o samba na Unesco como Patrimônio Histórico. Isso é o cúmulo! O samba precisa ser rejuvenescido sempre! Precisa morrer e ressuscitar e não ser cristalizado!

Jesus Chediak – Essa coisa de resistência carioca pelo humor é muito importante, porque o Brasil tá dominado por paulistas. Foram oito anos de FH, agora vão ser 12 do Lula…

Lobão – O humor, seja de onde vier, é bem-vindo. Temos humor em vários lugares do país. No RGS, Cachorro Grande é engraçado pra caramba. Tem também o Comunidade Ninjitsu, o Graforréia Xilarmônica.. .e Wander Wildner, que é o punk-brega-sertaneja, a música verdadeiramente popular brasileira. Em Goiás temos o Réu & Condenado. A música de humor revela coisas pungentes enquanto a nossa classe elitista prefere reverenciar coisas menos importantes.

Jesus – Uma música sacralizada.

Lobão – Essas coisas que são inconcebivelmente chatas e desnecessárias, e ainda mais nocivas ao bem-estar do nosso cerebelo. Outra coisa: DJ. Ser DJ é complicadíssimo. Quem disse que DJ não é um instrumento? Vocês gostam de poesia de T. S. Elliot, vejam Wasteland! Uma poesia sampleada! Tem ali Dante, Baudelaire, Nerval, frases que ele foi alterando… a música moderna é a mesma coisa. Aí entra um questionamento provinciano e paupérrimo e tropicalista e barroco pelo qual temos que tocar… (dedilha um violão num solo elaborado) pararapapá dirimdididi… De repente quero fazer assim (gesto de mexer num controle de mixagem) e só. O importante é a dramaticidade da coisa. Isso, só, pode ter um efeito mais dramático numa música do que todo um… (novamente dedilha um violão imaginário em fraseados elaborados). Circunvoluções…

Zezé Sack – Você se lembra da polêmica, há três carnavais, quando um mestre de bateria botou uma paradinha funk no samba?

Lobão – Fui fazer um debate com Ariano Suassuna mediada pelo Antonio Abujamra! As pessoas não entendem que o Brasíl é um país em movimento, que somos a periferia do terror em relação à matriz… Suassuna tem relutância com Chico Science, que hoje em dia é uma coisa… Guitarra? As pessoas tem um fetiche contra a guitarra até hoje! Se você aparece com um violão, é genial, mas se toca guitarra… Como se o piano… Ernesto Nazareth e Chiquinha Gonzaga eram seriamente criticados por serem samplers do Chopin. O Brasil tem uma cultura de piano que vem da corte. Falei com ele: “o piano é um instrumento genuinamente brasileiro? Você não se lembra que Pernambuco foi invadido pelos holandeses e pelos portugueses. Tudo aquilo foi uma colonização cultural. Você não acha que o Ariano Suassuna de 1673 não ficou puto com essa porra de maracatu, essa coisa nova que tava rolando ali?” Essa visão do que é colonizado culturalmente, desde as passeatas contra a guitarra…

Claudia Furiati – Você conseguiu dialogar com Ariano Suassuna?

Lobão – Claro, ele é um grande papo, tem muito humor inclusive.

Claudia – Mas os dois falam tanto, um conseguiu escutar o outro?

Lobão – isso é uma estigmantização tanto dele quanto minha. Sou um cara que adora falar mas também trocar idéias, não vou impor nunca minhas idéias. Detesto certezas e verdades! Meu lema não é ‘chega de saudade’, é ‘chega de verdades’.

Jesus – O verso mais revolucionário da música brasileira é do Noel: “Quem acha, vive se perdendo”.

Lobão – “Quem se desloca tem preferência.” Antonio Abujamra, pra fechar, fez uma pós-leção, e ficou: “Porque a minha geração – eu, Zé Celso – é uma geração de Teatro!” Todo orgulhoso de sua sacralização. Um neófito de uns 20 anos também falou pra mim: “Porque a sua geração não teve guerra, não viveu a ditadura de Getúlio Vargas!” Falei: “VOCÊS, COM GUERRA, DITADURA, TORTURAS, PESSOAS SUMINDO, ACHAM QUE TÃO DANDO DE MIL EM TERMOS DE AGRURAS E OBSTÁCULOS. A MINHA GERAÇÃO NÃO TEM UM CORONEL TORTURANDO. MAS TEM A XUXA!” O INIMIGO É COR-DE-ROSA! QUEM É O VILÃO DO TOM MIX? NÃO TEM. AO INVÉS DE SER GROTESCAMENTE TORTURADO, ARRANCAREM TUAS UNHAS OU TUA PRÓPRIA VIDA, TE EXILAM TE DELETANDO DA MÍDIA.

Jesus – Te põe algemas nos olhos e nos ouvidos.

Lobão – É isso que tô falando. Os métodos são mais assépticos e mais cruéis. Fisicamente você não sofre a crueldade da tortura mas no final da conta a censura é mais efetiva do que na ditadura. Tem uma coisa mais censora do que o jabá? Sou o artista que, de todos os gêneros musicais brasileiros, mais produziu músicas inéditas de 1991 pra cá. No entanto, quando apareço as pessoas perguntam: “Mas você não morreu? Não tinha parado?” Lancei seis discos no espaço de oito anos. Enquanto todo mundo gravou Acústico, Ao Vivo… Eu poderia lançar uma coletânea agora com ‘Meus Maiores Fracassos’, porque não tocam nas rádios. Meus sucessos antigos, estes tocam, mas sou exilado pelos meus próprios sucessos. Aí perguntam: “Pô, Lobão, você não faz nada de novo?” E sou o cara que mais faz músicas novas! Me sinto um exilado. O Lobão Manifesto diz: “Eu não existo. Eu exilo”.

Claudia – Isso aconteceu pela censura econômica que existe contra as coisas novas ou é uma coisa particular contra você?

Lobão – No meu caso, é porque comecei a falar sobre numeração de discos e sobre o jabá, que são tabus, desde 86. Em 84, quando saiu Me Chama e tive a maior execução em rádio da década, batendo de longe Menina Veneno, os números oficiais diziam que Menina Veneno vendeu um milhão de cópias. Loura Gelada vendeu 1.2 milhão. Aí fui ver quanto vendeu Me Chama: 23 mil cópias. Perguntei: “Mas como é comprovado isso?” “É a minha palavra”. A GRAVADORA TE DAVA UM BORDERÔ E SE VOCÊ DUVIDASSE TAVA MORTO. NÃO É MORTO METAFORICAMENTE NÃO, É MORTO MESMO.

Claudia – Na indústria cultural do livro é assim também.

Lobão – Mas com o disco não é mais assim. Porque eu mudei. Agora tem uma lei. E eu sou presidente da associação que controla essa lei. Tenho plenos poderes pra, na hora em que eu quiser, ter uma auditoria nos discos de Roberto Carlos e de Sandy & Jr. E se tiver alguma coisa errada eles ficam enquadrados na Lei da Pirataria. Isso é uma vitória, cara. Gonzaguinha queria fazer isso em 1971!

Jesus – Como você conseguiu isso?

Lobão – Em 99 eu já estava em campanha: “Precisamos numerar os discos”. Inclusive saí da gravadora Universal pra poder lançar meu disco como numerado. Aí comecei uma campanha contra a numeração, com Chico Buarque, Milton Nascimento, Caetano Veloso, Gilberto Gil… esses caras que tavam comigo em 86, quando a gente ia pra casa do Chico fazer campanha a favor da numeração porque a gente tava sendo vilipendiado. Em 98, com a coisa da pirataria, as gravadoras, na pior, procuraram os artistas pra dar prestígio a eles. Era a hora de dizer: “Olha, nós vamos fazer campanha, vamos ajudar vocês contra a pirataria, mas vocês têm que numerar os discos senão se confundem com os piratas”. Se eles se recusam a prestar contabilização quantitativas das paradas, são tão piratas ou piores do que os piratas. São piratas oficializados! As gravadoras se recusavam a colocar uma numeração dizendo que era impossível, que iria triplicar o orçamento de um disco. Quando lancei meu disco numerado provei que era perfeitamente possível.

Ricky – Como foi sua saída da Universal?

Lobão – FUI NA TELEVISÃO CAITITUAR UM DISCO E NO FINALZINHO – PIRATARIA ERA O ASSUNTO DO DIA – O APRESENTADOR FALOU: “COMPRE O DISCO DO LOBÃO QUE ESSE NÃO É PIRATA. NÃO É, LOBÃO? VOCÊ É CONTRA A PIRATARIA?” FALEI: “DEPENDE DA PIRATARIA. A PARAGUAIA OU A OFICIAL? SE FOR A PARAGUAIA, ACHO ROMÂNTICA, AGORA A OFICIAL É PUSILÂNIME, É ESCROTA, É O FIM DA PICADA”. NO DIA SEGUINTE RECEBI UM DISTRATO E SAÍ DA GRAVADORA. “Você é muito malcriado!” Fui então tabular como eu iria sobreviver. Tava já com o repertório de A Vida é Doce pronto, tentei fazer alguns contatos com outras gravadoras, evidentemente levei um não retumbante… quer dizer, teve uma que quis gravar um disco, um ao vivo, com uma mulher rebolando, cantando Me Chama, fiquei com medo! Eu tava na Lagoa Rodrigo de Freitas pensando no que fazer quando me deparei com uma banca de jornal com uma revista de piadas do Ary Toledo. “Piadas a R$ 9,99 e um CD grátis!” Eureka! Fiz uma revista muito luxuosa chamada A Vida é Doce, incluí o CD – numerado – e cobrei R$ 14,90. Um preço irrisório perto dos CDs lançados a R$ 30 ou 40 reais. Nesse bojo fiz uma entrevista de capa pra Caros Amigos. Chamei Zeca Baleiro e uma porção de pessoas pra irem comigo falar sobre numeração. Só o Zeca foi. Isso teve uma repercussão enorme, era 2002, tava tendo eleição, e Tânia Soares, suplente do Marcelo Deda, de Aracaju, leu a revista e me ligou: “Lobão, eu sou uma nova parlamentar, fiquei muito emocionada ao te ler na revista e queria ajudar a classe dos músicos. O que posso fazer?” Eu, cético, pedi como quem pede uma pizza pra viagem:“Ah, arranja uma numeração aí. A gente precisa que se numere os discos.” Desliguei e não dei muita bola. No ano seguinte ela me telefona: “Olha, consegui por unanimidade”.

Zélio – Tânia Soares é de qual partido?

Lobão – PCdoB. Ela contou a história: “Nós pensávamos que o lobby das gravadoras fosse muito forte, com muita grana rolando… O que tinha era um tal de Mauro que chegava pro parlamentar: ‘Olha, o artista tá precisando…’ O Mauro conseguiu, por exemplo, que a Lei da Pirataria entrasse como urgência urgentíssima”. Ficava essa história de que os artistas precisavam muito, mas quando a Lei da Pirataria foi apresentada a Tânia pediu uma vênia: “Se é pra votar a Pirataria, e já que os artistas estão precisando tanto, seria melhor para os artistas se a gente começasse por distinguir o que é pirata do que nao é, fazendo uma numeração do produto”. Aécio Neves achou superjusto e todo mundo achou normal. Puseram em votação e saiu por unanimidade, e pelo regimento interno, por ser unânime, a lei deve ser aprovada. Ela me ligou na hora então dessa parada: “A lei tá lá dentro, tem que convocar a classe, criar uma comissão de notáveis”. Telefonei pra 5 mil artistas. Todo mundo trabalhando, ninguém podia pensar nisso… mas uns, como o próprio Chico, assinaram. Beth Carvalho também foi nossa general.

Jesus – Beth sempre enfrentou as gravadoras.

Lobão – Outros foram signatários-gilete, apoiando os dois lados. Beth foi atrás mas Zeca Pagodinho, Martinho da Vila, todo mundo ficou fugindo, cara! E mandamos um e-mail: “Qualquer idiossincrasia, qualquer coisa que seja relevante no sentido da compreensão ou da discordância, por favor, como somos pessoas públicas, não levantemos qualquer tipo de marola, pra que isso não se desfaça”. Quer dizer, se você tiver alguma dúvida, ou algo com o que não concorde, nos remeta, tente esclarecer conosco. Se no final da conversa você continuar discordando está livre então pra nos atacar. Mas, antes, converse conosco. Pois não deu outra. Uma semana depois, sem nos avisar, começamos a levar carteiradas das gravadoras de maneira muito brutal. FIQUEI PUTO COM ESSES CARAS QUE AMARELARAM, MILTON FALECIMENTO, CARETANO VELHOSO… ARREGARAM COM MEDO DE PERDER O EMPREGO. BETH CARVALHO FALA: “ARTISTA É A COISA MAIS DESARTICULADA, SÓ SE ENCONTRA EM PREMIAÇÃO E AEROPORTO”. CAETANO ESCREVEU: “NÃO FAÇO PARTE DESSA TURMA”, COMO SE FÔSSEMOS UNS COMUNISTAS. Começaram a falar: “O Lobao é maluco! Quer que os discos sejam numerados manualmente!” A gente tava lidando com firmas que numeravam o euro, coisas pra Nasa, alta tecnologia, e pessoas como Lulu Santos, Caetano, Gil, Rita Lee, iam pra TV insistindo com a história da numeração manual. E diziam: “Mas o que Lobão quer? Ele se auto-excluiu das gravadoras”. Eu tenho um patrimônio nas gravadoras, tem vários discos meus lá ainda vendendo bem. E mesmo que não tivesse nada disso, e se eu tivesse ingressando no mercado?

Ricky – Você não perguntou pra Caetano ou Gil por que eles mudaram de idéia sobre a numeração?

Lobão – Falei com Regina: “Não é possível, eles me deram a palavra de homem, tavam animadíssimos, eles são históricos nisso”. “Telefona então pra eles.” “Mas eles tão dizendo que eu tô maluco!” E eu não tava falando como Lobão, tava representando uma classe inteira, é uma questão ética. ENTÃO LIGUEI PRA FLORA GIL, QUE ATENDEU. “VOCÊ É UM CANALHA! SEU FILHO-DA-PUTA! EU SEI QUE VOCÊ NÃO GOSTA DO GIL!” “SIM, MAS E DAÍ?” “POR QUE VOCÊ TÁ BOTANDO ELE NESSA BRINCADEIRA?!” “ISSO NÃO É UMA BRINCADEIRA. GOSTAR OU NÃO GOSTAR NÃO É A QUESTÃO. É UMA COISA DA CLASSE, VOU FICAR COM PRURIDOS SE GOSTO OU NÃO GOSTO DO SEU MARIDO, OU SE ELE GOSTA OU NÃO GOSTA DE MIM? NÃO TÔ DISCUTINDO UMA QUESTÃO PESSOAL. ISSO É UMA ARTICULAÇÃO DE CLASSE. NÃO IMPORTA SE ELE ME ACHA FEIO, CHATO E BURRO. ELE E CAETANO, PRINCIPALMENTE ELES, TÊM UMA OBRIGAÇÃO HISTÓRICA PORQUE SEMPRE LUTARAM POR ISSO. TÔ JOGANDO UMA COISA QUE É CORRELATA AOS INTERESSES DE TODOS NÓS.” “Você tá fazendo isso pra acabar com a carreira do Gil! O presidente da gravadora deu uma carteirada que pode acabar com a carreira dele!” “Vocês têm uma auto-estima muito pequena. E se o Gil sair da gravadora? O Gil, com 30 anos de carreira, vai amarelar porque o presidente de uma gravadora deu uma carteirada? Você não acha isso muito feio? Não acha vergonhoso? Se isso ventilar seu marido vai ficar numa situação horrorosa.” Aí ela ficou: “Então fala com a Paulinha”. Telefonei pra Paulinha.

Ricky – Paula Lavigne, mulher e empresária do Caetano.

Lobão – “Oi, meu amor, tudo bem?” “Tudo bem, mas vocês não podem fazer isso.” “Mas Caetano não é a favor da numeração.” “Caetano me disse que assinava. E recebeu depois todas as instruções: se discordasse, que remetesse a nós.” Quiseram desfazer o flagrante! A História irá simonalizá-los. CAETANO E GIL SÃO OS VERDADEIROS SIMONAIS DA CLASSE. PEGAMOS UM E-MAIL NA CASA DA BETH ONDE RITA LEE MANDOU UM EJECT LÁ QUALQUER E VEIO TODA A CORRESPONDÊNCIA DELA COM O GIL. NEGUINHO FAZENDO FALCATRUAS: “A GENTE FALA QUE NÃO PRA ABPD, DEPOIS A GENTE FALA QUE NÃO PRA ELES, AÍ FORMAMOS UM TERCEIRO GRUPO PRA FALAR COM O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, EU E VOCÊ, RITA”. E RITA LEE, QUE É UMA DEPENDENTE PSICOLÓGICA DO GURU GILBERTO GIL, FAZENDO TODAS! Eu tenho que falar tudo isso porque é muito sério. Logo em seguida o cara vira ministro da Cultura. O cara que era o preposto da multinacional Warner Brothers. Como pode ter um cara desses em cargo público? Isso é incestuoso. Essas ligações promíscuas ocorrem o tempo todo, favores entre o Governo e a Globo, isso rola toda hora. Então a classe musical que se uniu foi a independente. A gente conseguiu passar o projeto que foi lavrado e é lei. Isso é uma vitória histórica.

Zélio – E está sendo cumprida?

Lobão – Desde 22 de abril de 2003.

Zezé – O que eles falaram quando a lei foi aprovada?

Lobão – GIL SE RETRATOU QUANDO CHAMOU ALGUNS ARTISTAS PARA O CAPANEMA NO RIO. FALOU EM PÚBLICO: “LOBÃO ESTAVA UM POUCO EQUIVOCADO, MAS É MESMO LEGAL”. MAS AGORA SOBRE O JABÁ ELE JÁ SE REFUGIOU. FUI FAZER UMA ENTREVISTA PARA MINHA REVISTA E LIGUEI PRA LÁ. “O MINISTÉRIO DA CULTURA NÃO SE MANIFESTA PORQUE NÃO É A SUA ÁREA. GILBERTO GIL ENQUANTO MINISTRO DA CULTURA NÃO TEM NADA A DECLARAR SOBRE O JABÁ”. “E enquanto artista, ele tem?” “Fale com seu secretário particular.” Liguei para o secretário particular. “Ele tem interesses pessoais com multinacionais e não pode dar uma declaração.” Fomos então para o Ministério das Telecomunicações. “Não é da nossa alçada. Procure outro ministério.” Fomos ao Ministério da Justiça, que fechou o círculo rebatendo novamente pro Ministério da Cultura. Estamos cobrando isso do Governo e estamos fazendo a lei contra a jabá.Manoel

Magalhães – O lobby contra o jabá vai ser muito mais pesado.

Ricky – Tem muito congressista dono de rádio.

Manoel – E isso desmonta toda a indústria.

Lobão – É um mato sem cachorro, mas a gente vai chegar e mostrar… Primeiro: tem que anunciar os compositores do que for executado. Lembram de Lennon & McCartney: (com voz de locutor) “De Evaldo Gouveia e Jair Amorim”. Todo mundo conhecia essa dupla, mas ninguem sabe mais quem são os compositores. Segundo: tem que acabar o jabá. Como coibir o jabá? Identificando-o. Obrigando a falar: “Isto é uma matéria paga”. Como se fosse um tijolaço do Brizola. Pode ter o jabá, pode pagar, mas tem que dizer que é pago, que aquela música está sendo tocada como se fosse um anúncio. Mas aí eles relutam, porque desglamouriza o jabá, além de incorrer em falsidade ideológica. Eles anunciam “Primeiro lugar em Dusseldorf!”, mas como, se o disco acabou de ser lançado? Vão ter que falar: “Esta música é uma propaganda paga por Fulano”. Se não falar e for pego, quatro anos de prisão. “Duas horas sem tirar de cima!” É claro, o departamento comercial tá recebendo praquilo durar duas horas! “Entrou na programção já em quinto lugar!” Por que um lançamento independente, se toca alguma vez, é uma vez de madrugada, e o de uma gravadora já entra com cinco execuções diárias? Será que fiz tanta merda assim pra não ter nenhuma música tocando nas rádios, de todas essas que fiz? A Vida é Doce vendeu cem mil cópias, foi eleita Disco do Ano, foi Personalidade do Ano pela APCA, não tocou em rádio!

Claudia – Mas como se vai fiscalizar o uso do jabá?

Lobão – Como o antidoping da Fifa. Tem que monitorar as emissões. A numeração tá dominada. O cara pode adulterar, mas se for pego as penalidades são tão severas que o custo-benefício não compensa o trambique. Se diminuir em 20% o jabá isso já possibilita uma cena riquíssima no rádio.

Jesus – O que é o jabá?

Lobão – Uma propina que se paga pra tocar determinada música nas rádios. Você pensa que aquela música tá em primeiro lugar porque é um sucesso, mas é resultado de telefonemas forjados criando uma indução. Você pode ligar pro hit-parede de qualquer rádio e pedir Fulano de Tal. Se não tiver na lista do jabá, o cara te induz a pedir Sicrano ou Beltrano. Prêmio MultiShow: tem cinco correndo a Melhor Artista. E se o Melhor Artista pra você não for nenhum desses cinco? Aquelas vagas são compradas. Minha revista lança artistas que fariam mudanças na música brasileira, como B-Negão, como Mombojó, e não tocam. Por mais modernos que estejamos, com internet, o que faz existir o imaginário no inconsciente da população é o rádio.

Lencinho – Estão radiofonicamente condenados ao ostracismo.

Lobão – Neguinho tá sentado em cima de um poder onde não deveria. O jabá cristalizou em 88 com aquela coisa de Sarney. ACM era ministro das Comunicações e leiloou 1.767 concessões pra poder dar mais um ano de mandato pro Sarney. Formou-se a rede Transamérica, a rede Cidade, a Jovem Pan… Se o jabá era regional, pegando uma cidade, agora fazem a programação pro Brasil inteiro. São oito ou nove redes e mesmo os que não são dessas redes copiam a sua programação. Você não tem chance!

Lencinho – Os Racionais conseguiram furar esse bloqueio.

Lobão – Porque vieram de um gueto formado por um grupo social homogêneo, articulado, e que utiliza as rádios comunitárias, mas isso forma hoje em dia uma situação paradoxal porque não sabem interagir fora do gueto. Tentei fazer essa articulação mas não tem onda com os caras. Isso é ruim pra eles, a longo prazo vão ficar estratificados e o assunto vai começar a rarear. Mas os Racionais são importantíssimos, são um modelo a ser copiado, foram meu fator de inspiração porque eles conseguiram.

Claudia – Quem tá com você nessa briga do jabá? É uma luta solitária?

Lobão – Não, sou representante genuíno de toda a classe. Tô dirigindo a Associação Nacional de Controle dos Direitos Autorais.

Claudia – Mas tantos já brigaram com você.

Lobão – NÃO, DIGA-SE DE PASSAGEM QUE BASICAMENTE ISSO FOI A CANALHICE TROPICALISTA, MAS SAÍMOS INCÓLUMES DESSE LODAÇAL COM INFLUÊNCIA DA MÁFIA DO DENDÊ. E vamos continuar. O main stream brasileiro é extremamente decadente. Os sambistas, a rapaziada da música independente, estes estão com a gente. Temos 30 mil filiados no Sindicato dos Músicos de SP, 5 mil no Rio, 3 mil em Porto Alegre. Estiveram com a gente o Ivan Lins, Roberto Frejat, o Sepultura, o Ira, Barão Vermelho, Pato Fu, Jota Quest, uma porrada de gente. Tô com o Zé Catimba que vai estourar uma bomba agora em maio. Parada violenta! Agora, imagine se além destes Chico Buarque fosse comigo! Mudava tudo!

Zezé – Você implica muito com Chico Buarque.

Lobão – Não, estou dizendo inclusive que ele assinou a favor da numeração, mas depois não quis entrar. Se ele entrasse… me chamar de louco é fácil, agora, a ele não chamariam de louco. Até por hábito. É fácil me despotencializar: “Mas esse tomou muita droga, foi preso, é maluco…” Mas Chico é romântico… NÃO TENHO NADA PESSOAL CONTRA O CHICO BUARQUE, ACHO ELE UM CARA SIMPÁTICO, PODERIA ATÉ JOGAR BOTÃO COM ELE, COISA QUE COM CAETANO E GIL SERIA UM PROBLEMA. MEUS PROBLEMAS COM CAETANO E GIL SÃO FILOSÓFICOS, EXISTENCIAIS, TUDO, MAS COM O CHICO APENAS ACHO QUE ELE NÃO FAZ BEM MÚSICA.

Janot – O Mombojó, antes de ser lançado jã tinha liberado na Internet todas as músicas do disco pra serem baixadas. Isso atrapalha? Não é concorrência?

Lobão – Em nada! Quando lancei meu disco em 99 tava morrendo de medo de ser uma fiasqueira brutal, então quando tinha duas ou três músicas prontas botei na Internet, aí vi que tavam baixando sem parar.

Monique Cardoso – Serve como termômetro e experimentação.

Zélio – Mas não tem retorno financeiro.

Lobão – Quando você pensa que o artista, pra tocar na rádio, tem que pagar, e depois não recebe o direito autoral! É melhor não receber nada do que pagar pra tocar! Botar na Internet é mais digno. E com isso vou a Caicó e todo mundo canta minhas músicas novas porque já ouviram na Internet.

Monique – Na rádio também você só ouve o que lhe é oferecido. Na Internet você pode buscar o que quer.

Lobão – Agora, com essa coisa de ondas curtas com sabor de FM a radiodifusão pode mudar. Marcelo Yuka tá lançando uma rádio que tem o mesmo objetivo que a minha revista: criar uma plataforma de poder.

Zélio – Lobão vai virar um Murdoch!

Lobão – Não, sou adepto do “jamais se enamore pelo poder”, é que tem horas que a gente tem que tomar certas iniciativas porque se não fizer vão passar como um comboio em cima da gente. Quando entrei nessa parada eu tinha pouca noção de como era a produção independente no Brasil e através de fuçar minha própria sobrevivência fui sintonizando e posso afirmar categoricamente: a música brasileira não tá em crise, o que tá em crise é a indústria. Nunca vi uma fase tão profícua e em todos os sentidos. Samba? Temos altos sambistas. Choro? Tem o movimento do choro em Brasília, no RGS, em Belém, usando várias linguagens… Tem o hip hop, o rock, a música eletrônica, a música indie, bossa-nova, tudo, e a indústria não tem noção. E vem aí uma porção de outras coisas novas!

Monique – Pelo lado financeiro, compensou você passar a ser semi-independente?

Lobão – Muito! Nunca ganhei tanto! Das gravadoras recebo 0,01 centavo desde 1989! Por todo o meu patrimônio, que vende de 5 a 20 mil cópias por trimestre. No final do ano, isto dá mais de 100 mil cópias. É por isso que vai fazer 20 anos que estou processando gravadoras. E os advogados falando: “Mas eu tenho outros clientes. Se eu defender você vão carcar meus outros artistas”. Todo mundo envolvido com as gravadoras! Tive que arranjar uma advogada que defende o MST! Agora tô com 13 processos, dez dos quais contra a BMG.

Claudia – De onde vem esse teu inconformismo? Qual foi a primeira vez que você percebeu que não tinha nada a ver com tudo que tava aí?

Lobão – Com 16 anos quando entrei pra ser músico. Quando fiz a Blitz e me recusei a assinar com a Blitz. “Não vou assinar, não vou virar conjunto infanto-juvenil!” A Blitz não era aquilo!

Claudia – E por que isso?

Lobão – Porque sou um cara que tem uma auto-estima. Eu me amo. Não admito que neguinho vá botar na minha bunda sem creme. Quêisso, amigo?!

Claudia – Isso tem a ver com sua formação, é coisa de família?

Lobão – Não sei… tive uma vida muito precoce. Com 16 anos eu atuava num nível internacional, tocando com Patrick Moraz, em contato com os maiores empresários do mundo. COM 17 ANOS TAVA ME PREPARANDO PRA SUBSTITUIR O YES. TOCAVA COM ALPHONSE MOUZON, JACK DEJOHNETTE… PETER GRANT, O EMPRESÁRIO DO LED ZEPPELIN VINHA AO BRASIL E PASSAVA DOIS DIAS LÁ EM CASA. STEVE HARVEY, DO EARTH WIND & FIRE TAMBÉM. EU TAVA NO JET-SET. QUANDO JOHN LENNON MORREU, EM 80, O BATERISTA QUE TOCAVA COM ELE FOI PASSAR SEIS MESES LÁ EM CASA. FICAVA NO TELEFONE: “NÃO, KEITH, NÃO POSSO… NÃO GEORGE, AGORA NÃO DÁ…” KEITH RICHARD, GEORGE HARRISON! PASSOU SEIS MESES SEM PEGAR NUMA BAQUETA. “Lobão, só posso te dizer uma coisa. Saber tocar bateria não é coisa nenhuma. Agora, pega esse código de seu país e anda sempre com ele. Não sou o melhor baterista do mundo mas sou o mais bem-pago porque conheço todas as leis, os estatutos dos sindicatos, direitos autorais, tudo.”

Monique – De onde vieram esses contatos todos?

Lobão – Porque Patrick Moraz, tecladista do Yes, veio tocar com meu grupo, o Vímana. Acabei me casando com a mulher do Patrick Moraz.

Manoel – E com isso acabou com o Vímana.

Lobão – O Vímana realmente era uma banda impressionante, de Mutantes ficar no chinelo. Era tranqüilo uma das melhores bandas de rock progressivo do mundo. Quem tocava no Vímana era o Candinho, que tocava com Milton Banana, Módulo Mil, era meu ídolo, mas foi expulso da banda. Aí me indicaram pro lugar dele. Eles tavam ensaiando no Teatro Casa Grande pra uma peça da Marília Pêra. Fernando Gama também tocava violão pra caralho, o que possibilitava shows como o do MAM, onde fazia um solo de 40 minutos, aí a gente jogava a bateria pro lado, eu pegava o violão e, junto com Fernando, saía tocando choros descabelantes. A gente tinha o Duo Deno. Era uma vida sensacional, a gente morava em comunidade hippie, fumava maconha, plantava coisas na horta e tocava o dia inteiro. Por isso é que neguinho tocava muito!

Fred Rosário – Esse sítio era do Samuel Wainer, né?

Lobão – Isso, grande e saudoso Samuca! Com o Vímana saí do colégio. Quando vi que o científico não era a minha onda, parei, não podia perder tempo com aquela besteira. Passei a estudar o que eu queria. Para desgosto da minha mãe: “Esses maconheiros vão acabar com meu filhinho!” Nelson Motta então virou meu tutor. A peça da Marília Pêra foi pra SP e minha mãe só me deixou ir porque Nelson, o produtor do espetáculo, disse que tomaria conta de mim. Era mimadíssimo, em SP me vi longe de casa e entrei em regressão, passei o tempo todo montando aviãozinho da Revell. A peça lá não deu muito certo e fui prum sítio nosso em Pedro do Rio. Meu avô ficou puto porque montamos um PA enorme no meio do boliche, como se fosse um teatro. Esvaziei a piscina pra tocar lá porque o eco era melhor. Meu primeiro chá de cogumelo tomei nesse período.Paulo Henrique Peixoto – Lulu Santos, seu ex-colega de Vímana, falou que as pessoas prestam mais atenção nas discussões que você suscita do que na sua música.

Lobão – É possível. Mas acho que todo artista deveria ser assim. O anormal é ser como ele. Se ele é ruim, problema todo dele. Agora, se as pessoas não estão ouvindo minhas músicas porque falo muito, como diz Caetano: “Ele faz isso pra aparecer”…

Janot – Então grava um disco com standards americanos…

Lobão – Faço questão de continuar produzindo músicas novas, não quero virar uma vitrola arqueológica como eles. Faço cinco vezes mais músicas do que eles e com muito mais qualidade do que eles. Não pago jabá pra aparecer. As músicas estão aí pra ouvirem. Pra posteridade. Assino embaixo de tudo que faço. Agora, se as pessoas não ouvem, também é porque não consigo tocar, sou ameaçado por gravadoras, tentam me ridicularizar. É um certo investimento de tempo ficar explicando “olha, Papai Noel não existe”, mas se não falar isso… Não tô aqui dando uma de bufão e falastrão, tô falando coisas pertinentes. Se é duro, se é uma coisa áspera, se é um assunto triste, também concordo, mas tem que ser tratado.

Paulo – Você não se arrepende?

Lobão – PÔ, IMAGINA! ME ARREPENDER DE QUÊ? PRODUZO MEUS PRÓPRIOS DISCOS, TOCO VÁRIOS INSTRUMENTOS, COMPONHO MINHAS MÚSICAS, ESCREVO TEXTOS, FAÇO AS ARTES GRÁFICAS DA REVISTA… SÃO POUCOS OS ARTISTAS NO BRASIL QUE PODEM FAZER TUDO ISSO. LULU TEM QUE OUVIR MUITO MEUS DISCOS PRA FAZER UMA COISA UM POUCO MELHOR DO QUE FAZ.

Zezé – Quem você considera um bom músico? Chico Buarque, você disse que não era.

Lobão – Não, Chico é um bom músico, o que eu disse é que não gosto do trabalho dele. ELE ATÉ COMPÕE DIREITO, É HÁBIL EM HARMONIA, NÃO SE PODE DIZER QUE SEJA UM SEMI-ANALFABETO. É QUE EU, PESSOALMENTE, ACHO CONTRAPRODUCENTE UMA PESSOA COM O TALENTO DO CHICO FAZER AQUELAS MÚSICAS. É NO SENTIDO TRABALHÍFERO MESMO. ELE ESCREVE BEM ROTEIROS DE CINEMA, ESCREVE BEM LIVROS, MAS SUAS MÚSICAS SÃO O COCÔ DO CAVALO DO BANDIDO.

Zezé – Dessa geração do Chico, tem alguém que você considere um bom compositor?

Lobão – Tom Zé tem um trabalho muito melhor e ninguém conhece. Macalé tem um trabalho muito melhor e ninguém fica endeusando ele. Foram deletados. Jorge Mautner, apesar de ser um assecla do Caetano, é um cara genial. Luiz Melodia não é da geração deles mas é outro cara excepcional. Eu quero dizer que o Chico não me irrita tanto mas cito ele como parâmetro porque é muito sacralizado. Assim como João Gilberto. Não acho ele ruim mas é ótimo falar dele porque causa pruridos, urticárias, paixões. Mas sei que as coisas têm a sua importância histórica. Como falei pra Caetano: “Depois que você estiver sob sete palmos de terra, talvez eu seja o único a lhe defender”. É verdade. Conheço quase tudo do Chico. Posso cantar, tocar, analisar texto, é como eu gostar de Machado de Assis mas achar chato, melancólico, bobo. Prefiro Eça de Queiroz.

Jesus – Quando você nasceu, em 57, o Rio era uma cidade que fervilhava com o rock que chegava através de Elvis Presley.

Lobão – Mas em 62 o que eu tocava na bateria era “Vem cá, seu guarda/ bota pra fora esse moço”… (toca uma bateria imaginária). Era marchinha de carnaval, Dalva de Oliveira, Trio de Ouro… O que eu ouvia era saxofones americanos, era A Ponte do Rio Kwai, adorava músicas marciais. Existe uma coisa na música brasileira que ou você é roqueiro ou é MPB purista. Não sou uma coisa nem outra. Já levei vaia e lata porque defendi o samba no Rock in Rio e vice-versa.

Zélio – Com cinco anos você tocava bateria?!

Lobão – Comecei a tocar com três. Com seis anos já tocava muito bem. Adorava samba. Depois da Copa de 70 é que comecei a gostar mais de rock’n roll, me desmilinguia na bateria, ganhei uma bateria Pingüim tipo Ringo Starr. Com 11, 12 anos tocava Soul Sacrifice do Santana, Cream, Creedence Clearwater, Black Sabbath, Led Zeppelin, Deep Purple. Com 12 anos fiz audition pro Secos & Molhados.

Claudia – Você gostava de estudar?

Lobão – Não, fui péssimo aluno. Encontrei um professor meu de Química no Letras & Expressões tomando um mojito e ele se lembrou de uma prova minha. Eu tirava zero mas fazia dissertações. Prova de múltipla escolha, vinha a pergunta “Como se comportam os gases?” e as várias respostas. Eu escrevia: “Os gases se comportam muito mal! São elementos desagregadores, estão sempre com um cheiro suspeito. Os sólidos, não, estão sempre mais agregados”. Passei dois anos no São Vicente e fui também do Rio de Janeiro, um colégio horrível, coisa de atletas, vôlei, basquete, natação, aqueles alunos de mentes abertas em corpos sãos, o pior tipo de companhia que se pode ter! EU FALANDO EM COMER A BUNDA DE JESUS CRISTO E ELES CANTANDO O HINO DO COLÉGIO! Adoravam Moral & Cívica! Agora, nunca colei. Até por desinteresse total. Tinha ódio de colegio, gostava era de me socializar, jogar pingue-pongue, namorar, comer muito.

Monique – Você não ficava com pena do dinheiro dos seus pais?

Lobão – EU NÃO, IMAGINA, NÃO QUERIA FAZER AQUILO! EU TINHA ÓDIO DOS MEUS PAIS, QUERIA QUE ELES SE FUDESSEM!

Fernando de Castro – Qual era a profissão de seu pai?

Lobão – Mecânico, era diretor de scuderie de kart. Minha mãe era campeã de kart. Eu aparecia no Canal 100 gritando: “Mamãe! Mamãe!” E eu queria estudar Filosofia, aí veio a reforma do ensino e suprimiram Latim, Grego, Francês – tudo que eu gostava de estudar – e puseram Turismo. Porra, Turismo?! Entrei pra Engenharia Eletrônica, aí pulei pra Desenho Industrial, não tinha saco nenhum. Quando entrei no São Vicente ficou mais legal, tinha cineclube, Ciclo Buñuel… TINHA TAMBÉM A ESQUERDA FESTIVA QUE ERA UM HORROR, ERA O MOACIR GOES QUE AGORA FICA FAZENDO FILME DE JESUS CRISTO, ENTÃO NÓS ÉRAMOS A DIREITA. MEU COLEGA INÁCIO ERA FÃ DO DELFIM NETTO! MAS A GENTE ERA MESMO DE DIREITA PORQUE ACHAVA A ESQUERDA UMA MERDA. O pessoal de direita fazia show do Gonzaguinha, show do Abacate Flutuante, e o pessoal da esquerda não fazia nada, um pessoal inoperante, tinha uns saraus com luz escura, um anticlima, falavam em ‘liberdade de expressão’… Como eu era vegetariano e estudava Villa-lobos fiz uma música chamada As Vaquianas. Fiz também um cover do Aerosmith sacaneando surfistas chamado Entuba na Gatinha. O nome da nossa banda era Nádegas Devagar e as Gatinhas Depravadas. Aí inscrevi essa parada no sarau. O cara lá falou: “Tudo bem, As Vaquianas é legal, mas essa outra não vai entrar”. “Mas você não tá me ensinando que censura é feio?! Você vai me censurar aqui no seio da liberdade de expressão?!” Ele ficou sem jeito e falou: “Tudo bem, mas vai ser a quinquagésima música…” Ninguém ia ver! Então os caras de direita colocaram umas luzes bacanas e espalharam pros surfistas que tinha uma música em homenagem a eles. Surfista é bom porque você pode falar pró ou contra ele que fica feliz. AÍ FUI DAR UMA ENTREVISTA COMO PARTICIPANTE DO SARAU E VEIO UM DESSAS BESTAS COM AQUELES CACOETES DE ESQUERDA: “LOBÃO, ADOREI ESSA VAQUIANAS. SENTI A METÁFORA. A VACA É A OPRESSÃO SOBRE O POVO OPRIMIDO…” “PÁRA COM ESSA PORRA! VACA É UMA VACA! SIMPLESMENTE UMA VACA!” Eles tinham essa coisa anódina, sangue de barata, os caras todos… (arriados sobre a mesa)… mofados… (canta com voz deprimida) “Salve/ como é que vai?/ amigo há quanto tempo?” (pega sua própria mão e começa a dar tapas revoltadas nela). Isso é o que atravanca o Brasil!

Jesus – E vem cá, por que Lobão?

Lobão – Porque eu comia as criancinhas pra fazer mingau. No São Vicente não tinha uniforme e eu sou um cara tradicional, achava horrível ficar escolhendo roupa, então meu uniforme passou a ser um macacão velho, que minha vó já tinha remendado, sem uma alça, que eu usava à la Lobo Mau. Sempre tive manias. Por exemplo: achava beijo na boca horrível, tinha nojo. Se tava comendo um sanduíche e alguém me pedia um tasco, eu dava tudo, não conseguia compartilhar. Era uma época muito promíscua e eu não queria saber de contato físico. No São Vicente sempre comprava dois mates e dois queijos pra poder dar um pra quem pedia um tasco. Aí me chamavam de Lobo Mau.

Janot – Como é que tem sido tua experiência como editor de revista?

Lobão – A revista era uma alegoria editorial, pro CD ir pra banca, mas de repente o pessoal da cena independente se interessou por ela. Vários jornalistas, como Sílvio Essinger, Antonio Carlos Miguel e Ezequiel Neves, e cartunistas, como Angeli, Laerte e Adão Iturrusgarrai, e poetas como Glauco Mattoso se disponibilizaram e fiquei com um corpo editorial bacana. Sai lá Revista do Lobão mas é uma publicação que anda pelas suas prõprias pernas. Meu critério editorial é se juntar com a equipe, dou sugestão de pauta mas a rapaziada dá muito mais. Eu tinha uma experiência editorial escrevendo crônica pro Dia, depois fazendo a minha própria revista – onde eu fazia até a diagramação – mas a Outras Coisas é feita de maneira muito orgânica. Não sou jornalista mas fico pentelhando a legibilidade, a estética, as matérias, as fotos, a política de administração. Sinto o que a rapaziada quer e misturo com meu gosto pessoal.

Janot – Ser editor de revista mudou a sua percepção sobre a crítica?

Lobão – Quando era mais jovem tive muitos embates com críticos, escrevia discordando, mas sempre tive uma noção clara do papel do crítico, que é importante tanto acertando quanto errando.

Zélio – Mesmo o José Ramos Tinhorão?

Lobão – É claro que eu discordo em gênero, número e grau do Tinhorão, mas ele tem embasamento. Sua erudição é profunda, mas os seus corolários, o chassi sobre o qual raciocina – assim como o do Suassuna – são típificados e às vezes a gente tem que detonar os monstros sagrados. Pedro Sanches tem uma das maiores discotecas, escreveu um livro que recomendo pra caramba, mas discordo dele também. Quando vejo tudo isso, penso: “Temos um ranço cristão e catolicista que permeia toda a nossa cultura popular. Fica-se falando em tradição. Mas em Barcelona tem neguinho querendo acabar até com as touradas”. QUERO DETONAR ALGUMAS TRADIÇÕES SIM, A COMEÇAR POR ESSA COISA RELIGIOSA DO BRASIL QUE REFLETE SOBRE A LÍRICA DESSES POETAS DOS QUAIS FALAMOS AQUI. É O ENLEVO PELA POBREZA ALHEIA. (canta dramaticamente) “É gente humilde, que vontade de chorar.” Isso é o cúmulo! O acabamento literário é muito bom, é evidente, mas o conteúdo é uma porcaria.

Jesus – O que você me diz sobre o Movimento de 22?

Lobão – Que nós regurgitamos até hoje de maneira errada! O fator Antropofagia é movido por um ressentimento, uma inveja mal resolvida da periferia pela matriz. Se você fizer uma enquete com canibais profissionais verá que jamais comem o que amam. Isso aniquila a proposta antropofágica brasileira porque o processo de metabolização de arte é um processo de amor. O fêmur que se come é o do inimigo, a mulher que se ama é comida mas no bom sentido. O conceito de antropofagia agora é anacrônico. O canibalismo inclusive suscita doenças nocivas como a vaca louca.

Jesus – Você prefere formar novos lobinhos do que comer os porquinhos.

Lobão – E temos um problema de backlash da Semana de 22 que é a Tropicália. Não tem porque a Tropicália ser dilacerada, mas tem que ser melhor observada, como o próprio Décio Pignatari falou quando foi lançado o Tropicália 2, que na verdade é o Tropicália a dois, com Caetano e Gil, sem Macalé, Tom Zé, Torquato, Capinam….

Manoel – Os Mutantes…

Ricky – Mutantes leia-se Rogério Duprat.

Lobão – Que eram a força mais trangressora da Tropicália. Temos que discutir como o Brasil barrocamente se construiu através de um alicerce anódino e flácido e cristão e rococó. Nos enebriamos pelas proparoxítonas, pelos textos rebuscados, sem entender como uma frase curta e grossa… e olha que não tô falando de poesia concreta, que é uma coisa antiga. Por exemplo: Glauco Mattoso é o rei dos sonetos e um podólatra. Seus sonetos sobre podolatria são estudados em Yale.

Jesus – Olavo Bilac também tem sonetos maravilhosos.

Lobão – Mas foi crucificado pela Semana de 22 como um parnasiano. Virou sinônimo de out. “Ah, temos que falar sobre a realidade brasileira!” ALGUMAS DE NOSSAS PIORES MÚSICAS SÃO AS CANÇÕES DE PROTESTO. (CANTA COM ENTONAÇÃO DRAMÁTICA) “VEM, VAMOS EMBORA, QUE ESPERAR NÃO É SABER…” O CARA TEM UMA VOZ DE “AH, COMO TENHO PENA DE MIM!” (CANTA, DEPRIMIDO) “CAMINHANDO E CANTANDO E SEGUINDO A CANÇÃO…” Ô AMIGO, AUTOPIEDADE NÃO! QUER COISA MAIS MANÍACO-DEPRESSIVA DO QUE “MAS ISSO NÃO IMPEDE QUE EU REPITA / É BONITA, É BONITA, É BONITA”? O CARA TÁ DEPRIMIDO, QUERENDO SE MATAR, E VEM COM “VIVER, E NÃO TER A VERGONHA DE SER FELIZ!”

Jesus – É que nem sexta-feira quando vai todo mundo tomar chope.

Lobão – É a depressão do brasileiro na maior miséria possível . Não! Isso não quero pra mim! Não quero isso pro Brasil! É bonita é o caralho! Mas nem por isso vou me matar, vou é botar humor nessa coisa. Agora, não posso dizer que é bonita porque é uma afirmação falsa. (volta a cantar em tom de lamento) “Rosa acabou comigo/ Meu Deus, por quê?/ Nem Deus sabe o motivo/ Deus é bom/ Mas não foi bom pra mim…” PQP! (faz um gesto de quem está enforcando alguém) Isso é muito ruim! Mas é cultuado! ELIS REGINA É UMA BOSTA! NÃO POSSO IMAGINAR UM ARTISTA QUE SE EMOCIONE MAIS DO QUE A PLATÉIA. TOMÁ NO CU, SEGURA A TUA XOTA, NÉ VERDADE? LEVARIA UM BANHO DA BILLIE HOLLIDAY, NÃO TEM COOLNESS NENHUM.

Manoel – Mas você passou por uma fase de ficar se emocionando.

Lobão – Como músico não. Posso me emocionar pessoalmente mas sei me posicionar como artista.

Manoel – Chegou a gravar um disco tocando violão, fazendo umas coisas românticas…

Lobão – Meu irmão, eu toco violão, toco choro, não tô falando de estilo, tô falando do cara chegar e ficar emocionado com o seu próprio trabalho, e começar a fazer mímica, e ter espasmos, e chorar… NÃO POSSO ACREDITAR NUM ARTISTA CRESCIDO QUE FIQUE… (IMITA ALGUEM CANTANDO E CHORANDO). MENOS! MENOS! “AH, ELIS É AFINADÍSSIMA!” SANDY TAMBÉM É AFINADA MAS É UMA MERDA! CÁSSIA ELLER, ELIZETH CARDOSO, ALAÍDE COSTA E CLEMENTINA DE JESUS, AÍ SIM, TAMOS FALANDO DE GRANDES CANTORAS. ARACI DE ALMEIDA? ISSO É A FINA FLOR. AGORA, GAL COSTA, MARIA BETHÂNIA, SIMONE, PODE JOGAR NO LIXO, UMA PORCARIA ODIOSA.

Claudia – Você não gosta de bossa-nova, né?

Lobão – Tenho muitas coisas de bossa-nova, o que náo gosto é da anemia bossa-novista. Assim como existe aquela coisa do artista muito emocional, tem o artista anódino, oligofrênico (imita as caretas de João Gilberto tocando).

Paulo – Tem aquela história do João Gilberto te ligando pra mostrar a gravação dele de Me Chama.

Lobão – PÔ, EU NO MEU ANIVERSÁRIO, TINHA CHEIRADO, QUATRO DA MANHÃ, LIGOU O JOÃO (IMITA A VOZ): “LOBÃO… VEM AQUI…” “NÃO POSSO, JOÃO, DE JEITO NENHUM.” “MAS POR FAVOR… VOCÊ TEM QUE VIR…” “NÃO POSSO, JOÃO!” “É QUE TÔ COM OITO CÓPIAS DA SUA MÚSICA…” AÍ LIGOU UM CASSETE E FICOU LÁ TOCANDO AS OITO VERSÕES DE ME CHAMA. E EU ASSIM (SEGURANDO O TELEFONE AO OUVIDO), SUANDO, TREMENDO, NÃO TINHA INTIMIDADE PRA DESLIGAR, OUVINDO 40 MINUTOS DE ME CHAMA. QUANDO FINALMENTE ACABOU, ELE FALOU: “QUAL É A MELHOR… ?” “PÔ, CARA, NÃO SEI!” “MAS A MÚSICA É SUA…” “VOU CHUTAR ENTÃO: A SEIS!” “MAS ACHO QUE A QUATRO… VAMOS OUVIR ENTÃO DE NOVO…” Eu: PQP! As músicas eram todas iguais! Iguais a todas as músicas cantadas por João Gilberto! Pô, tudo bem, ele gravou, mas aí deixou de fora a frase principal: “Nem sempre se vê/ mágica no absurdo”. Falei com ele: “Pô João, você assassinou a música! Você acha que se eu quisesse uma música cheia de harmonias faria com três acordes? Pô, eu sei harmonia, consigo entortar, mas não quero!” A música é assim (cantando bem marcado): “Nem! Sem! Pre! Se! Vê!”. Não tem circunvoluções. A dramaticidade tá na repetição. Tudo bem, é a interpretação dele.

Zezé – As companhias telefônicas vivem te oferecendo uma grana pra usarem Me Chama, né.

Lobão – A toda hora! No mês passado pegaram Corações Psicodélicos pra Grandene. Pô, a música tem três compositores e fui voto vencido. Quando é só minha não dou, acho imoral, jingle é uma merda! É que temos um sistema de direito autoral falido onde só meia dúzia de gatos pingados ganham, aí fica neguinho dando a bunda pra poder sobreviver de trampo.

Monique – Você fica emitindo essas opiniões sobre as pessoas… ninguém tá te processando?

Lobão – Não, porque não falo inverdades nem difamo ninguém. Você pode achar que sou falastrão, mas tenho um corrimão, sou um cara ético. Só falo de uma pessoa com embasamento total. Do Herbert, por exemplo, só vou falar quando ele sair do estaleiro.

Ricky – A sua obsessão em falar tão mal do Caetano não é uma bandeira do quanto você o admira?

Lobão – Olha, eu sei o quanto Caetano vale. Fiz uma música pra ele, Para o Mano Caetano, que é uma canção de amor e ódio. É o maior esporro que ele já levou e ao mesmo tempo uma declaração de amor. Se eu não me importasse com ele não teria o conhecimento que tenho de suas músicas. Agora, é por conhecer as músicas dele que tô dizendo essas coisas aqui. E o problema talvez nem seja Caetano mas a inteligentsia brasileira. Milhares de artistas brasileiros não têm pra onde sair porque existe um corredor conceitual que afunila, vindo não só das gravadoras mas da inteligentsia. VOCÊS JÁ VIRAM OS PRÊMIOS DA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS? MELHOR CANTORA: SANDY! PÔ, QUALÉ? EU ESTUDEI COM O MAESTRO GUERRA PEIXE, SEI QUE EXISTEM COISAS MELHORES. Casei no Restaurante dos Esquilos, num dia de sol, ao som da Orquestra Tabajara!

Claudia – E o dia em que começarem a te ouvir? Você vai gostar? Vai perder a graça?

Lobão – De jeito nenhum. Primeiro, não sinto que não sou ouvido. Tenho um público que compra meus discos, vai aos meus shows, canta minhas músicas. Um cara que na década de 80 foi tachado como doidão de carteirinha conseguir, sem nenhuma elaboração mercadológica, ter a credibilidade que tenho pode se considerar feliz. Tudo que estamos tabulando aqui é fruto dessa credibilidade. As pessoas perguntam como posso estar sobrevivendo, como ganho dinheiro sendo tão maldito, mas sou uma pessoa extremamente feliz. Como disse Arnaldo Batista, “Louvado seja Deus que nos deu o rock’n roll”, e vivo muito bem porque amo o que faço. E vivendo intensamente você se rejuvenesce.

Claudia – Mas você vai continuar sendo sempre um inconformado, né?

Lobão – Se posso fazer complicado por que vou fazer simples? A grande função do artista é criar problema. Quando você deixa de criar problemas vira um entretenedor de churrascaria. Agora, minhas preocupações estéticas, ontológicas, estéticas e existenciais são nômades. Entro em contradição. Já defendi acirradamente a MPB fazendo o disco Nostalgia da Modernidade, ortodoxo, jobiniano, tradicionais, pegando a ambiência do Festival Internacional da Canção. Um disco ingênuo, mas se não o tivesse feito não poderia estar aqui falando assim. Poderiam dizer que sou um recalcado que fala isso porque não consegue fazer. Pra lidar com a inteligência você tem que se auto-escanear e se contradizer o tempo todo. Não existe vida inteligente sem contradição. Não tenho uma posição unívoca, experimentei a fundo desde música eletrônica a viola caipira a violão clássico a música de câmara a chorinho. Meu método de tocar violão é o Método Obsessivo, passei quatro anos depois do meu acidente tocando Garoto de 14 a 16 horas por dia.

Jesus – Como fez o João Gilberto.

Lobão – Toco todos os estudos, choros e prelúdios de Villa-Lobos, só não toco os concertos. Tive um acidente de motocicleta, dois dedos ficaram paralisados, todas as articulações daquele lado dançaram, mas consegui voltar a ter pegada na mão. O que me curou foi o esforço repetitivo de tocar Garoto, João Pernambuco, Pixinguinha, Noel Rosa, Tom Jobim, Chico Buarque…

Claudia – Chico também?

Lobão – (ri) Eu posso falar porque conheço a fundo a obra. Sou obsessivo, toco até pegar intimidade. Se quiserem faço uma música igual a Chico. Faço igual a Tom. Toco Sarabande do Bach. E em vários instrumentos. Meu instrumento agora é o computador. Misturo instrumentos, faço batidas, sampleio minha bateria e desmembro…

Vinicius – Você tem essa mesma obsessão por sexo? (Lobão concorda) Mais que Gerald Thomas?

Lobão – PERAÍ, NÃO TÔ FALANDO QUE SOU GARANHÃO, NÃO QUERO SER CONQUISTADOR, TÔ FALANDO QUE TOCO MUITAS BRONHAS. SOU PUNHETEIRO CONTUMAZ. TALVEZ SEJA ESSA MINHA RIXA COM O CATOLICISMO. Ia pra igreja mais por medo de ir pro inferno, mas chegava lá e não confessava porque tinha vergonha. Não falava das bronhas pro padre e aí achava que ia pro inferno mesmo! Ainda bem que hoje bato minhas bronhas sem ter esse tipo de culpa!

Jesus – Lobão, você se definiu de direita mas é altamente de esquerda, por ser tão dialético.

Lobão – Quando falei em esquerda festiva eu tava falando de algo próximo a mim que eram meus colegas de colégio e que eram inoperantes. Eu via o pessoal da UNE fazendo vaquinha pra comprar um mimeógrafo e eu dizia: “Vão comprar um transmissor de rádio!” Qual a noção que recebi de direita e esquerda? O regime militar era nacionalista e totalmente americanizado. Minha família era da Arena, meu pai era nazista, lia Mein Kampf, desenhava suásticas.

Zezé – Ele tá vivo?

Lobão – Não, morreu há duas semanas. (dá gargalhadas) COMO BATERISTA, TENTEI ME LIVRAR DESSAS DISTINÇÕES DE DIREITA E ESQUERDA E ME TORNEI AMBIDESTRO. NÃO QUERO SER UM PARTIDO, QUERO SER INTEIRO.

Ricky – O que você tá fazendo em termos de música nesse momento?

Lobão – Tô musicando dois poemas de Júlio Barroso, tá ficando muito legal. Uma parceria com um amigo que não está aqui mas tenho certeza que ele assinaria embaixo. Como quando musiquei uma letra do Cazuza. (pausa nostálgica) Cazuzaço! REGINA ECHEVERRIA ERA GHOST-WRITER DA MÃE DO CAZUZA NUM LIVRO SOBRE ELE E VEIO ME ENTREVISTAR: “VOCÊ E CAZUZA CONVERSAVAM MUITO, NÉ? O QUE VOCÊ FALAVA COM ELE?” “OLHA, EU DAVA MEU ÚNICO CONSELHO QUE PODERIA DAR PRUM AMIGO: ‘MATE A SUA MÃE ANTES QUE ELA TE MATE EM MORTE’!” A MELHOR COISA QUE FIZ FOI DESEJAR QUE MINHA MÃE MORRESSE. CAZUZA VIROU UMA COISA CAFONA, VIROU CRIANÇA-ESPERANÇA. MORTO NÃO PRESTA DEPOIMENTO. MATAR EM MORTE É VOCÊ ABRIR UM LIVRO SOBRE O CAZUZA E TER UM PREFÁCIO DO CAETANO VELOSO! ELE É O CONTRÁRIO DE TUDO QUE ERA O CAZUZA! MESMO PORQUE TODAS AS RECOMENDAÇÕES DESSES CARAS SÃO LETAIS. QUAL A RECOMENDAÇÃO DE CAETANO QUE SOBREVIVEU? A COR DO SOM? EU COMPREENDO A LUCINHA ARAÚJO, ELA TEM UM FARDO GRANDE, MAS PREJUDICA MUITO O CAZUZA. ELE NÃO É O CAZUZINHA VÍTIMA DA AIDS, É UM DOS MAIORES NOMES DA MÚSICA BRASILEIRA. O FILME É UMA HIGIENIZAÇÃO DA VIDA DO CAZUZA QUANDO A COISA MAIS INTERESSANTE DELE ERA A SUJEIRA QUE PROMOVIA.

Lencinho – Você conseguiu ter amizades tanto com Cazuza, do rock, quanto com Nelson Gonçalves, das antigas.

Lobão – QUANDO SAÍ DA PRISÃO A REVISTA MANCHETE TEVE UMA IDÉIA GENIAL: “VAMOS PEGAR DOIS COCAINÔMANOS DE DUAS ÉPOCAS DIFERENTES E VAMOS COLOCÁ-LOS JUNTOS”. FOI ASSIM QUE CONHECI NELSON. FOI LOGO SE APRESENTANDO: “LOBÃO, MUITO PRAZER, SOU NELSON GONÇALVES. SOU VOCÊ ANTEONTEM”. QUE FIGURA!

Zezé – Quando ele chegou na TVE, baixou as calças e mostrou pra gente a prótese peniana!

Lobão – O cara era um tarado incondicional! Quando fui gravar A Normalista com ele, achei estranho que ele tava na maior candura, veio me dar um abraço, aí de repente ligou o pênis dele, PÁ! Um pirocão do tamanho de um bonde! Saiu correndo atrás de mim: “Eu necessito de um coldre!” Tava chegando de uma semana na esbórnia, encontrei com ele na RCA e disse: “Nelson, passei uma semana fora de casa, na esbórnia, como vou fazer agora?” “Faça como eu: vá para Paris e telefone de lá demitindo a sua mulher!” E ele como boxeur? No aniversário dele de 60 anos a RCA convidou Éder Jofre pra aparecer junto com ele num ringue. Criou o maior impasse! “É tudo brincadeira, viu Nelson?” “Brincadeira é o caralho. Vou nocauteá-lo.” “Calma, seu Nelson, quêisso!” Oito mil pessoas, festa de aniversário de Nelson Gonçalves, e ele entrou no ringue: “Vou nocauteá-lo!” No primeiro round já acertou um socão no Éder. Quando acabou, Éder reclamou: “Pô, ele me acertou bem aqui, fala pro Nélson pegar leve”. E o Nelson do outro lado: “Cobarde! Estás arregado! Estás com medo da minha pessoa”. Voltou e pimba! Deu mais outra catucada. O Éder falou: “Vou revidar, hein. Vou revidar… Tenho respeito pelo Nelson mas…” Na terceira, Nelson deu uma e Éder Jofre deu outra: PUM! Nelson caiu estrebuchando! Neguinho fotografando tudo! Nelson foi levado pra fora ainda gritando: “Cobarde!”

Jesus – Ele tinha sido boxeador profissional, por vários anos.

Lobão – Uma vez ele foi fazer um show no interior e pegou um Galaxie Landau. Antes de entrar no carro perguntou ao motorista: “Eu queria saber quantos quilômetros são daqui do aeroporto ao local do espetáculo”. O cara falou: “200 quilômetros”. “Duzentos quilômetros. OK.” Sentou e foram andando. De repente ele gritou: “Pára! Pára!”. O motorista parou e perguntou: “Mas o que é isso?” Era um lugar totalmente ermo, no meio de uma cordilheira. Nelson apontou pro velocímetro e falou: “Você me falou 200 km”. Abriu a porta, desceu e (soltando a voz): “BOEMIA!! AQUI ME TENS DE REGRESSO!!”

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