Liisa Uuskallio

Fundadora de Penedo Morre aos 97 Anos (Jornal Nariz da Índia, jul-ago/1998)

Faleceu no mês passado Liisa Uuskallio, mulher do agricultor e filósofo vegetariano Toivo Uuskallio, fundador da colônia finlandesa de Penedo. Liisa viveu bem disposta e alegre quase até seus últimos dias. Há cerca de três anos, já sendo conduzida em cadeira de rodas, ela tomava caipirinha e ria junto com os amigos numa festa de aniversário da pintora Eila. Estimada por todos, tida como a grande mãe da colônia, Liisa recebe a pequena homenagem do nosso jornal com a publicação (…) de uma entrevista concedida por ela em 1987 a Frederico de Carvalho, Gustavo Praça e Celina Whately, para a revista da ACIAR, de Resende.

Foi uma tarde agradável aquela que passamos na varanda da casa de dona Liisa, em 1987. Eu (Gustavo Praça), meu pai (Frederico de Carvalho), Celina Whatey e Marina Bevilácqua conversamos bastante tempo com ela. O resultado foi uma matéria na revista da ACIAR, que tomo a liberdade de reproduzir aqui. Ao evocar aquele dia, me vem principalmente a imagem de serenidade de dona Liisa, sua sábia aceitação do movimento e da mudança no mundo, e sua afirmação de que o amor é o mais importante. "Agora, nós velhos nos entendemos muito melhor do que antes"- comentava ela no final – "Agora posso amar a todos no Penedo. O amor é o mais importante"

P- Na Finlândia vocês já praticavam agricultura?

LIISA: Vivíamos numa fazenda em que começamos fazendo de tudo e depois se transformou numa fazenda modelo. Os estudantes até iam lá para aprender. Plantávamos cereais, fazíamos enxertos de madeiras e tudo o que é frutinha pequena, como frutas silvestres, morangos. Tinha cavalos, vacas, carneiros.

P- E porque vocês resolveram vir para o Brasil?

LIISA: A Rússia levou nossa fazenda e toda a região da Carélia, onde morava a terça parte da população finlandesa.

P- E a senhora estranhou muito quando chegou aqui?

LIISA: Era muito diferente, tudo. Mas a primeira impressão, quando chegamos no cais do Rio de Janeiro de madrugada, em 1928, e vimos aquelas lâmpadas assim como pérolas em volta das praias, foi lindo. O Rio era lindo. Copacabana era só areia e algumas casas, não tinha edifícios nem automóveis. Parecia um conto de fadas (ri da própria imagem que criou).

P- E quando seu marido comprou a fazenda aqui no Penedo, como era?

LIISA: Aqui não tinha nada. Era só pasto, e até mais morros do que pastos. E o rio. Ah, se não tivesse esse rio aqui os finlandeses não tinham ficado. Naquele tempo foi uma luta muito grande.

P- Seu marido era agricultor na Finlândia, mas os outros que vieram eram da cidade?

LIISA: Tinha gente de todas as profissões e regiões. Depois da guerra, muitos finlandeses já tinham deixado a Finlândia e ido para os Estados Unidos. Depois viemos nós para o Brasil.

P- E a fazenda Penedo foi comprada com dinheiro de várias pessoas?

LIISA: Não, foi só dinheiro do meu marido. Alguns trouxeram o seu dinheiro e outros ganharam com o seu trabalho aqui e depois compraram seus sítios.

P- Vocês, de início, tinham como princípio a alimentação vegetariana, não é?

LIISA: Vou contar como isso começou. Meu marido, Toivo, foi mandado para um hospital de tuberculosos, antes de sairmos da Finlândia, e venceu a doença com o sistema que usou para se tratar – alimentação vegetariana e nada de açúcar, café. Mas naquela época ninguém entendia isso e todos riam da idéia de meu marido, porque não era moda naquela época, como é agora.

P- Hoje muitos acreditam que o vegetarianismo traz também uma mente mais saudável, uma sabedoria maior. Quando vocês chegaram, essa crença na alimentação vegetariana era só de seu marido ou era uma mentalidade de todos?

LIISA: Muitos pensavam assim, mas como aqui na Fazenda não tinha nada para comer, a gente tinha que pensar em como arranjar a vida…

P- De certa forma eram levados a comer outras coisas.

LIISA: Não podia pensar em só ser vegetariano. A gente só pensava em ter comida que alimentasse. Naquele tempo tinha muito palmito em nosso mato, eu usava muito, fazia bolinhos e até pensavam que era carne. Agora não tem mais. Nós lutamos muito naquele tempo. Para fazer estradas e pontes aqui em Penedo era só o Toivo, meu marido, quem tinha coragem de fazer. Sr. Natanael até dizia que não sabia com que força Toivo tinha feito tudo aquilo.

P-Como eram as relações dos finlandeses com os resendenses quando vocês chegaram? Eram vistos como muito diferentes?

LIISA: Sempre foi muito boa. Nós comprávamos tudo em Resende e fizemos muitas relações. Íamos a cavalo. De tanto ir até lá o meu cavalo aprendeu a abrir as várias porteiras que tínhamos que passar. Nós íamos pelos Três Morros (antigo caminho para Mauá ).

P – E como foi a transição da colônia agrícola para a fase de turismo ?

LIISA: No começo era uma vida coletiva, todos na Casa Grande. Depois, quando cada um foi para seu sítio, começaram as pensões. Num carnaval chegamos a ter 100 pessoas aqui, vindas do Rio. As pessoas escreviam perguntando se podiam vir, e nós íamos buscar os hóspedes na estação Marechal Jardim, em carro de boi.

P- Além da Casa Grande, qual foi a primeira pensão estabelecida no Penedo?

LIISA: Acho que foi ali no Bertell.

P- Voltando ainda ao tempo em que vocês plantavam, faziam enxertos de fruteiras, para onde vendiam?

LIISA: Antes da revolução de 30, do Getúlio, nós já tínhamos mudas, que vendíamos em Barra Mansa, Volta Redonda, e mandávamos por trem até para Belo Horizonte.

P- Então, por um tempo, chegou a dar certo a atividade agrícola de vocês.

LIISA: Deu e ficou lindo, tudo plantado. Mas os tempos ficaram muito difíceis, uma inflação tremenda. Agora está difícil, mas comparando com aquele tempo… Toivo tinha feito negócio com o Ministério da Agricultura para vender os enxertos, mas com a mudança de governo não quiseram mais saber de nada. As mudas cresceram demais e, assim, nós perdemos o nosso grande primeiro trabalho. Foi aí, então, que começamos com a pensão. Um dos primeiros hóspedes foi um velho General Francisco Escobar Araújo, que era multo gordo e ouviu talar de uma colônia vegetariana. Começou a vir para cã para emagrecer.

TAIME ( filha de D. Liisa) – Quando eles começaram a ter hóspedes, tiveram que adaptar as casas para isso. Então, ninguém chamava de hotel; era a casa de dona Liisa, a casa de dona Lídia. Era tudo muito familiar.

P-E o artesanato, como começou ?

LIISA: Foi d. Maija Valtonen quem começou com os teares, que depois foram se espalhando e quase toda casa tinha um tear. Eu tecia muito tapete. Depois teve o trabalho com bucha, iniciado por Toivo Aiskanen, que foi também quem construiu aquela casa de pedras que os adventistas usam hoje. A bucha veio da fazenda Barbosa (onde hoje é a granja do Natanael, logo na entrada de Penedo ). Quando vi lá pensei que fosse pepino. Então trouxe algumas, tirei as sementes e plantei.

P- Numa certa época comentava-se em Resende que em Penedo havia gente que andava nua. As famílias começaram a proibir os filhos de virem aqui. Houve uma colônia de nudismo?

LIISA: Teve sim, mas não era de finlandeses. Foi um Sr. Coimbra quem trouxe um grupo de naturistas que andavam sem roupa, mas isso durou pouco. Tinha até uma professora de ginástica muito famosa, do Rio. Ela costumava andar a cavalo nua. Mas como começaram a dizer que éramos nós que fazíamos isso, então o Toivo proibiu essa gente de ficar aqui.

P- Hoje, pensando naquele tempo inicial. o que a senhora acha que era melhor antes e o que é melhor agora?

LIISA: Era tudo muito alegre naquele tempo, sem cachaça, sem bebida. Vinha muita gente com criança passar férias e às vezes ficavam quatro, cinco, no mesmo quarto. Hoje A uma pessoa só num apartamento… Eu acho que depois daquela luta toda que enfrentamos e que foi uma escola de vida para nós todos, hoje, nós, velhos, estamos agradecendo porque houve melhoras, uma vida mais fácil. Hoje, eu sinto que estou num paraíso; ouço os passarinhos cantando, vejo tudo o que estou plantando e que vai começar a florir.

P- Então o paraíso que seu mando pretendeu criar aqui acabou se tornando realidade?

LIISA: Acho que se ele visse isso agora ficaria muito contente, porque ele era paisagista e foi ele quem arrumou todos esses gramados, deu a idéia de usar as pedras (Liisa se refere especialmente ao grande jardim do hotel da família, na "Pousada Penedo").

P- Mas ele chegou a ver alguma coisa, não é? Ele morreu em 1969?

LIISA: Foi

P- E o Clube Finlandês, como começou?

LIISA: Foi feito aos poucos. Não tínhamos dinheiro e cada um deu alguma coisa. Foi o pai da Eila, Sr. Lehtola, quem construiu. O velho Markkula tocava violino e o Lehtola tocava sanfona (Frederico diz que se lembra do Markkula subindo no banco com o violino e o pessoal tirando o disco da vitrola).

P- A Sra. recebeu, recentemente, uma condecoração do presidente da Finlândia como reconhecimento pelo seu trabalho e o intercâmbio Brasil-Finlândia, não é?

LIISA: Foi em dezembro do ano passado e eu disse para o embaixador que a tal medalha caiu na cozinha errada. Uma coisa eu sei: é que a medalha tem dois lados.

P- A Sra. disse que está no paraíso, mas a senhora também vê pela televisão e acompanha a evolução do mundo. Com sua experiência de vida, o que é que a senhora acha? Que o mundo evolui para uma coisa boa ou que…

LIISA: Tenho esperança porque o mundo mudou muito desde que chegamos aqui e vai sempre mudando…

P- As vezes para pior, não é?

LIISA: Mas a gente não deve pensar assim, porque parece que tem gente sempre lutando para melhorar a vida. E a vida ensina, é uma escola. A gente apanha mas aprende. Eu acho que não faço duas vezes o mesmo erro. Isso eu aprendi. Para entender a vida a gente tem que lutar. A luta faz a gente entender. Eu tenho fé. Acho que a juventude mudou muito também. Para melhor E a educação, o povo precisa de educação, e isso também melhorou. Depois, não se pode comparar o Brasil, que é imenso, com um país pequenininho, bem organizado. É claro que o passado acompanha a gente, mas a gente tem que viver olhando para o futuro.

P- A Sra. costuma ir a Resende?

LIISA: Minhas pernas hoje não ajudam mais como antes. Agora sofro muito de taquicardia; os labirintos não funcionam mais (ri, gostosamente, de si mesma, sem qualquer amargor). Uma vez por mês os mais velhos se reúnem para cantar músicas folclóricas da Finlândia, e eu também vou. Agora, nós velhos nos entendemos muito melhor que antes. Agora posso amar a todos no Penedo. O amor é o mais importante.

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