Aurora no Campo - Soja Diferente

Leite

 

À tarde, enquanto as três mil lideranças rurais com direito a voto discutem as resoluções, a delegação internacional faz uma visita a diversas propriedades para conhecer algumas unidades produtivas típicas do Paraná: leite, soja, frangos, sistema agroflorestal. Nos intervalos, também se discute a forte ascensão do fenômeno das culturas energéticas, principalmente as oportunidades e riscos que oferecem para os agricultores brasileiros. Nesta crônica, vou discorrer somente sobre ‘leite e aves’. A história do leite se enquadra na categoria ‘alternativas’. A história das aves dificilmente poderia ser chamada de uma alternativa criativa.

Visitamos uma propriedade orgânica que processa leite. Originalmente, era um trabalho conjunto de cinco famílias. Por fim, apenas três continuaram no sistema agroecológico. As outras duas famílias optaram pelo caminho batido anterior. É que a produção de leite no Brasil chegou numa importante encruzilhada. Há 15 anos eram produzidos 14 bilhões de litros de leite. Até pouco tempo atrás havia necessidade de importar muitos dos derivados de leite, o que era feito em grande escala, entre outros, da União Européia. Atualmente, são produzidos 25 bilhões de litros de leite, dos quais seis bilhões no Sul do Brasil. Desde 2004, há tanto exportação (cerca de 2%, mas em ascensão) quanto importação. A Fetraf não tem intenção de – necessariamente – comercializar leite no mercado internacional, pois a tendência nacional é de aumento do consumo. Para muitos, é o único produto que garante uma renda fixa, já que o preço de leite – por enquanto – está bom. Constata-se que, nos últimos anos de estiagem prolongada, um número cada vez maior de agricultores passou a produzir leite. Afinal, no Brasil não há quotas[1].

Tem início um animado debate entre os agricultores presentes, representantes do governo federal e ONGs brasileiras. A questão é: será que o governo vai conseguir reduzir a grande desigualdade de renda no Brasil, de modo que mais pessoas tenham poder aquisitivo para comprar mais leite e derivados? Os programas sociais, como o ‘Fome Zero’, com aquisição direta dos agricultores familiares também podem trazer alívio. Organizar a compra e distribuição dos diversos produtos é de responsabilidade de cada município. Há quatro anos, no Brasil, o consumo médio de leite e derivados era de 130 litros por pessoa/ano. Em 2007, é de 137 litros. A Organização Mundial da Saúde afirma que cada pessoa deveria dispor de 180 litros/ano. Se lembrarmos que o Brasil possui 180 milhões de habitantes, ainda há muitas bocas a alimentar antes de nos preocuparmos com uma avalanche de leite em pó brasileiro no mercado internacional. Em geral, os produtores brasileiros se preocupam mais com o bem-estar animal e alternativas do que os produtores europeus. O tratamento do gado com homeopatia, por exemplo, está aumentando muito (1). A saúde geral dos animais é muito melhor. Eles apresentam, principalmente, pouca mastite, o leite possui um teor de células menor e as vacas são menos atacadas por parasitas. Na Europa, eu ainda não observei muito movimento nesta área de saúde animal. No Brasil, a homeopatia está em sintonia com a revalorização da medicina popular. Ela envolve tanto plantas quanto animais e pessoas. Em 2001, foi realizado um congresso internacional, no qual também estiveram presentes participantes de todas as regiões do Brasil.

 

Trabalho cooperativo

 

Nos últimos anos, a suinocultura está concentrada nas mãos de grandes empresas. Na onda de adesões às grandes empresas, foi ficando cada vez mais difícil para os pequenos agricultores familiares manter sua autonomia na criação de porcos. O mesmo ocorreu com o milho que, em parte, era destinado aos porcos. Gradativamente, a concorrência com as grandes empresas de soja e milho tornou-se loucura. Esta evolução fez com que, nos últimos anos, muitos agricultores partissem para a criação de gado de leite. As grandes empresas de pecuária de leite, com base em silagem e ração, ficaram em dificuldades por causa do dólar elevado. A agricultura familiar viu nisso a oportunidade de aumentar a produção de leite baseada em capim. Para prevenir o que ocorreu na suinocultura, muitos agricultores se organizaram em cooperativas. No Paraná, é a Sisclaf; no Rio Grande do Sul, a Coorlac; em Santa Catarina, a Ascooper. Juntas elas formam o ‘Fórum Sul do Leite’. A Ascooper, de Santa Catarina, congrega 14 cooperativas, com 2748 agricultores associados. Em 2006, eles produziram, juntos, 34 milhões de litros de leite. Por estarem organizados em cooperativas, conseguem negociar um bom preço. Em 2007, a Ascooper organiza a primeira ‘Feira de tecnologias adaptadas para a produção de leite na agricultura familiar’. Nesta feira de intercâmbio é dada, novamente, atenção à homeopatia, produção de leite com base em capim, saúde animal, tecnologias adaptadas, qualidade do leite.


[1] Nota do tradutor: na União Européia, os países impõem sistemas de quotas de produção de leite aos agricultores, visando conter o excesso de oferta.

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