Legal – parte 4 – Luc Vankrunkelsven

“Em chão que se planta educação, colhe-se uma terra solidária”

Educação é a maior ferramenta de libertação. Porém esta ferramenta de poder, um direito de todos não tem sido valorizada, respeitada e muito menos reconhecida em seu poder libertador, pelo menos no Brasil atual.
Tal desprestigio é bastante estratégico pois mantém o cidadão  no “cabresto”, na submissão, possibilitando assim aos detentores do poder a capacidade de avançar e de expandir territorialmente. O termo territorialidade aqui têm o significado de coerção, imposição e de exercício de poder por parte daqueles “tais reféns da ditadura”, pessoas que foram educadas em um modelo tecnocrático e alienado.  
Nesse viés, Luc Vankrunkelsven descreve ao longo de suas obras, possibilidades de transição paradigmática, oferecendo aos cidadãos, ferramentas eficazes para  um avanço em relação à compreensão de nossa territorialidade, nos equipando de armas do saber, possibilitando a todos a capacidade de serem lutadores e guerreiros, oferecendo a principal arma desse embate, o poder a partir do saber.  
E contra quem será a guerra? Contra todos aqueles que defendem os modelos econômicos solapadores da vida, principalmente as grandes corporações, que de forma impositiva impetram exercícios de poder delineados por atores exógenos, responsáveis muitas vezes em desestabilizar toda a rede social e orgânica de comunidades locais e detentoras muitas vezes de profunda sabedoria.
Nesse processo de desestabilização destacam-se atores como a Monsanto, Bayer, Syngenta, Cargill e dezenas de outras empresas multinacionais que expandem seus tentáculos sobre “terras tupiniquins”. Em pleno Século XXI, o Brasil ainda exporta aos países ricos seus míseros produtos primários, como sementes, água, solo, madeiras, alumínio e muitos outros produtos. Em troca disso, importa agroquímicos, fertilizantes e maquinários, uma forma nefasta de nutrir o modelo agroquímico “exportador, transgenizador e solapador” de riquezas.
O que e de quem  solapam esses atores? De todos que habitam esse Planeta. Deles são roubados a soberania alimentar através da principal ferramenta de domínio e exercício de poder, a transgenização. Através da privatização e da interferência da regenerativadade dos grãos, esse exercício de poder tem um nome: “gene terminator”, uma manipulação gênica que traz como resultado final, sementes estéreis (Vankrunkelsven, 2008, p. 287)
Como produzir alimentos com sementes estéreis, fruto desse domínio territorial imposto pela empresas exógenas? Como pagar preços elevadíssimos ditados pela Monsanto e outras corporações internacionais? Por que tantos passam fome no Brasil, um dos maiores produtores de alimentos do mundo? Como maior produtor de soja, o Brasil não consome o grão. Para onde vai toda essa produção? O sistema agrícola mundial produz alimentos para nutrir por volta de 13 bilhões de humanos (somos pouco mais de 7 bilhões), por que presenciamos a cada ano o aumento em cerca de 5 milhões no número de famintos e subnutridos?
O escritor belga Luc Vankrunkelsven tenta em suas obras dar resposta a essas e outras perguntas. Sua reflexão nos leva a buscar soluções coletivas e solidárias, a internalizar práticas de boas condutas no dia-a-dia de nossa alimentação e consumo.  

Daniel Paiva de Oliveira
Universidade Federal de Goiás – Goiânia – Goiás.

28. Carne e pandemia

O medo da gripe suína já diminuiu. A pressão para não mencionar as megacriações de suínos industriais de, por exemplo, Smithfield Foods também já reduziu. O enigmático vírus H1N1 volta a ser mencionado, de vez em quando, como gripe suína.

Enquanto isso, as empresas farmacêuticas multinacionais ganharam bilhões de dólares com a histeria mundial. A Bélgica comprou milhões de ampolas para vacinar pessoas angustiadas. O Brasil importou várias vezes essa quantidade e realizou campanhas obrigatórias no rádio e na televisão para que todos se vacinassem. Ao final, constatou-se que muito menos pessoas morreram de H1N1 do que da gripe comum de inverno de todo ano.

Será, então, que não há necessidade de grandes campanhas preventivas? Nós já tivemos a gripe aviária, a gripe suína e o pior de tudo não é que elas poderiam voltar a qualquer momento? A gripe espanhola de 1918, com milhões de vítimas, ainda está – com razão – presente na memória coletiva da humanidade.

Resistência aos antibióticos

O que me parece estranho é que se aponta muito para as aves migratórias transmissoras de doenças, mas que há um “omertà”  quando se trata de apontar as grandes criações industriais de suínos e aves como a fonte de muitas possíveis doenças e mutações.
Cóilín Nunan, “Antibiotics Adviser to the Soil Association” [Conselheiro sobre antibióticos para a Associação de Solos, do Reino Unido], declarou recentemente, durante a apresentação do filme “Pig Business” (1) no Parlamento Europeu: “Desde 2006, os antibióticos foram banidos, mas ainda há um uso rotineiro na alimentação animal e água. É que eles continuam sendo admitidos como ‘preventivos’, desde que receitados por um veterinário. Aproximadamente 96% dos antibióticos são destinados aos suínos e aves, 4% para o gado. Como as ovelhas não toleraram antibióticos, elas permanecem fora de foco na ameaça de resistência aos antibióticos. Os antibióticos destroem as bactérias benéficas nos animais, permitindo o crescimento das bactérias nocivas. Foi assim que, nos últimos anos, surgiram bactérias novas e perigosas. O estafilococo MRSA foi isolado pela primeira vez em 1961. Ele pode ser transmitido dos animais para os seres humanos. Agora se tornou um problema sério. Muitos animais são portadores de MRSA, especialmente nas granjas industriais. A olho nu não se percebe nada na aparência, mas 25% dos suínos são portadores, bem como 20% das pessoas nas fazendas. Uma pesquisa americana mostra que o risco na fazenda é 700 vezes maior do que no resto da população.
Muito da resistência a antibióticos em seres humanos é decorrente do uso excessivo de antibióticos na ração animal. Determinados antibióticos podem ser perigosos, especialmente em aves. Ainda há muito desconhecimento sobre esse assunto.”

Possibilidade de um novo surto a qualquer momento

O epidemiologista Stefan Ujvari, do Hospital Oswaldo Cruz, em São Paulo (2), aponta a possibilidade de uma nova pandemia no Brasil. O mosquito Aedes aegypti começa a se espalhar perigosamente pelo país. Além disso, o inseto pode transmitir um novo vírus, o Chikungunya. Graças à globalização, o vírus originário do oeste do Nilo, no norte da África, foi detectado nos Estados Unidos em 1999. Graças às aves migratórias, o vírus se espalhou cada vez mais para o sul do continente americano: em 2002, no Caribe; em 2005, Colômbia e Venezuela. Há quatro anos são registrados casos na Argentina. No ano passado, houve três casos no Brasil. Ujvari estabelece claramente uma ligação com a bioindústria em expansão: “A gripe suína não fará mais muitas vítimas, mas incontáveis outras variantes da gripe podem surgir a qualquer momento. Isso ocorre porque nós criamos um número excessivo de suínos, que possivelmente entram em contato com aves e com a população em crescimento neste planeta. É possível que vários vírus se desenvolvam em suínos ao mesmo tempo. Em combinação com o material genético, pode ser formado um novo vírus. O exemplo da gripe suína pode ser repetido, principalmente por causa do crescimento exponencial da criação de suínos e aves.”

Sem necessidade de todos nos tornarmos imediatamente vegetarianos, seria útil integrar a ameaça dessas pandemias recorrentes em nossas considerações sobre “transição no padrão de consumo, reduzindo a proteína animal e aumentando a proteína vegetal”. Quais os custos nossa comunidade internacional pouparia se consumíssemos menos carne e a pecuária industrial se reduzisse?

Guarapuava,
28 de março de 2011.

(1)    “Pig Business. O verdadeiro custo da carne barata”; <http://www.pigbusiness.co.uk>. Um filme sobre expansão das megacriações industriais de suínos de Smithfield Foods na Europa Oriental e em outros lugares no mundo. O DVD pode ser encomendado gratuitamente: <info@pigbusiness.co.uk>.
(2)    “Pandemias – A humanidade em risco”, de Stefan Cunha Ujvari (Contexto: Rio de Janeiro, 2011).
29. Brasil, o grande exportador água

Vou ficar novamente alguns dias na Universidade de Laranjeiras do Sul. Exatamente um ano atrás, ela abriu as suas portas em uma das regiões mais pobres do Sul do Brasil. É interessante ver como este campus traz uma nova dinâmica na cidade e na região.

Por enquanto, a água da torneira ainda é potável por aqui. Em muitos outros lugares no Brasil é melhor você não se arriscar a beber água da torneira. Especialmente quando se é de fora Durante a turnê, nos debates animados, eu sempre repito: “Vocês, brasileiros, têm tudo em matérias-primas, água e energia Mas por que vocês exportam água, solo e sol a preço tão baixo?” Geralmente eles me olham um tempinho até entenderem o que eu disse: “Sim, solo-água-sol na forma de, por exemplo, soja. Nós criamos porcos sem ter terras. A ração animal, o solo, a água, o sol vêm do exterior. Fornecidos por vocês.”

Privatização da água potável visível

Até agora, eu não colocava números nisso, mas a Agência Nacional de Águas (ANA), do governo federal brasileiro recentemente publicou números chocantes. “Metade dos municípios brasileiros pode ficar sem água em 2015”. É necessário um investimento de 22,2 bilhões de reais (cerca de 9 bilhões de euros) (1) nos próximos anos para evitar a escassez nos 5.565 municípios do país, dizem os especialistas da ANA. Três quartos desse montante são necessários no Nordeste e no Sudeste do país, regiões áridas nas quais vivem muitas pessoas e onde há grande concentração de agricultura e indústrias. Na vasta Bacia Amazônica, onde estão os rios que contêm quase 10% do total dos recursos de água doce do mundo, vivem poucas pessoas.
Enquanto isso, a água potável está sendo privatizada rapidamente e isso em ambos os lados do Oceano Atlântico. A Coca-Cola e a Nestlé são campeãs nisso. Na Europa, Chaudfontaine é uma das marcas de água a Coca-Cola que rende muito dinheiro. No Brasil, a Nestlé comemora sua presença de 90 anos no país com etiquetas multicoloridas na água da Fonte Santa Catarina, por exemplo (2). Garrafas com o slogan: “Nestlé. 90 Anos de grandes emoções. 90 anos de Brasil”. “De” Brasil? Seria bom se fosse verdade. A Nestlé é a maior gigante de produtos alimentícios do mundo e ainda está sediada – até ordem em contrário – na Suíça. Grandes emoções? Sim, de indignação por causa do monopólio do imperador Nestlé em sua colônia brasileira. Mas qual brasileiro passa a noite em claro por causa disso? Qual europeu está preocupado com o fato de que um bem coletivo como a água vai parar nas mãos de Coca-Cola e companhia. No entanto, as Nações Unidas declararam, em julho de 2010, que o acesso à água é um direito humano universal. Vários países latino-americanos já haviam se antecipado: eles incluíram o direito à água em suas constituições. O Uruguai foi um pioneiro nesse sentido. Paralelamente às eleições nacionais de 2004, este país organizou um referendo sobre uma emenda constitucional que define a água como um bem público. Em 2008, o Equador estabeleceu, em sua constituição, que apenas entidades públicas ou comunitárias podem ser responsáveis pelo fornecimento de água potável. Em 2009, a Bolívia seguiu o exemplo com uma disposição similar.

Água virtual

Na maioria das regiões agrícolas, a irrigação em grande escala a serviço da agricultura de exportação dos fazendeiros coloca as reservas de água sob pressão. Como um dos maiores exportadores de produtos agrícolas, o Brasil exporta uma grande quantidade de “água virtual”. De acordo com um estudo de 2008, as exportações brasileiras de soja exigiram, em 2005, mais de 50 bilhões de metros cúbicos de água, enquanto as exportações de carne representaram 34 bilhões de metros cúbicos. É evidente que os valores ficam desatualizados anualmente, já que a exportação de carne está crescendo exponencialmente.
Gostaria de saber se o governo flamengo inclui esses dados em sua propaganda sobre a agricultura “sustentável” em Flandres, vinculada à palavra de ordem “competitividade”. Temo que não. Um estudo conjunto da WWF e Ecolife revelou o lado oculto de nosso consumo de água: “O belga consome, em média, um total de 7.400 litros – ou 90 banheiras – de água por dia. Três quartos dessa pegada são ‘externas’, ou seja, ligados à importação de produtos do exterior. Nesse caso, trata-se principalmente de produtos agrícolas, como algodão, café, soja e cereais. Já a produção de batatas em território nacional tem uma pegada de água pequena” (3). Felizmente os belgas consomem muita batata. Agora só falta reduzir o consumo de carne e o quadro já fica mais bonito de se ver.

Romaria da terra e da água

A poluição dos rios e a falta de infraestrutura para fazer a água chegar para as pessoas mais pobres são outros desafios para os quais o Brasil deve encontrar uma solução. A canalização e transposição do Rio São Francisco, no Nordeste, é um desses grandes – e muito contestados – projetos. O Imperador Dom Pedro II já sonhava com ele, no século XIX. Uma das críticas é que a maior parte da água não beneficiará as pessoas comuns, e sim a agricultura de exportação dos fazendeiros. É só pensar no avanço das lavouras de soja e desertos de eucalipto na Bahia. Nessas regiões, a Igreja Católica organiza não apenas “Romarias da Terra”, mas “Romarias da Terra e da Água”. Cerca de 84% da população brasileira vive em cidades, mas o maior consumo de água está na zona rural. Para a exportação, sobre as águas salgadas dos oceanos.
As multinacionais tentam fazer o greenwashing de seus interesses em polpa de celulose com o selo FSC . Durante a turnê, um novo filme – “Duurzaam op papier” (Sustentável no papel) (4) – ajuda a alimentar esse debate acirrado com elementos de fora. Inúmeros problemas têm causas internacionais. Por isso, é bom transmitir internacionalmente as terapias para a mudança.

Código Florestal

Enquanto isso, outro debate acirrado ocorre por aqui há anos – especificamente, a alteração/enfraquecimento do “Código Florestal”. É uma imposição da poderosa “bancada ruralista” no Congresso, ainda que a proposta concreta tenha sido encaminhada pelo comunista Aldo Rebelo. Eles querem flexibilizar as normas que proíbem a formação de lavouras até as margens dos rios e ampliar possibilidade de fazer desmatamentos legais na região amazônica. Assim, o gigante exportador pode adquirir proporções ainda mais monstruosas. Os grandes fazendeiros apresentam argumentos duvidosos, como a prática de “dois pesos, duas medidas”: nas cidades, os habitantes podem morar nas margens dos rios enquanto, nas áreas rurais, as margens dos rios devem ser protegidas contra as práticas de envenenamento do avanço das agroambições.

No campus, tem um cartaz de apoio ao atual Código Florestal.
Quem é que vai ganhar? O Pequeno Polegar ou o Gigante?

Laranjeiras do Sul, 30 de março de 2011.

(1) Veja: <http://www2.ana.gov.br/Paginas/imprensa/noticia.aspx?id_noticia=9212>.
(2) Mais informações: <http://www.nestle.com.br/purezavital>.
(3) Veja: <http://www.ecolife.be>; <http://www.watervoetafdruk.be> e <http://www.wwf.be/_media/WWF3905_Water_NL_single_546736.pdf>.
Mas é estranho que essa mesma WWF seja uma das fundadoras da fortemente contestada Mesa-Redonda sobre Soja Responsável (RTRS, em inglês). As importações de soja são uma das fontes da nossa grande “pegada de água”. Veja um filme de animação legal: <http://bit.ly/gifsoja-animatie>; versão em Português: <http://bit.ly/f9ao58>.
(4) “Sustentável no papel”, um filme de Leo Broers e An-Katrien Lecluyse (2010). No relatório anteriormente mencionado, da WWF, sobre o nosso consumo oculto de água, está faltando o crescente consumo de papel. Um belga consome, em média, 350 quilos de papel por ano. Para isso são feitos plantios de árvores de crescimento rápido, como o eucalipto no Brasil, que absorvem muita água e, assim, secam os rios e reduzem os níveis das águas subterrâneas. O branqueamento do papel é um processo que também consome muita água. O filme de Leo Broers e An-Katrien Lecluyse trata do uso indevido do selo FSC para reflorestamentos de eucalipto na Bahia. O selo FSC é também uma iniciativa da WWF.
30. Desperdício e fome

Nossa viagem de carro de Laranjeiras do Sul para Chapecó dura quatro horas. De um campus ao outro, já que ambos fazem parte da recém-criada Universidade Federal Fronteira Sul (UFFS). Pela estrada trepidam caminhões com soja recém-colhida. Frangos empilhados tomam um banho “graças” à chuva intensa. Os porcos estão na mesma situação. Espremidos em caminhões. Não importa se você está na Europa ou no sul do Brasil: o cenário é mesmo em todos os lugares. Depois de seis meses, os porcos são carregados em caminhões, destinados ao abate. Os frangos, depois de cinco semanas.
A estrada está coberta de soja. A colheita e o transporte da soja para o porto implicam uma perda de 6%; em algumas regiões, com as piores estradas, até 8%. É apenas o início de uma infinita corrente chamada “cadeia alimentar”. Cadeia de desperdício.

Laranjas

O motorista sabe muito sobre a região. Também sobre os “laranjas”, ou seja, homens e mulheres que desviam dinheiro público em benefício próprio. Na década de 1990, o governador da época, Jaime Lerner, privatizou algumas das estradas do Paraná. Segundo o motorista, ele deu uma concessão de 25 anos a uma empresa, da qual ele próprio é um grande acionista. O motorista ouviu dizer que, naquela época, eram depositados diariamente três milhões de reais no Banco do Brasil e este dinheiro representava uma parte da renda gerada pelos pedágios abusivos cobrados, contestados por todos. O dinheiro era levado ao banco num carro particular. Com a total cooperação do gerente do banco, essa quantia era transferida diariamente para a filha de Lerner, na Argentina. A filha de Lerner, um “laranja”? É uma das milhares de histórias de corrupção que se ouvem neste imenso país, enquanto milhões de pessoas tentam sobreviver. O problema é que ninguém ousa ou consegue provar. Se a prática ainda continua, ele não pode confirmar.
Jaime Lerner é o internacionalmente aclamado arquiteto-prefeito-governador, que transformou Curitiba numa assim chamada “cidade verde”.

Brasil, um país de abundância e desperdício

À noite vou jantar na pizzaria Don Sini. Sim, uma vez por ano eu vou a esse “templo de comilança”. Na verdade, é por causa das sobremesas como “calzone de morango”. São inexistentes na Europa: pizzas e calzones doces! Pelo menos, eu não os conheço. Mas o que deve preceder a sobremesa? Aqui eles servem um rodízio de pizzas, do mesmo modo que se tem aqui o rodízio de carne, rodízio de peixe etc. Em outras palavras, comer até explodir. La grande bouffe [A Comilança]. Eles ficam trazendo pedaços de pizzas, até que você realmente diga: “Agora chega!”. Mas você não deve comer as bordas da pizza. Estas são depositadas num prato no centro da mesa. Para serem descartadas. Como um belga parcimonioso e educado, eu como as bordas. O prato de sobras permanece vazio e eu claramente não consigo dar conta do afluxo de pizzas. Muito estressante, porque a cada minuto eles chegam com um novo pedaço de pizza à sua mesa.

E a Europa então?

Há muito desperdício em restaurantes, mas qual é a situação global nas famílias? No Brasil, em média 30% de tudo o que é colhido acaba se perdendo no transporte, ou apodrecendo, ou sendo descartado.
Em alguns países do hemisfério sul, a perda pode chegar a 40%. Os números dos vários estudos costumam ser bastante distintos, mas apontam todos na mesma direção. Um recente estudo sueco, realizado a pedido da FAO, afirma que, em termos globais, quase um terço da produção agrícola é perdida: 1,3 bilhões de toneladas de alimentos. Pouco mais da metade é perdida no mundo industrializado; principalmente na Europa e na América do Norte. Segundo a FAO, a perda média global durante o processo de produção gira em torno de 150 a 200 quilos/pessoa ao ano. Somente no sudoeste da Ásia as perdas são menores. Já cada consumidor no mundo industrializado descarta anualmente 95 a 115 quilos na lata de lixo. Nos ‘países em desenvolvimento’ esta quantidade se limita a 6 a 11 quilos.

Em linha ascendente

De acordo com um estudo do Eurobarômetro, quase seis em cada dez lares europeus acreditam que não produzem resíduos em excesso. Isso está em forte contraste com 179 kg/pessoa de resíduos que os europeus descartam anualmente. A maior parte dos alimentos é desperdiçada nos domicílios (43%, ou 38 milhões de toneladas – portanto, 76 kg/pessoa anualmente), seguido pela indústria (39%, ou 35 milhões de toneladas), serviços de alimentação e bufê (14%, ou 12 milhões de toneladas), e comércio e distribuição (4%, ou 4 milhões de toneladas). Somando tudo, são quase 90 milhões de toneladas na União Europeia. Se nada for feito, estas quantidades chegarão a mais de 125 milhões de toneladas em 2020, ou seja, um aumento de 40%. Para a Bélgica, isso representa cerca de 3,6 milhões de toneladas de alimentos desperdiçados por ano, das quais 2,3 milhões de toneladas na indústria, quase 1 milhão de toneladas em domicílios (cerca de 88 kg/pessoa anualmente), 90 mil toneladas no comércio/distribuição e 290 mil toneladas em serviços de alimentação e bufê. No entanto, há 200 mil pessoas que vivem na Bélgica e não dispõem de comida suficiente. Por causa do peso da indústria de alimentos, a Bélgica ocupa o segundo lugar em desperdício de alimentos per capita entre os 27 estados-membros da UE. Felizmente pudemos observar recentemente alguma ação no âmbito político, tanto na Bélgica quanto na União Européia. Os cidadãos comuns também começam a agir. Basta vermos o processo contra o assim chamado ‘Muffin man’ [Homem dos Bolinhos] . Ele faz parte de um movimento mais amplo de consumidores que retira alimentos em condições de consumo de containeres dos supermercados para doá-los a pessoas com baixo poder aquisitivo.

Os cidadãos da UE não se dão conta imediatamente da quantidade de alimentos desperdiçados. Um estudo britânico mostra que um quarto dos alimentos é jogado no lixo, e que 60% desse desperdício poderia ser evitado. Não é apenas uma sobrecarga ambiental desnecessária. Pense em quanta água, terra e energia foram necessárias para fazer um pedaço de carne chegar à sua geladeira… para lá apodrecer. Uma tonelada de alimentos desperdiçados é equivalente a 1,9 toneladas de CO2. Em nível europeu, esse desperdício implica numa emissão anual equivalente a 170 milhões de toneladas de CO2. O comissário de Meio Ambiente da UE, Janez Potocnik (1), sutilmente acrescenta que: “as famílias poderiam poupar cerca de 500 euros por ano se utilizassem os alimentos de modo mais econômico”.
O desperdício não ocorre somente no plano da alimentação. É um estilo de vida. Uma atitude básica da cultura ocidental, agora globalizada. Considere o desperdício de gás natural. A queima do gás excedente durante o processo de extração de gás natural e de petróleo provoca uma emissão global equivalente à de 77 milhões de veículos.

Intensificação agroecológica

Em um seminário no Parlamento Europeu (PE) (2), Bob Watson disse recentemente, a seu modo: “30 a 40% dos alimentos produzidos são desperdiçados em todo o mundo, tanto no Norte quanto no Sul do nosso planeta.” Até três anos atrás, Watson coordenava o relatório da ONU “Agricultura numa encruzilhada” (IAASTD) (3). Nessa pesquisa de 400 cientistas se afirma que não precisamos de industrialização da agricultura, mas que a agricultura camponesa, com agrossilvicultura e outros sistemas agroecológicos, deve ser apoiada e desenvolvida. Uma defesa apaixonada da intensificação da agroecologia ao invés da intensificação do uso de insumos. O relator da ONU para o Direito à Alimentação, Olivier de Schutter, apresentou a mesma opinião no PE: “Os governos têm um reflexo míope em relação às crises alimentares: eles estimulam principalmente a produção. Desse modo, não se estabelece uma ligação entre as crises alimentares, ambientais e da pobreza. Agroecologia é a única saída.”
Se quisermos trabalhar na transição das proteínas, não é apenas uma questão de consumir menos proteína animal, mas também de desperdiçar menos alimentos em todo o mundo. Na intensificação agroecológica haverá menos espaço para um elevado consumo de proteína animal. Felizmente.

Chapecó,
Capital da carne, 1º de abril de 2011.

(1)    Eurobarômetro: “Attitudes of Europeans towards resource efficiency” [Atitude dos europeus em relação à eficiência no uso dos recursos] <http://ec.europa.eu/public_opinion/flash/fl_316_en.pdf>.
(2)    Para todos os discursos e relatórios, consulte: <http://www.futurefarmsandfood.eu>.
(3)    Avaliação Internacional sobre Ciência e Tecnologia Agrícola para o Desenvolvimento (IAASTD, na sigla em inglês); <http://www.wervel.be/downloads/IAASTD.pdf> e <http://www.agassessment.org>.

Cinzas

Esta terceira pele
Fiz com artimanhas
De um artista …
Como um eterno
Carnaval, colocando
E tirando, reiventando
A felicidade, evito
Chorar a quarta-feira
Que feriu meu peito …

Autor: Cleverson de Oliveira
31. Repovoar o campo?

Na “cidade-estado” Flandres não é perceptível, mas a área rural da Europa está se esvaziando. Durante uma das viagens de Wervel, fomos a Larzac, no centro da França. Lá moram duas pessoas por quilômetro quadrado. A região estava praticamente abandonada há anos, quando uma leva de “novos agricultores”, intelectuais da cidade, resolveu se instalar por lá. Juntamente com os moradores remanescentes, eles se opõem à ampliação do aeroporto militar. A comunidade “Arca de Lanza del Vasto” – inspirada nas atitudes de Gandhi – contribuiu para que a resistência fosse não-violenta. Ao fim, com um resultado positivo: a ampliação foi cancelada.
Agora, a região é conhecida principalmente pelos seus rebanhos de ovelhas e pelo mais famoso ativista da França, José Bové. Suas ações subsequentes contra a “junk food” do McDonalds e contra a colheita de produtos geneticamente modificados chegaram à imprensa mundial. Desde 2010, Bové é parlamentar europeu pelos “Europeus Verdes”.

Voltando de Cooperhaf para Fetraf

É dessa história que me lembro quando Celso Ludwig e Gionete Bortoloto me convidam para passar este fim de semana em sua chácara. Há três anos, eles conseguiram comprar uma propriedade de 25 hectares, no meio de uma área montanhosa. Ou seja… sem soja!
Celso coordenou a Cooperhaf durante nove anos (1), o programa iniciado pela Fetraf para reformar casas no meio rural. É um dos instrumentos para desacelerar o êxodo rural. Ao longo dos anos, tornou-se um enorme sucesso que se espalhou por 14 estados. Atualmente, a cooperativa também se envolve na construção de residências urbanas. A liderança de Celso tem tudo a ver com o sucesso desse empreendimento. Por isso ele também foi eleito, com ampla maioria, como coordenador-geral da Fetraf-Sul/CUT, em 2010, para suceder Altemir Tortelli, durante muitos anos o homem forte da Fetraf e agora deputado estadual no Rio Grande do Sul.

Em 2010, Celso Ludwig deu um exemplar do meu último livro a todos os colaboradores da Cooperhaf. Na folha de rosto, foi colado um texto inspirador. O gesto segue a mesma linha da decisão tomada há algum tempo pelo ex-ministro-presidente e ministro da Agricultura de Flandres, Yves Leterme: todos os funcionários administrativos deveriam escolher uma revista agrícola que seria enviada para seus endereços residenciais. Convidando-os a não só administrar, mas também a ler e se formar nos temas agrícolas. Desde então, o jornal um tanto crítico de Wervel pode contar com um número crescente de leitores do Departamento de Agricultura e Pesca de Flandres [Bélgica]

“Viajar pela leitura, sem rumo, sem intenção. Só para viver a aventura que é ter um livro nas mãos. É uma pena que só saiba disso quem gosta de ler. Experimente! Assim sem compromisso, você vai me entender.
Mergulhe de cabeça na imaginação!”
(Clarice Pacheco)

A Cooperhaf presenteia seus funcionários sabendo da importância de leitura para compreender o mundo à nossa volta. Boa leitura!

A Diretoria

Tensão entre agricultores familiares e indígenas

Saindo de Chapecó, viajamos por uma bela região montanhosa, onde ainda há muitos agricultores familiares e uma grande reserva que foi concedida aos caingangues. Uma visão estranha: eles vivem nas antigas propriedades agrícolas. É o final de uma história obviamente conflituosa, já que muitos agricultores necessitaram deixar suas terras e casas, porque o povo indígena exigiu suas terras de volta. Desde a minha infância eu me sinto profundamente conectado com os povos indígenas. Mais tarde, minha vida e meu trabalho foram dedicados à luta por outro sistema agrícola e outro abastecimento alimentar. De repente, minhas duas paixões ficam uma contra a outra. A tensão sobre a qual eu ouvi falar durante muitos anos de repente se torna tangível. Esse trajeto representa bem o que aconteceu nos últimos 100-150 anos: colonizadores europeus ocupam terras em colaboração e, por vezes, a mando do governo. Afinal, “terras indígenas” parecem “vazias”. Lá não há “nada”, como recentemente disse o atual ministro da Agricultura sobre o Cerrado, no Piauí. Terras virgens, prontas para serem transformadas em lavouras de soja e de outras culturas que pouco despertam a imaginação.
Na época, os agricultores ocuparam de boa-fé seus lotes de 24-25 hectares. Um século mais tarde, vivenciamos o ressurgimento dos povos indígenas. Em sua luta pela terra, eles invocam a Constituição de 1988. Os agricultores familiares são, por vezes, forçados a abandonar as suas terras ancestrais, de modo que os habitantes nativos possam voltar a viver e morrer na terra de seus ancestrais. Conectados com a natureza, com tudo o que vive, morre e ressuscita.
Tendo em vista os conflitos históricos, acho admirável que a Via Campesina internacional queira formar uma frente única de agricultores, povos indígenas, pescadores artesanais e pastores, para fortalecer a agricultura campesina contra as agressões do agronegócio internacional. Por exemplo, contra o avanço da cana-de-açúcar para agrocombustível (2) e para várias aplicações da biologia sintética.

Uma exceção

O empreendimento de Celso e Gionete é uma exceção – uma em mil. A maioria dos casais e das famílias jovens está indo embora, para a cidade. Nas zonas rurais, alguns casais de agricultores mais velhos persistem corajosamente. A escola local está fechada há anos. Atualmente, 83% dos brasileiros vivem em cidades. A maioria daqueles que ficam nas áreas rurais tem mais de 50 ou 60 anos. Apenas 1% da população brasileira que mora no campo tem idade inferior a 20 anos. E quem vai cuidar do abastecimento alimentar daqui a 10-20 anos? Tanto os agricultores familiares dessa região quanto os fazendeiros no Mato Grosso são as pessoas mais velhas. Quem será que vai assumir essas imensas fazendas de soja? Cargill? O banco? Será que não há um paralelo com a situação na Holanda, onde o modelo industrial de agricultura foi ainda mais longe do que na Bélgica? Os jovens holandeses relutam em assumir as grandes fazendas de leite e de capital intensivo de seus pais. Se não tiver sua família no setor agrícola, um jovem pode esquecer seus planos de ser agricultor.

Aqui, nas montanhas em torno de Chapecó, isso já é claramente perceptível: a natureza começa a ocupar muitas chácaras abandonadas. Será que o Mato Grosso também será devolvido, dentro de 20 anos, para um ecossistema mais diverso?

Porém, existe também um movimento de retorno da cidade para o campo. Em muitos, permanece acesa a chama do sonho de “algum dia” (voltar a) viver em uma chácara. Muitas pessoas que se aposentam querem passar a “terceira idade” numa região tranquila. Mas isso dificilmente poderia ser chamado de uma economia rural vibrante e com futuro. É um pouco semelhante à preponderância de idosos nas cidades costeiras belgas. Os aposentados compram um apartamento à beira-mar e passam o resto de seus dias inspirando o iodo presente no ar marítimo revigorante.

Mini-Pantanal: viveiro da vida

E, no entanto, estes “um a cada mil” casais vão garantir o futuro.
Celso me leva orgulhosamente para conhecer seus 25 hectares de terreno muito acidentado. Agora eles moram e vivem aqui com duas famílias. Na casa antiga da propriedade moram seu parceiro Adair Antunes, sua esposa e três filhos. Na casa nova moram Celso e Gionete. Não, a casa não foi financiada pelo programa Cooperhaf. Eles não se envolvem em conflito de interesses. Em sete hectares foi plantado milho, junto com mudas de videira de um ano. A intenção é colher as uvas, vender uma parte in natura e produzir vinho com o restante. Também há uma grande área plantada com abóbora, mandioca, arroz, mamão e várias frutíferas (pêssego, figo, caqui, laranjas, tangerinas, limões, peras). Sem fertilizantes químicos e com pouco esterco, apenas adubação verde. A produção se destina ao consumo próprio e para venda na feira – e cana-de-açúcar, para alimentar algumas cabeças de gado. Ocasionalmente, uma vaca ou um porco é abatido para consumo próprio. As galinhas produzem carne e ovos. Recentemente, eles também construíram dois tanques para criação de carpas – garantindo, simultaneamente, uma grande variedade de libélulas e outras formas de vida. Uma variedade de plantas aquáticas começa a se desenvolver timidamente. Uma garça graciosa nos cumprimenta. Aqui está surgindo um mini-Pantanal, como um viveiro da vida. Cerca de 6 hectares – 20% da área – são a reserva legal. Isso é o que um agricultor do sul do Brasil deve fazer. Sem compensação. É claro que eu sei disso há muito tempo, mas quando você caminha pela propriedade isso se torna bem visível. Durante a caminhada, colhemos algumas abóboras, milho e mandioca para os belos porcos pretos. Mais adiante tem chuchu. “Abóboras, muita vitamina C”, brinca Celso. “Veja como essa terra é fértil.” De fato, abóboras bonitas e de formas bem variadas. Hoje ele vendeu uma carga de abóbora e mandioca nas feiras em Chapecó.

Agrossilvicultura

Isso me faz lembrar dos agricultores de Flandres. Esta propriedade está coberta por dezenas de milhares de pedras. Que agricultor flamengo iria ficar animado com isso? Os agricultores em nossa pequena Bélgica muitas vezes já se incomodam com aquela única árvore que ainda está de pé, ou se desagradam com aqueles poucos arbustos que ainda enfeitam a paisagem… E eles são reembolsados pelo uso de práticas agrícolas que reduzem o impacto ambiental e visam preservar os últimos remanescentes naturais (3). Com razão, mas – aparentemente – pode ser diferente. Aqui no Sul do Brasil, os agricultores devem deixar 20% da área intacta; na Amazônia, 80%. Se eles cumprem isso, já é outra história… Principalmente os fazendeiros dão um jeitinho de desmatar muito mais do que é permitido por lei. Para fazê-lo com mais facilidade, o Código Florestal será agora adaptado aos seus desejos.
Enquanto isso, do outro lado do oceano, no início deste mês – 1º de abril (não é mentira!) – Wervel conseguiu vencer uma batalha, depois de anos de lobby: o governo de Flandres vai, finalmente, implementar a legislação europeia de apoio a sistemas agroflorestais (4). De agora em diante, o(a) agricultor(a) terá um reembolso de até 70% do custo das mudas. Uma vitória e tanto, que abre um panorama completamente diferente para a agricultura e o campo em Flandres.

Para minha surpresa, Celso e seu empregado plantaram 8 hectares de eucalipto na parte mais alta da propriedade. Eu nunca vou ser um fã do eucalipto, mas consigo entender a explicação da estratégia. Não há perigo imediato de secar as nascentes e lagos, porque as árvores estão bastante longe delas. Daqui a 6 anos eles podem fazer o primeiro desbaste e vender a madeira. As árvores cortadas vão rebrotar e podem ser colhidas junto com as árvores mais grossas, aos 12 anos. Eles não usam agrotóxicos, o sub-bosque pode ficar ali tranquilamente. É um investimento interessante para a aposentadoria, enquanto as uvas começam a proporcionar uma renda anual após três anos. No próximo ano, depois de quatro estações, eles podem usar a madeira de eucalipto para fazer os apoios das videiras.
A madeira é escassa em Chapecó. Para um agricultor familiar, pode representar um incremento bem-vindo na renda. No entanto, é importante não fazer um novo plantio de eucalipto depois dos 12 anos. No local, será praticada a rotação de culturas usual. Lembra um pouco a soja num sistema de rotação de culturas, de um agricultor com 25 hectares em vez de um fazendeiro com 150 mil hectares de soja em monocultura. Um mundo de diferenças para as pessoas e o meio ambiente.

Repovoar o campo, na Europa e no Brasil. Como vamos fazer isso?

Linha Verde, Paial, 3 de abril de 2011.

P.S.: À tarde, a comunidade celebra uma festa. A disposição da vila é típica, como as muitas que eu já vi por todo o Brasil: um centro pequeno, com alguns sítios, igreja, ao lado dela o centro comunitário, com uma grande instalação para churrascos, campo de futebol.
A Igreja (Católica) ainda é um elemento de agregação e é bom que as pessoas possam se encontrar aos domingos, em parte dentro e no entorno da igreja. Futebol, cerveja e a refeição com um pedaço de pão francês, repolho, chuchu, mandioca e carne. Muita carne. A tradição judaico-cristã tem seus méritos, mas é extremamente antropocêntrica. As pessoas em primeiro lugar – como dominantes. Só a partir dos últimos anos é que está crescendo a consciência de que ética e espiritualidade não estão relacionadas apenas com pessoas, mas também com dinheiro, com ecossistemas, com plantas e animais, com a preservação da terra.
Como parte da Campanha da Fraternidade, as pessoas desta comunidade se reúnem uma vez por semana, sempre na casa de uma delas. O tema é: mudança climática, problemas ambientais e a nossa responsabilidade. Gostaria de saber se eles vão abordar o elevado consumo de carne em suas conversas sobre a pegada ecológica.

(1) Veja: <http://www.cooperhaf.org.br> e <http://www.fetrafsul.org.br> e leia a crônica “Um teto sobre a cabeça, um direito humano”, em “Brasil-Europa, em fragmentos?” (Ed. Gráfica Popular/Cefúria, Curitiba, 2010).
(2) Durante essa turnê usamos, entre outros, o novo filme An Baccaert: “À Sombra de um Delírio Verde”. Trata da situação dos guaranis e da ascensão de cana-de-açúcar para etanol.
(3) No final de março de 2011, a Agência de Terras de Flandres (VLM) pagou o montante de cerca de 9,4 milhões de euros para os agricultores que firmaram um contrato sobre práticas agrícolas de baixo impacto ambiental com ela antes de 1º de janeiro de 2007. A maior parte (9,06 milhões de euros) foi paga por “contratos visando a gestão de água” e cerca de 338 mil euros estão destinados a contratos no âmbito do decreto de proteção de áreas naturais.
(4) Veja: <http://www.wervel.be/agroforestry> e <http://www.agroforestry.be>.

32. Fetraf-Sul e as suas prioridades

Durante dois dias, as diretorias da Fetraf-Sul e da Cooperhaf realizaram reuniões em Francisco Beltrão. Partindo do estado de Santa Catarina – com sua capital da carne, Chapecó – para esta outra cidade cuja atividade econômica gira em torno da carne, no Paraná. Serão dois dias de debates e planejamento estratégico.

Desde a eleição do presidente Lula, a situação da agricultura familiar melhorou sensivelmente, mas ainda há um longo caminho a percorrer. Por exemplo, o apoio à agricultura familiar recebeu um forte aumento sob seu governo, mas a agricultura em grande escala – de exportação e de capital intensivo, feita por algumas dezenas de milhares fazendeiros – recebeu cinco vezes mais dinheiro do que os quatro milhões de famílias da agricultura familiar. Para não mencionar a falta de uma verdadeira reforma agrária para os quatro milhões de famílias de agricultores sem-terra…

Por isso, a Fetraf-Sul e sua nova diretoria estabeleceram algumas prioridades para os próximos anos:
– garantia de renda e renegociação das dívidas de agricultores familiares;
– produção, com especial atenção para a situação dos “integrados” com suínos, aves, perus ou fumo;
– jovens e a sucessão nas propriedades;
– ecologia.
Para detalhar e fortalecer essas linhas, eles planejam realizar, em 29 de abril de 2011, em Concórdia, uma manifestação com 8 mil agricultores dos três estados do Sul. A presidente Dilma Rousseff será convidada. Nos dias 27 a 29 de abril os jovens realizarão seu Terceiro Acampamento da Juventude (1).

Além da construção de casas, através da Cooperhaf, uma das principais conquistas dos últimos anos é, sem dúvida, a Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) (2). Ela facilitou o acesso dos filhos e filhas da agricultura familiar ao ensino superior. O novo modelo de universidade quebrou o paradoxo brasileiro de que os estudantes nas universidades públicas são principalmente aqueles que cursaram o ensino secundário em escolas privadas. Os alunos de escolas públicas têm pouca chance de ocupar as limitadas vagas nas universidades públicas. O resultado é que os ricos podem usufruir do ensino superior público gratuito, enquanto os pobres mal conseguem entrar. Muitos são obrigados a uma dupla jornada: estudar e trabalhar para poder pagar os estudos. Na UFFS ocorre o inverso: 98% dos estudantes vêm do meio agrícola e operário; mais de 90% estudou em escola secundária pública.

Há sinais de esperança, mas ainda há muito trabalho a fazer: o êxodo rural continua, os jovens partem para as cidades, defender os direitos dos agricultores integrados exige um fôlego especialmente longo, a biodiversidade continua diminuindo e o veneno está aumentando.
Fetraf, prepare-se para trabalhar sem descanso!

Francisco Beltrão, 5 de abril de 2011.

(1) Veja: <http://www.fetrafsul.org.br> e <http://www.juventudefetrafsul.blogspot.com>.
(2) Veja: <http://www.uffs.edu.br>.

33. Ecocentro “Esperança do Ácórá”: onde o Cerrado, o Pantanal e a Amazônia se encontram

“No Mato Grosso, existiam 6.660 fazendeiros que determinavam as políticas agrícolas. Com as quebradeiras, hoje esse número foi reduzido a 4.500, induzido pelas ‘tradings ’ que fornecem insumos e recebem produtos, logicamente impondo seus preços. É a ‘escravidão consentida’. Eles mesmos colocam a culpa no ‘custo Brasil’, no clima, no câmbio, nas misteriosas flutuações de mercado etc. Os grandes e médios fazendeiros são assessorados por cerca de 12 mil a 15 mil engenheiros agrônomos, preparados pelas 14 faculdades existentes no território, fora os que vieram de outros estados e países. Todos são fatalistas em julgar que ‘não tem jeito, só a tecnologia de ponta pode nos salvar’. ‘Viva o sistema agrícola do agronegócio’. Porém, sem subsídios, perdão de dívidas e renúncia fiscal, ele não sobrevive.

Nesse mesmo estado vivem cerca de 170 mil famílias de camponeses (agricultores familiares, nativos, quilombolas, caboclos e outros). Uma pequena minoria dos engenheiros (não chega a 200) está aberta e/ou recebeu algum treinamento para a realidade da maioria dessa população rural. Menos de 50 tiveram uma formação especialmente voltada para o campesinato – como, por exemplo, um único grupo de profissionais formados pelo Curso de Agronomia dos Movimentos Sociais do Campo (Camosc), que foi desenvolvido entre 2005 a 2009 pela Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat). Portanto, uma minoria da minoria simpatiza com a agroecologia. Todos os anos são formados mais 400 novos engenheiros agrônomos. A maioria é formatada no pensamento único da ‘Grande Fé no Deus Único do Agronegócio’. Um professor, estudante ou produtor que aposte na agroecologia é imediatamente marginalizado, pois isso é ainda considerado uma heresia.”
Essas ponderações passam lentamente pelo meu ser quando eu vejo o público antes do embarque no vôo São Paulo-Cuiabá. Uma parte significativa do tráfego intenso entre o coração econômico do Brasil, chamado de São Paulo e o novo “El Dorado”, chamado Mato Grosso, é formado por esse exército convicto de “vaquinhas de presépio”. Durante muito tempo, o meu preconceito com essa idolatria me impediu de pôr o pé nesse estado da “Grande Destruição”.

Protecionismo do metano?

E, ainda assim, há quatro anos sou convidado a vir aqui por uma minoria da resistência. Novamente Ana Maria, Fábio Nolasco, Cleonice e Degair organizaram um programa interessante. Num território em que dominam a destruição e o desespero dos pequenos, geralmente também se encontram resistência, cuidado e esperança. Tomemos, por exemplo, o Dr. Fábio Nolasco (agrônomo formado na tradicional UFV de Viçosa-MG). Hoje ele é professor de sistemas agrícolas tropicais, agroecologia, raízes tropicais e sistemas agroflorestais na agronomia da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) em Cuiabá.
Ele aproveita a vinda do gringo para debater com o grupo de estudo “Re-ligação de saberes”. Dele participam engenheiros agrônomos e florestais, jornalistas, biólogos, antropólogos, psicólogos, pedagogos e outros, desejosos de transcender as categorizações e inspirar uns aos outros, de maneira transdisciplinar, colaborativa e solidária. Assim, eles esperam principalmente abrir uma fresta no mundo acadêmico para a sabedoria do povo, do novo emergente e do rizomático.

Na parte da tarde, vou falar para outro grupo: estudantes de pós-graduação em Agricultura Tropical na UFMT. Com o mesmo professor de Cuiabá, retomo minha tarefa: “semear dúvidas num mundo doutrinado a partir do ponto de vista do agronegócio dominante”.
A reação de um estudante indignado permanece na minha mente: “Essa conversa sobre as emissões de metano do gado brasileiro não é puro protecionismo dos norte-americanos e europeus para boicotar a nossa carne?” Eu fico um momento em silêncio. Como se as emissões de metano dos ruminantes não fosse universal. De fato, algumas dietas produzem mais metano do que outras. Com relação a isso, um jovem professor de Gent (Bélgica) realiza pesquisas para reduzir as emissões de metano. Uma vaca leiteira pode emitir até 500 litros de metano por dia. Acontece que, se você fornecer alho a elas, há uma redução de 80% no metano produzido. Única desvantagem: elas dão menos leite – e isso é um desastre no nosso sistema de aceleração do crescimento europeu!

A vaca leiteira de Flandres: metano e CO2

A fala emocional daquela mente conservadora não é, necessariamente, mais sem sentido do que a greenwashing do Belgische Boerenbond (Sindicato de Agricultores da Bélgica). O sindicato afirma com orgulho que nossas vacas, em nosso sistema intensivo de criação na Bélgica, emitem menos metano do que os espécimes do Brasil, em sistemas extensivos. Porém, o porta-voz do sindicato rural, 100% comprometido com o maior fornecedor de ração animal do país, “esqueceu-se” de dizer que uma vaca de alta produção na Europa requer uma grande quantidade de soja importada – ao menos no sistema dominante. Para a produção e processamento dessa soja, foi implantado um sistema internacional de destruição que – do início ao fim do processo – lança uma grande quantidade de CO2 no ar. A soma das emissões de metano de uma vaca em solo belga com CO2 da “produção e processamento de milho na propriedade + o desmatamento para monocultura que utiliza soja transgênica + correção de solo com calcário + aplicação de agrotóxico com avião + armazenamento e secadores + 2 mil km de transporte rodoviário + 10 mil km de transporte marítimo” muito provavelmente suplanta as emissões de metano daquele danado daquele boi solto no pasto no Brasil…

Mato Grosso, onde o Cerrado, o Pantanal e a Amazônia se encontram

Hoje, no Mato Grosso, a enorme reserva de vida selvagem da bacia do chamado Chaco Paraguayo, ou Pantanal, já se encontra totalmente rodeada no planalto pela agricultura intensiva do Cerrado, repleto pela morbidade da soja, algodão, cana, milho e outras comodities, plantados mais no modelo mais agressivo possível (químico, oligogenético, transgênico, monocultural, mecanicista, elitista, excludente, submisso).
Porém, nesta região do planeta vivem muitos povos indígenas, quilombolas e camponeses em assentamentos e comunidades tradicionais, que proporcionam alguma resistência ao modelo predatório, diversificam a oferta de alimentos mais saudáveis e desenvolvem a AgriCultura.

Ákórá

Fábio Nolasco é um do notável representante dos membros da minoria que defende a agroecologia. Ou seja, o futuro, já que com o fim da era do petróleo à vista, o modelo de destruição internacional perde sua base de sustentação. Fábio optou por não combater “o mal” e sim construir algo positivo, pela exemplaridade e resistência pacífica de Gandhi. Ele comprou 43 hectares de cerrado fraco na Chapada dos Guimarães. São terras onde, até o final do século XX, havia um garimpo intensivo de diamantes. Ele e sua esposa, Ana Maria Oliveira Lopes, chamaram a área de Ecocentro Esperança do Ákórá (palavra que, na língua dos nativos da etnia bororo, significa “dos nossos filhos”). Ana Maria é pedagoga. Seu pai era uma mistura de sangue bororo com africano, como tantos em Mato Grosso. Sua mãe era portuguesa. Portanto, Ana Maria é uma autêntica brasileira, que provou sua competência como educadora – principalmente em trabalhos de formação de professores e letramento de crianças, junto a movimentos populares. Ela trabalhou durante anos com o bispo profético dos indígenas e camponeses, o espanhol Dom Pedro Casaldáliga, em projetos no Vale do Rio Araguaia (MT).
No Ákórá, Fabio e Ana já plantaram 3,5 hectares dos 43 hectares com cerca de 200 diferentes espécies diferentes nativas do Cerrado, Pantanal e da Amazônia, além de espécies exóticas, utilizadas há muito tempo no Brasil. Durante a estação chuvosa, são feitos novos plantios a cada semana, biodinamicamente orientados pelo calendário astronômico agrícola da alemã Maria Thum.

“Eu me considero um educador, acima de tudo, porque sinto amor…”  Paulo Freire

Ákórá é um ecocentro em construção. Fábio quer, no mínimo, transformá-lo num refúgio para a enorme biodiversidade, agrodiversidade e sociodiversidade que caracterizam o estado.

Exemplos da grande variedade de espécies plantadas:

•    Espécies do Cerrado: jenipapo, mangaba, abacaxi (3 cultivares – cv), maracujá (2 cv), pitanga, sapoti, ata, graviola, araçá, goiaba (2cv), mangarito, mandioca, inhame, ora-pro-nóbis (5 cv), bocaiúva, tamarindo, pitomba, maracujá, pequi, caju, mirindiba, aroeira, pororoca, babaçu, gueiroba, acori, coroa-de-frade etc.

•    Espécies da Amazônia: tomate da Amazônia, pupunha, açaí, guaraná, seringueira, cupuaçu, araçá-boi, goiaba, taioba, araruta, bambus, mamão, bacuri, abricó, jambo, jambolão, bacupari, jaca, bacuri, seriguela, baunilha, urucum, bertalha, ata, graviola, inhame (cará) etc.

•    Espécies do Pantanal: amendoim, jabuticaba, bocaiúva etc.

•    Espécies exóticas: manga (6 cv), banana (8 cv), abacate (3 cv), noni, amora, amora-preta, figo, atemoia, vinagreira, acerola, fruta-pão, zedoária, açafrão, quiabo, taro, jiló, urucum, uva, morango, cássia mangio, flamboyant, cítrus (6 cv), pitaia, romã, eucalipto, pau-de-balsa, café, milheto, gergelim, gengibre, jiló, berinjela, mostarda, alface, espinafre, funcho, cana etc.

Etno

No entanto, a explosão de agrobiodiversidade é apenas uma pequena parte de um sonho muito maior. Se eu deixar Fábio falar à vontade, ele se expressa da seguinte maneira: com o “Ecocentro Esperança do Ákórá” se pretende desenvolver um espaço onde se possa experimentar-compartilhar-estudar a combinação de várias áreas de interesse humano:

Agroecologia; Agrobiodiversidade; Viveiro Matriz
Autoconhecimento; Autocura; Homeopatia/Fitoterapia
Ecovila Permacultural; Minimismo; Autossustentabilidade
Esperanto; Ecoturismo; Vivências Participativistas
Etnoconhecimento; Etnoculinária; Ecoeducação
Redes Solidárias; Pensamento Prospectivo; Práxis Colaborativa

No futuro, a intenção é combinar nessa área uma ecovila com a troca das sabedorias de diversos povos, de forma rizomática, colaborativa e solidária. Partindo das tradições e habilidades de cada povo, fortalecendo a partilha de conhecimentos, a partir de seus próprios hábitos culinários, medicinais e de processamento dos produtos. O problema é que a corrente dominante da educação não é modelada para a realidade social camponesa. A mentalidade prevalecente da educação formal é voltada para o urbano, o “moderno”, o sistema vigente e hegemônico. Historicamente, a educação na área rural era vista apenas como confirmação da dominação de uma elite: os senhores são donos da terra e determinam o que será produzido, o que precisa ser ensinado. Os trabalhadores rurais eram apenas peças do sistema de exploração do campo, sem protagonismo, sem voz nem vez. O sistema decisório ainda os considera sem inteligência, sem sabedoria, sem sentimentos, vontade ou cultura. São vistos como animais de serviço dos “senhores de engenho, prepostos dos poderosos dentro da Colônia”. Ninguém pergunta sobre seus conhecimentos e habilidades, sua sabedoria e ricas tradições. Assim, há décadas os jovens estão migrando para as cidades, pensando que lá vão encontrar “aquilo” que buscam (o arquétipo de sucesso imposto, ou seja, tornar-se um “consumidor”). Muitos são treinados dentro do modelo tecnológico para engrossar as filas nas portas das grandes fazendas, dando margem para a famosa “mais valia” que proporciona mais competitividade das comodities brasileiras.
Afinal, Mato Grosso (com os biomas Cerrado, Pantanal, Amazônia e Araguaia) pode até ser um centro de origem de muitas espécies interessantes, ervas medicinais e árvores… mas pouquíssimas pesquisas são realizadas pelas universidades e instituições oficiais. Enquanto isso, a erosão cultural, o biocídio e o geneticídio se aceleram. A esperança no Ecocentro do Ákórá é que, com o tempo, venham estagiários, pesquisadores e camponeses para as vivências, estudos e trocas. O sonho é ficar a serviço da sabedoria dos diversos povos, na interação com as ciências formais, num cenário diversificado, ecumênico e cosmopolita de partilha.

Veja alguns dos meus questionamentos para Fábio:

Exóticas!? “Por que inserir tantas espécies exóticas em um país com a maior biodiversidade do mundo?”
Há 500 anos, o Brasil tem sido um país de globalização (muitas vezes forçada). Além disso, se o noroeste da Europa não tivesse espécies exóticas no campo e na culinária, eles teriam que se limitar a groselha, aveia, framboesa e centeio (1). Seria uma variação muito reduzida para as demandas dos refinados estômagos europeus.

“Por que vinagreira?”
É uma espécie rústica africana, trazida pelos escravos na sua deportação forçada. Depois de séculos, ela ainda é utilizada em muitas regiões como verdura cozida junto com arroz (arroz-de-cuxá, no estado do Maranhão). A flor é utilizada para licor, xarope, geleia, sorvete. A planta fornece ótima biomassa para a microbiota do solo.

“Por que zedoária?”
É uma planta medicinal que também tem elevado teor de amido. Cada mil quilos de raízes podem produzem mais de 300 quilos de farinha e 150 quilos de fécula. Para comparação: mil quilos de raiz de mandioca produzem 200 quilos de farinha e 50 quilos de fécula. Porém, a grande diferença é principalmente que, no caso da mandioca, você obtém de 10 a 15 toneladas por hectare de produção de raízes e, com zedoária, pode produzir mais 100 toneladas de rizomas por hectare, conforme já obtido na fazenda Experimental da UFMT em Santo Antônio do Leverger. Porém, o critério de produtividade ou rendimento por área não é o único indicador de eficácia agrícola, pois espécies como zedoária, taro, taioba, araruta, açafrão e mangarito, por exemplo, podem produzir bem em regime de sombra de sub-bosques e até em áreas encharcadas, que são cenários inóspitos para a maioria das espécies conhecidas.

“Por que plantar eucalipto?”
Eu sou contra o plantio homogêneo de eucalipto, mas o plantio de alguns eucaliptos numa pequena propriedade protege as árvores nativas. Dentro de alguns anos, queremos começar produzir potes de cerâmica, fazer doces etc. Para isso, precisaremos de lenha. É melhor utilizar o eucalipto nesse processo, do que as espécies raras do Cerrado, pois cresce mais rápido, de forma rústica e fornece madeira de alta densidade (que fornece mais energia e carbono acumulados). Uma muda de espécie nativa é plantada para cada pé de eucalipto implantado.

“E o que se pode esperar da Mangaba?”
A manga é uma espécie originária da Índia. A cidade de Cuiabá está cheia de mangueiras, cujos frutos se perdem (50%). Porém, uma das árvores mais rústicas do Cerrado é a nossa mangaba nativa. Seus frutos são ainda pouco conhecidos fora deste bioma, mas são excelentes para o consumo in natura e mesmo para processamento. Possuem a delicadeza do sabor dos frutos da pereira.

“Eco-educação”?
Ecoeducação em um ecocentro é muito mais do que o tradicional conceito de “educação ambiental”, no qual os que sabem ensinam ou sensibilizam os que não sabem, formatando-os na lógica, ética e valores dos educadores. Ou seja, na “educação ambiental” tradicional, frequentemente são impostos valores do exterior. Eco-logia e eco-nomia remetem à palavra grega “oikos”, ou “eco”: a nossa casa, onde convivo com os outros, a nossa comunidade, município, país, continente, casa, lar comum, ou seja, o planeta Terra, com seus múltiplos ecossistemas. Portanto, o “eco” nos remete ao habitat de interação de todas as formas de vida. Assim, ecologia seria o estudo do “eco”, teria como corolários – Ecosofia: amigo do “eco”; Ecofilia: amor pelo “eco”; Economia: gestão do “eco”. Como diz um dos princípios da Carta da Terra, precisamos aprender a conviver no cenário comum do planeta, a biosfera, onde todos aprendem, ensinam e se transformam.

“Nenhum animal?”
Eu ainda não sou vegetariano, mas estamos num longo caminho de abolição da carne e de maior apreciação da riqueza de proteínas, fibras, vitaminas e sais minerais originados dos vegetais. Estamos diante de um período de grande transformação e de mudanças constantes. É bom estarmos preparados para elas. Sei das propaladas vantagens da integração entre plantas e animais nas propriedades rurais mas, enquanto agrônomo, espero dar nossa botânica contribuição com este refúgio, escola, abrigo, ágora de trocas. Não queremos trancar a multiplicidade da vida e dos sistemas naturais em uma reserva ou num só modelo, e sim compartilhar conhecimento, princípios e propágulos com os muitos movimentos sociais que existem em nosso país e além.

“A leitura do mundo precede a leitura da palavra.”  Paulo Freire

Educação ecológica e um Ecocentro são muito mais do que educação ambiental. Na educação ambiental geralmente são impostos valores de fora. Da Europa, por exemplo. Não, Eco-logia e eco-nomia remontam à palavra grega ‘oikos’. Eco: minha casa, onde convivo com outras pessoas, minha comunidade, cidade, povo, país, continente, planeta Terra com sua pluralidade de ecossistemas. Eco: a interação de todas as formas de vida.

8 de abril de 2011, Chapada dos Guimarães.

(1) Veja: o mapa-múndi de Vavilov, com os centros de origem dos nossos alimentos: <http://www.wervel.be/vavilov>. Curiosamente, Vavilov descreve os centros de origem dos produtos mais comuns que conhecemos. É impressionante que, em sua lista, constem poucas espécies do Brasil. Isso diz muito sobre a história colonial e a dominância, por exemplo, do trigo versus mandioca. O tesouro dos frutos que o Cerrado e a Amazônia produzem nunca foi reconhecido internacionalmente. Sobre o imperialismo na culinária, leia “Proteínas de ora-pro-nóbis”, em “Aurora no campo”, do mesmo autor. (Ed. Gráfica Popular/Cefuria, 2008).
34. “Fora da casinha”

No Brasil se utiliza um belo termo para descrever deficientes: “pessoas especiais”. Pessoas especiais, que necessitam de cuidados e têm prioridade. Na nossa linguagem, as “pessoas especiais” são pessoas com as quais há algo errado. Isso de acordo com as normas burguesas convencionais. Em Cuiabá também existe a expressão “fora da casinha”. Seus sinônimos poderiam muito bem ser: excêntricos, criativos, desajustados, pessoas que abrem o futuro, os pioneiros, os monges.
As pessoas com quem estou hospedado se descrevem como “fora da casinha”. Na Chapada dos Guimarães se encontram muitas pessoas assim: pessoas que trabalham com medicina alternativa, terapias alternativas, artistas de todos os tipos.

Fora da casinha, em uma caverna

Tomemos, por exemplo, Dilair. Sua aparência é a de um indígena – ele nasceu em São Paulo, mas mora há mais de 20 anos na Chapada dos Guimarães. Ele não veio para ganhar muito dinheiro, não veio desmatar, nem plantar soja e pulverizar agrotóxicos. Não, ele morou vários anos em uma caverna atrás da cachoeira Andorinha, no parque nacional. As pessoas tinham grande simpatia por ele e lhe traziam comida a cada fim de semana. “Um hippie, um aproveitador”, você pode pensar. Mas qual é a diferença entre este “vagabundo” e os primeiros monges, no deserto egípcio. No século III, era lá que ficavam os estilitas (1), assentados sobre pilares durante anos. Outros se isolavam durante anos em covas, algumas das quais eram cavernas, é claro.

Vagabundo

Posteriormente, Dilair se tornou elegível para um pedaço de terra em um assentamento. Porém, ele não fez o que o governo e alguns colegas esperavam dele, ou seja, desmatar o Cerrado imediatamente e produzir numa terra “limpa”. Não, ele cuidava com carinho da biodiversidade de seu miniterritório e foi um pioneiro em agrossilvicultura. Durante anos ele foi intimidado, mas finalmente a justiça deu razão a ele e agora ele vive lá feliz, com sua Sonia. Juntos eles estão envolvidos em muitos movimentos sociais, na esperança de romper a apatia.
Dilair era (é?) um vagabundo, um andarilho, como Manoel de Barros chama a si mesmo. Hoje à noite eu sou um convidado na “Chapada a mão”. É uma associação de artistas que já existe há três anos. Dilair e Sonia são suas forças motrizes. A loja, com os produtos de artistas da cidade e do campo, é o objetivo principal. No entanto, com recursos limitados eles constroem um verdadeiro centro cultural na Chapada, onde não existia praticamente nada em termos de atividades culturais. Em cooperação com o Ministério da Cultura, eles organizam todos os sábados uma noite de cinema. Um dos filmes de hoje dá a palavra a Manoel de Barros, com 92 anos de idade. Ele é o poeta mais lido no Brasil, um filho do grande santuário de aves, o Pantanal, no Mato Grosso do Sul. Uma criança maravilhada, que enxerga e descreve as pequenas coisas da vida. Ele gosta de metáforas e pinta suas palavras. Ele se descreve como um vagabundo. Um monge, embora ele não esteja assentado num pilar ou escondido em uma caverna.

Hensel?

Na loja, há obras de vários artistas, mas o trabalho de Dilair realmente chama a minha atenção. Com a madeira leve do buriti ele faz inúmeras obras de arte. Com o que ele encontra de restos da destruição do Cerrado, ele faz mesas e bancos rústicos.
Estou aqui há pouco tempo, mas percebo de imediato que este é um ponto de encontro para as pessoas “fora da casinha”. Chico, um artista com suas fotografias, entra rapidamente e compra um livro. Um pouco mais tarde, chega José, que enfrenta a agricultura química com suas rochas e minerais moídos. Na mesma linha da luta do século XIX entre Liebig e Hensel, José prepara para uma revolução agrícola – além da indústria química com sua dependência do petróleo a serviço da agricultura química destruidora. Há 150 anos, as ideias de Julius Hensel são ocultadas pela indústria química dominante. Mas pessoas como José poderão fazer justiça a Hensel no século XXI (2).

Eles estão trabalhando há apenas alguns anos, mas já estão avançando. O Ministério do Desenvolvimento Agrário reconheceu “Chapada a mão” como um projeto criativo e inovador. A base da associação não é formada por hippies que vendem seus produtos na rua, mas por comunidades rurais da região.

9 de abril de 2011, Chapada dos Guimarães.

(1) “Daniël de pilaarheilige” [Daniel, o estilita], do autor Van der Horst, Pieter, editora Altiora-Averbode, 2010.
(2) Veja “Nosso futuro roubado”, em “Brasil-Europa em fragmentos?” (Ed. Gráfica Popular/Cefúria, 2010).

Borboleta

Pelas brumas do passado;
Hoje …
Canto, danço …
E me dói
Simplificar a vida,
Borboleta da noite
Que rodeia na luz
Se queima ao
Calor da busca.

Autor: Cleverson de Oliveira

35. Jornada de Luta

No Brasil, começa hoje a semana anual de luta pela reforma agrária. Em todo o país são realizadas ocupações, tanto na zona rural quanto nas cidades. A mobilização anual culmina no “Dia Internacional da Luta Camponesa”: 17 de abril, o dia em que, há 15 anos, 19 camponeses foram assassinados em Eldorado dos Carajás (Pará). Eles defendiam a reforma agrária, que – depois de séculos de injustiça – ainda deixa de ser realizada. Em muitos países, incluindo a Bélgica, neste ano o dia 17 de abril está sob o signo da “privatização das sementes”. Também em Bruxelas há muitas atividades acerca do tema (1).

Sociodiversidade

Em Cuiabá, um grande trevo rodoviário é ocupado para pressionar o governo. A caminho da mobilização, visitamos o centro cultural da Universidade Federal. Neste momento, o museu deste centro é dedicado a uma exposição interessante sobre a sabedoria e as ricas tradições dos diversos povos do Mato Grosso: “inventário documental do patrimônio imaterial de Mato Grosso” (2). À primeira vista, a mobilização e o museu nada têm a ver um com o outro. Mesmo assim, o MST, com suas mobilizações políticas por justiça, tem suas raízes na sociodiversidade do povo brasileiro. Basicamente eles querem derrubar o antigo poder dos latifúndios, de modo que a maioria da população já não seja literalmente empurrada para a valeta. Somente após essa redistribuição de terras outros valores serão possíveis: convívio de todas as culturas e espiritualidade; a independência dos ditames dos produtos químicos, da agricultura capitalista; prática da agroecologia e agrobiodiversidade.

A história de soja: história de sucesso?

Durante a mobilização, alguns líderes contam como os latifundiários estão agindo agora. No norte do Mato Grosso, bem longe da vista do povo e das câmeras, eles nem se dão ao trabalho de, primeiro, colocar gado nas áreas desmatadas. Com máquinas de grande porte, eles derrubam toda a floresta num piscar de olhos. Imediatamente em seguida, iniciam o plantio da soja. Às vezes, plantam primeiro arroz. Ou seja, soja do mesmo jeito, apesar de toda novafala  sobre “soja socialmente responsável”! Os sojicultores afirmam que eles não desmatam há “aaaaanos”. Seriam aqueles outros, com seu gado. De fato, “aqueles com seus bois” também continuam avançando, porque o mundo quer carne, mas os magnatas da soja estão fazendo o mesmo. Por causa da mesma carne. Afinal, a carne é fraca…
Oficialmente, o agronegócio é uma história de sucesso. Contudo, parece que, apesar de toda a propaganda, muitos dos fazendeiros no Mato Grosso incorrem em dívidas equivalentes entre três a dez vezes seus patrimônios. Ou seja, uma bolha financeira, que pode explodir a qualquer momento.

Multas praticamente não são cobradas

Nos últimos anos, tem havido uma série de mudanças em termos legais, porque uma nova geração de promotores independentes tomou posse no sistema judiciário. Há alguns que não têm medo de denunciar a injustiça. No entanto, continua sendo difícil controlar este vasto país e fazer cumprir suas leis. De 2005 a 2010, foram cobradas em média 0,75% das multas aplicadas por crimes ambientais. Em 2010, foi ainda menos: 0,2%. Em 2010, no Mato Grosso, foram aplicadas multas num montante de 376,5 milhões de reais. E só 0,2% foram recolhidos!? Calcule o que o Tesouro Nacional do Brasil deixa de arrecadar anualmente. Se você fosse um grileiro e conhecesse esse mecanismo, então obviamente você continuaria a roubar terras despreocupadamente. E, no meio tempo, você ainda organiza algumas manifestações em Brasília para alterar o Código Florestal em seu próprio benefício. Com isso, você pode realizar ainda mais desmatamento “legal”.

O MST e outros movimentos populares ainda têm muito trabalho a fazer.
Pois a carne não só é fraca. Ela também é agressiva e destruidora.

Cuiabá, 11 de abril de 2011.

(1)    Veja: <http://www.seed-sovereignty.org>.
(2)    Sobre a exposição itinerante “Projeto Inventário Documental do Patrimônio Imaterial Mato-Grossense”, consulte: <http://www.ufmt.br >.
36. A cidade pode salvar o mundo?

A turnê está chegando ao fim. Um dos pontos de parada anual é o Instituto Federal (IFET) em Rio Pomba, estado de Minas Gerais. Eli Lino de Jesus foi um dos primeiros a conseguir criar, nesta região montanhosa, um curso de agroecologia. Desde então, a equipe de professores aumentou sensivelmente e, no último ano, foi inaugurado mais um campus, em Muriaé. Isso representa um deslocamento de duas horas para os alunos do ensino técnico. Preciso me acostumar, porque o público é formado por jovens de 15-16 anos e seus professores, mas parece ser um grupo particularmente receptivo. Eles vivem com grande esperança de começar a trabalhar utilizando sua bagagem de conhecimentos em agroecologia. Esperança e otimismo são muito necessários, pois durante o trajeto você pode ver as provas dos últimos cem anos: as montanhas erodidas, nas quais havia muitos cafezais até a década de 1930. Quando o comércio internacional de café entrou em colapso, devido à crise mundial, as montanhas foram em sua maioria ocupadas por gado leiteiro, em sistemas agrícolas mistos. Mas o que meus olhos veem agora? Durante o trajeto, passa o que parece ser, à primeira vista, uma bela paisagem com mata no topo e pastos nas encostas dos morros – mas onde estão as vacas? Ainda se vê umas poucas cabeças de gado, porém ocasionalmente você vê que a natureza já está tomando de volta o pasto, como em outras regiões montanhosas do Brasil. Atualmente, muitas terras estão sendo compradas como parte do avanço da especulação. E sim, os primeiros reflorestamentos de eucalipto já começam a surgir.

A arte pode suavizar o mundo?

O ônibus noturno me leva de Minas Gerais (via São Paulo) até Araras. Outro curso de agroecologia. Cercados de vastas planícies de cana-de-açúcar, trocamos ideias sobre a tão necessária mudança de paradigma na agricultura. Os DVDs “Á Sombra de um Delírio Verde” (sobre cana-de-açúcar e os guaranis) (1) e “Sistemas agroflorestais na Europa” inspiram o debate. Fico sabendo que, nas terras da universidade, agora estão surgindo tentativas tímidas para integrar árvores ao deserto de cana. Se essa iniciativa realmente vingar, a paisagem por aqui poderia sofrer sérias mudanças.
A caminho da cidade de São Paulo fica Campinas. A universidade Unicamp tem um projeto chamado “Ciência, Arte e Sociedade – Por uma Cultura de Paz” (2). Será que a integração da arte na comunidade científica poderia dar uma contribuição para a tão necessária transformação? Além do pragmatismo e da perspectiva de curto prazo da política real existente?

Metade da população mundial vive na cidade

A caminho da metrópole São Paulo (19 milhões de habitantes), leio a entrevista já um pouco antiga com o professor Eric Corijn, da Universidade Livre de Bruxelas (VUB): “A cidade pode salvar o mundo” (3). É um título desafiador, mas poderia ser verdade? Há cinco anos, metade da população mundial vive nas cidades, queiramos ou não. Para centenas de milhões de pessoas, é a estação final – depois de muito sofrimento que tornou a vida no campo impossível. Em 2011, isso representa, portanto, pelo menos 3,5 bilhões de pessoas. Capitais como Washington-DC, Bruxelas e Brasília decidem sobre agricultura e áreas rurais. Em todo o mundo. As próprias cidades se alimentam graças às mãos e às terras do agricultor e da agricultora… ainda que, geralmente, intermediadas pelas gigantes de alimentos e supermercados, cujas sedes já estão nas cidades. Interessante é o forte crescimento da agricultura urbana em todo o mundo. Será que se trata apenas de autossuficiência alimentar ou também tem relação com a necessidade dos desraigados de formar novas raízes? Entrar em contato com a terra (4).

Um das teses de Corijn é: “O tempo dos estados-nação do século XIX está terminando. Estamos vivenciando um novo Renascimento, com redes entre as cidades: Bruxelas, Barcelona, Paris, Nova Iorque, São Paulo…” Pensamento interessante, contanto que esses cruzamentos das cidades continuem enxergando que sua pegada ecológica está localizada em outro lugar: no campo nas proximidades e do outro lado dos oceanos, em minas e poços de petróleo, nos oceanos e mares, nas florestas e nos desertos, no ar e no espaço. Contanto que os orgulhosos moradores da cidade – que podem fazê-lo – percebam que suas casas de veraneio geralmente estão localizadas no campo. Isso se aplica tanto às muitas pessoas ricas de Bruxelas, que fogem da cidade nos fins de semana e feriados, quanto para os moradores de Antuérpia, que vão até o interior da província belga de Limburg para aumentar sua pegada ecológica de fim de semana. O fenômeno também é conhecido no Brasil. Todo fim de semana a classe média de Cuiabá foge da cidade quase inabitável. Eles se deslocam em massa para o agradável frescor da Chapada dos Guimarães. Aparentemente, a cidade nem sempre é tão messiânica, tão libertadora. Recarregar as baterias muitas vezes se faz em outros lugares.
Enquanto isso, os pobres “são cozidos” em suas favelas. Forçadamente. Eles não podem se refugiar em uma segunda casa no agradável planalto.
A prática de esportes durante o dia foi proibida em Cuiabá, por ser demasiado perigosa. O estado se orgulha de ser o maior produtor de soja do país. O desmatamento provocado para cultivar este “ouro verde” faz a temperatura subir perigosamente…

Estranhos na cidade

Ainda está em discussão se a história dos estados-nação vai morrer, mas a cidade (grande) é realmente um lugar para praticar o relacionamento com “estranhos”, pois todos nós somos um pouco estrangeiros na cidade. Não é possível impor uma única cultura. Por exemplo, a “cultura de Flandres”. Não, uma cidade como Bruxelas é um caldeirão de muitas minorias, muitos estrangeiros que, juntos, devem encontrar uma maneira de conviver. Devido à globalização neoliberal há muito medo, desespero e tensão. A globalização desperta como uma reação à localização, à regionalização. Em nível municipal local, o homem (des)(re)locado pode voltar a se sentir respeitado se as decisões nesse nível também não forem tomadas muito acima de sua cabeça.
Mesmo na situação de deslocamento na cidade, as pessoas buscam instintivamente pessoas com o mesmo ponto de vista, a mesma etnia, grupo familiar… para se sentirem em casa. Exemplos disso são os muitos marroquinos reunidos no município Sint-Jans-Molenbeek (região metropolitana de Bruxelas), os africanos que vêm fazer compras e comer no distrito Matongé, em Bruxelas, os japoneses que, em São Paulo, buscam residência principalmente perto do bairro Liberdade. É um fenômeno comum a todas as grandes cidades. Mas há diferenças significativas entre classes sociais: devido ao “enobrecimento urbano” (5), os marroquinos pobres que residiam próximos ao Dansaertstraat foram “empurrados” para o outro lado do canal, para a mal-afamada Sint-Jans-Molenbeek. Os parisienses vivem em um bairro chique, em Ixelles.

E, ainda assim, há aquelas tradições que esperam que o estrangeiro, o preso, as viúvas e órfãos sejam colocados no centro das atenções. No centro da comunidade. Desse modo, a tradição evangélica está em desacordo com o nosso impulso natural para defender primeiramente os membros da nossa tribo. Foi por causa disso que, nos primeiros séculos do calendário cristão, o cristianismo se espalhou através de rotas de comércio e das cidades. Um cristão tem uma natureza peregrina. Como um estrangeiro, ele é capaz de conectar com outros estrangeiros(s) – embora, em uma cidade, ele também necessite de redes e de uma comunidade para lhe dar apoio. Mais tarde, o cristianismo se enraizou principalmente na vida rural.
Será que, no século XXI, não precisamos de ambos: contato com a terra e voltado para o estranho, o desconhecido? Há muitas oportunidades para entrar em contato com os estranhos ao nosso redor. Se, politicamente, não optarmos por escolas segregadas, os pais e as crianças podem se encontrar na escola. Em muitas cidades, as feiras de agricultores são uma oportunidade para o contato. É que todos precisam comer e podem optar por não ir sempre a um supermercado anônimo. Uma feira é acessível. Há contato entre comprador e vendedor, o vendedor local também se adapta um pouco (por exemplo, na cidade de Gent, o vendedor de maçãs aprendeu a fazer contas e dar o troco em turco, o produtor de legumes traz salsinha e também flores de abobrinha, porque os turcos apreciam esses produtos…). Por outro lado, os agricultores também entram em contato com o estranho e o desconhecido.

Arrependimento na cidade

Agora tomemos São Paulo. Há muitas coisas negativas a dizer sobre essa metrópole: o abismo entre os excluídos em favelas e super-ricos, que se deslocam de helicóptero; um sentimento generalizado de insegurança (nas classes média e alta), com o resultado de que há mais equipamentos de segurança privada espalhados pela cidade do que há arrombadores em potencial; os engarrafamentos permanentes; a poluição do ar; risco de escassez de água e assim por diante. Não é o paraíso, apesar de um dos bairros e uma estação de metrô terem esse nome melodioso de Paraíso. Mesmo assim, há cem parques em toda a cidade. Ao fazer uma caminhada em um dos parques mais famosos, o Ibirapuera, você se depara com a diversidade lúdica desta cidade e seus habitantes. Uma mistura de sangue europeu, africano, indígena e asiático. Uma miscelânea das diversas manifestações de busca pelo significado da vida e de espiritualidade. Se você não encontrar os praticantes de Falun Dafa (6), você verá um pouco à frente um homem com sua espada, fazendo exercícios de Tai Chi Chuan. Yin-Yang numa lâmina. Outro grupo dança em círculo. Pessoas caminham, correm, tomam sorvete. É uma festa para os olhos ver como se abraçam.
Logo adiante, um catador mergulha o papelão que recolheu na água, para ganhar um pouco mais, assim como os frangos criados no sistema integrado são imersos em água para aumentar seu peso. Mas o catador não quer apenas mais peso. Ele também faz belos fardos, de modo que a indústria possa processar o papelão facilmente. Dificilmente pode se dizer o mesmo da indústria, com seus frangos aguados. A água é só para enganar o consumidor.
No carrinho do catador anônimo, a palavra “shalom”. Paz.

Ao lado do viveiro (que, desde 1928, produz mudas para os parques da cidade, principalmente de árvores) está um homem que, aparentemente, dá aula para um auditório imaginário. Parece ser um poliglota, professor de economia. Neste local, ele lê diariamente o seu jornal com suplementos de economia e dá aula. Triste e divertido ao mesmo tempo. Ele veste uma camiseta com os dizeres “New York”. Poderiam ser verdade essas “interação em redes” entre as cidades? Pessoas que não suportam a cidade e seu anonimato e acabam sucumbindo psicologicamente? Vozes clamando no deserto urbano: você os vê em Bruxelas, falando consigo mesmos ou gritando. Em Amsterdã. Em Paris. Em Berlim. Uma rede de tristeza e de esperança entre as cidades.

Recuperação

Meu olhar capta o “Bosque de Leitura” (7). O projeto está presente em muitos parques. Durante o fim de semana há livros e revistas à disposição. Mesas e cadeiras foram posicionadas de modo convidativo sob as árvores. Um tapete de brincar adaptado com livros infantis atrai as crianças menores. Ocasionalmente, natureza e cultura se dão as mãos. Por exemplo, em uma cidade.
Ao deixar o parque, tenho que parar para os ciclistas. Aos domingos, uma pista em cada direção é fechada para os carros, ao longo de 30 quilômetros. Milhares de pessoas fazem uso disso, domingo após domingo, como se pudessem acalmar o pesadelo dos engarrafamentos eternos durante a semana. O domingo como um dia da extremamente necessária restauração.

Ponto de descanso durante a caravana da vida

Caravanserai (8) abre as suas portas. Há dois anos, Marcelo Andrade ouviu minha palestra no “Laboratório Buenos Aires”. No coração de São Paulo, o seu ambiente. Marcelo tinha um emprego bem pago na indústria química, mas ele queria dar outro rumo à sua vida. Seu ano sabático resultou neste centro da reflexão sobre “a cidade do homem – o homem da cidade”. O contexto e o público-alvo são mais direcionados para a classe média e a classe alta, aqueles que tomam decisões ou podem influenciar a sociedade. Porém, não é para ser um lugar de elite, no qual as pessoas (mais) ricas recuperam o fôlego do corpo e da alma. O fato de ele também abrir o centro para o autor deste texto, para uma tarde de debates sobre “agricultura, alimentação e fome no mundo”, diz algo sobre a ambição de integrar a dimensão social neste centro espiritual aberto.

A casa foi parcialmente inspirada pelo monge vietnamita Thich Nhat Hanh e sua aldeia espiritual, na França: Plum Village.
Ao entrar, o texto caligrafado me emociona:

“Cheguei.
Estou em casa.”

Fizemos uma breve visita ao centro xamânico KVT (9), no qual pessoas com vestimentas indígenas fazem terapia. Um pouco estranho para um bruxelense “pé-no-chão”, mas provavelmente tem a ver com ser forasteiro e o estranhamento em uma grande cidade. Xamanismo é uma atitude espiritual de comunhão com a natureza, com o cosmos. Um subtom muitas vezes esquecido ou suprimido de muitas religiões. Em seguida, visitamos os guaranis. Eles estão em São Paulo, em um pequeno pedaço de terra cercado por uma favela, mas com a esperança de conseguir uma área fora da cidade. Caravanserai está decidido a auxiliar os guaranis e sua cultura e espiritualidade a conquistar um lugar digno na região metropolitana. Afinal, eles eram os habitantes originais deste vasto país e têm muito a ensinar aos imigrantes (ou como você quiser chamá-los).
Caravanserai quer um lugar de descanso, como tal como o eram os locais assim denominados na Idade Média, para as caravanas que viajavam pela Ásia Menor. Da Europa para a Ásia. Uma área cercada para os camelos, que precisam descansar a cada 30 quilômetros. Os camelos não obrigam mais a sociedade moderna e agitada a fazer uma parada. Um relógio interno e um ponto de ancoragem na cidade podem ajudar.
Alguns lemas de Caravanserai: centro de estudo, cultural, social, empresarial, integrada e integradora, complementar.

“Momento presente
Momento maravilhoso”

www.plumvillage.org

Salvar o mundo?

Se ainda podemos salvar o mundo, eu não sei. Pessoas e grupos, cada um contribui com a sua parte. As cidades também. Redes de cidades. Assim, em junho de 2011, os prefeitos das maiores metrópoles do mundo se reunirão em São Paulo, para o assim chamado Grupo das Grandes Cidades para Liderança do Clima (10). Eles darão continuidade à discussão sobre como podem combater o aquecimento global, localmente e em rede. Com ações concretas.
Estou curioso para saber se eles terão coragem de enfrentar um dos pontos cegos em relação à mudança climática: a tão necessária transição de nosso crescente consumo de proteína animal para o consumo de mais proteína vegetal (11).

São Paulo é uma das cidades que adotou o modelo de Gent, que organizou a “Quinta-feira Vegetariana” em nível municipal. No Brasil, o projeto foi rebatizado como “Segunda sem carne”. Para iniciar a semana mais leve e mais aliviado.

São Paulo, 17 de abril de 2011,
Dia Internacional da Luta Camponesa.

(1) “Á Sombra de um Delírio Verde”, de Ann Baccaert: <http://www.thedarksideofgreen-themovie.com>.
(2) Veja: <http://www.dac.unicamp.br>.
(3) Veja: <http://www.tienstiens.org/node/396>.
(4) Veja: <http://www.ruaf.org>.
(5) Gentrification [“enobrecimento urbano”]: o processo de valorização de um bairro expulsando os pobres, sutilmente ou não, e atraindo a classe média ou a classe alta. Geralmente isso é feito por meio de uma renovação urbana com rápida elevação nos aluguéis. Às vezes, é utilizada violência, como aconteceu na década de 1980, na região do East Harlem (Nova Iorque). Este bairro era a última ilha em que havia uma vizinhança com imigrantes pobres na prestigiosa Manhattan. Os proprietários de imóveis alugados contrataram incendiários para queimarem suas próprias casas. Assim, eles recebiam o seguro contra incêndio e, ao mesmo tempo, expulsavam os pobres dos prédios de apartamentos. Os prédios permaneceram desabitados por anos até, finalmente, serem transformados em edifícios residenciais de luxo. A administração municipal ficou encantada, porque o bairro popular com pessoas menos favorecidas tinha sido “limpo”. O cofre da prefeitura ficou mais “gordo”, alimentado pelos impostos mais elevados que os novos moradores eram capazes de pagar.
(6) Veja: <http://www.falungongbrasil.net>.
(7) Veja: <http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/cultura/bibliotecas/bosque_leitura/index.php?p=5817>.
(8) Veja: <http://www.caravanserai.com.br>.
(9) Veja: <http://www.kvt.org.br>; Instituto KVT Desenvolvimento da Consciência Empresarial e Instituição Filantrópica e Cultural Ará Tembayê Tayê.
(10) Veja: <http://planetasustentavel.abril.com.br/noticia/cidade/c40-sao-paulo-summit-mudancas-climaticas-acoes-governo-local-624626.shtml> e <http://www.c40cities.org>.
(11) Veja: <http://www.wervel.be/diverse-info-themas-245/ecologie-themas-246/861-170107-samenhang-tussen-vlees-eten-en-milieuproblemen> e, para o Brasil, “Segunda sem carne”: <https://www.vegetarianismo.com.br/sitio/index.php?option=com_content&task=view&id=2436&Itemid=93>. Para Flandres: <http://www.vegetarisme.be>; para o Brasil: <https://www.vegetarianismo.com.br>.
37. Nyeleni 2011: Soberania alimentar na Europa, já!

Em 2007, foi realizado em Mali (África) um encontro mundial sobre o tema “Soberania Alimentar”. A Europa tem muito a aprender “do Hemisfério Sul” e precisava, urgentemente, fazer seu próprio dever de casa. Ponto de partida: “Esse novo conceito de soberania alimentar é muito bonito e pertinente, mas quais são os obstáculos na Europa para chegarmos a esta soberania?” Este foi, em 2011, o ponto de partida para o congresso europeu, em Krems, Áustria, do qual participaram 400 pessoas de 34 países europeus.
Para encerrar este livro, você encontra aqui a declaração final do evento “Nyeleni-Europe”. Trata-se da versão do texto para os portugueses residentes na Europa, mas a dinâmica de centenas de movimentos na Europa pode representar uma pequena contribuição para nosso intercâmbio internacional. Para manter viva a esperança.
Para uma definição de “Soberania Alimentar” e exemplos concretos no Brasil e na Europa, você também pode ler o livro “Aurora no campo”, de Luc Vankrunkelsven.
Para mais informações sobre Nyeleni, acesse: <http://www.nyelenieurope.net>.

SOBERANIA ALIMENTAR NA EUROPA, JÁ!
Nyeleni Europa 2011: Fórum Europeu para a Soberania Alimentar
Krems, 21 de Agosto
A Europa está a sentir os primeiros ajustes estruturais que os governos estão a impor às suas populações, que até agora só tinham sido impostos a outras regiões, especialmente às do Sul, tudo isto com o único interesse de salvar o capitalismo e aqueles que dele se beneficiam (bancos privados, grupos de investimento e multinacionais). Os sinais fazem pensar que num futuro próximo estas políticas anti-sociais estender-se-ão e tornar-se-ão mais duras. As primeiras manifestações gerais para advertir os sistemas económicos e os governos que nos conduziram a este cenário já começaram e dão – com criatividade e energia – as alternativas dos movimentos sociais europeus ao modelo de agricultura global, que é o reflexo do sistema capitalista que o criou.
Os sistemas alimentares foram reduzidos a um modelo de agricultura industrializada, controlada por um pequeno número de multinacionais do sector alimentar, juntamente com um pequeno número de grandes distribuidores. É um modelo desenhado para obter lucro, que por isso falha completamente as suas obrigações. Em lugar de se dedicar à produção de comida que seja saudável, justa e boa para as pessoas, tem o seu foco na produção de monoculturas para agrocombustíveis, rações para animais e plantações industriais. Por um lado, causou uma enorme perda de plantações agrícolas e das pessoas que nelas tinham o seu meio de subsistência, enquanto por outro lado promove uma dieta que é prejudicial à saúde e que contém insuficiente quantidade de fruta, vegetais e cereais.
O modelo industrial de produção actual está dependente dos recursos finitos de químicos e combustíveis fósseis; não reconhece os limites de recursos como a terra e a água; é responsável por dramáticas perdas de biodiversidade e fertilidade dos solos, contribui para as alterações climáticas; força milhares de pessoas a ter empregos onde não lhes são reconhecidos os seus direitos fundamentais; contribui para a deterioração das condições de trabalho de agricultores e trabalhadores, em particular os emigrantes. Afasta-nos de um relacionamento sustentável e respeitador da natureza. Explorando e tratando a terra desta forma, é a principal causa da pobreza e fome rurais de mais de um bilião de pessoas em todo o mundo (como está agora a acontecer no Corno de África). Em resultado disto, provoca emigração forçada, enquanto produz um excesso de comida industrial, que acaba sendo deitada ao lixo, ou levada para mercados fora da Europa, destruindo a produção local.
Esta situação é o resultado das políticas alimentares, financeiras, comerciais e energéticas, que os nossos governos, a UE (especialmente através da sua Política Agrícola Comum), instituições multilaterais e financeiras, bem como multinacionais, têm vindo a impor. Os exemplos incluem as políticas de desregulamentação e liberalização dos mercados agrícolas e a especulação nos alimentos.
Mudar a direcção deste sistema alimentar disfuncional só será possível através de uma reorientação completa das políticas e práticas alimentares e agrícolas. É vital redesenhar o sistema alimentar baseado nos princípios de Soberania Alimentar, particularmente na Europa, e fazê-lo agora.
Como consequência, mais de 400 pessoas de 34 países europeus desde o Atlântico até os Urais e Cáucaso, do Árctico ao Mediterrâneo, bem como representantes internacionais de vários movimentos sociais e organizações da sociedade civil, reuniram-se de 16 a 21 de agosto em Krems, na Áustria para dar um passo em frente no desenvolvimento de um movimento europeu para a soberania alimentar. Estamos a construir sobre os alicerces da Declaração do Nyeleni 2007, Fórum para a Soberania Alimentar, que reafirmou o quadro internacional para a Soberania Alimentar   o direito dos povos de definirem democraticamente os seus próprios sistemas alimentares e agrícolas, sem prejudicar outras pessoas ou o ambiente.
Existem já hoje inúmeras experiências e práticas   quer a nível local, quer a nível regional e europeu   que são baseadas na soberania alimentar e que demonstram como ela pode ser aplicada.
Somos pessoas que partilham valores baseados nos direitos humanos. Queremos a livre circulação de pessoas, e não a livre circulação de capital e mercadorias que contribui para a destruição dos meios de subsistência das populações e, em consequência força muitos a emigrar. O nosso objectivo é a cooperação e a solidariedade em oposição à concorrência. Comprometemo-nos a recuperar a nossa democracia. Todas as pessoas devem estar envolvidas em todas as questões de interesse público e na formulação de políticas públicas, decidindo colectivamente como organizar os nossos sistemas alimentares. Isto exige a construção de sistemas e processos democráticos, livres de violência e influências corporativas, com base na igualdade de direitos e igualdade de género, que também conduza à abolição do sistema de patriarcado.
Muitos de nós são jovens que representam o futuro da nossa sociedade e das nossas lutas. Queremos que a nossa energia e criatividade tornem o nosso movimento mais forte. A fim de fazê-lo, devemos ser capazes de participar no sistema de fornecimento de comida e sermos integrados em todas as estruturas e decisões.
Estamos convencidos de que a soberania alimentar não é apenas um passo em frente rumo a uma mudança nos nossos sistemas alimentar e agrícola, é também um primeiro passo para uma mudança mais ampla nas nossas sociedades. Para isso, comprometemo-nos a lutar por:
Mudar a forma como os alimentos são produzidos e consumidos
Estamos a trabalhar em sistemas de produção de alimentos resistentes, que servem de alimento saudável e seguro para todos os povos da Europa, ao mesmo tempo que preservam a biodiversidade e os recursos naturais e garantem o bem-estar animal. Isto requer modelos ecológicos de produção e de pesca, bem como uma infinidade de pequenos agricultores, jardineiros e pescadores de pequena escala que produzem alimentos locais, constituindo a espinha dorsal do sistema alimentar. Nós lutamos contra a utilização de OGM e pelo crescimento e recuperação de uma grande diversidade de variedades não-OGM de sementes e raças de animais nesses sistemas.
Promovemos formas sustentáveis e diversificadas de cultura alimentar, em particular o consumo de produtos locais e sazonais de alta qualidade, e não alimentos altamente processados. Isso inclui um menor consumo de carne e produtos animais, que devem apenas ser produzidos localmente e alimentados localmente sem elementos OGM.
Dedicamo-nos a reabraçar e promover o conhecimento da culinária e do processamento de alimentos através da educação e partilha de competências.
Mudando a forma como o alimento é distribuído
Trabalhamos no sentido de descentralizar as cadeias alimentares, promovendo mercados diversificados baseados na solidariedade e em preços justos, cadeias de abastecimento curtas e intensificação do relacionamento entre produtores e consumidores da cadeia alimentar local, combatendo a expansão e o poder dos hipermercados.
Queremos a criação de locais onde as pessoas possam ter os seus próprios sistemas de distribuição alimentar e que permitam aos agricultores produzir e processar alimentos para as suas comunidades. Isto requer regras de segurança alimentar de apoio e infraestruturas locais para os pequenos agricultores. Trabalhamos para garantir que os alimentos que produzimos chegam a todas as pessoas da sociedade, incluindo pessoas com poucos ou nenhuns recursos.
Valorização e melhoria das condições sociais e de trabalho dos sistemas alimentar e agrícola
Lutamos contra a exploração e a degradação das condições sociais, do trabalho e pelos direitos de todas as mulheres e homens que fornecem alimentos, bem como os dos trabalhadores sazonais e emigrantes dos sectores de processamento, distribuição, venda e outros. Trabalhamos no sentido de encontrar políticas públicas que respeitem os direitos sociais, definam padrões elevados e que condicionem o financiamento público à implementação integral destes direitos e padrões. A sociedade deve dar maior valor ao papel dos produtores e trabalhadores do sector alimentar na sociedade. Para nós, isso inclui um nível aceitável de salários. O nosso objectivo é construir amplas alianças entre todas as pessoas que trabalham no sistema alimentar.
Reivindicar o direito ao Bem Comum
Opomo-nos e lutamos contra a mercantilização, economização e patenteamento dos nossos bens comuns como: a terra, as sementes de agricultores, sementes tradicionais e reprodutíveis, as raças de gado e as populações de peixes, as árvores e florestas, a água, a atmosfera e o conhecimento. O acesso a estes recursos não deve ser determinado por mercados e dinheiro. Ao utilizar recursos comuns, temos de assegurar a realização dos direitos humanos e da igualdade de género, e garantir que eles beneficiem a sociedade alargada. Também reconhecemos a nossa responsabilidade em usar os nossos bens comuns de uma forma sustentável, respeitando os direitos da Mãe Terra. Os nossos bens comuns devem ser geridos através do controlo comunitário colectivo e democrático.
Mudar as políticas públicas que regem os nossos sistemas alimentar e agrícola
A nossa luta inclui a mudança das políticas públicas e das estruturas que regem os nossos sistemas alimentares – a partir do nível local para o nível nacional, europeu e global   para deslegitimar o poder corporativo. As políticas públicas devem ser coerentes, complementares e promover e proteger os sistemas e as culturas alimentares. Eles devem basear-se no direito à alimentação, erradicar a fome e a pobreza, assegurar o cumprimento das necessidades humanas básicas e contribuir para a “justiça climática”   na Europa e globalmente. Precisamos de quadros legais que garantam preços estáveis e justos para os produtores de alimentos; que promovam a agricultura ecológica, internalizem os custos externos nos preços dos alimentos e implementem a reforma agrária.
Estas políticas resultarão em mais agricultores na Europa. As políticas públicas devem ser concebidas com a ajuda de estudos responsáveis para alcançar os objectivos acima enunciados. Eles devem garantir que qualquer especulação com os alimentos seja proibida e que nenhum dano é infringido aos actuais sistemas e culturas alimentares locais ou regionais, quer por dumping quer por expropriação de terras na Europa, em particular na Europa Oriental e no Sul Global. Trabalhamos em criar novas políticas internacionalmente justas para a agricultura, a alimentação, as sementes, a energia e o comércio, segundo os princípios da soberania alimentar. Estas devem incluir, em particular: uma política agrícola e alimentar diferente, a eliminação da Directiva Europeia sobre Biocombustíveis e o controlo do comércio agrícola internacional através da FAO e não da OMC.
Apelamos aos povos e aos movimentos sociais da Europa a participar, juntamente conosco, em todas as nossas lutas para tomar o controlo dos nossos sistemas alimentares, e construir o Movimento pela Soberania Alimentar na Europa, JÁ!

Merci

Obrigado;
Nunca fui …
Por nada
Um nada
Fui;
Obrigado.
E você,
Obrigado
A nada
Agora fui
Obrigado
Por nada …

Autor: Cleverson de Oliveira
 

‘E para finalizar…’

Durante as turnês no Brasil, eu encontrei muita boa vontade nas universidades. Particularmente na área de ciências humanas, a esperança brilha, há abertura para a compaixão. Por isso e para encerrar este livro, quero deixar mais algumas considerações vindas do continente americano:

“Por onde a senhora começaria a fomentar uma cultura de compaixão?"

Nussbaum: “O que me preocupa, ultimamente, são os cortes orçamentários feitos na educação em todo o mundo – e, mais especificamente, nas ciências humanas. Contudo, são o principal ambiente em que você, na juventude, aprende algo sobre a ética e compaixão, sobre democracia e coexistência. Mas, em todo lugar, vemos cortes orçamentários na filosofia, artes, literatura. Nós nos tornamos excessivamente econômicos. As ciências humanas nos preparam para sermos cidadãos numa sociedade, e não apenas um empregado-técnico em uma empresa.
As ciências humanas treinam você para aprender a usar a imaginação, a enxergar outras possibilidades. Essa capacidade também é importante em sua vida profissional, mais do que conhecimento técnico puro, pois este se tornará obsoleto em dez anos, e então você precisa novamente da sua imaginação para se reciclar. Essa ampla base humana, até mesmo humanística, da educação universitária não deve ser comprometida se você não quiser ter futuras elites que sabem tudo sobre sua especialidade, mas nada de sociedade ou de empatia.”

Martha Nussbaum (nascida em 1947) é professora de Ética e Direito na Universidade de Chicago. Ela combina um conhecimento abrangente da filosofia clássica e da literatura com um grande compromisso social e a pesquisa de uma teoria de justiça social. Ela recebeu alguns prêmios internacionais e títulos de Doctor honoris causa por alguns de seus livros.

(A partir de uma entrevista dupla com Martha Nussbaum e Bea Cantillon no jornal De Morgen, 23 de julho de 2011)

As ciências humanas são importantes. No entanto, elas não são suficientes para passar para a plenitude da vida. Humildade, compaixão, sensibilidade e misericórdia tendem a ser despertadas nos confrontos com a pobreza, a injustiça, sofrimento e morte, resistência e esperança. É isso o que nos ensinam os fundadores da Teologia da Libertação, Gustavo Gutiérrez, Juan Luis Segundo e José Comblin.
Monsenhor Romero, arcebispo de San Salvador, recebeu uma formação boa, porém reservada e conservadora. A imersão no mundo de pobreza e opressão o levou a descobrir a misericórdia. Isso acabou sendo fatal para ele.

“Nós não vemos os resultados finais,
Mas essa é exatamente a diferença entre o arquiteto e o operário.
Nós somos operários, não arquitetos.
Nós somos servos e não messias.
Nós somos profetas de um futuro.”

Monsenhor Oscar Romero,
Arcebispo de San Salvador.
Assassinado em 24 de março de 1980.

Certa ocasião, o escritor argentino Julio Cortázar foi acusado de mostrar pouco engajamento social em seus escritos.
Sua resposta é “legal!”, além do otimismo fácil:
“A única atitude é viver como gostaríamos de fazê-lo no futuro. Com tudo o que implica em jogo e alegria.”

O Padre José Comblin, de Bruxelas, faleceu na primavera de 2011. Ele inspirou centenas de milhares de pessoas na América Latina e na Europa.
Dedico este livro a ele.

Colofão

“Legal! Otimismo – realidade – esperança” foi lançado no dia 29 de março de 2012 em Bruxelas e, simultaneamente, em diversos locais no Brasil. Da Luiz Young Editora / Cefuria, Curitiba, com apoio cultural da Caravanserai, São Paulo.
Os textos foram escritos por Luc Vankrunkelsven, da Wervel.

Ilustrações
Esta é a terceira vez que nós, professores da UFPR Litoral, somos convidados a participar com ilustrações ou produção de capas para os livros escritos por Luc Vankrunkelsven. Na primeira vez tivemos a ajuda dos estudantes dos cursos de Licenciatura em Artes e de Agroecologia. No segundo livro, optamos por trabalhar especificamente com a comunidade da cidade de Matinhos. Então – sob a orientação dos professores e estudantes do curso de Licenciatura em Artes, da UFPR Litoral – as ilustrações foram realizadas. Nesta oportunidade participaram tanto crianças de 7 a 10 anos da 3.ª e 4.ª séries do Ensino Fundamental (Escola Municipal Francisco dos Santos Junior), como também jovens e adultos do Ensino Fundamental e Médio (Ensino de Jovens e Adultos – EJA, na Escola Municipal Wallace Thadeu de Mello e Silva, da Rede Municipal e Estadual de Ensino de Matinhos). Nesta terceira oportunidade, decidimos trabalhar com os alunos da oficina de desenho, oferecida pelo Projeto de Extensão Laboratório de Criação e Produção Artística e, coordenado pelas Professoras Luciana Ferreira e Joelma Zambão Estevam. Esta oficina, que foi oferecida durante o ano de 2011, teve como professoras as alunas do curso de Licenciaturas em Artes Gicelli Petrini da Silva Brunkhorst e Marli Teresinha Rios Pereira, que ficaram responsáveis pela supervisão de todas as ilustrações. Assim como foi feito com os outros trabalhos, neste também conversamos com os participantes sobre o conteúdo do livro. Discutimos sobre os temas e as imagens que seriam as mais significativas para cada um deles e, decidimos que trabalharíamos com colagens. As ilustrações foram produzidas por: Ana Beatriz da Silva Ramos, Carlos Eduardo Camargo Blank, Ítalo Brunkhorst, Lorena Maria Zanardi Alvez, Nicoli Cristine da Silva Marques, Luciana Ferreira, Gisele Petrini da Silva Brunkhorst, Juliana Quadros.

Poemas
Os poemas no livro são de Cleverson de Oliveira.
Nascido em Curitiba, Paraná, no ano de 1980, seus primeiros poemas foram escritos doze anos depois, com o primeiro recital poético aos dezesseis. Um ensaio com o título “Tão só como o sol” teve o apoio cultural do Teatro Universitário de Curitiba – TUC e, na sequência, algumas pequenas edições lançadas pela Fundação Cultural de Curitiba, Companhia Feira do Poeta. Em 2000, ocorreu o lançamento oficial do livro “Nos trilhos da vida” que teve apoio cultural dos mesmos.
A busca frenética pelo desconhecido o fez partir para a Europa e Ásia. Nestes anos longe de sua pátria querida, segue atuando em vários movimentos artísticos em diferentes setores.
Cleverson é membro da Associação Art’Nativa Brasil, que reúne artistas brasileiros residentes em Bruxelas (www.artnativa.be). Art’Nativa é parceira de Wervel para – numa sinergia entre arte e ação – tornar o Cerrado conhecido na Europa.

Capa, diagramação: você pode completar, Carlos?
 
Apoio Cultural:

Caravanserai Desenvolvimento Humano Ltda.

O Caravanserai é uma organização privada cuja missão é impulsionar a transformação pessoal e acelerar a transformação social. Sua atuação tem ênfase no desenvolvimento de projetos de educação humanística, que englobam palestras, cursos, workshops, encontros e técnicas corporais voltados a integração corpo, mente e consciência.

Desde 2010, o Caravanserai tem apoiado as viagens de Luc Vankrunkelsven ao Brasil e promovido suas atividades em São Paulo. Luc e Caravanserai têm trabalhado juntos na concepção de projetos orientados para a construção de um mundo melhor.

O Caravanserai propõe um processo de educação integral de corpo, mente e consciência, que ocorre por meio da convivência, diálogo, reflexão e cuidado com o corpo. Trata-se de um processo de descobrir em si mesmo e nos outros, novas formas de ver o mundo e de viver em harmonia.

O Caravanserai acredita que quando um indivíduo se transforma rumo ao bem-estar, o mundo ao seu redor também se transforma. Este é um processo individual, que se dá de dentro para fora, e que pode ser compartilhado entre pessoas que acreditam que:

“Viver em bem-estar é viver em harmonia interna e com o nosso entorno   as pessoas e os outros seres vivos. E´ viver eticamente, não causando danos nem a si mesmo nem aos outros.”
 

Última página.

Wervel
(Werkgroep voor een rechtvaardige en verantwoorde landbouw = Grupo de trabalho por uma Agricultura Justa e Responsável)

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Wervel é um grupo de trabalho independente. Ele procura ser um elo de ligação entre pessoas e organizações que abordam o tema agricultura e alimentação de ângulos diversos: consumidores, agricultores e agricultoras, movimentos ambientais e movimentos que promovem intercâmbio entre os hemisférios Norte e Sul e movimentos pacifistas.

Sobre a Missão de Wervel VZW [organização sem fins lucrativos]
Wervel visa uma agricultura que agrega valor localmente, tanto no plano ecológico quanto social e cultural, e que é solidário com o restante do mundo.

Para tanto, ele parte de valores universais como democracia, justiça e responsabilidade.

Wervel mobiliza consumidores, agricultores e organizações para colaborarem na formação desta agricultura por meio de trabalho em redes, campanhas e publicações.

Ao longo de seus vinte e dois anos de existência, Wervel teceu algumas linhas mestras, em torno das quais são realizadas ações: OMC e fluxos de proteínas, importação de soja de outros continentes e fontes alternativas de proteínas na Europa, a interdependência entre o modelo agrícola destruidor do Cerrado brasileiro e a pecuária intensiva na Europa, a problemática da produção de esterco e pecuária, engenharia genética e direito de patente sobre organismos vivos, agricultura com interação local, preços justos associados a controle da produção, a política agrícola comum (sigla em neerlandês: GLB) da União Europeia, soberania alimentar, sistemas agroflorestais, intensificação da agroecologia, terras e solos, cânhamo, Comércio Justo Local (na Europa). As ações são apoiadas por meio de estudos e publicações.

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