Legal – parte 3 – Luc Vankrunkelsven

19. Carne para a paz?

A programação em Goiânia é sempre muito intensa: palestras em universidades, entrevistas para rádios, TVs, jornais.
Esta manhã, uma discussão interessante se desenrolou na Universidade Federal.
Depois de explicar a história da alimentação e da (inter)dependência Brasil-Europa, há o debate com o público. Um homem havia ouvido a entrevista no rádio e imediatamente se dirigiu à universidade. Ele é engenheiro agrônomo, trabalhou para uma empresa de produtos químicos, depois na Embrapa e, atualmente, é consultor em nutrição animal.

Alimentos para a Paz

Aparentemente, a explicação do programa dos EUA “Alimentos para a Paz” (1) levou o bom homem de volta à sua juventude. Ele conta: “De fato, na década de 1960 havia doação de grãos. Quando era criança, eu presenciei a doação de grãos na igreja, em Goiás Velho. A igreja fornecia o grão para os padeiros e eles providenciavam para que tivéssemos pão. Graças a essa ajuda pudemos nos desenvolver. Fomos capazes de construir uma agroindústria e agora fico sabendo que podemos fornecer nossos frangos por um preço baixo para as nações africanas. Bem, eu estou orgulhoso disso! Assim como nós tivemos a oportunidade de iniciar naquela época, graças ao grão estrangeiro, da mesma maneira os africanos podem agora receber nossas técnicas e se desenvolver.”
Silêncio no auditório. A afirmativa anterior era exatamente que, por meio do “Alimentos para a Paz”, os Estados Unidos estrategicamente impuseram e ainda impõem a Pax Americana. Foi o início do modelo americano de produção e de consumo na Europa, no Brasil e em outros países. Após a Segunda Guerra Mundial, a Europa já havia tido a experiência do Plano Marshall. Desde a década de 1950, o assim transformado “terceiro mundo” é coberto pelos grãos de “Alimentos para a Paz”. No entanto, o filme “Frango Psicótico” mostra claramente que o frango congelado e barato do Brasil e da Europa destrói a economia e a cultura locais em diversos países africanos. Como assim “desenvolvimento”? Agora que o Brasil está se tornando uma superpotência econômica, ele começa a apresentar características imperiais semelhantes: “O Brasil está orgulhoso de poder abastecer os estômagos e os carros do mundo. Nós temos essa vocação exportadora. Não é lindo?”

Outro homem da plateia complementa: “Durante o período em que recebíamos a enxurrada de trigo, parou o processamento de mandioca em pequena escala. Eu sou do Espírito Santo. Lá tínhamos muitas pequenas casas de farinha, que processavam a mandioca utilizando energia hidráulica. Conforme você explicou, a cultura do pão à base de trigo nos foi imposta. Mas o trigo só pode ser cultivado no Sul do Brasil. A maior parte do volume é importada dos Estados Unidos e da Argentina. A cultura do pão nos aliena e nos torna estruturalmente dependentes de importações. No entanto, a mandioca é um dos nossos alimentos básicos. Além disso, a parte vegetativa da planta contém muitas proteínas. Isso é perfeito para se utilizar na ração animal.”

Sistema fiscal incentiva exportações

Continuo a reflexão: “Não é que devemos necessariamente ser contra o comércio e a exportação, mas soberania alimentar é bem diferente de coxas de frango que, como símbolo da globalização, destroem as culturas em outros lugares. Ou é normal que, em 2010, o país importador Brasil exporte trigo do Paraná para a França, que é um país exportador de trigo? A cada ano, o Paraná exporta mais trigo. Se os hábitos alimentares mudaram mesmo em Goiás e as pessoas comem pão feito com trigo, por que o Paraná exporta o trigo, enquanto o país precisa importar estruturalmente milhões de toneladas? Será que o sistema fiscal explica essa anomalia? Desde 1996, o Brasil tem a “Lei Kandir”: produtos a granel não processados (por exemplo, trigo e soja) ou produtos semiprocessados (celulose de eucalipto, por exemplo) podem deixar o país sem pagar impostos. Se esses produtos forem transportados de um estado para outro, eles devem pagar imposto. Será que essa lei não está fortalecendo, em grande medida, o modelo exportador de produtos agrícolas? Combinado com o fato de que, na União Europeia, não se paga imposto sobre as importações de oleaginosas desde 1962, isso significa que a UE foi tornada extremamente dependente das proteínas (excessivamente) baratas do exterior: 39 milhões de toneladas de soja, das quais 20 milhões de toneladas são do Brasil. Geralmente envolve leis e ditames internacionais, feitos sob medida para os grandes da terra: Nestlé, Cargill e companhia. A mesma Nestlé que, em Goiânia, patrocina o departamento da agricultura da Universidade Federal. A mesma Cargill que garante muitos salários na antiga Universidade de Leuven. E por último, mas não menos importante, não vamos nos esquecer da Monsanto. No meio da intensa disputa envolvendo os organismos geneticamente modificados, Wervel revelou que um debate sobre “a objetividade da ciência”, na VUB (Universidade Livre de Bruxelas), em 1997, foi pago pela Monsanto. Através da agência de lobby Interel. “Através”, para ocultar a jogada. Daí “revelação” (2).

Modernização conservadora

A filha do agrônomo também está no auditório. Ela diz que a geração de seu pai cresceu no período da ditadura militar. Na universidade, matérias como história e filosofia foram cortadas de seus currículos. Uma formação puramente técnica, baseada na ideologia americana de progresso, faz com que a grande maioria dessas pessoas não consiga mais pensar de outra forma: “Nós estávamos na miséria. Se copiarmos o modelo americano, conseguiremos sair dela”. A jovem continuou: “A teoria da dependência mostra exatamente que a periferia (por exemplo, Brasil) deve fornecer matérias-primas baratas para o centro. A modernização conservadora ocorreu primeiramente no interior e, agora, está a pleno vapor nas cidades. O consumismo está no seu auge: cada um tem seu próprio carro, seu celular, saímos juntos para consumir fast-food e Coca-Cola. O modelo de consumo da Europa e da América é um ícone, para ser adorado e copiado.”

A teoria da dependência não está ultrapassada, mas nos países emergentes (Brasil, China, Índia e Rússia) as cartas não são exatamente as mesmas de 40 anos atrás. O frango, o açúcar e o etanol brasileiros provocam igualmente a desestruturação da economia e da cultura em outros continentes. Pode até ser geralmente o capital estrangeiro investido nas usinas de etanol, mas também o próprio Banco do Brasil está continuamente financiando o agronegócio para conquistar os mercados mundiais.
O ex-ministro da agricultura Roberto Rodrigues não chamou o mercado agrícola internacional de “Terceira Guerra Mundial”? (3) Uma guerra mundial que o Brasil deve ganhar!

Goiânia, 26 de maio de 2010.

(1) “Food for Peace/Alimentos para a Paz”, um programa dos Estados Unidos conduzido desde 1955 para, através de ajuda alimentar, livrar-se de seus grãos excedentes. Mais informações em: “Ração animal, uma história de (inter)dependência”, em “Brasil-Europa em fragmentos?” (Ed. Gráfica Popular/Cefuria, 2010).
(2) Veja a reportagem do jornal (“Engenharia genética, ração pronta para consumo em nossos pratos”), de Wervel, relativa ao seminário Organismos Geneticamente Modificados (OGM), logo após a chegada do primeiro navio com soja transgênica em Antuérpia. O jornal foi publicado na época do debate na Universidade Livre de Bruxelas, sobre a “objetividade da ciência”, em 1997.
(3) Leia “Soja e guerra”, do mesmo autor, em “Aurora no campo. Soja diferente” (Ed. Gráfica Popular/Cefuria, 2008).
 
20. Nossa água? Nossa carne?

Durante essas turnês, até agora, foram as universidades federais que convidaram esse “belga católico”. Hoje é um dia memorável: o belga não tão católico foi apresentado não apenas a uma universidade católica, mas a uma universidade “Pontifícia”. A PUC de Goiânia.
Desde 2009, a pluralista Wervel tem um intercâmbio com o “Fórum Goiano em Defesa do Cerrado” (com Altamiro Fernandes, como articulador) e com o artista João Caetano. Já estava na hora de divulgar isso e onde melhor do que na PUC?

Fragmentos para o coração

Um “Café com prosa” acolhe 220 interessados. Após o ritual de costume de trocar presentes e elogios recíprocos, é lançado o DVD sobre a vida e a obra de João Caetano. Ele registra sua paixão pela beleza do Cerrado em imagens tocantes. Na ocasião, fica claro que o “olhar de João” combina maravilhosamente com o olhar infantil do abaixo-assinado e das crianças de Matinhos que ilustraram o livro “Brasil-Europa em fragmentos?”. Com um olhar cheio de deslumbramento infantil, ele registra detalhes/fragmentos em fotos que agora alegram muitas salas em lares no Japão, no Brasil e na Europa. Ele não quer apenas enfeitar a realidade de um modo barato e sim, com sua arte, destacar a importância dessa região única que é o Cerrado. Enquanto os meus fragmentos geralmente expõem os argumentos do ganho financeiro devastador, os fragmentos dele proporcionam ações motivadas pelo coração. Para interromper a espiral de destruição.
Na tentativa de transmitir a cultura típica do Cerrado para a próxima geração, canto e música proporcionam um entretenimento divertido e cultural. Em vez do clássico “café com bolacha”, são produtos do Cerrado os ingredientes do apetitoso intervalo.

As mulheres denunciam

Em seguida, é a vez do “escritor belga” tomar a palavra. Para apoiar a explicação do perverso sistema global entre Brasil-Europa-África, passamos o DVD “A vaca 80 tem um problema” (1). Em seguida, há um debate acalorado e controverso entre diversos professores. Chama a atenção que são algumas colegas do sexo feminino que protestam mais veemente contra o capitalismo que empurra o Brasil para uma posição neocolonialista, sem querer reconhecer isso. Não, a sociedade em geral tem orgulho do modelo de exportação que acredita que deve alimentar outros continentes. As mulheres denunciam a ampla privatização da água pela Coca-Cola e outras empresas estrangeiras e o fato de que esse modelo agrícola exige até 70% da água disponível e muitas outras injustiças. Não apenas a soja, o milho e a cana são, em grande parte, “exportação de água”. São necessários 15 mil litros de água para produzir um quilo de carne bovina. Outra professora de ciências humanas dá seu testemunho baseada numa pesquisa que realizou numa propriedade de pecuária leiteira. Segundo ela, não são somente os pequenos agricultores da agricultura familiar que estão em apuros; os pecuaristas leiteiros também têm dívidas enormes. São apenas as indústrias de fornecimento e processamento, o comércio e os supermercados que se beneficiam.

Homens defendem interesses

Isso está além do que podem aguentar os colegas agrônomos do sexo masculino. Apaixonadamente eles defendem o modelo exportador do agronegócio. De todos os lados se ouvem belas palavras como “cooperativas” e “sustentabilidade”. Um deles exclama: “Que absurdo é esse de que ‘nossa’ água do Cerrado é exportada na forma de soja e etanol! Nossa água é para todo o planeta.” Muito bem colocado, mas as colegas denunciam que, devido ao modelo agrícola dominante, o nível do lençol freático está caindo drasticamente, os rios secam mais rápido e por mais tempo, e o excessivo uso de agrotóxicos deixa para trás nascentes e rios “mortos”. Elas destacam o fato de que a pouca água saudável que nos resta está sendo privatizada por grandes empresas, embora na verdade seja um bem público. O homem levantou, com razão, que o Brasil é o maior exportador de carne bovina, mas que apenas 20% das mais de 200 milhões de cabeças de gado vão para o exterior (2). A própria classe média brasileira em forte ascensão consome muita carne e, às vezes, analisa rigorosamente seu próprio padrão de consumo.
Outro: “Os agricultores também estão se beneficiando, porque eles são membros das cooperativas. Estamos orgulhosos de podermos levar cada vez mais nossos produtos lácteos para o mercado mundial”. Estou chocado. É como se eles simplesmente não tivessem visto o filme que acabou de ser exibido: leite em pó da Holanda que praticamente inviabiliza a produção leiteira local no Senegal. Substitua “europeus” por “brasileiros” e você está no meio da novela da qual o Brasil quer participar. Depois eu soube que ele dedica parte do seu tempo trabalhando na cooperativa em questão e outra parte lecionando na universidade.

O agronegócio, uma bênção para a humanidade? Ontem eu fiquei uma hora na “Roda de Entrevistas” da TBC (Televisão Brasil Central). O conselheiro da Secretaria de Meio Ambiente de Aparecida de Goiânia também participava do painel. O bom homem já teve que enfrentar quatro atentados. Na última ameaça, ele encontrou sete buracos de bala em seu carro. Quem tenta defender bens públicos, tais como natureza e meio ambiente, às vezes coloca sua própria vida em risco.

O agronegócio é sustentável? Sim, sustenta a continuidade da violência contra aqueles que desafiam os ditames dos poderosos.

Goiânia, 27 de maio de 2010.

(1)    Projeto conjunto das ONGs Vredeseilanden, Wervel, Oxfam-Solidariteit, Coalition Stratégies Alimentaires, com parceiros do Brasil, Senegal, Bélgica, Grã-Bretanha e França. Um filme de Dirk Barrez e Global Society. Disponível em espanhol, holandês, inglês, português e francês.
(2)    No Brasil há cerca de 200 milhões de cabeças de gado, das quais cerca de 20% são de raças europeias (principalmente no Sul do Brasil) e 80% de zebuínos, da Índia. As exportações respondem por 1,3 milhões de toneladas de carne/ano ou cinco bilhões de dólares. Devido às emissões de metano desses animais, a contribuição para o aquecimento global é equivalente a, aproximadamente, 200 milhões de veículos pequenos.
 
21. A festa arruinada do Cerrado

6 mil espécies de vegetais vasculares
837 espécies de aves
195 espécies de mamíferos
780 espécies de peixes, incluindo o Pantanal
113 espécies de anfíbios

Estes são os números oficiais do Ministério do Meio Ambiente, em 2004.
Segundo alguns estudos, a flora do Cerrado possui 10 mil espécies de plantas, das quais 4.400 espécies são exclusivas desse bioma. No Distrito Federal (Brasília), encontram-se 233 espécies de orquídeas e um número desconhecido de animais. Na mesma área metropolitana podem ser observadas 430 espécies de aves. Compare isso a Bruxelas, capital da União Europeia, capital da Bélgica, capital de Flandres e sede da Região Metropolitana de Bruxelas. De vez em quando, eu ouço um melro cantando e vejo um pombo-torcaz voando. E isso é tudo… Oh, sim, também periquitos exóticos que expulsam a diversidade dos parques.

A mais rica savana do mundo?

O Cerrado é a cisterna ou, melhor, a nascente de muitos rios que correm em diversas direções. Isso não afeta somente o Brasil, mas também grande parte da América Latina. Os contribuintes do Rio Paraná nascem no centro do Brasil e seguem seus cursos até a capital da Argentina, Buenos Aires.
É a savana mais rica em espécies do continente. Nem se compara com a savana do Suriname e da Venezuela, por exemplo. Na verdade, o Bioma Cerrado esta entre as maiores biodiversidade terrestre do mundo.

Estamos em pleno Ano Internacional da Biodiversidade e hoje é o Dia Internacional do Meio Ambiente. Motivo suficiente para aprofundar a reflexão sobre essa extraordinária coleção de ecossistemas.

Décadas de disputa

Na literatura, no campo e nas discussões políticas sobre a “abertura” dessa vasta área, várias visões se opõem (1). O solo pobre, com alto teor de alumínio, combinado com o fogo que regularmente percorre a terra seria o que torna o Cerrado tão marginal. “Não”, dizem outros: “A Floresta Amazônica é extremamente viçosa em solo igualmente pobre, mas lá você tem uma precipitação elevada e constante. Por isso, é uma floresta tropical. O Cerrado foi formado pelo ciclo anual de meses de seca seguidos de um período de chuvas intensas.” Começa a haver consenso de que a qualidade do solo e o fogo influem, mas que é a alternância nos ciclos de seca e de chuva que moldou essa região única. Trata-se de 192,8 milhões de hectares, ou 22,65% do território brasileiro, distribuídos por 11 estados. Atualmente, 22 milhões de pessoas vivem lá.

Esponja da América Latina

Evapotranspiração por dia (mm/dia)  na região do Cerrado, conforme a cobertura vegetal:
– estação chuvosa, vegetação nativa de Cerrado – 2,6
– estação seca, vegetação nativa de Cerrado – 1,5 (!)
– lavoura de arroz – 4,3
– lavoura de girassol – 5,6
– lavoura de milho – 2,8
– lavoura de soja – 8,4 (!)
– lavoura de trigo – 4,4
– vegetação de campo, pastagens – 2,6
– reflorestamento de Pinus elliotis – 4,7
– reflorestamento de eucalipto – 6,0 (!)

Fonte: Miranda e Miranda, 1996.

A gestão da água é fundamental para o Cerrado. Para o Brasil. Para a América Latina. Para o planeta. No Cerrado, as árvores geralmente permanecem pequenas e têm uma aparência retorcida. Muitas espécies têm folhas coriáceas e casca grossa, para reduzir a perda da umidade. Compare as folhas da vegetação de Cerrado (1,5 e 2,6 mm/dia) com as da lavoura de soja (8,4 mm/dia). Por causa dos meses de seca recorrentes, as raízes penetram profundamente no solo. Por outro lado, o solo poroso facilita a infiltração de água. Ao longo de milhões de anos se formaram ali gigantescas reservas de água chamadas de “aquíferos” (como o Guarani, o Bambuí e o Urucuia). Em relação a eles também há controvérsia: uma parte da água seria salobra e, portanto, inutilizável. Isso porque, há milhões de anos, a região teria sido um fundo de mar. De qualquer modo, o Cerrado funciona como uma esponja que abastece de água esses aquíferos e muitos rios importantes. Agora que está sendo intensamente desmatado (três vezes mais do que a tão falada Amazônia), essa reserva de água acumulada lentamente ameaça secar dentro de algumas poucas décadas. Isso já provoca consequências catastróficas não apenas para o Cerrado, mas para o regime hídrico em quase toda a América Latina.

Biomassa

O gado tradicional ainda pode viver e desfrutar da festa de centenas de flores e a riqueza em frutas. Nos últimos anos, muitas pastagens foram implantadas com gramíneas exóticas, que abafam a diversidade original. As monoculturas de soja, milho e açúcar dão o golpe de morte. Essa é a resposta clara para os muitos “espíritos iluminados” que, agora, afirmam que a produção pecuária intensiva ocidental é a solução para a problemática dos alimentos e para o aquecimento global. Quando os bovinos são trancados em galpões na Bélgica, talvez seja possível sugar o metano, mas grande parte da ração deverá ser trazida de lugares a milhares quilômetros de distância, utilizando muita energia e causando a destruição de ecossistemas. A explosão global de granjas de suínos e de aves já está, de qualquer maneira, baseada em soja-milho. O Cerrado “sem valor” é o próximo “Número Um”!
No estado de Minas Gerais, as árvores nativas estão rapidamente sendo convertidas em lenha. Também são ideais para fazer carvão, para os altos-fornos da indústria siderúrgica. Uma espécie de árvore – que está agora correndo risco de extinção – deve seu nome a isso: carvoeiro.

O plantio de eucalipto é “reflorestamento” e, assim, recebe vários tipos de apoio, até mesmo dinheiro com base no Protocolo de Kyoto, para o sequestro de carbono. Esquece-se que o equilíbrio da vida no solo e a vegetação nativa de Cerrado são fundamentais para sequestrar muito CO2. As “sábias” árvores do Cerrado, no entanto, não podem competir com o crescimento violento do eucalipto da Austrália. Um hectare de Cerrado original pode proporcionar de 10 a 40 toneladas de biomassa, com baixo consumo de água. Compare isso com a floresta tropical na Amazônia: 350 a 550 toneladas por hectare. O eucalipto produz mais de 300 toneladas de biomassa no Cerrado e, portanto, tem grande participação nas causas das secas. É que, na realidade, cerca de 2/3 dessa biomassa é água! Uma árvore madura de eucalipto em uma monocultura absorve entre 700 a 1.000 litros/dia, dependendo da distância entre elas. Um espécime adulto isolado pode absorver até 20 mil litros por dia.

Festa recuperada

O eucalipto fornece celulose para a indústria internacional de papel, e a variedade geneticamente modificada deverá fornecer o etanol da segunda geração. Soja representa ração animal e biodiesel. Cana-de-açúcar para açúcar, para aplicações em síntese biológica e, especialmente, para atender a demanda de etanol do “rei carro”. Tudo muito bem, mas não dá para fazer uma festa. Até mesmo a simples água potável ameaça faltar na festa. A pobreza impera…
Aos poucos começa a crescer a consciência de que a riqueza dessa região única pode servir uma mesa festiva. Durante séculos, a população se alimentou dos nutritivos pequi, buriti, araticum, mangaba, cagaita, cajuzinho, bacuri etc. O desafio agora é construir uma economia que não está baseada na invasão das monoculturas, mas no policultivo original. Uma economia que beneficia a todos: os diversos ecossistemas, os povos, os animais, as plantas, os recursos hídricos, o clima global, a agricultura com suas estações previsíveis, a população urbana, os camponeses, os povos indígenas, a balança comercial. Lentamente, a conscientização está crescendo. Por isso, as CEBs (comunidades eclesiais de base) colocaram os cursos de verão sobre leitura da bíblia e teologia popular de 2010 e 2011 sob o signo do castigado Cerrado (2).

Salve o Urubu!

Quando a crise chega, surgem iniciativas para sensibilizar a população – muitas vezes ainda marginais. Às vezes, literalmente “marginais”: em torno de um córrego, porque não só a máfia da soja arrasa o campo, mas também a máfia imobiliária toma as áreas no entorno das cidades. Assim, na capital Brasília, existe o movimento “Salve o Urubu!” (3). Essa ave que se alimenta de carniça não é exatamente o símbolo da biodiversidade. Ele é mais um “limpador” de resíduos e carcaças de animais, mas o nome do córrego nos arredores de Brasília é, de fato, “Córrego do Urubu”. A população quer desenvolver uma educação ambiental permanente, começando consigo mesmo, com a recuperação da vegetação ao redor desse córrego e para manter a água limpa. Há belos exemplos de recuperação com um sistema agroflorestal e hortas em formato de mandala. A “Oca do Sol” é um ponto de encontro no meio do projeto. “Oca” representa o lar original dos índios e sua sabedoria inspiradora. “Oca do Sol” faz parte de uma ecovila (4) e deseja conectar espiritualidade com um estilo de vida ecológico. O foco está fortemente voltado para a importância da água e a nossa pegada ecológica em relação a ela (5). Enquanto isso, na mesma Brasília, a campanha “Exterminadores do Futuro” parece segurar um espelho em frente aos políticos e seus eleitores: qual é o tamanho da pegada ecológica, a prática de destruição do político que está agora em campanha pelos votos do povo? Em combinação com a recém-aprovada “Lei da Ficha Limpa”, isso poderia conter alguns políticos em seu desejo de expansão.

Será que todos nós ainda vamos vivenciar (e participar d)a reversão? Ou será que, dentro de 20 anos, o “urubu” somente será o símbolo de montanhas imensas de lixo ao lado rios secos?

Brasília, Dia Mundial do Meio Ambiente,
5 de junho de 2010.

(1)    Um trabalho interessante de Carlos Eduardo Mazzetto Silva fala sobre essa disputa: “O Cerrado em disputa. Apropriação global e resistências locais”. Brasília: Confea. 2009. Da série “Pensar o Brasil”,
(2)    “Cerrado, da resistência brota a vida”. Curso de Verão, Goiânia, janeiro de 2010. 108 p.
(3)    <http://www.salve-o-urubu.blogspot.com>; <http://br.groups.yahoo.com/group/salveurubu>.
(4)    <http://pt.wikipedia.org/wiki/Ecovila>; <http://www.ecovilacunha.org>;  <http://www.ecovilleproject.com>.
(5)    <http://www.waterfootprint.org>; <http://www.watervoetafdruk.org>; <http://www.foodandwaterwatch.org>; <http://www.waterefficiency.net/blogs/we-editors-blog/whats-your-waterprint-64377.aspx>.
 

Festa
 
Quando me chamaram festa,
Era alegria.
Quando me chamaram dor,
Era agonia.
Quando me chamaram gira,
Era pomba.
Quando me chamaram fica,
Era saudade.
Quando me chamaram alegria,
Era gira.
Quando me chamaram festa,
Era agonia.
Quando me chamaram pomba …
Voei

Autor: Cleverson de Oliveira
 
22. Neoquímica, compromisso com a vida

Eu vejo um ônibus passando com um anúncio promissor: “Neoquímica, compromisso com a vida”. O que mais você poderia querer: a nova química do amor, da vida?
Mais adiante, uma propaganda da Bosch: “Inovação Bosch. Compromisso com a sustentabilidade. 14 patentes por dia para um mundo melhor.”
O ônibus e as patentes me levam, involuntariamente, a alguns folhetos sobre “nanotecnologia” e “biologia sintética”. É o início de uma série de seis livros sobre novas tecnologias, suas oportunidades, mas principalmente seus perigos. E sobre a completa falta de debate democrático sobre essas novas tecnologias. Entretanto, como pode haver debate, se quase ninguém ouviu falar dessas tecnologias? Sem falar que os debatedores – como, por exemplo, os políticos – não têm um conhecimento aprofundado sobre elas.

Desde meados da década de 1990 aumentou a resistência aos organismos geneticamente modificados (OGM) (1). Felizmente, até hoje ela continua a agitar as mentes. Não passa um dia sem que cheguem e-mails a Wervel, vindos de todos os continentes, com informações sobre os OGM ou manifestações relacionadas a esse tema. Já viu algo semelhante acontecer com a biologia sintética? Não; no máximo, algumas vezes por ano em relação à nanotecnologia. No entanto, as primeiras invenções nanotecnológicas são da década de 1970. E a criação de novos tipos de vida com a biologia sintética vai muito além das fantasias de manipulação genética de organismos. Está na hora de algumas informações.

Nanotecnologia (2)

Antes de tudo, é bastante significativo que esses folhetos sejam editados no Brasil e não tenham surgido imediatamente na “iluminada” Europa. Um paralelo com os OGM é, seguramente, que a indústria está particularmente otimista sobre essas novas tecnologias. Elas solucionarão realmente os inúmeros problemas ambientais e a fome mundial. O mesmo que ouvimos há alguns anos sobre a engenharia genética…

É impossível transmitir a informação chocante de um livro de 41 páginas em poucas linhas. Portanto, daremos apenas uma breve descrição, algumas questões não resolvidas e tópicos relativos a aplicações agrícolas.
A nanotecnologia é diferente da engenharia genética. É uma ferramenta, uma unidade de medida. Um nanômetro é um bilionésimo de um metro ou um milionésimo de milímetro. A nanotecnologia manipula átomos e moléculas para realizar processos, para fazer as coisas e construir seres vivos. Ela atua no rearranjo da matéria na escala de átomos, que são as formas estruturais mais elementares de qualquer objeto e qualquer ser vivo.
As matérias-primas utilizadas em nanotecnologia são os elementos químicos da tabela periódica – os blocos básicos para a construção de tudo o que existe, tanto dos seres vivos quanto dos inanimados.

Muitas perguntas, poucas respostas…

Qual é o destino final dos nanomateriais? E de seus resíduos? Como esses materiais se espalham no ambiente? Eles sofrem alguma transformação no ambiente? Há populações que são mais sensíveis a eles? Qual parcela da humanidade está exposta a nanomateriais industrializados e em que grau? Onde pode haver problemas em potencial – na natureza da partícula, nos produtos fabricados ou nos processos de produção? Que materiais são usados? Que resíduos são produzidos? O que acontece quando as nanopartículas entram em contato com o ar, a água ou o solo? Qual é a estabilidade de nanoestruturas? Elas se dissolvem ou se aglomeram? Elas são solúveis em água? São biodegradáveis? Quais são os subprodutos da decomposição?

Nanotecnologia, agricultura e alimentos

A nanotecnologia tem milhares de aplicações industriais. Por isso, os escritórios de patentes nos Estados Unidos, na União Europeia e no Japão – que são responsáveis pela maioria das patentes no mundo – já concederam cerca de 12 mil patentes entre 1976 e 2006.
A nanotecnologia também tem aplicações na agricultura e no setor de alimentos. O verdadeiro poder da nanociência é a convergência de novas tecnologias. Nos EUA, fala-se de NBIC: “Nanotecnologia, Biotecnologia, Tecnologia da Informação e Ciência Cognitiva”. A concentração de poder que ocorreu rapidamente nas indústrias química, de sementes e dos OGM se expande ainda mais, para outras áreas. Os questionamentos éticos vão muito além da toxicidade dos processos e produtos da nanotecnologia. A concentração de poder no setor de petróleo, na agroindústria, nos setores tecnológicos de todo tipo é difícil de compreender. Eles prometem uma agricultura muito mais produtiva, mudanças radicais na qualidade dos alimentos, geração de riqueza e desenvolvimento sustentável. Mas será que, numa sociedade desigual, cada nova tecnologia não aumenta a distância entre ricos e pobres? Basf, Bayer, Monsanto, Pfizer, Syngenta determinam “o quê”, “como” e “por quem” algo será produzido em um mundo onde um bilhão de pessoa passa fome. Sua nanotecnologia já introduziu uma variedade de pesticidas e fertilizantes químicos – que são mais potentes, mas também mais tóxicos. Na outra ponta da cadeia, Nestlé, Kraft, Unilever e outras realizam pesquisas em nanotecnologia. Enquanto isso, muitos nanoingredientes são inseridos nos alimentos, ao passo que não há nem nunca houve um debate ou uma regulamentação sobre isso. Você já encontrou algum produto alimentício informando que ele envolve nanotecnologia?

Biologia sintética (3)

A biologia sintética é uma técnica que pode construir artificialmente um código genético (DNA). Com o DNA sintético é possível criar um vírus ou introduzir elementos artificiais em seres vivos, enquanto eles são programados para desempenhar novas tarefas, diferente das naturais. O objetivo é fabricar os organismos vivos completos, totalmente artificiais e que se multiplicam, para que possam realizar funções úteis para a indústria.

“… se alguma vez já se pensou em uma ciência que garantiria alarme e indignação por parte do público, é essa. Se a comparamos com a biotecnologia e a engenharia genética convencionais, os riscos que a biologia sintética acarreta são muito mais aterrorizantes.”
               Philip Ball, editor-consultor da revista científica Nature

Com um laptop na mão, conhecendo as sequências genéticas que são vendidas ao público e obtendo as sequências de DNA sintéticas desejadas   que podem ser encomendadas pela internet e são entregues pelo correio  , qualquer pessoa pode construir genes e até genomas completos a partir do zero. É claro que as grandes empresas apostam na bioindústria sintética. Eles estão se preparando para a era pós-petróleo, em uma luta global por terras e biomassa. Os “poderosos chefões” que investem pesadamente em biologia sintética e fazem alianças com empresas emergentes são: Shell, BP, Marathon Oil, Chevron, ADM, Cargill, Bunge, Louis Dreyfuss, Monsanto, Syngenta, Dupont, Dow, Basf, Merck, Pfizer, Bristol Myers Squibb, General Motors, Procter&Gamble, Marubeni etc.

“Com os avanços na biotecnologia, qualquer substância química fabricada a partir do carbono contido no petróleo poderá ser produzida a partir do carbono encontrado nas plantas.”
                Diretor de produtos bioindustriais da Cargill

As novas indústrias nessa competição, buscando desenvolver microorganismos para as indústrias química, farmacêutica e, especialmente, de “bio”combustíveis são: Amyris, Athenix, Codexis, Coskata, Genencor, Genomatica, Gevo, LS9, Masoma, Metabolix, Novozymes, Solazyme, Synthetic Genomics, Verenium.
A cana-de-açúcar desempenha um papel central na produção de biomassa para novos combustíveis, plásticos e outras aplicações. Será coincidência que o setor de beterraba açucareira, na União Europeia (UE), foi reestruturado às custas de muito dinheiro, que usinas de açúcar foram fechadas com recursos da UE e que, nos últimos anos, o capital acumulado foi investido nas usinas de açúcar do Brasil e da Austrália? (4)

“A mesma ciência que pode curar algumas de nossas piores doenças também pode ser usada para criar as armas mais terríveis do mundo.”
               The Darker Bioweapon [A arma biológica mais terrível], Future, 2003

As aplicações da biologia sintética que surgem rapidamente para produzir biocombustíveis, produtos químicos, produtos agrícolas, suplementos alimentares, medicamentos, armas e muitos mais representam grandes desafios para a sociedade e para os órgãos reguladores. Até hoje quase não havia discussão sobre o que significava essa tecnologia. As possíveis implicações (desconhecidas, em sua grande maioria) para o meio ambiente, biodiversidade, economia e segurança militar e civil não podem ser previstas e podem ser extremamente graves. Diante da ausência de qualquer controle social, a biologia sintética ultrapassa os limites éticos de uma forma sem precedentes. Isso afeta a todos, enquanto beneficia um pequeno número de empresas.

Salvador da Bahia, 12 de junho de 2010.

(1) Um livro que causou muita polêmica e se contrapõem ao “espetáculo de boas notícias” da agroindústria e do governo é: “Genetic roulette: the documented health risks of genetically engineered foods”, de Jeffrey M. Smith (EUA, Yes! Books, 2008. Jeffrey M. Smith é o mesmo autor do alucinante best-seller “Seeds of Deception” [Sementes da Enganação]; <http://www.responsibletechnology.org>); a edição brasileira, com introdução detalhada sobre a situação no Brasil, chama-se: “Roleta Genética. Riscos documentados dos alimentos transgênicos sobre a saúde” (direitos da tradução: <http://www.eticadaterra.com>, Ed. João de Barro, São Paulo, 2009).
(2) “Nanotecnologia. A manipulação do invisível”; <http://centroecologico.org.br/novastecnologias/novastecnologias_1.pdf>; <http://www.etcgroup.org/es/node/709>; versão impressa: <centro.serra@centroecologico.org.br>. Veja também uma série de artigos no “De Wervelkrant” de 2005 e em: <http://www.nano.eenveilignest.nl>; <http://www.nanopodium.nl>.
(3) “Biologia sintética. Fabricando novas formas de vida.”; <http://centroecologico.org.br>; <http://www.etcgroup.org/upload/publication/603/03/synbiospanish_lite.pdf>.
(4) Veja: “A Santa Fé de Bunge”, em “Brasil-Europa em fragmentos?” (Ed. Gráfica Popular/Cefúria, 2010).
 
23. Deserto rural, aridez urbana

Meus ouvidos infantis sempre ficam atentos quando captam expressões típicas brasileiras: “limpar a roça” (ou seja, remover as árvores, reduzir a biodiversidade), “limpar o ônibus” (no sentido de assaltar um ônibus e roubar o dinheiro dos passageiros)…
“Matar a sede”, “matar a fome”, “matar a saudade”, “matar o tempo” etc. “Guerra” também é uma palavra utilizada com frequência.

Limpar o ônibus

Enquanto meu ônibus da Salvador da Bahia para Itaberaba sofre uma pane, outro ônibus em Itinga é “limpo”. Ladrões jovens obrigam seus passageiros a entregar o dinheiro e seus objetos de valor. O motorista é obrigado a entregar seu celular. Ele diz que, primeiro, quer remover seu chip com dados. O homem foi baleado no local. Limpo.
Como em muitas cidades brasileiras, em Itinga vivem dezenas de milhares de pessoas que fugiram do deserto rural, em bairros que lembram favelas. Com grandes expectativas de uma vida melhor em uma cidade eles acabam, frequentemente, no deserto urbano. É claro que “limpar” um ônibus desse jeito provoca uma sensação desagradável de insegurança. É evidente que um assassinato assim é terrível, mas a partir de qual desespero (coletivo ou não) e a partir de quais agressões sofridas esses jovens cometem tais atos desumanos?

Quanto mais nos afastamos de Salvador, mais desértica se torna a paisagem. Várias formas de Caatinga (1) se alternam. Em Itaberaba, conversamos com um dos “pais” da invasão e monocultura do abacaxi, baseada em muito veneno. Ele está orgulhoso de que nessa região do semiárido (2) foi possível construir uma economia “sustentável” com uma variedade adaptada de abacaxi. Sim, a palavra “sustentável” é utilizada mais uma vez, enquanto a região está evoluindo cada vez mais para um verdadeiro deserto devido à monocultura destruidora. Enquanto aqui quem manda é o abacaxi, mais adiante na Bahia quem reina é a soja.
Desertos de soja. Desertos de abacaxi. Desertos de cana. Desertos de algodão. Desertos de eucalipto. Depois de algum tempo, simplesmente desertos.

Futebol e identidade

Às 15 horas, o movimento em Itaberaba se aquieta. Silêncio mortal. Não, não é Sexta-feira Santa. Jesus não morreu na cruz. Às 15 horas começa o jogo entre Brasil e Coreia do Norte. Durante semanas, a Copa do Mundo de Futebol, na África do Sul, provoca rompantes de nacionalismo. Em todo o mundo. Bert Wagendorp, colunista do jornal holandês Volkskrant, escreve: “O ‘sentimento laranja’ nos devolve um pouco a ilusão de sermos um povo, com um sonho comum. Um sentimento que une e irmana as pessoas. É uma forma simpática de nacionalismo, na ausência de guerra e outros símbolos fortes de unidade nacional. O sociólogo do esporte inglês Richard Giulianotti chama o futebol de ‘uma das grandes instituições culturais que moldam e mantêm unida a identidade nacional’, e cada Copa do Mundo demonstra como isso é verdade, não só para nós. […] A cada exibição da Torcida Laranja mostramos ao resto do mundo quem somos e o que somos. É um pedido de reconhecimento e alguma forma de autoafirmação: nós ainda estamos no jogo. A Loucura Laranja também mostra as nossas dúvidas, nosso complexo de inferioridade e como estamos confusos sobre a nossa identidade. Usar a bola como farol… – não me parece muito seguro.”
Como devo traduzir isso para o Brasil? Eu não sei… O que eu sei é que, a cada gol, Itaberaba trepida com os fogos de artifício. As ruas estão desertas durante o jogo, mas se enchem após a vitória. Praticamente todos usam uma camiseta, com as cores da seleção nacional e o número do jogador de futebol favorito. As ruas estão cheias de papel picado, com as cores nacionais. Nessas semanas, ocorre uma fusão surpreendente de “festa junina” com a Copa do Mundo. Não se vê tal fusão nos Países Baixos secularizados. Ou será que o futebol, com seus rituais e símbolos, também é uma forma de religião?

Eles não encontram mais frutas

No meio dos abacaxis, eu me lembro de uma conversa com três jovens freiras. Elas acabaram de chegar de Pernambuco em Itinga. Sua opção é simplesmente morar entre as pessoas pobres e se submeter ao calor do deserto. A presença contemplativa e trabalhadora, provocando talvez o efeito de florescimento em algumas plantas do deserto… Uma das religiosas veio do estado do Piauí e cresceu em uma família envolvida na luta pela terra. Uma família do MST. Outra veio do estado do Maranhão. Ela conta sobre a invasão bruta vinda “do Sul”, dos “gaúchos”: “As pessoas estão começando a se lamentar. Elas não encontram mais frutas. O nível do lençol freático está caindo. O calor aumenta. Eles são mais picadas por cobras do que antes. É como se o deserto estivesse avançando.”

Atualmente, estão sendo construídas centenas de moradias em Itinga – como parte do programa “Minha Casa, Minha Vida”. Interessante e bom – entretanto, como em outros lugares no Brasil, são os desertos de concreto. As famílias se amontoam como galinhas num galinheiro. Não se pensou em árvores ou áreas verdes. Será que as “ecovilas” somente se destinam à classe média e à elite? Em 2014, a Copa do Mundo será no Brasil. Salvador vai brilhar. Os pobres, amontoados em Itinga. Salvador limpa.
Quantos ônibus ainda deverão ser “limpos” para que algo fundamental seja feito contra o avanço do deserto urbano?

Itinga, Bahia, 17 de junho, Dia Internacional do Deserto e Dia Mundial do Combate à Seca e à Desertificação.

(1) O Cerrado (a savana brasileira) e a Caatinga (no Nordeste) ocupam, juntos, cerca de 30% do território brasileiro. Ambos os ecossistemas não são reconhecidos como “Patrimônio Nacional”. Portanto, não são protegidos. A data de “11 de setembro” é o dia nacional de mobilização para a proteção legal do Cerrado.
(2) A Articulação no Semiárido Brasileiro (ASA) trabalha pelo futuro do semiárido: <http://www.asabrasil.org.br>.
 
24. Chineses vêm, brasileiros vão

Tem-se observado, já há algum tempo, que a China está levando embora matérias-primas da África e está fazendo grandes investimentos por lá. Menos conhecido é que, desde 2010, essa mesma China é o principal investidor no Brasil. Além disso, há mais de cinco anos, o fluxo de soja é maior para a China do que para a Europa. Navios com minério de ferro estão navegando, em sua maioria, para a China. O ferro volta na forma de vários produtos industriais. As empresas chinesas estão tentando comprar terras e, agora, investem em várias atividades industriais. Entre 1990 e 2009, a China era praticamente invisível no Brasil, com investimentos de apenas 255 milhões de dólares ao longo de um período de 19 anos. Porém, em 2010, a China fez investimentos de 12 bilhões de dólares no Brasil. Não é um fato isolado, e sim uma tendência para os próximos anos.
Ao mesmo tempo, fazendeiros brasileiros estão cruzando as águas, em direção à África. Chamada pela FAO, francamente, de “o novo Cerrado”, onde apenas 10% são ocupados pela agricultura. Todos os olhos estão voltados para a Savana africana, pois o Cerrado brasileiro está chamando atenção. Os “ambientalistas” querem vê-lo protegido. Ainda em 2000, Blairo Maggi já desabafava: “Se o movimento ambiental criar dificuldades, eu e minha soja partimos para a África.”
Agora, dez anos mais tarde, parece que isso se tornou verdade!

Algodão, soja, milho

Atraídos pelo baixo custo de produção, pelo baixo preço das terras, pela proximidade dos mercados europeu e asiático e, também, do Oriente Médio, recentemente o agronegócio brasileiro começou a cruzar o oceano para cultivar algodão, soja, milho e outros produtos. O grupo Pinesso, do Mato Grosso, está começando com uma fazenda de algodão e soja no Sudão. A perspectiva é cultivar 100 mil hectares dentro de quatro anos. A Aprosoja (Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso) também está em negociações com o governo sudanês. Os governos da Etiópia e da Mauritânia negociam o plantio de milho com empresários brasileiros. As empresas brasileiras já estão em nove países africanos. Em cerca de seis países estão cultivando cana e arroz a todo vapor. Outros investem em tecnologia agrícola. A empresa Irriger está implantando sistemas de irrigação no Sudão desde 2008. O grupo Odebrecht já tem uma unidade de processamento de milho e prevê um projeto para produzir 400 mil toneladas de açúcar por safra. O grupo Biocom (Companhia de Bioenergia de Angola) foi fundado por Odebrecht (com 40% de participação), Damer (40%) – com um grupo de investidores angolanos – e Sonangol (20%). O grupo Build Brasil quer montar uma fazenda para engorda de gado.

Vamos ocupar a África

“A África possui terra fértil, mas falta a ela tecnologia – e isso os brasileiros têm sobrando”, diz Gilson Pinesso. Graças à fertilidade do solo e por causa de menos problemas com pragas, Pinesso espera precisar investir apenas 850 dólares por hectare, enquanto precisa de 1.850 dólares no Brasil.
“Eles não são bobos”, analisa José Rezende, um funcionário da PricewaterhouseCoopers. “Da mesma forma como deixaram o Sul do Brasil, onde a terra é cara, e foram para o Centro-Oeste do Brasil, agora eles veem oportunidades na África.” O presidente da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira, Michel Alaby, diz que investir em países africanos pode ser atraente pela proximidade de grandes mercados consumidores, como Egito e Arábia Saudita. De acordo com ele, esses países importam 70 bilhões de dólares em alimentos todos os anos.
Combine isso com o fato de que o consumo médio mundial de carne de frango passou de 2 kg/pessoa/ano, em 1970, para 10,5 kg/pessoa/ano, em 2009. A FAO e a OCDE preveem que o consumo de carne de frango vai continuar aumentando, anualmente, em 2,8% – mais do que qualquer outro tipo de carne.
E quem fala em “frango” atrai soja e milho. E quem fala de “soja e milho” pensa nos brasileiros. Daqui em diante, quem falar “brasileiros” deve também incluir a África.

José Rezende, da PricewaterhouseCoopers: “Dentro de 20 anos, a África será o ‘bolo’ do agronegócio global.”
Chineses e brasileiros se acotovelam para ficar na primeira fila.

Londres, 18 de junho de 2010.
 
25. Competitividade e outras palavras vazias.

A caminho de Brasília (via Lisboa) me deparo com o recém-surgido debate sobre a Europa. O governo brasileiro acredita – assim como os Estados Unidos, desde o século XIX – que possui a “vocação para alimentar o mundo” no século XXI. A agroindústria brasileira quer conquistar o mundo com seus frangos, sua carne de gado, sua soja, sua cana-de-açúcar, seu etanol. Ser competitivo, estar entre os países “desenvolvidos” (1). No início de 2011, enquanto todos ainda trocavam votos de “Feliz Ano Novo”, foi publicado um estudo que revelou que o povo brasileiro é o mais confiante no crescimento (econômico). Otimismo generalizado. Os belgas e os franceses estão entre os povos mais pessimistas acerca do futuro próximo.

Brasília.
Outd¬oor de boas-vindas na saída do aeroporto:

“Sr.(a) Parlamentar, bem-vindo a Brasília.
Que o seu compromisso com a competitividade brasileira seja lei.”
CNI (Confederação Nacional da Indústria)

Ou: competitividade como Guerra Mundial econômica permanente? Os lobistas em Bruxelas, Washington-DC e Brasília cuidarão de pôr lenha nessa fogueira.

Ainda assim, há anos “competitividade” tem sido um mantra na União Europeia. Tornou-se um critério para todas as coisas, embora sempre falte uma definição para essa palavra mágica. Mesmo assim, essa palavra atraente passou a ser utilizada aqui, particularmente a partir de Estratégia de Lisboa (em 2000): para tornar a União Europeia “a economia mais competitiva do mundo”.

Impulsionar as exportações – exportação “monstro”?

O governo flamengo não quer fazer feio. Vamos tratar só da alimentação e da agricultura. Na declaração política do ministro-presidente e ministro da Agricultura, em 2009, Peeters diz: “Dentro da Europa, Flandres é uma das regiões de excelência na área da agricultura. Graças aos nossos requisitos de qualidade e nossos diversos sistemas de qualidade, frequentemente além do exigido pela legislação, nossos produtos estão entre os melhores da Europa. Depois da Holanda, a agricultura e horticultura flamenga possuem o mais alto valor agregado líquido por hectare. Mas Flandres também se sai muito bem em termos de comércio internacional de produtos agrícolas. O superavit comercial agrícola, de mais de 3,5 bilhões de euros, é o quarto maior da UE. E, globalmente, a Bélgica é o sexto maior exportador de produtos agrícolas. Flandres é claramente uma região de excelência para a agricultura e eu me empenharei integralmente para manter esta posição e melhorar o que for possível.”
Em sua carta política no final de 2010, ele afirma:
“As prioridades da indústria de alimentos para 2020 estão centradas em torno da preservação e do fortalecimento da competitividade (internacional) do setor de alimentos. Foram estabelecidas as seguintes prioridades:
– uma indústria de alimentos competitiva;
– maximizar o crescimento da indústria de alimentos (“impulsionar a exportação”).”
Estes são os primeiros dois objetivos de uma longa lista.

Será que estamos impulsionando as exportações ou criando um “monstro” exportador e fora de controle? E vamos convenientemente esquecer que este assim chamado “desempenho na exportação” somente é possível às custas de gigantescas quantidades/desperdício de combustíveis fósseis e de importações de matérias-primas para ração animal de muito longe, além-mar?

Não tem escolha?!

O debate dos últimos dias é sobre os planos da chefe de governo alemã Merkel e da Comissão Europeia para a Europa. De acordo com os críticos, eles são um prenúncio do final do nosso sistema social. É interessante que, finalmente, com relutância, surge uma discussão sobre qual é a política que a Europa precisa. Quais medidas devem ser tomadas para salvar o futuro da zona do euro?
Mas o debate é real? Políticos como Dirk Sterckx (Open VLD ) e Jean-Luc Dehaene (CD&V ) aparecem calmamente na TV, para “esclarecer” que, na verdade, não se trata de uma escolha. As reformas (aumento na idade de aposentadoria, alterações no mecanismo de indexação, moderação salarial etc.) que foram propostas são “inevitáveis”. Elas são necessárias, sim… para salvaguardar a nossa competitividade. Se não tivermos coragem de encarar isso de frente, então a Europa deve impor. “Quem combate isso, ou apresenta alternativas, ou é um populista.”

Será que isso é realmente necessário? Será que a competitividade deve ser o objetivo final de todas as políticas? Até onde vamos com isso? Posso voltar o foco novamente para a agricultura? Em 2009, a Vodo (Articulação Flamenga para o Desenvolvimento Sustentável) me pediu um esboço de resposta à declaração política de Peeters. Dizia: “Vodo acha justo destacar eficiência e competitividade, mas até onde se deve ir? Vodo teme que, com relação a isso, se conte demais com superagricultores. Essa competitividade está baseada na escala de quem? Às vezes, temos a impressão de que o futuro está reservado exclusivamente para os superagricultores. No plano político são utilizados termos como ‘crescimento verde’ que, no longo prazo, não levam em conta os limites absolutos (ecológicos e sociais) que o planeta finito nos impõe. Há, no mínimo, uma tensão entre competitividade e sustentabilidade. Ao mencionar competitividade geralmente se pensa imediatamente no preço de um produto. O principal na competitividade não é o preço, mas a relação entre o preço e a qualidade do produto, na qual a qualidade do produto é determinada pelo modo de produção, incluindo seus custos sociais e ambientais.”

“No Parlamento Europeu, se você não emprega a palavra competitividade a cada 30 segundos, você está ‘fora do jogo’.”
Parlamentar europeu e ativista francês José Bové, durante um debate sobre soberania alimentar e política agrária após 2013 (Bruxelas, 3 de maio de 2011).

A poluição do Greenwashing

Existem algumas palavras que poluem a nossa linguagem. “Competitividade” é a locomotiva. Os vagões são: “aumento da produtividade agrícola”, “eficiência”, “vocação exportadora”, “ABC” (Complexo do Agronegócio), “produção de qualidade sustentável no Hemisfério Norte” (sem mencionar que, muitas vezes, essa produção está baseada em saques em outros lugares), “inovação”, “legal”, “defensivos agrícolas” (em vez de pesticidas ou, simplesmente, veneno).
Parte dessa poluição da linguagem está no “discurso verde” das indústrias de ração animal e outras. Portanto, não podem faltar na lista de poluentes conceitos pouco claros como “sustentável” e “socialmente responsável”. E o que dizer do roubo daquilo que nos é tão precioso? Por exemplo, ao partir do aeroporto de Zaventem, um grande anúncio de boas-vindas da Syngenta zombava de mim dizendo: “Biodiversidade”. Syngenta, a gigante da indústria química, empenha-se dia e noite pela biodiversidade do nosso planeta. Pode haver descaramento maior? Sim, a Monsanto é campeã nessa estratégia “suja” da reformulação do discurso. No aeroporto de Curitiba, a empresa roubou a imaginação de muitos com sua campanha “Imagine” – não por acaso, alguns dias depois dessa gigante dos produtos químicos e das sementes ter forçado o governo brasileiro a, diante da situação de fato, “legalizar” as lavouras clandestinas de soja transgênica. Imagine: Monsanto é uma bênção para a humanidade, pois essa multinacional vai proteger o ambiente e acabar com a fome no mundo. Ocupando as lavouras com organismos geneticamente modificados (OGM) e apresentando a conta amarga dos royalties aos agricultores! Os lobistas em Brasília, Bruxelas e Washington-DC se encarregam da onipresença dessa mentira.

Apoio à renda para a competitividade

Os lobistas de Bruxelas se encarregam que o Conselho de Ministros da UE mantenha o apoio à renda após 2013 “em prol da competitividade”. Após o colapso dos preços provocado pelo conselheiro da CE para Agricultura McSharry, em 1992, os agricultores são parcialmente compensados pelo infame apoio à renda. Para muitos, esse apoio representa agora uma parte importante dos seus rendimentos. Para sobreviver. A vergonha é que três quartos do apoio europeu à renda são recebidos por menos de um quarto dos agricultores. Ou seja, pelos grandes, por agricultores e por indústrias de alimentos, que prosperam na ideia fixa da vocação exportadora da Europa. Porém, o Tribunal Europeu já denunciou com frequência a ineficiência dessas práticas irregulares com o dinheiro de nossos impostos. A atual Comissão Europeia queria finalmente corrigir essa injustiça e incoerência, porque – de fato – como é que “competitividade” e “apoio à renda” podem caminhar juntos?
Mas os lobistas ganharam a parada. É que, em número – estimado – de 15 a 25 mil indivíduos, eles ocupam grande parte dos muitos escritórios em Bruxelas, capital da União Europeia. O número exato é difícil de determinar, porque muitos deles atuam muito sutilmente, praticamente invisíveis.

Fair Trade [Comércio Justo] Local

A competitividade e seus vagões se contrapõem frontalmente à perspectiva esperançosa de “soberania alimentar” e do “Comércio Justo Local”. O movimento mundial Via Campesina é a mãe do novo conceito de soberania alimentar. Após a reunião global “Nyeleni 2007”, em Mali, nós vamos nos reunir com cerca de 400 pessoas dos movimentos de base na Áustria. Para a “Nyeleni-Europa” (http://www.nyelenieurope.net). Wervel deseja assumir a liderança em Flandres para, finalmente, traduzir o Comércio Justo em termos de Norte-Norte. Queremos assegurar que não se tornará uma versão insossa dos critérios válidos para o Comércio Justo entre os hemisférios Sul e Norte.

Nessa busca, o Brasil não é apenas uma referência de competitividade agressiva, mas também de um movimento nacional pela “economia solidária”. Uma base, por assim dizer, para o comércio justo local, do qual a soberania alimentar é uma parte essencial.

Aeroporto de Lisboa, 15 de março de 2011.

(1)    Um livro que teve muita influência nessa busca por competitividade é: “Cadeias Produtivas no Brasil. Análise da Competitividade” (Embrapa Comunicação para Transferência de Tecnologia/Fundação Getúlio Vargas/Ministério da Agricultura e do Abastecimento, Brasília-DF, 2001).
 

Favela

Caminho entre mansões …
Sonhando com as velhas
Madeiras de casas vizinhas …

Eram tão juntas que
Se ouvia a fome …
Eram tão perto que
Se sentia o gemido.
Eram tão feias
Que fugiam os belos.

Eram tão juntas
Que formavam meu castelo …

Autor: Cleverson de Oliveira

 
26. Abadia de transição

Brasília, no Distrito Federal, não é grande para os padrões brasileiros. Estou aqui há alguns dias como visitante, para participar de programas de TV (1), contatos com autoridades federais e outras instâncias, bem como para farejar o que está acontecendo dentro e ao redor da capital. No momento, está em curso a “Campanha da Fraternidade”, com o tema “Mudanças Climáticas”. Isso resulta numa participação no “Fórum de mudanças climáticas e justiça social”, um fórum nacional de vários tipos de movimentos no seio da Igreja Católica. Graças a esse tema, eu também sou convidado pela primeira vez pela Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB). É uma tarde interessante, com 80 religiosos. Gradualmente, a consciência ecológica começa a crescer, também dentro da igreja (2).

“A natureza é o único livro que oferece um conteúdo valioso em todas as suas folhas.”
J. W. Goethe

Hoje é dia de festa: 25 anos de “Geranium” (3), uma pioneira na agroecologia e um centro de formação no qual se trata, entre outros, de reciclagem criativa. Entramos na área de recepção central para grupos. O portão giratório lembra a entrada de uma abadia. Que coincidência! A força motriz por trás desse projeto abrangente se chama Abadia. Com seu marido Marcelo, Abadia anima a produção orgânica, o sistema agroflorestal, a recepção de grupos, a escola.

Sistema de terraços

Além de apresentações de dança e música, eles nos levam para ver uma “trilha ecológica”. É impressionante ver como eles conseguiram fazer reviver uma área quase desértica. Devido à construção de uma rodovia e uma ponte nas proximidades, o solo se tornou quase inutilizável. Seguindo o exemplo da agricultura dos incas e de outros sistemas milenares já comprovados no mundo, eles construíram um sistema de terraço – utilizando pneus – no solo estéril. É uma descoberta, que tanto dá uma segunda vida aos pneus quanto torna possível a permacultura em terras marginais.

Formigueiro de recuperação

Reciclagem vai longe. Ao longo da trilha ecológica nos deparamos com uma escola: totalmente reciclada e reconstruída para a realização de cursos sobre agricultura ecológica, reciclagem e diversas tecnologias sustentáveis. No terreno também encontramos, ao lado do fértil sistema agroflorestal, policultivo de hortaliças, alguns banheiros com sistema de compostagem, sistemas de purificação de água feitos com plantas, um hotel de minhocas, uma cozinha rural e um centro de atividades. É um exemplo inspirador de esperança, de como muitas iniciativas – como as ecovilas que estão surgindo – tentam salvar partes do Cerrado. Eles tentam restaurar lugares nos quais o Cerrado rico em diversidade foi destruído. Como formigas…

Será que devo usar a palavra da moda “transição”, ou não seria melhor uma “transformação”? Uma abadia e uma natureza maltratada em transformação. A abadia como natureza. Natureza como abadia, na qual o homem conhece seu lugar, em equilíbrio com os seres que não são humanos e com ecossistemas. Uma transformação na qual está integrada a tão necessária espiritualidade. No século IV, Santo Agostinho já dizia que há dois livros de revelações: a natureza e a Bíblia. Vamos (re)começar com a natureza. A Bíblia e, especialmente, suas interpretações não fizeram muita bem a ela ao longo da história…

Dia Mundial da Água, 22 de março de 2011.

(1)    Entre outros, União Planetária com TV Supren: <http://www.tvsupren.com.br> e a TV Comunitária, mais ligadas aos movimentos sociais.
(2)    A comunidade eclesial flamenga inicia, no final de junho de 2011, sua campanha “A terra de férias” (http://www.ecokerk.be).
(3)    Veja: <http://www.sitiogeranium.com.br>; o projeto com Abadia e Marcelo também foi entrevistado recentemente pela TV Supren.
 
27. Goiás de joelhos perante a China

São, novamente, dias agitados em Goiânia: palestras em universidades, na câmara dos vereadores dessa cidade com mais de 1,25 milhões de habitantes, entrevistas para rádio e TV, celebração ecumênica do Cerrado etc. No Centro Cultural CARAVÍDEO, um pouco parecido com Mundo B (1), de Bruxelas, diversos movimentos sociais se reúnem para uma manhã de debates sobre “a destruição e a urgente proteção do Cerrado”. Eu mostro, pela primeira vez no Brasil, o filme de An Baccaert “À Sombra de um Delírio Verde”. Sobre os guaranis e o avanço da “cana-de-açúcar para produção de etanol”. Tenho algum receio das reações, porque o documentário é bastante crítico sobre o milagre econômico chamado Brasil. Mas os participantes estão muito emocionados. Até o promotor público para crimes ambientais no estado de Goiás está emocionado. Ele deseja, realmente, utilizar o filme na formação de 150 outros promotores estaduais.

Tchau Cerrado! Tchau Biodiversidade!

Ainda que, há muitos anos, a minha especialidade tenha sido o drama de soja, desta vez se trata principalmente do drama da cana-de-açúcar. Mas adivinhem? Nos próximos anos, Goiás vai se tornar o paraíso para a enxurrada de soja para a China. Os chineses querem investir sete bilhões de reais até 2018 para produzir soja, principalmente no norte e no nordeste de Goiás. Nessas regiões há pouca atuação das quatro principais casas de comércio Cargill, ADM, Bunge e Dreyfus. Em combinação com os investimentos chineses no porto de Itaqui (Maranhão), eles querem evitar o oligopólio dos “quatro grandes” e transportar soja mais rapidamente e, especialmente, mais barata para a China. Eles querem ver a produção atual de Goiás – de cerca de 7 milhões de toneladas – dobrar até 2018. E querem fazer a exportação de soja do estado para a China aumentar das 1,5 milhões de toneladas atuais para 6 milhões de toneladas. Os 7,8 milhões de toneladas de soja previstas para a safra 2010-2011 (com uma quebra de 10%) exigem atualmente 2,55 milhões de hectares. Essa área vai dobrar, convertendo as áreas historicamente desmatadas para a criação de gado em lavouras de soja por um lado e, por outro, ocupando 100 mil hectares adicionais de Cerrado virgem.
Tchau Cerrado! Tchau biodiversidade! Na verdade, esse é um fenômeno nacional: primeiro “limpar” (desmatar) para o gado. Pode ser que algumas árvores e arbustos permaneçam de pé, reduzindo a oposição nacional e internacional. Em seguida – 10 a 20 anos mais tarde – tudo é “limpo” completamente, para soja, cana-de-açúcar ou eucalipto. O agronegócio tem tempo, ainda que o dinheiro precise circular e render. Não deve demorar demais. É melhor limpar tudo e ocupar a área de modo “socialmente responsável” antes que o resto do Cerrado seja declarado como patrimônio nacional.
Tchau Cerrado! Tchau biodiversidade! Legal! Tudo é feito legalmente!

Um quinto da população mundial, metade da população mundial de porcos

A abordagem dos chineses é bem radical, tanto na África quanto na América Latina. Enquanto a União Europeia importa “apenas” 39 milhões de toneladas de grãos e farelo de soja, dos quais 20 milhões de toneladas do Brasil, os chineses conseguiram – na última década – fazer a importação aumentar de quase nada para 50 milhões de toneladas em 2010. Os brasileiros podem ser o povo mais otimista do mundo, mas, para mim, enquanto ativista belga, isso confirma o pessimismo que há um ano toma conta de mim. Sim, pessimismo, por causa de uma dinâmica histórica que nós todos não podemos impedir: um povo passa a consumir mais produtos de origem animal (carne, laticínios, ovos) quando a economia vai bem. No geral, calcula-se que um aumento de 1% na renda se traduz em um aumento de 0,5% no consumo de carne. Pode ser que o consumo de carne e laticínios na Europa diminua um pouco nos próximos anos, mas na Ásia o consumo está crescendo como nunca. A China é o centro de origem da soja e do tofu produzidos para consumo humano. Na culinária chinesa, a carne nunca terá tanto peso quanto o que os americanos, europeus, argentinos e brasileiros tendem a colocar em seus pratos. Mesmo assim, devido ao fato de que um quinto da população mundial reside neste único país, na China também são destinadas grandes quantidades de soja principalmente para a ração animal. O fato de que, atualmente, metade de todos os porcos do mundo é criada na China tem tudo a ver com isso. Se houver uma mudança no padrão de consumo de 1,4 bilhão de chineses, isso será imediatamente perceptível e visível no avanço das planícies de soja do Brasil, Argentina, Paraguai, Bolívia e Estados Unidos. Especialmente o Brasil se destaca no entusiasmo, porque o país tem – por enquanto! – tudo aquilo que falta na China: terra, água e sol. O novo ministro da agricultura enfatizou recentemente na imprensa: “Deixe que o agronegócio cresça. O Cerrado não tem valor mesmo. É ‘nada’.”

Como é que eu posso ficar menos desanimado e pessimista?
Felizmente, também há brasileiros que continuam alimentando meu lado otimista.
Esperança gera vida. Esperança é a fonte que renova a resistência.
Internacionalmente.

Goiânia, 25 de março de 2011.

(1) Mundo B: <http://www.mundo-b.org>.

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