Legal – parte 1 – Luc Vankrunkelsven

Legal!

Otimismo   realidade – esperança

 

Publicado no ano 2012,
“Ano Internacional do Cooperativismo”.
Um livro em apoio ao intercâmbio internacional e à cooperação a partir das bases.
Para redescobrir o significado original de “cooperação”,
independente das poderosas cooperativas agrícolas que, nas últimas décadas, se converteram em multinacionais agro-químicas.
 

    Sumário    
        
    Apresentação   Celso Ludwig, Fetraf-Sul    
    Introdução    
1.    Superpotência econômica    
2.    De Bunge, passando por Cargill até o Paraguai    
3.    Alimentação escolar    
4.    Para os nativos, sobrou a roupa suja    
    Poema de Cleverson de Oliveira: Memórias    
5.    Mandala    
6.    Agricultura e mar    
7.    Café ou livraria?    
8.    Rondônia, “País de Carne” da Amazônia    
    Poema de Cleverson de Oliveira: Poltrona azul    
9.    CPT, em defesa da vida na Amazônia    
10.    Nós éramos obrigados a desmatar    
11.    Sonegação de impostos     
12.    A estratégia café-gado-soja    
    Poema de Cleverson de Oliveira: Partida    
13.    Economia solidária    
14.    Soja, tornados e mineração    
15.    Universidade dos e com os movimentos sociais    
16.    Frango psicótico. Avicultor deprimido?    
    Poema de Cleverson de Oliveira: Tempo contra tempo    
17.    Será que o Verbo realmente se fez Carne?    
18.    Araras    
19.    Carne para a paz?    
20.    Nossa água? Nossa carne?    
21.    A festa arruinada do Cerrado    
    Poema de Cleverson de Oliveira: Festa    
22.    Neoquímica, compromisso com a vida    
23.    Deserto rural. Aridez urbana.    
24.    Chineses vem. Brasileiros vão.    
25.    Competitividade e outras palavras vazias.    
    Poema de Cleverson de Oliveira: Favela    
26.    Abadia de transição.    
27.    Goiás de joelhos perante a China    
    “Em chão que se planta educação, colhe-se uma terra solidária”
Daniel Paiva    
28.    Carne e pandemia    
29.    Brasil, o grande exportador de água    
30.    Desperdício e fome    
    Poema de Cleverson de Oliveira: Cinzas    
31.    Repovoar o campo?    
32.    FETRAF-Sul e as suas prioridades    
33.    Ecocentro: onde o Cerrado e a Amazônia se encontram.    
34.    Fora da Casinha    
    Poema de Cleverson de Oliveira: Borboleta    
35.    Jornada da luta    
36.    A cidade pode salvar o mundo?     
37.    Nyeleni 2011: Soberania alimentar na Europa, já!    
    Poema de Cleverson de Oliveira: Merci    
    E para finalizar…    
    Colofão    
 
Apresentação

Este livro reúne crônicas sobre o itinerário de viagens ao Brasil, com visitas a universidades, Comissão Pastoral da Terra, movimentos ambientais, escolas e organizações rurais. Um relato sobre as impressões captadas pelo olhar atento de Luc Vankrunkelsven, que, desde o ano 2000, realizou 17 viagens ao país. Foram peregrinações de ônibus, de avião e muitas vezes a pé, em diversas regiões do “continente” que é o Brasil. Em janeiro de 2002 participou do Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, e em colaboração com a Fetraf-Sul ministrou um seminário internacional sobre soja em Chapecó, no mesmo ano. De 2003 até 2007, Luc contribuiu para a formação de lideranças nos três estados do Sul sobre comércio internacional e OMC (Organização Mundial do Comércio), entre outros temas. Neste período, ele realizou várias viagens no itinerário Brasil/Europa. A partir de 2008, os roteiros de debate foram ampliados através de intercâmbios anuais. Das viagens de 2008 e 2009, escreveu o livro: “Brasil-Europa em fragmentos?”; das viagens de 2010 e 2011, este livro: “Legal! Otimismo, realismo, esperança”.
Nele foram relatadas a troca de experiências com gente da terra que busca, com esperança e otimismo, fazer a diferença e cultivar de forma sustentável. São mostrados temas que interessam ao mundo todo, como a preservação da Amazônia e do Cerrado, conflitos de terra, produção animal e vegetal, política, sustentabilidade versus competitividade, segurança alimentar, com o foco central na interdependência entre Brasil e Europa.
O Brasil vive uma realidade particular em seus 500 anos de existência: depois de séculos de imperialismo e escravidão, há poucas décadas foram eleitos os primeiros governantes de forma democrática pelo voto direto universal e, sobretudo, que conseguiram concluir seus mandatos. Em 2002 foi eleito Luiz Inácio Lula da Silva, um operário nordestino, que teve como seu primeiro diploma a nomeação de presidente da república. Ignorando questões políticas e ideológicas, este presidente foi um marco histórico para o país. Lula, por sua visão altruísta e um conhecimento profundo da realidade do trabalhador brasileiro, iniciou a implantação de diversos programas sociais e incentivos de combate à pobreza. Os programas de distribuição de renda deram resultado e, com isso, foi eleita a primeira mulher presidente da história do país: Dilma Rousseff. Atualmente, a economia do Brasil cresce a passos largos, mas há o receio de, no caminho, encontrar os vãos das crises europeia e norte-americana.  
Em meio ao crescimento e ao desenvolvimento, as coisas caminham em desequilíbrio, o interesse político e econômico ainda dita muitas das regras do jogo democrático. No entanto, nas bases da economia, estão as pessoas que vivem de esperança – alguns por “genética cultural”, outros pela criatividade característica do povo brasileiro, que consegue ver soluções mesmo onde elas ainda não existem.
Talvez neste momento o Brasil seja o grande “case” mundial em termos de crescimento e, até mesmo, de incoerência, um modelo que oferece inúmeros aspectos para estudo e uma riquíssima leva de fatores e informações socioambientais e econômicas. Aproximadamente 70% dos alimentos que chegam à mesa dos mais de 190 milhões de brasileiros são produzidos pela agricultura familiar. Apesar da grande representatividade social e econômica, ainda há no país uma parcela da população rural que enfrenta pobreza devido a dificuldades de geração de renda, determinada, entre outros, por fatores como escassez de meios para escoamento da produção e problemas na sucessão das propriedades. O êxodo rural, em especial da juventude, tem sido uma das principais preocupações dos agricultores. No Brasil, o fenômeno da diminuição do grupo familiar é uma tendência – mesmo no meio rural – e, com isso, muitas propriedade acabam sem sucessores.
A Fetraf-Sul/Cut (Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar da Região Sul do Brasil) teve a honra de participar dessa trajetória durante a maioria das visitas de Luc Vankrunkelsven ao Brasil. Como entidade sindical representativa, a Fetraf-Sul tem o desafio de organizar os agricultores para o desenvolvimento econômico e produtivo, preservando o meio ambiente. Desafio que se impõe diante da produção de alimentos em todo o mundo.
As principais lutas da Fetraf-Sul para o próximo período são a busca por acesso à tecnologia para manutenção da juventude no meio rural e, ainda, a garantia do recebimento dos ativos ambientais. O agricultor presta serviços ambientais de preservação e tanto a sociedade quanto o poder público devem reconhecer e remunerar esses serviços, que são cada vez mais importantes para a sociedade em geral. Em meio ao conflito ambiental, outro desafio que aponta para a agricultura familiar é geração de energias renováveis, como a produção de biocombustíveis, pelas mãos dos agricultores familiares. São desafios que ainda têm um longo caminho a ser percorrido.
O Brasil e a Europa têm estreitas relações culturais, comerciais e econômicas que transcendem a colonização e os interesses que nos unem. Nossa forma de interagir pode determinar uma relação saudável para o planeta ou ainda condená-lo. Como cidadãos do mundo, devemos refletir sobre sustentabilidade e segurança alimentar como uma forma de pensar o futuro responsável e otimista, para que através de nossa esperança ele seja melhor para nós e para as gerações futuras.  

Celso Ludwig
Coordenador Geral da Fetraf-Sul (www.fetrafsul.org.br)
Tangriany Pompermayer Coelho   Assessoria de Imprensa Fetraf-Sul

 
Introdução

Esperança

Bem dentro de nós mesmos carregamos a esperança;
se não for assim, não há esperança.
A esperança é uma qualidade da alma
e não depende do que está acontecendo no mundo.
Esperança não é prever ou antecipar.
É um direcionamento da mente,
uma orientação do coração,
ancorado além do horizonte.
A esperança, nesse sentido profundo e poderoso,
não é o mesmo que alegria porque tudo vai bem,
ou disposição de se engajar em algo que tem sucesso.
Esperança é trabalhar por algo porque é bom,
e não há somente uma chance de ser bem-sucedido.
Esperança não é o mesmo que otimismo,
tampouco é a convicção de que as coisas darão certo,
mas sim a certeza de que uma coisa tem sentido,
sem se importar com seu resultado final.

                   Vaclav Havel (1936-2011)
                   Escritor e ex-presidente da República Tcheca

Otimista ou realista?

Uma vez participei de um congresso mundial em Barcelona sobre a Teologia da Libertação. No meu grupo de discussão também estava o jesuíta Jon Sobrino, o famoso teólogo da Libertação de El Salvador. Sobrino é o único jesuíta que, em 1980 – ano em que o arcebispo Oscar Romero foi assassinado – não foi executado em seu país. Todos os demais membros de sua comunidade foram! Não que ele não fosse tão “subversivo” quanto os outros. Não; por acaso, ele estava no exterior.

Sobrino deu seu testemunho ao grupo em voz baixa, mas com firmeza. Seu mantra, a palavra que, três décadas mais tarde, continua me impressionando é: “Realidade”. “Eu só preciso contar a realidade do povo”.

Realidade. “Ver – julgar – agir” era o modo de trabalho inspirador de Joseph Cardijn. Tornou-se o fundamento das futuras comunidades eclesiais de base na América Latina e sua Teologia da Libertação apoiadora.

Ver: tentar compreender a realidade. Analisar. Ver e confirmar fatos – não de modo ingênuo, mas também sem desespero.
Julgar: avaliar esta realidade à luz da Bíblia e do Evangelho. Gradualmente, graças inclusive à globalização e, a partir do respeito por outras inspirações, recorre-se a várias fontes de esperança.
Agir: esperança, que se materializa na forma de pessoas e grupos que entram em movimento. Organizações, ONGs, instituições políticas, que não partem para a ação aleatoriamente. Elas trilham o caminho lento da mudança, com a certeza de que têm sentido, independentemente do resultado. Além do otimismo superficial.

Esperança

Uma pesquisa realizada no início de 2011 revelou que os brasileiros são o povo mais otimista do mundo. Os belgas e os franceses seriam os maiores pessimistas, pelo menos no tocante ao crescimento econômico num futuro próximo.
Eu sou “belga” e, portanto, “pessimista”. Dialogando com os brasileiros que, portanto, seriam “otimistas”… Será que, então, eu tenho algo para compartilhar nesse fortemente emergente país chamado Brasil? Será que, depois de dez anos, não seria melhor parar com esse intercâmbio?

Os brasileiros têm muito a ensinar a nós, belgas-flamengos-europeus , sobre a alegria de viver, a espontaneidade, a fé na vida. E, mesmo assim, muitos seriam injustiçados se afirmarmos rapidamente: “os brasileiros são otimistas”. E será que não é mais profundo? Será que, no intercâmbio, não tocamos na esperança que Vaclav Havel tenta traduzir em palavras: “Esperança não é prever ou antecipar. É um direcionamento da mente, uma orientação do coração, ancorado além do horizonte.” No primeiro século da Era Cristã, o apóstolo Paulo rompeu o nacionalismo estreito, o patriotismo e o fundamentalismo religioso. Depois dele, não existem (em teoria) “nem judeu, nem grego; nem senhor, nem escravo; nem homem, nem mulher”. É por isso que os termos “belga” e “brasileiro” estão entre aspas. Na qualidade de cidadãos do mundo que são mutuamente interdependentes, podemos aprender muito uns com os outros – além de uma busca exagerada por uma identidade própria ou orgulho nacionalista.

Legal!
Em artigos e livros eu gosto de colocar o ponto de interrrogação, mas neste caso, utilizei um ponto de exclamação! Será que, de repente, eu tenho tanta certeza das coisas? Não, “Legal!” é uma exclamação muito utilizada no Brasil.
Ao mesmo tempo, é o mantra do agronegócio: “Tudo o que nós fazemos é legal”. Ou seja, de acordo com as leis do país. As leis existentes são interpretadas de forma criativa ou elas são adaptadas aos interesses das grandes corporações. Enquanto isso, eles praticam um greenwashing  sem precedentes, por exemplo, apoiando financeiramente organizações “verdes”, como a WWF. Trata-se do mesmo World Wildlife Fund que organiza Mesas Redondas sobre óleo de palma “sustentável”, soja “sustentável”, madeira “sustentável”. Tudo produzido dentro da alegada legalidade.
No momento em que concluo este livro, a “bancada ruralista” está quase conseguindo esvaziar “legalmente” o novo “código florestal”. Sob medida para sua “economia sustentável”, provavelmente será permitido ainda mais desmatamento, plantio mais próximo dos rios, em encostas e em topos de morros. Expulsar ainda mais os agricultores familiares e torná-los sem-terras.

Para os oprimidos, os expulsos, “Legal!” significa esperança … e para os opressores, aqueles que expulsam é ‘otimismo’. Mas o otimismo cego dos detentores do poder é o oposto de esperança. É claro que existem muitas formas de misturas entre opressores e oprimidos. A realidade é recalcitrante e raramente se apresenta em branco e preto. Mesmo assim, em contraposição à ditadura do otimismo fácil daqueles que detêm o poder, o poeta belga Herman De Coninck registrou o difícil: “De troost van het pessimisme” [O consolo do pessimismo]. Como um alerta permanente contra os onipresentes belos discursos, greenwashing e outros embelezamentos.

O otimismo em torno do crescimento da economia brasileira é forte, ainda que se comece a escutar, aqui e ali, que pode se tratar de uma bolha econômica.
Porém, o que estamos vendo acontecer com cada vez mais intensidade não é novo. Há dez anos, professores de história da Universidade Católica de Leuven (Bélgica) já afirmavam em um trabalho sólido (1) que, desde o século XVI, há quatro continentes (inter)agindo no Brasil. Por exemplo, desde o século XIX os belgas são muito ativos na construção de ferrovias e outras infra-estruturas, como mineração, siderurgia, indústria química. Pode-se dizer que, há cinco séculos, o Brasil serve de laboratório para a globalização. O que vivenciamos no início do século XXI é consequência do que foi iniciado séculos atrás.

Eu sou natural da província Brabante, moro em Bruxelas, sou da região de Flandres, “belga”, e “europeu”. Essas identidades fragmentadas estimulam uma pessoa a ser humilde. Que papel destruidor os belgas e europeus não desempenharam na história? No Brasil. No Congo. Na Ásia…
A partir de minhas próprias limitações e do meu ponto de vista eu tento, com esse intercâmbio, em alguns artigos e livros, dar uma pequena contribuição na busca internacional por mais justiça e paz. Para a verdadeira sustentabilidade, além daquela puramente “legal”. Além do nacionalismo equivocado.

Porque:
“Esperança não é o mesmo que otimismo,
tampouco é a convicção de que algo vai acabar bem,
e sim a certeza de que algo tem sentido
independentemente do resultado.”

Luc Vankrunkelsven,
Bruxelas, 4 de outubro de 2011.
No início da Europalia Brasil-Bélgica.

(1) “Brasil. Cultures and Economies of Four Continents” [Brasil. Culturas e economias de Quatro Continentes]. Acco, Leuven, 2001. (Inglês-Francês).
 
1. Superpotência econômica

Durante o voo Madri-São Paulo nesta noite, recostei minha cabeça cansada sobre um texto impresso nos protetores de encosto que a TAM utiliza: “O Brasil será a 5ª potência mundial na próxima década. Qual o benefício para a sua empresa?” (The Economist, novembro de 2009). Um texto da PricewaterhouseCoopers  em protetores de encosto. Símbolo de globalização?

You have to be the first [Você tem que ser o primeiro]

No aeroporto de Madri, esperei durante cinco horas: tempo suficiente para ler o plano para a política agrícola do governo de Flandres, na Bélgica. Em 2020, Flandres quer estar entre as cinco regiões mais “eficazes” da Europa. E, sim, deve fazer parte disso a agricultura com os interesses flamengos voltados para o comércio exterior baseado na gigantesca importação de matérias-primas. Todos querem ser o primeiro. Começou nos Estados Unidos, com o slogan “You have to be the first”. Chegou à Europa, que também deseja participar da liderança (econômica) mundial. A China já se posicionou totalmente como a fábrica do mundo. O Brasil é um dos principais fornecedores de matérias-primas para Japão, Europa, EUA e China. Para se tornar a quinta potência econômica, a industrialização continua – inclusive na agricultura. Fetraf-Sul me pediu para que, na atual turnê, eu tratasse do fenômeno emergente das megaindústrias da suinocultura. Megaindústrias da suinocultura na Alemanha, na Holanda. “Ultramegaindústrias” nos Estados Unidos da América do Norte e nos Estados Unidos do Brasil. A agricultura familiar é estrangulada ainda mais, explorada e marginalizada. Das montanhas ao redor Chapecó não escorre o mel da abundância, mas o esterco de suínos da destruição e da pobreza oculta.

O Brasil quer ser “o Número Um” na produção de soja, de carne de aves e suínos e muito mais. No aeroporto, muitos representantes desse crescimento, com cartazes de identificação, nos aguardam: Pirelli, Anglo American, Wood Ward, Basf, Carrefour, Mercedes-Benz, Volkswagen. Entre eles circulam judeus com quipás e outras pessoas com características distintivas. Há até mesmo um homem com a placa de identificação “Extreme Networks”. As visitas programadas para hoje em São Paulo certamente não pretendem ser extremas. Elas captam as consequências da corrida para ser “o Número Um”, tendo como estação intermediária o prêmio de consolação de poder ser a “quinta potência econômica”.

Brasil cheio de veneno

Eu preciso aguardar Marcelo Andrade. Durante vários anos, ele trabalhou no setor químico, mas agora está muito interessado em agricultura agroecológica. A partir de 1º de abril ele começou um ano sabático. Hoje vamos caminhar juntos pela metrópole chamada São Paulo.
Compro o jornal “Le Monde Diplomatique Brasil”. A manchete na capa chama a atenção: “Agrotóxicos: o Brasil envenenado”. O prefácio destaca: “O Brasil é o maior mercado de agrotóxicos do mundo e representa 16% das vendas mundiais. Em 2009, foram vendidas aqui 780 mil toneladas, com um faturamento estimado de 8 bilhões de dólares. Ao longo dos últimos dez anos, na esteira do crescimento do agronegócio, esse mercado cresceu 176%, quase quatro vezes mais que a média mundial, e as importações brasileiras desses produtos aumentaram 236% entre 2000 e 2007. As dez maiores empresas do setor de agrotóxicos do mundo concentram mais de 80% das vendas no país.”

O líder mundial em agrotóxicos é Monsanto, com seu Roundup. Em 2009, a empresa ainda lucrou 1,84 bilhões de dólares com esse “mata-tudo”. Para 2010, está previsto um lucro de “apenas” 250 a 300 milhões de dólares? O que explica essa queda brusca? Não é exatamente a crise econômica, mas o fato de que os fabricantes chineses estão colocando no mercado produtos baratos similares ao Roundup. Essa queda ajuda a explicar o empenho da Monsanto em coletar, a qualquer custo, os royalties da soja Roundup Ready. Como a Argentina não reconhece os royalties sobre esta soja, a empresa está tentando cobrar royalties, na Europa, até pelos suínos alimentados com soja transgênica importada. Por enquanto, esse pleito ainda não teve sucesso.
Detalhe picante: no porto de Antuérpia (Bélgica), a Monsanto fabrica algumas das substâncias básicas para o veneno. Os setores da indústria química e automotiva enriqueceram a região de Flandres  nos últimos 50 anos. Ambos os setores passam agora por uma forte crise naquela região do país. A sede em Antuérpia eliminará 130 dos 890 postos de trabalho nos próximos meses. Enquanto isso, a Monsanto está construindo uma nova fábrica no Brasil, para a produção de Roundup. Uma vez que esta fábrica vai gerar alguns empregos, a multinacional está pressionando o governo para manter o similar chinês fora do mercado brasileiro.

Brasil em marcha acelerada

A título de boas-vindas ao Brasil, espero comprar um suco da laranja. 5,50 reais! Em 2000, na Bahia, a mesma quantidade de suco fresco me custou 1 real. Gostaria de saber o quanto pagaria hoje na Bahia, pois aqui, é claro, o preço “inclui” o aeroporto em São Paulo.
Decepção: “Não, senhor, só temos de suco de laranja engarrafada.” Será que o Brasil realmente passou a fazer parte dos países emergentes: suco de frutas engarrafado e – quando se encontra suco fresco – a um preço em marcha acelerada?

Enquanto isso, as condições de trabalho na colheita de laranja e no corte da cana continuam semelhantes a novas formas de escravidão.
Enquanto isso, muitos agrotóxicos já proibidos na União Europeia continuam sendo usados extensivamente.
Enquanto isso, 5 mil trabalhadores rurais morrem todos os anos por envenenamento.
Ou seja, tornar-se a quinta potência econômica também tem seus danos colaterais.

São Paulo, 7 de abril de 2010.
 
2. De Bunge, passando por Cargill até o Paraguai

No ambiente simpático e tranquilo da Livraria Millenium, debatemos as várias linhas mestras de meus últimos três livros. A plateia está atenta e frequentemente participa da conversa. Uma senhora idosa, sinceramente preocupada, pergunta: “Quais são as alternativas para os ditames da OMC? Como podemos organizar uma agricultura e um abastecimento alimentar a serviço das necessidades dos povos?”

Após o encontro, essa mesma mulher alta veio discretamente me contar sua história: “Em 1959, o meu marido emigrou da Alemanha para o Brasil, para trabalhar aqui para a Bunge. Mais tarde ele foi trabalhar para a Cargill. Nós compramos terras no Paraguai e plantamos soja. Agora, meu marido voltou para a Alemanha. Nosso filho é engenheiro agrônomo e, atualmente, está no México, pesquisando o cultivo de café sombreado…”
Nós dois ficamos em silêncio. Suas vidas são um verdadeiro resumo do que o agronegócio está aprontando no Brasil e arredores desde a década de 1960.

Enquanto isso, o país está em crise. Por causa das fortes chuvas, ocorreu mais um deslizamento de uma encosta cheia de casas. Mais de 220 corpos se encontram debaixo da lama. Em Niterói, que fica de frente para a cidade do Rio de Janeiro. A catástrofe é o resultado de uma confluência de vários fatores, mas certamente as árvores haviam desaparecido há muito tempo. Além disso, as casas foram construídas sobre a encosta íngreme de um antigo depósito de lixo. Quantas vezes isso ainda deverá ocorrer antes de a importância das árvores ser redescoberta? (1)
Claro que é um problema decorrente da pobreza e uma manifestação da existência de duas cidades em uma, de dois países em um único país: os ricos, em áreas seguras; muitas pessoas pobres em locais em que o risco de um acidente – a qualquer momento – paira sobre suas cabeças. As cidades estão “explodindo”, porque a zona rural se tornou inabitável. Pessoas desesperadas em busca de uma nova vida encontram a morte nas favelas construídas ilegalmente.

A senhora agradece pelo encontro. Para o filho, ela compra o livro “Aurora no campo. Soja diferente”. Sobre criatividade, além da soja e temas correlatos. Será que seu filho gostaria de auxiliar na recuperação do que a geração anterior ajudou a destruir? O modelo centro-americano de “cultivo de café sombreado por árvores” pode representar uma saída, tanto na zona rural quanto nas cidades superaquecidas (2).

São Paulo, 8 de abril de 2010.

(1)    O cúmulo é que, nesses dias, estou partindo numa turnê para lançar o novo livro “Brasil-Europa em fragmentos?”. O penúltimo capítulo é justamente sobre o Rio de Janeiro: “Recuperação e consolo são possíveis?” Trata do grande projeto do século XIX para reflorestar a montanha sobre a qual se encontra a estátua do Cristo Redentor (o “Corcovado”). Atualmente é o Parque Nacional da Tijuca. Um exemplo de recuperação ambiental, que também pode melhorar a vida das pessoas na cidade. Por que o que foi possível no século XIX não poderia ser feito novamente no século XXI? Será que isso se oporia demais ao fetiche de se tornar – a qualquer custo – a quinta potência econômica?
(2)    Café como solução? Naturalmente, o café não é exatamente uma cultura alimentícia e, desde o século XIX, foi um mecanismo de migração em massa na história do Brasil. Da Europa para o país do café, o Brasil. Nesse contexto de desastres, quando se pergunta, cuidadosamente, se “cafezais sob as árvores” também podem significar uma saída, trata-se somente da dimensão ecológica. Café no Brasil está a “céu aberto”, enquanto os pés de café, em vários países da América Central, são sombreados pelas árvores. Portanto, há muitos cafeeiros nas encostas de montanhas, enquanto a percepção é de que é apenas uma floresta. Ou seja, menos erosão, maior biodiversidade e menor risco de deslizamento das encostas. Isso não elimina o fato de que essa situação específica pode ser muito injusta, com forte concentração de terras nas mãos de uma elite, que obriga os catadores de café a trabalharem como escravos. Com frequência, os agricultores familiares também são iludidos pelo “café sob as árvores” e se esquecem de produzir alimentos para si e para seu povo. É por isso que Wervel deseja manter reunidos, no seu nome, as duas dimensões: “Werkgroep voor een rechtvaardige en verantwoorde landbouw” = Grupo de trabalho por uma agricultura justa e responsável. Ou seja, sem fazer propaganda para a assim chamada agricultura (mais) ecológica se ela não for, também, socialmente justa. Neste mundo de Cargills, Bunges e companhia, já existe tanto “capitalismo ecológico” (greenwashing) que não é exagero sempre questionar, de modo crítico, cada anúncio ecológico.
 
3. Alimentação escolar

Como todos os anos, sou hóspede da família Marfil. O reencontro é sempre caloroso e também é interessante acompanhar os novos desenvolvimentos no Brasil. Dessa vez, eu observo imediatamente os efeitos na propriedade em si.

Há alguns anos, Marfil abandonou o cultivo de hortaliças orgânicas. Ele agora se concentra no processamento de cereais orgânicos e sua comercialização em feiras de produtos orgânicos e programas do governo.
Agora descubro que, desde janeiro de 2010, está em vigor uma nova lei federal, que determina que 30% de todos os alimentos comprados para a “Alimentação Escolar” pelas escolas públicas federais e estaduais devem vir da agricultura familiar. A prioridade é para produtos cultivados por quilombolas e/ou nos assentamentos e para a produção agroecológica. Na verdade, a lei não trata somente das escolas, mas de todas as aquisições de alimentos feitas pelo poder público, como para os hospitais militares etc.

Revolução atenuada

À primeira vista, essa lei representa uma verdadeira revolução. E, de fato, a atividade nessa chácara e na Aopa (Associação para o Desenvolvimento da Agroecologia) aumentou enormemente. A lei foi aprovada depois de uma batalha feroz, porque os “grandes” e o agronegócio não permitem que seu poder seja limitado tão facilmente. É comparável à guerra por causa da lei sobre a reforma do sistema de saúde, nos Estados Unidos. Após um ano de luta e pressão, o presidente Obama conseguiu aprovar a lei no início de 2010. Ela ficou muito esvaziada para conseguir a maioria na votação. Apesar da versão atenuada, continua sendo uma vitória importante, depois de cem anos em debate no país mais poderoso do mundo. Um país onde dezenas de milhões de pessoas não possuíam um seguro de saúde.
O projeto de lei brasileiro determinava que as aquisições devem ser feitas socialmente, economicamente e juridicamente através das organizações agrícolas. Não poderia se tornar uma simples transação comercial e, sim, apoiar a capacitação e a organização dos agricultores. O lobby das (assim chamadas) grandes cooperativas propôs o entendimento de que elas estavam incluídas no termo “organizações agrícolas” e que, primordialmente, as transações devem estar legalmente em ordem. É que, ao final do ano, as diversas instâncias devem poder provar que elas efetivamente adquiriram 30% de suas compras da agricultura familiar.

E qual é o problema?

É uma situação semelhante ao poder das cooperativas na Europa. Cerca de 80% dos membros das grandes cooperativas brasileiras são agricultores familiares, mas 90% do faturamento da cooperativa vêm dos fazendeiros. Assim, as cooperativas podem facilmente provar que atendem aos 30% exigidos por lei enquanto, na verdade, a maior parte permanece sendo oriunda do agronegócio. É comparável com uma recente decisão de Milcobel, a maior cooperativa de laticínios na Bélgica. Ela agrega 1/3 dos criadores de gado de leite. Agora, depois da grande crise do setor leiteiro de 2009, ela lançou o “Leite Justo” em um supermercado. Trata-se de um gesto simbólico, pois o consumo de leite in natura representa apenas 12% do faturamento dessa indústria na Bélgica. A maior parcela do valor agregado, inclusive para exportação, tem outra origem. É precisamente por isso que Milcobel não simpatiza com a ideia de elevação do preço do leite, quer sejam seus membros pecuaristas ou não. É apenas um ator forte no agronegócio internacional, com interesses de exportação próprios e busca, portanto, “matérias-primas” baratas. Além disso, com a recente decisão, o conceito “fair trade” [comércio justo] foi esvaziado. Enquanto Max Havelaar  estabelece uma série de critérios sociais, econômicos e ecológicos, a decisão em questão trata apenas de um preço ligeiramente superior. É por isso que, nos próximos anos, Wervel pretende – em sinergia com outros parceiros – conseguir que o comércio justo se torne um sistema confiável também para produtos agrícolas produzidos e comercializados no Hemisfério Norte e que atendam a esses critérios.

Um grande passo adiante

Mesmo assim, quando os agricultores estão bem organizados, como na Aopa, em Curitiba, eles conseguem aumentar as respectivas vendas para as escolas e outras instituições. Além disso, a lei prevê que, dentro de cinco anos, estes 30% devem ser de alimentos orgânicos. Isso pode dar um grande impulso para a agroecologia – especialmente porque a agricultura convencional está entrando gradualmente em uma grave crise, devido ao elevado preço dos adubos químicos e agrotóxicos importados.
Uma diferença com as licitações públicas dos governos na Bélgica é que o menor preço não é determinante para a compra. Já no Brasil existe um preço de referência da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento). Este, normalmente, é favorável para os pequenos, apesar dos preços praticados na região de Curitiba para produtos produzidos convencionalmente serem maiores do que para os produtos orgânicos. Essa situação exige alguns ajustes com urgência. Mesmo com essa desvantagem, os agricultores agroecológicos que se organizam através da Aopa conseguem fornecer alimentos para 40 escolas do município de Pinhais, bem como para outras escolas municipais e algumas escolas estaduais na Região Metropolitana de Curitiba.

Gostaria de saber qual será o impacto dessa lei daqui a cinco anos. Sim, a Europa pode aprender muito com os passos lentos que vêm sendo dados no Brasil. Brasil, o país que é o maior consumidor de produtos agroquímicos, mas onde também flui uma corrente sob a superfície no sentido contrário. Até as leis parecem favorecer a transformação dessa corrente secundária em corrente principal.

Bocaiúva do Sul, 11 de abril de 2010.

(1) No dia 29 de dezembro de 2010, foi aprovada mais uma lei, no Paraná, que determina que todos os alimentos adquiridos para as escolas estaduais devem ser orgânicos.
 
4. Para os nativos, sobrou a roupa suja

De repente me convidam para ir junto buscar alguém na rodoviária de Curitiba. Uma vez que chegamos muito cedo, tenho a oportunidade de caminhar calmamente pela estação.
É noite de domingo, e uma cena movimentada de descendentes de todos os cantos do mundo: italianos, alemães, portugueses, espanhóis, ucranianos, holandeses, poloneses, japoneses, africanos…

Sob dois lances de escada há uma grande pilha de cestos de bambu. Também circulam por ali algumas crianças indígenas da etnia guarani. Subitamente, ouço e vejo algo se movimentar em meio à montanha de bambu. Uma mulher indígena está trançando coloridos cestos de roupa com lascas de bambu. Oculta. À margem, debaixo da escada fria de concreto. Simbolicamente, como os povos indígenas que há cinco séculos são pisoteados por aqui. Aqui e em todo o mundo eles sofrem o mesmo destino.

Enquanto isso, eu vejo os “descendentes” subindo e descendo as escadas apressadamente. Uma criança guarani toma Coca-Cola de uma latinha. A mãe – oculta – continua a trabalhar no cesto que irá esconder a roupa suja de alguma família, a roupa suja desta sociedade.

Durante o retorno, no carro, continuo refletindo. Pelas estradas se encontram outdoors jubilosos de empresas prósperas. Dos descendentes de europeus. Uma permanece na retina: “Vitória!” Uma empresa que vende caminhões – para explorar ainda mais o planeta. Os guarani já foram derrotados há muito tempo. Eles se resignaram com seu destino.
E o que você acha deste: “Santa Fé”? Trata-se de uma revendedora da marca Chevrolet!

Quem sou eu para expor a roupa suja do Brasil?
Eu também sou um descendente de europeus, do outro lado do oceano.
Em 1500, a Europa “descobriu” a “Terra de Santa Cruz”, plantou nela a cruz da vitória e, pouco mais tarde, batizou o imenso país de Brasil.
Depois de algumas décadas, o “Pau-Brasil” – a madeira vermelha dos nativos – já havia sido toda cortada. A partir de então, os guarani, os kaingang e centenas de outros povos se tornariam “índios”, forasteiros em suas próprias terras ancestrais.

Curitiba, 12 de abril de 2010.
 
1.
Memórias

Ela tinha cabelos negros,
Tão longos … contrastava
Com minhas pequenas pernas.

Parecia uma sereia …
Minhas pernas viraram
Seus cabelos …

Atravessei o mar …

Dedicado à minha mãe
Autor: Cleverson de Oliveira
 
5. Mandala

Hoje eu sou o convidado de Ecovida, uma rede de consumidores e produtores dos três estados do Sul do Brasil. Parece um pouco com “Paniers de voisin” [Cesto de mantimentos da vizinhança] na França, “Voedselteams”  em Flandres [Bélgica], “clubes Seikatsu” no Japão e centenas de outras iniciativas espalhadas por todos os continentes.

A Aopa é a anfitriã do encontro que ocorre no centro oficial de promoção da agroecologia (Centro Paranaense de Referência em Agroecologia – CPRA). Estão reunidos representantes de 13 grupos da rede da Região Metropolitana de Curitiba. Em sua maioria, são agricultores, mas também estão presentes alguns consumidores. Eles se reúnem a cada dois meses para capacitação, troca de experiências e agendar compromissos conjuntos.
Dessa vez, o “gringo” pode fazer uso da palavra, mas as histórias mais fascinantes são as de alguns participantes. Ao final, todos levam um exemplar do livro “Aurora no Campo. Soja Diferente” para debater com o grupo local. Na próxima reunião darão um retorno sobre suas reflexões regionais.

Policultura versus monocultura

A história de Celson é particularmente interessante. Ele fala em nome da “Escola Latino-Americana da Agroecologia”, na Lapa. Trata-se de um centro internacional de formação em agricultura agroecológica da Via Campesina. Ele propõe um novo modelo de produção, na forma de “mandalas”. Eles já estão realizando experimentos há dois anos e pretendem semear muitas outras mandalas pelo Paraná. Na Bahia, elas já seriam bem comuns.
Esse modelo promissor veio da Itália. Eu o vi pela primeira vez em uma horta comunitária, em Wageningen [Holanda], mas parece que agora chegou ao Brasil “para ficar”. Na verdade, é uma combinação das ideias da permacultura, do policultivo e de sistemas agroflorestais. Os praticantes podem implementá-las dentro de uma visão espiritual ou não. Já que o termo “mandala” poderia causar uma impressão “mística” (oriental), optou-se por utilizar o termo mais neutro de “cultivo em círculos”, embora não precise ser necessariamente em círculos. Pode ser implantada tranquilamente em outras formas geométricas, embora o círculo tenha suas vantagens em termos de eficiência na irrigação, microclima etc. É evidente que o policultivo não utiliza produtos químicos. Celson fala com orgulho dos elevados rendimentos em pequenas áreas, o que desperta grande interesse nos agricultores.
Em outras regiões do país também existem muitos círculos, mas estes são mais do mesmo: também é monocultura, como a que ocorre nas imensas planícies de terras desmatadas. A forma circular é decorrente do sistema de facilita a irrigação com pivô central. Na verdade, não importa se são pentágonos, quadrados ou círculos no meio da floresta: não se percebe nelas a diversidade de vida e de culturas.

Progredir voltando ao passado

Celson é a única pessoa com uma clara “aparência indígena”. O interessante é que são justamente os descendentes dos povos indígenas que nos apresentam o caminho de volta. Um caminho de retorno difícil que é, de fato, um caminho para o futuro. Um caminho de progresso, a serviço da biodiversidade, da agrobiodiversidade e da soberania alimentar.

Curitiba, 12 de abril de 2010.
 
6. Agricultura e mar

Uma viagem com grandes distâncias exige um bom preparo, mesmo que isso seja completamente contra a natureza dos brasileiros. O “brasileiro médio” gosta mais de deixar as coisas acontecerem espontaneamente. Até mesmo as palestras são, às vezes, anunciadas com apenas alguns dias de antecedência.

Lombada

E foi justamente isso que me aconteceu hoje: após três anos de troca de e-mails com dois estudantes de agronomia, estou reunido com eles – agora recém-formados –, em Curitiba. Para eles poderem ver “com quem estão lidando”. Qual é o perfil desse gringo, afinal? Dois dias após a “avaliação”, eles me pedem para alterar meu roteiro: depois de Matinhos, não devo viajar imediatamente para Florianópolis, e sim passar uma tarde em Pontal do Sul. Quem conhece um pouco as distâncias no Brasil sabe que isso não é um arranjo simples. “Não há problema: a van da nossa ONG ‘Maris’ irá buscá-lo em Matinhos e, após a palestra, levará você até Joinville, para pegar o ônibus para Florianópolis”. Eu realmente não gosto quando pessoas começam a dirigir muitos quilômetros por minha causa, mas este é um caso de força maior e do típico “jeitinho brasileiro”. Desapegando-me da Europa, eu deixo tudo acontecer. Uma viagem infernal, com problemas de bateria, me leva de Curitiba a Matinhos. Após as atividades na universidade e na feira de agricultores, a van segue em direção à universidade de Pontal do Sul – reduzindo e acelerando centenas de vezes por causa das lombadas na estrada. Não quero nem pensar no aumento na quantidade de emissão de CO2 resultante, diariamente, desses quebra-molas em todo o Brasil.

Luta em terra e no mar

Nas proximidades da universidade, os estudantes de oceanografia construíram, no último fim de semana, uma cabana de bambu e material reciclado. Lá eles ensinam estudantes e outros funcionários da universidade – e, também, os moradores das redondezas – a fazer composto.
Tenho a honra de ser o primeiro a fazer uma palestra em sua cabana: dessa vez, o tema não é a vida no oceano e, sim, soja, cana-de-açúcar e etanol; o paralelo da luta entre dois modelos agrícolas e da luta entre algumas centenas de embarcações da pesca industrial e milhões de pescadores artesanais, cujas áreas de pesca estão sendo exauridas pelos grandes do Japão, Europa, Canadá; ração animal e a grande expansão da aquicultura, porque os mares mundiais estão sendo esvaziados pela sobrepesca. Meu trabalho é estabelecer as correlações internacionais, causas e consequências. Por exemplo, a criação de suínos e aves se concentra em torno dos portos europeus, onde chega a soja barata do continente americano. Isso faz com que a província da Bretanha abrigue metade de todos os suínos e frangos da França. Uma das consequências é que grandes trechos da costa são inundados por algas tóxicas. Todo ano, morrem javalis que ousam se aventurar na praia. Isso provoca comoção em todo o país, pois esses javalis têm apelo ao imaginário popular. Mas o que pensam das pessoas que querem nadar? A França atrai milhões de turistas de toda a Europa. A morte dos javalis é um sinal de alerta europeu de que o sistema implantado mundialmente para a criação de porcos domésticos enjaulados está profundamente equivocado.

A cabana se localiza atrás do centro educacional da cidade de Pontal do Sul, no Parque Natural Municipal do Manguezal do Rio Perequê. No site deles (http://www.marbrasil.org) é possível encontrar, virtualmente, muita informação interessante, mas mesmo assim eu vou lançar um olhar real no interior da construção.
Isso resultou nas seguintes informações:
– O Brasil dispõe de 3,5 milhões de km2 de mar territorial, no qual seus habitantes podem pescar livremente;
– O país possui 8500 km de litoral;
– 70 milhões de pessoas vivem nesta Zona Costeira Brasileira;
– 3 milhões de pessoas exploram – direta ou indiretamente – as riquezas do oceano;
– 800 mil pessoas praticam a pesca artesanal;
– 70% do PIB provém de atividades econômicas desenvolvidas na Zona Costeira Brasileira.

Planejar é bom e necessário para uma viagem dessas, mas alguns convites inesperados podem ter suas recompensas. Graças a Deus.

Pontal do Sul, 14 de abril de 2010.

 
7. Café ou livraria?

Quando se faz uma turnê pelo Brasil para lançar um livro, você pode encontrar alguns obstáculos.
Já há alguns dias, vários brasileiros repetem para mim, com tristeza, o dito: “No Brasil, você encontra um bar, uma igreja e uma farmácia em cada esquina. Na Argentina, cada rua tem uma livraria.” A maioria das livrarias na Argentina são, ao mesmo tempo, cafés agradáveis, nos quais você pode consultar livros e jornais. No caso de injustiças sociais ou políticas, eles se lançam às ruas mais rápido do que seus vizinhos.
Está claro que o Brasil não possui uma cultura de leitura, muito menos o hábito de comprar livros. A Argentina também tem suas igrejas e farmácias, mas como – em nome de Deus – se vende literatura no Brasil?
Durante a apresentação do livro na feira de agricultores em Matinhos, Ismael Rogeski se queixa. Na sua livraria “Pico de Livros” ele tenta manter um “sebo”, paralelamente à venda de livros novos. Para alcançar os brasileiros com algumas novas ideias, ele faz apresentações com fantoches para as crianças. Teatro de rua a partir de sua realidade, na esperança de que eles levem suas experiências para casa.

Brincando, as crianças espelham a realidade

Será que posso esperar o mesmo com a capa ousada do novo livro? Desenhos infantis para ilustrar um livro para adultos! “Por que não?”, disse o abade de Averbode. “Os livros para crianças geralmente são escritos e ilustrados por adultos. Podemos inverter isso de vez em quando.”
Sim, parece que funcionou, especialmente no Brasil. As pessoas gostaram das cores e da alegria. São crianças que seguram os espelhos para que os adultos se vejam.
Além disso, aqui também é válido outro dito popular: “Santo de casa não faz milagre.” O fato de um europeu fazer aqui uma turnê com um livro atrai a atenção da imprensa. Um estrangeiro que, além de tudo, fala um pouco de português. Aqui nós temos muito mais impacto do que no lançamento de novos livros de Wervel na Bélgica. E quando brasileiros como Marcelo Barros, João Caetano e Altamiro Fernandes são nossos convidados em Bruxelas, a imprensa também se mobiliza mais rapidamente. Aparentemente, isso também é um fenômeno (jornalístico?) universal.

Prostituição do corpo e da mente

Você ainda poderia expandir o dito sobre “café, igreja e farmácia” com: “Toda cidade tem seus supermercados, seus motéis e, nos últimos anos, suas academias de ginástica. Quase todos têm uma TV em casa e acreditam nela.” Mas isso não ocorre também na Argentina? E em Bruxelas, onde eu moro na zona de prostituição, entre os quartos onde as mulheres têm que satisfazer homens com tesão? A Holanda também tem seus supermercados e locais para aplacar o tesão. Prostituição existe em todo lugar. No entanto, o “holandês médio” é mais rápido na compra de um livro do que um belga da região de Flandres e é, geralmente, mais atento à política. Por que existe essa diferença cultural? Será que as raízes não estão na história de opressão, de formação? Em escolhas políticas relacionadas com as quais investimentos serão – ou não – feitos por parte da elite dominante? Na média, o belga da Valônia também conhece melhor a literatura francesa do que o belga de Flandres conhece a literatura neerlandesa . E nem pensar que alguém nos rincões de Flandres sabe alguma coisa de literatura estrangeira!

Sabedoria e superficialidade

Após a noite com vegetarianos em Florianópolis, uma professora da universidade me dá uma carona até a casa de Eliziana e Rogerio: um casal amigo, que sempre me hospeda com muito carinho. Ela suspira: “Eu estou cansada de lecionar. Eu quero me aposentar o mais rápido possível. Os brasileiros são tão superficiais!” Não me atrevo a responder. Não diga que fui eu que falei! Isso é algo que um estrangeiro, um forasteiro, definitivamente não pode afirmar. Mas eu posso registrar aquilo que as pessoas me confidenciam, não é?
À noite tem festa na casa Eliziana. Uma festa típica, muito descontraída. Mas, entre uma risada e outra, também são levantados temas sérios como o extermínio dos guarani pelos colonizadores, o desmatamento da Amazônia e do Cerrado para o plantio de soja, cana-de-açúcar e eucalipto.

Será que se trata mesmo de superficialidade ou é, também, um estilo de vida muito romântico? Romântico no sentido de levar a vida – com toda sua dificuldade – do modo mais leve possível? Ou é simplesmente romântico para não ter que enfrentar a realidade? Qual é o significado de novelas diárias nos canais da TV brasileira?
Quão profunda é a superficialidade? Quão superficial e sem compromissos pode ser uma conversa séria?
Eu acredito que, a partir da sabedoria de cada um, argentinos, brasileiros, holandeses, flamengos e valões podem aprender muito uns com os outros.

Florianópolis, 15 de abril de 2010.
 
8. Rondônia, “País de Carne” da Amazônia

No Acre, fui convidado para um curso da CPT (Comissão Pastoral da Terra). Um encontro de representantes de quatro estados da Amazônia: Rondônia, Acre, Amazonas e Roraima. Um sonho antigo se torna realidade: encontrar pessoas que defendem a Amazônia e seus habitantes.
Mas, primeiro, ainda preciso viajar de Curitiba, passando por Brasília, para Porto Velho (Rondônia).

Eu quero ser o maior

No aeroporto de Brasília estão espalhados grandes outdoors, desejando felicidades à capital. Há 50 anos, o novo local foi inaugurado como a cidade do futuro. Oscar Niemeyer, atualmente com 102 anos de idade, foi o arquiteto. O belga Louis Cruls, natural de Diest (Bélgica), calculou o centro geográfico do Brasil e, ainda no final do século XIX, fez uma expedição para o local que, há 70 anos, ainda era Cerrado virgem. No ponto mais alto do planalto, que abriga as nascentes de vários rios que correm tanto rumo a Buenos Aires quanto para a Amazônia, foi assentada, em 1922, a “Pedra Fundamental”: aqui deveria ser construída a nova capital. Ao final, a cidade foi construída a algumas dezenas de quilômetros de distância. Sorte para os morros e suas reservas de água!
Agora, um alegre banner da Nestlé chama minha atenção para as festividades. No setor de alimentos, essa mesma gigante suíça já é o “imperador’ há mais de 80 anos no Brasil. Depois se seguiram outros “príncipes”: Volkswagen, Mercedes, Monsanto, Basf e muitos outros cortesões do exterior.
Próximo da jubilosa Nestlé compro o “Dinheiro Rural: a revista do agronegócio brasileiro”. O título diz tudo para chamar a atenção: é no campo que está o dinheiro. No centro da revista há um anúncio do “Agrishow 2010”. Em vez de cana-de-açúcar, a máquina agrícola colhe – literalmente – dinheiro da lavoura. A capa anuncia uma entrevista com o maior “dono da soja”. Blairo Maggi, aparentemente, já não é mais o maior, e sim o argentino Gustavo Grobocopatel. Ele desenvolveu um jeitinho novo para se tornar muito rico em um curto espaço de tempo: semear soja em 250 mil hectares – incluindo 50 mil no Brasil, onde pretende colher 2,5 milhões de toneladas de grãos – sem possuir um hectare ou uma máquina sequer! Ele deixou para trás a “vanguarda” brasileira, com “apenas” 210 mil hectares, o Grupo Maggi, com “somente” 204.500 hectares, e a SLC Agrícola, com 180.000 hectares. Com seus 250 mil hectares, o novo grupo “Los Grobo” fatura 700 milhões de dólares por ano. Colhendo dinheiro, literalmente. Até que a foto na revista não é tão louca assim.

Gado e soja onde, recentemente, havia floresta

Nós vamos de van da capital de Rondônia, Porto Velho, para o estado do Acre. Até o final do século XX, o Acre ainda pertencia à Bolívia, mas foi tomado pelo Brasil devido aos seus interesses na borracha. Essa história fez com que o presidente boliviano Evo Morales, ainda em 2010, ficasse em estado de alerta em relação ao grande e imperialista vizinho, o Brasil.
Saber que, há 30 anos, essa região ainda era floresta amazônica intocada fere os olhos. Durante anos, eu li que o desmatamento em Rondônia foi o mais intenso. É fácil seguir a lógica: café, gado e, anos mais tarde, quando o preço do “ouro verde” está bom: a soja. Aqui, o cultivo do café já está em baixa desde a década de 1980. Desde então, o “desenvolvimento” não poupa coisa alguma: primeiro o gado e, depois, com o tempo, soja-milho. Nos primeiros 15 anos, é quase impossível cultivar soja, porque ainda há raízes de árvores na terra. Uma vez que muitos colonizadores vieram principalmente do Sul do Brasil (especificamente, paranaenses que, por sua vez, estavam “contaminados pelo zelo missionário” dos gaúchos), o sul de Rondônia foi a primeira região desmatada e, agora, já há lavouras de soja nessa área.

Mas as savanas pedem por gado!

Na Europa, muitas vezes temos discussões com aqueles que defendem a carne como parte integrante da agricultura. Cerca de 20% da superfície da terra é, de fato, ocupada por savanas, que são particularmente adequadas para ruminantes. O raciocínio é: “Eles podem transformar capim em produtos de qualidade superior (carne e leite) para alimentar o mundo. Afinal, nós não comemos grama!” Além do fato de que talvez devêssemos preservar tais ecossistemas, como o Cerrado – com elevada biodiversidade –, e que já havia povos vivendo lá, essa teoria sobre savanas não se aplica ao Brasil. Sim, existem os pampas na Argentina e no Sul do Brasil. E há o Pantanal, no Centro-Oeste brasileiro, que anualmente é inundado e onde, neste maior santuário de aves do mundo, só é possível manter gado e turistas. Há os “campos”, em Santa Catarina e no Paraná. E há, principalmente, o Cerrado, que se estende por 11 estados e, em termos de biodiversidade, é uma das savanas mais importantes do mundo. Mas o que é que está acontecendo? Em muitas dessas savanas ainda há, de fato, milhões de cabeças de gado, mas nos últimos anos as áreas foram diligentemente plantadas com algodão, soja e cana-de-açúcar. Ou seja, farelo de soja para a indústria internacional de ração animal, vinculado ao óleo de soja para cozinhar, mas especialmente para o biodiesel para caminhões e ônibus; cana-de-açúcar para açúcar, mas cada vez mais para etanol para os veículos brasileiros, americanos e europeus. Sobre esta última commodity, a “Dinheiro Rural” está exultante. A perspectiva para o etanol “verde” é brilhante!
Enquanto isso, o boi avança cada vez mais sobre a floresta. Para preparar o terreno para a soja. Quem é que estava falando sobre “savana” como habitat claramente destinado ao gado?

A biodiversidade está diminuindo no Ano de Biodiversidade

Constatar que os grandes objetivos que os líderes mundiais propuserem em 2002, com a “Convenção sobre Diversidade Biológica”, definitivamente não foram alcançados tem um gosto amargo. Até 2010 – o Ano Internacional da Biodiversidade – deveria haver uma redução visível na degradação da biodiversidade global. Entretanto, vários estudos demonstram que, na verdade, ocorre o oposto (1). Enquanto os Estados Unidos e a Europa permitirem que sua “pegada ambiental” se expanda infinitamente até países como o Brasil (onde há muita terra, água e sol), a multiplicidade de vida continuará a diminuir. Enquanto os EUA e a UE não quiserem dar uma compensação financeira pela preservação do Cerrado e da Amazônia, a destruição vai continuar. Além disso, os países emergentes (Brasil, China, Índia, Rússia) começam a adotar o estilo de vida americano-europeu, o que só aumenta a pressão sobre o planeta. “Rei Carro e Imperador Presunto” estão globalizados.

Expansão generalizada de carne de gado na Amazônia

Em Rondônia, não são as savanas e, sim, a drasticamente desbastada Amazônia que é adorada como “o bezerro de ouro”. Já há alguns anos, o estado apresenta um crescimento anual de 16%. Esse número está muito acima do crescimento médio do Brasil, que até recentemente girava entre os 2,5% e 3%. A pecuária é uma parte significativa dessa expansão de Rondônia. Em 1996, havia 3.937.291 bovinos. No ano de 2000, já eram 6.584.212; em 2004, 10.676.093 de bois. Em 2006, cerca de 11.484.162 de bovinos circulavam nos 6.550.000 hectares de pastagens em comparação com cerca de 1.562.000 de pessoas; 7,35 vezes mais gado do que pessoas.
Uma história semelhante é válida para toda a Amazônia, embora menos extrema do que em Rondônia. No ano de 1991, o gado na Amazônia não era suficiente para alimentar sua própria população. Com o avanço do gado na região, o Brasil aumentou as exportações de carne de 500 milhões dólares, em 1995, para 1,5 bilhão de dólares, em 2003. Cerca de 80% disso vem da Amazônia.

Perspectivas geopolíticas

A população mundial dobrou em 50 anos; no mesmo período, o consumo de proteína animal quintuplicou. De acordo com projeções do Rabobank, o consumo de carne crescerá mais 40% nos próximos 20 anos – 70% desse volume por conta da Ásia. A China já tem, atualmente, metade da população mundial de porcos, mas não possui água e terra para produzir a ração. O avanço da soja e do milho, portanto, aumentará no país da “água-solo-e-sol em abundância”, o Brasil. O consumo mundial de carne suína ainda vai aumentar; a de carne bovina, diminuir. É precisamente o que vai acontecer aqui nos próximos anos: enquanto o campo foi preparado pela agricultura familiar – nos últimos 20 anos – pelo desmatamento para o gado, muitos desses agricultores serão expulsos (economicamente) nos próximos anos seguinte. Suas propriedades serão tomadas. Agora elas estão “limpas” para semear a soja em larga escala. Além disso, o agronegócio (inter)nacional, o Rabobank e outros bancos veem sobretudo o Cerrado como uma área particularmente fácil de ser explorada, com o objetivo de fornecer a ração necessária.
Enquanto isso, a IIRSA (Iniciativa de Integração da Infraestrutura Sul-Americana) – o plano internacional elaborado para “destravar” a América Latina – construiu as rodovias necessárias para exportar as commodities da forma mais eficiente possível. Dessa vez, não somente rumo a Europa e Japão, mas especialmente à China. Até lá, a indústria internacional de ração, com sua “Mesa Redonda sobre Soja Responsável” (2), já deve ter recebido o selo afirmando que sua soja é “socialmente responsável”, porque não foi produzida em áreas recentemente desmatadas. Verdade, no que diz respeito a essa região – isso aconteceu há 30 anos.

Mas o que significa “recentemente” na usurpação do planeta Terra?

Porto Velho, 19 de abril de 2010.

(1)    http://www.conservation.org
(2)    http://www.responsiblesoy.org
 
2.
Poltrona azul

Chove …
Elas têm um olhar triste …
Apesar de já velhas,
Mantêm uma falsa vida …
Querem viver mais,
Precisam tentar
Ser feliz.
Tarde ou não,
Elas insistem e eu,
Jovem, as invejo …

Autor: Cleverson de Oliveira

 
9. CPT, em defesa da vida na Amazônia

Desde minha juventude, os povos indígenas da Amazônia sempre foram meu “grande amor”. Em combinação com o levante dos povos indígenas dos Estados Unidos em “Wounded Knee”, em 1973 – e também uma música que foi sucesso na Europa e proibida nos EUA –, curiosamente eles me levaram à vida religiosa. Na tradição da Igreja Católica, mas com uma atitude transreligiosa. Até hoje, a “Wounded Knee” americana me dá saudade, vontade de voltar ao Brasil. É por isso que considero tão especial estar presente neste curso com representantes de quatro estados da Amazônia.

Um contexto em mudança

O título geral do encontro de três dias é: “No clamor dos Povos da Terra, memória e a resistência em defesa da Vida”. Uma das sessões trata da história da própria CPT (Comissão Pastoral da Terra). Na década de 1970, o movimento surgiu no contexto de uma ditadura militar que controlava tudo. As comunidades de base e a Igreja eram, muitas vezes, o único lugar para se capacitar e se organizar, ainda que fossem frequentemente clandestinas e sujeitas a muita perseguição. Portanto, o primeiro passo para a criação da CPT foi dado ainda no exílio, no Chile. Alguns dos padres exilados se reuniram em torno da questão: “O que devemos fazer? Permanecer na clandestinidade ou nos espalhar na base, no Brasil?”
A CPT nasceu das comunidades de base, com o apoio de muitos sacerdotes, religiosos e bispos, mas é uma organização ecumênica. Por isso não foi vinculada à CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). Ela mantém certa independência e, ao mesmo tempo, um vínculo pastoral, marcado pela presidência, que sempre corresponde a um bispo. Era e é uma organização “laica”, que deu visibilidade à questão agrária como uma das questões mais fundamentais no Brasil. A partir da CPT surgiu, em 1985, o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra). Tornou-se um movimento de massas que colocava o governo sob pressão permanente, para que esse finalmente colocasse a reforma agrária em prática.
Dois conceitos básicos fazem parte da metodologia da CPT:
•    Os objetivos da CPT abrangem a luta dos agricultores familiares para conseguir e se manter na terra e envolvem temas como produção, agroecologia, comercialização, direitos dos agricultores familiares, camponeses e trabalhadores rurais (por exemplo, o combate ao trabalho escravo). O conflito pela justiça na terra e contra a violência no campo também faz parte do trabalho da CPT.
•    Os próprios pobres são capazes de enfrentar os conflitos e superá-los. Os pobres organizados podem se libertar.
A “Pedagogia do Oprimido”, de Paulo Freire, é uma fonte importante para a metodologia. Também fazem parte das premissas do movimento: igualdade de gênero; agroecologia; trabalhar a partir da sabedoria popular; a religiosidade do povo como uma dimensão importante, um equilíbrio entre a razão e a emoção.

A CPT lança todo ano um novo livro sobre a violência no campo analisando os últimos 25 anos. O livro mostra, entre outros temas, que essa violência está novamente aumentando nos últimos anos. Em 2008, ocorreram 770 conflitos com 25 mortos e seis pessoas foram torturadas. Em 2009 já foram 870 conflitos, com 28 mortes e 71 pessoas torturadas. A triste pesquisa mostra que agora há mais violência e confrontos durante o governo do presidente Lula do que no governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. É semelhante aos violentos confrontos nos anos 1980. E 63% das mortes ocorrem na Amazônia.

O aumento pode ser interpretado de diferentes maneiras: por um lado, pode indicar o poder crescente do agronegócio (e seu temor de perder a hegemonia?); por outro, pode ser um sinal da crescente democratização (ou seja, as pessoas e suas organizações não aceitam mais a existência de tanta injustiça, ilegalidade e impunidade no Brasil).
O relatório também mostra um aumento na criminalização dos movimentos sociais. Não quer dizer que seus atos sejam criminosos, mas é assim que a imprensa e aqueles que têm muito a perder classificam suas ações e denúncias. Os defensores dos diretos humanos são processados e os movimentos sofrem todo tipo de perseguição judicial.

Limite da propriedade da terra

Com o apoio da CPT foi formado um fórum com 40 organizações a favor da reforma agrária, para mais uma vez denunciar os latifúndios – e, dessa vez, com um plebiscito. Eles querem coletar, entre 1º e 7 de setembro de 2010, um milhão de assinaturas, para poder chegar ao Congresso e colocar a reforma agrária de maneira mais forte na agenda política. O projeto de lei sobre o “limite da propriedade da terra” (1) quer, finalmente, estabelecer limites legais às grandes propriedades. Seria comparável ao estabelecimento de limite de velocidade nas estradas. Por que seria aceitável estabelecer limites de velocidade para a segurança no trânsito e não em termos da propriedade da terra? Em um país onde alguns têm uma área do tamanho da Suíça, será realmente uma tarefa difícil. No Congresso, a bancada ruralista tentará, utilizando todos os seus recursos, evitar que tal lei seja aprovada. Porém, o plebiscito servirá para conscientizar a opinião pública sobre a desigualdade da distribuição a terra.

Cartografia social da Amazônia

MST e CPT trazem o “T” de terra em seu nome. Há anos, portanto, eles lutam pela questão agrária e o direito de todos a um pedaço de terra para viver e produzir. Igualmente, há o “T” de território. As comunidades tradicionais (povos indígenas, mas também os quilombolas, pescadores artesanais, ribeirinhos) não pensam em termos de terras delimitadas. Eles pensam, sentem e vivem mais em territórios. A concepção de que a terra pode ser comprada e vendida não tem lugar na sua visão de mundo de um território. É um ecossistema, um espaço onde há uma multiplicidade de vida e da qual as pessoas, sua cultura e suas comunidades fazem parte. Por isso, é bom que, no segundo dia, alguém da Universidade de Manaus venha explicar o projeto da: “Nova cartografia social da Amazônia.” (2)
Não a partir da torre de marfim de uma universidade, mas com os vários grupos de moradores da Floresta Amazônica é dado início a um processo inovador. Histórias são contadas e registradas por escrito. A própria população elabora um mapa ecossocial, em interação com a universidade. Posteriormente, elas são publicadas em “fascículos” bem editados. A pessoa de contato da edição não é o professor da universidade e sua equipe, mas um representante da própria comunidade. Eu consegui um desses fascículos, “Kuntanawa do Alto Rio Tejo – Aldeia Sete Estrelas”, no estado do Acre. (3)
Muitos territórios indígenas, quilombolas ou ribeirinhos ainda não tem proteção legal. Porém eles são essenciais para manter a “identidade” de um povo. É uma iniciativa ousada revelar povos mantidos invisíveis na floresta. Ainda existe alguma paranoia nacionalista, como se fosse um presente para os Estados Unidos que, supostamente, querem ver a Amazônia preservada e, portanto, ficariam felizes em tomar posse desses territórios. Eles poderiam usar os mapas e, a partir do clamor dos povos por mais soberania, tentar subtrair essas regiões do governo brasileiro. Ao mesmo tempo, parece que o Exército Brasileiro também está a produzir novos mapas do Brasil…

Para muitos participantes, a história da CPT é bastante confrontante. A CPT sempre esteve, justamente, preocupada com a defesa dos pequenos contra os grandes, que muitas vezes ocupavam ilegalmente as terras. Desde sua criação, a CPT se ocupou especialmente com “terra” e não com “território”. Na verdade, eles defenderam mais os pequenos colonizadores – com seus pequenos pedaços de terra – contra a ganância e a violência dos fazendeiros do que os povos tradicionais. Com essa constatação, os participantes não fazem justiça a eles mesmos, porque agora eles estão fortemente envolvidos com a proteção dos direitos desses povos na grande floresta, mas vale a pena considerar essa tensão entre terra e território. Agora o reconhecimento dos territórios das comunidades tradicionais parece a melhor estratégia para defesa da Amazônia. Nos locais onde uma comunidade indígena ou ribeirinha tem seu território demarcado, as terras ficam fora do mercado ou, pelo menos, fica mais difícil de serem controladas pela capital. É por isso que, para o agronegócio, “indígenas e quilombolas são entraves do progresso”.

Quais novas estratégias podem surgir daqui? Tempo para organizar uma conferência nacional no próximo mês, em Montes Claros, Minas Gerais.

Plácido de Castro, 20 de abril de 2010.

(1) www.limitedaterra.org.br
(2) www.novacartografiasocial.com
(3) Contato com os Kuntanawa: Haru Kuntanawa: irapuru@ig.com.br; Iraldo Kuntanawa: jkontanawa@hotmail.com; Osmildo Kuntanawa: kontanawaosmildo@hotmail.com
 
10. Nós éramos obrigados a desmatar

É a última noite do curso da CPT. De acordo com o bom hábito brasileiro, isso significa “festa”. Menos divertido (para mim) é que se trata de um churrasco gaúcho, ainda que estejamos a milhares de quilômetros do Rio Grande do Sul. Ainda temos um longo caminho pela frente, para evoluirmos do “discurso” de mudança interessante durante o curso para a “prática” na vida real. Durante esses dias, foi falado muitas vezes sobre os “sulistas”, que introduziram aqui uma mentalidade muito diferente: um pedaço de terra para cada um, queimadas, desmatamento, criação de gado, monocultura, muito veneno, abatedouros, câmaras frigoríficas. Carne. Carne. Carne! Quem analisar as linhas de ônibus do Sul para o Norte do Brasil verá, claramente, como transcorreu a migração do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e, principalmente, do Paraná – passando por Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Rondônia – para o Acre. Nos feriadões, é possível observar verdadeiras migrações de famílias entre um estado e outro. Os estados de Minas Gerais e Espírito Santo também contribuíram com a mão-de-obra necessária para o desmatamento da Amazônia. Nos projetos de colonização, os migrantes foram obrigados a desmatar grandes extensões de suas terras, num período de três anos. Caso contrário, perderiam o direito de nelas permanecer.

Ainda estou trabalhando um pouco no computador, quando João Nunes calmamente vem se sentar a meu lado. João quer contar a sua história. Ele é um dos muitos que foram atraídos para o Acre, mas ele não jogou o jogo todo.

“Eu era boia-fria no norte do Paraná. Trabalhava nas plantações de soja e algodão, mas não conseguia comprar minha própria terra. Com o programa de colonização do Incra, fomos encaminhados para o Norte. Nossa família foi em 1986. Recebemos um lote de 51 hectares. O governo só dava apoio para a agropecuária. Ou seja, gado. Desmatar. Naquela época, as queimadas ainda eram permitidas. Agora elas são proibidas. Derrubar tudo com máquinas ainda pode. É o que os grandes fazem até hoje. De 1987 a 1995, o governo concedia subsídios para começar a criação de gado. Agora, ainda dão dinheiro para o mesmo fim, mas apenas para os fazendeiros.
Os técnicos do governo tomam conhecimento de apenas um modelo: criação de gado e muito veneno na produção. No Paraná, nos anos 1970-1980, aconteceu o mesmo: queimar, ampliar, aplicar veneno. Agora vejo, na TV Educativa do Paraná, que há muitas alternativas por lá e que os técnicos do governo também apoiam iniciativas agroecológicas.
Para seguirmos outro caminho por aqui, estamos totalmente sozinhos, nós desmatamos menos que os outros, criamos menos gado e mantemos uma ampla variedade de produtos. Nós não usamos veneno, mas não temos alternativas ou apoio. A assistência técnica está completamente dominada pela política, que só consegue pensar em termos de quatro anos e nas próximas eleições.
Graças ao fato de não termos desmatado tudo, ainda podemos colher açaí, borracha e óleo de copaíba na floresta. Após anos de discussões a partir da base, os políticos e os técnicos começam a mudar um pouco. Mas, enquanto isso, continuamos a criar gado e a biodiversidade da floresta está quase totalmente perdida.
E, agora, a primeira soja foi plantada em nosso estado. Será que vamos acabar no mesmo caminho de Mato Grosso e de Rondônia? Precisamos travar essa discussão agora, antes que seja tarde demais!”

Fico sem palavras ao ouvir a história dele. Sua vida é um resumo perfeito daquilo que tem acontecido aqui nos últimos 25 anos. É um desabafo sobre como pessoas à procura de um pedaço de terra – e um pouco mais de sorte – foram aprisionadas numa “camisa-de-força” de uniformidade. A milhares de quilômetros de sua terra natal…
Para fomentar ainda mais o debate sobre soja nos grupos de agricultores, ele leva um exemplar do livro “Navios que se cruzam na calada da noite. Soja sobre o oceano”. E, para ele próprio montar o quebra-cabeça: “Brasil-Europa em fragmentos?”
Será que já são cinco minutos após a meia-noite ou ainda podemos evitar que também o Acre seja totalmente despedaçado?

Acre, cheio de gado e, em seguida, cheio de soja. Nessas sequências, porque “não, os sojicultores não desmatam”.
Acre, onde se encontra uma casa aqui e ali, submetida à lógica do mercado internacional de carne.
Será que o capítulo final do último livro, “Ração animal, uma história de (inter)dependência” pode lançar alguma luz sobre esse ofuscamento planetário?

Plácido de Castro, 21 de abril de 2010.

Please follow and like us: