Isopor

O anúncio continua: “Hoje, 750 mil pessoas tomam nosso café especialmente selecionado em um de nossos estabelecimentos em 23 países ao redor do mundo. Londres, Bruxelas, São Paulo, Sydney, Nova Iorque, Paris, Zurique, Madri, Estocolmo, Hong Kong.” Sinto-me, imediatamente, um cidadão do mundo. E com razão! “O mundo do Caffé Ritazza”. Ou, como eu interpreto: “O mundo conforme Caffé Ritazza”.

Degusto o minúsculo cappuccino e, enquanto isso, leio artigos interessantes sobre a restauração do Edifício Copan, um dos grandes prédios da década de 1950, criado pelo arquiteto Oscar Niemeyer que, em 2007, comemora seu centenário. Outro sobre a via crucis da população na favela da Rocinha (Rio de Janeiro), a maior favela da América Latina. E sobre os moradores das ilhas do Oceano Pacífico, que lutam para sobreviver. Suas ilhas estão ameaçadas de submergir por causa do efeito estufa.

 

[Foto 41bis]

Em São Paulo, o Edifício Copan, de Oscar Niemeyer

 

Vejo a atendente jogar os copinhos de isopor no lixo. Pergunto se eles serão reciclados. Ela me olha como se eu fosse de Marte. “Não” é a resposta, curta e direta. Quando deixo o local, o anúncio orgulhosamente continua: “Se enfileirássemos os copinhos consumidos anualmente em nossos estabelecimentos, cobriríamos uma distância equivalente à entre Londres e Sydney.”

Engulo este amargo gosto residual de poluição do café e caminho até o simples hotel ‘Estação’. Meu vizinho foi embora. Como de costume, a porta está escancarada: todas as luzes acesas, a TV no volume mais alto. Não consigo saber se ele também deixou a torneira aberta. Um brasileiro com dinheiro suficiente para pagar um hotel nem desliga a luz. Isto é tarefa para os empregados.

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