Irina Maia – veg-brasil

From: "Irina Maia" cosmine@zmail.pt
To: veg-brasil@yahoogrupos.com.br
Sent: Wednesday, July 16, 2003 6:46 PM
Subject: [veg-brasil] animal vs planta, experiencias c/ animais e vegetarianismo (desculpem o tamanho da carta, mas entusiasmei-me)

Olá a todos!

Estou nesta lista há pouco tempo e apanhei a meio as discussões sobre a diferença animal/planta e o uso de animais de laboratório para experiências. Tenho muito a dizer acerca de tudo isso e também gostaria de vos contar como me tornei vegetariana.

Antes de começar, queria dizer-vos que sou quase bióloga (falta-me um ano de curso) e que já fiz experiências em animais (rãs e ratos) em aulas práticas de fisiologia animal. Mais à frente falo-lhes dessa minha experiência e do impacto que teve na minha vida.

Eu aborreço-me de ver pessoas que comem carne sem remorsos, ridicularizar os vegetarianos recorrendo a argumentos incompletos e ignorantes. Mas também me aborreço quando os vegetarianos não têm capacidade para mostrar a essas pessoas o quanto estão erradas.

Já conheci vegetarianos que o são porque não gostam de carne, vegetarianos por pena dos animais que são criados para abate, vegetarianos por questões de saúde, vegetarianos por problemas éticos profundos acerca da exploração dos animais para proveito humano e vegetarianos por questões ecológicas.

Eu acho que todos esses tipos de vegetarianos, ao basearem a sua opção numa só razão facilmente abalável, correm o risco de não conseguirem defender com coerência a sua posição, pois há sempre argumentos que podem ser usados para demonstrar que esses vegetarianos não são sempre 100% fiéis ao princípio único que os levou ao vegetarianismo.

Eu tornei-me vegetariana um pouco por todas essas razões e quando me perguntam porque tomei esta decisão na vida, eu refiro todas essas razões. Penso que é muito mais difícil a alguém ridicularizar ou desprezar uma opção de vida que assenta em várias boas razões do que apenas numa ou duas. Se mostrarmos o vegetarianismo como uma opção com muitas vantagens em vários campos relativamente ao consumo de produtos animais, temos muito maiores probabilidades de ser compreendidos e de não nos julgarem fundamentalistas.

Quando me perguntam porque sou vegetariana, começo por desmistificar a idéia de que os produtos animais são essenciais à nossa sobrevivência e que têm nutrientes ausentes nos vegetais.

Falo no absurdo a que chegaram as sociedades modernas, em que a natureza está em colapso, há falta de terras para cultivo, há falta de água para consumo e agricultura e gastam-se quantidades enormes desses recursos a produzir animais que nem mesmo nos recompensam nutricionalmente tudo o que neles foi investido, ao mesmo tempo que contribuem para uma mão-cheia de doenças degenerativas do nosso organismo.

Falo no facto de o ser humano alegar que é superior aos animais numa série de coisas, mas quando se trata de comer outros animais desculpa-se com as leis da natureza e o instinto animal. Mas o ser humano já possui o conhecimento de que não necessita de produtos animais para sobreviver, logo pode evitá-los e poupar da tortura e do massacre milhões de criaturas do nosso planeta, sensíveis e sofredoras. Acha-se superior pela sua inteligência e capacidade de fugir às condicionantes naturais, mas quando chega à questão da gula, recusa-se a usar a consciência e a racionalidade. Por fim, conto a história de como me tornei vegetariana e de todas as vantagens que isso me trouxe.

Não me lembro bem quando comecei a saber claramente o que queria, mas lembro-me que na adolescência, quando já tinha alguma voz no seio familiar, me revoltava muito com o que me obrigavam a comer, em termos de qualidade e quantidade. Eu era gordinha, preguiçosa, rabujenta e sempre adoentada. Mas os pais e avós sempre diziam "Come mais, come mais, precisas comer mais para ficares forte e saudável." e " Come carne, faz-te bem.". Paralelamente, de 15 em 15 dias, lá ia eu com a mamã a um médico novo, com mil e um problemas de saúde chatos, estranhos ou desconhecidos e sem causa aparente.

Penso que foi só após os 18 anos, que mudei a minha alimentação de vez. Tenho agora 22 anos e muito mudou em 4 anos. No fim, está a história mais detalhada, que enviei para outra lista, se quiserem saber como eu era doente e deixei de o ser graças ao vegetarianismo.

Houve aqui na lista alguém (uma das Julianas, acho eu) que acusou os vegetarianos de serem incoerentes por não comerem carne e produtos animais mas usarem sapatos de couro e tomarem remédios testados em animais.

Eu acho essa questão muito idiota e só pode vir de alguém que ainda não pensou muito na vida e naquilo que é a existência humana e nas opções que tem à sua disposição, ou, se já pensou, está limitado por algum obstáculo mental e não consegue ir muito mais longe no seu raciocínio.

Esse tipo de conversa pode aplicar-se também aos ecologistas para os acusar de inúteis e classificar o seu trabalho e dedicação como esforço inútil. Afinal podemos acusá-los de lutarem pela a Amazônia e outras florestas do mundo, mas usarem papel higiénico para limpar o rabo contribuindo assim diariamente para a desflorestação.

Ninguém é perfeito e ninguém consegue, neste mundo altamente complexo, viver 100% de acordo com os seus ideiais. É por isso que são ideiais! Uma meta que se quer atingir e da qual nos tentamos aproximar cada vez mais. Como seres humanos imperfeitos, sujeitos aos hábitos e regras da sociedade que nos oprime, é muito difícil não cometermos alguns desvios aos nossos ideiais. Mas nada disso invalida tudo o que conseguimos fazer (por estar mais ao nosso alcance), a favor da defesa dos nossos ideiais.

Eu tenho uma mochila de pele de vaca. Comprei-a há cerca de 10 anos. Hoje já não a compraria. Sei que ao andar com ela as pessoas ficam a pensar "Então mas és vegetariana e contribuiste para a morte dum animal?", mas precisamente para que a morte dele não tenha sido em vão, continuo a usá-la e espero que dure o resto da vida. Entretanto não volto a comprar mais nada em cabedal. Evito comprar produtos de origem animal, mas por vezes lá me escapa algum, que só mais tarde dou por isso. Cosméticos, só se garantidamente não testados em animais. Quanto a remédios. Bem… desde que sou vegetariana nunca mais fiquei doente, portanto não tenho necessidade de qualquer um. Basta-me um chá de limão se sinto alguma ligeira irritação na garganta, para ajudar o corpo a combater os intrusos que gostariam de se instalar.

Acho que se um vegetariano (ou mesmo um carnívoro) ficar doente por alguma razão, deve procurar curar-se pela medicina natural.

Também vi alguém dizer aqui na lista que mesmo os produtos fitoterapêuticos (?) são testados em animais. O que li não me pareceu claro nem correcto. Sei que presentemente, os velhos cientistas estão a reconhecer o valor da fitoterapia após anos a ridicularizá-la e a desprezá-la e estão a conduzir experiências científicas que demonstrem as virtudes das plantas, há milhares de anos conhecidas empiricamente, por experiência própria da humanidade. Dada a segurança de todos esses produtos, creio que as experiências são feitas com voluntários humanos e não em animais, pois só se pretendem testar se realmente são eficazes como "diz o povo" e se não têm desvantagens desconhecidas. Sabe-se à partida que eles não matam. Mas não vou divagar mais por aí, porque não percebi aquilo que foi dito aqui sobre o assunto e posso estar a afastar-me da questão.

Acho que um vegetariano também tem direito a usufruir de produtos farmacêuticos que eventualmente tenham sido testados em animais e acho que não devem sentir embaraço por isso.

Como bióloga sei que ainda não há meios económicos e eficazes de se testarem certos produtos sem ser em animais e que nem todos esses testes resultam em morte ou sofrimento dos animais, mas também sei muito bem que há testes que são absurdos, desnecessários e que certos laboratórios usam e abusam de animais como se eles fossem mais um tubo de ensaio, não fazendo qualquer esforço para aumentar o seu bem-estar ou reduzir a sua utilização. A ideia de que os testes em animais são imprescindíveis é falsa. Cada vez mais se procuram e se aplicam formas alternativas de conduzir testes laboratoriais de produtos, como p.ex. culturas de células, tecidos e orgãos. Hoje sabemos que a nossa diferença em relação aos ratos e outras cobaias de laboratório são enormes e que os resultados dos testes neles não são de forma alguma transponíveis para a realidade dos nossos corpos humanos. Os resultados destes testes servem apenas de guia, de orientação, mas nunca têm grande valor como prova de efeitos nos seres humanos.

Mas acho que os vegetarianos e defensores da vida e bem-estar dos animais em geral não devem ser radicais e compreender que se deve lutar para reduzir ao mínimo o uso de cobaias e para se diginificar a sua existência, mas que, até boas alternativas se generalizarem, não se deve lutar para acabar totalmente com ele, se nalguns casos isso for importante para a humanidade. É preciso é lutar pela consciencialização de quem usa cobaias para um uso racional e sensível dos animais.

Vou falar-vos dum caso em que a morte e experimentação em animais é perfeitamente desnecessária. E também da dessensibilização perante o sofrimento animal de quem os usa em experiências.

No meu segundo ano de curso de biologia, tive Fisiologia Animal e pelo menos 4 aulas práticas envolviam experiências com animais. Tinhamos de "brincar" com os nervos e músculos de rãs e de ratos em estado de morte cerebral, mas o corpo ainda vivo.

No caso das rãs, o professor perfurava-lhes o crânio com uma agulha grossa, atingindo-lhes um qualquer ponto que causava a morte cerebral, no caso dos ratos, o professor dava-lhes uma dose elevada de anestesia para lentamente entrassem em coma e pudéssemos usar o seu corpo quando estivesse em morte cerebral mas ainda vivos fisicamente.

Todos os anos cerca de 100 alunos têm esta cadeira e é disponibilizado um animal para cada grupo de 3 ou 4 alunos. Façam contas ao número de vítimas e depois tirem conclusões. De seguida multipliquem por todas as faculdades de biologia do mundo. Agora pensem que isto se repete todos os anos. Acrescentem ainda as aulas de biologia nas escolas, aonde, nalguns casos esta moda também já chegou. Falta contabilizar as faculdades de medicina e de veterinária e mais algumas de que não me lembre agora, mas a realidade dessas eu não conheço e por isso não vou falar.

Aqueles bichos que morrem às mãos dos alunos de biologia, morrem sem qualquer razão de jeito que o justifique. Apenas uma parte desses alunos vai eventualmente fazer dissecções, vivisecções e experimentações em animais no seu futuro profissional. Muitos deles irá mesmo trabalhar com plantas. Então para quê aquela experiências macabras?

Alguns professores aceitam que nos recusemos participar nessas aulas e não nos prejudicam por isso, outros acham uma estupidez um aluno alegar princípios éticos e marcam falta e prejudicam a nota. No meu ano, o professor, que é bastante jovem e aberto, aceitou a recusa dum colega meu (que é vegan) em participar naquilo. Eu estive muito indecisa sobre que posição tomar. Se não fosse marcava a minha posição, mas não ficava a conhecer por dentro aquela realidade. Confesso que acabei por participar nas aulas. Senti que precisava de viver aquilo para poder criticar a situação com conhecimento de causa. Além do mais não morreria menos um animal só por eu não ir. Também confesso que não me arrependi, pelas lições que delas retirei. Mas as lições que tirei nada tiveram a ver biologia, nem fisiologia animal. De facto aquilo que fizémos foi só estimular electricamente nervos e ver músculos a contrair. Qual o valor pedagógico disso? Nem mesmo o efeito era impressionante. Podíamos ter lido nos livros e ficávamos exactamente com a mesma ideia sobre a questão.

Na primeira aula senti-me quase desmaiar. Tinha uma dor de barriga bem forte, suores frios e as mãos a tremer. Tive que esfolar uma rã e cortar aqui e ali. De vez em quando uma pata mexia-se, ou os olhos reviravam-se. Mesmo com a cabeça cortada o bicho ainda mexia os olhos. Nessa noite tive pesadelos terríveis. O professor garantia que eram só reflexos mecânicos, pois há muito que a rã não sentia nada, nem tinha consciência de nada (afinal estava cerebralmente morta), mas é difícil engolir isso quando um bicho esperneia nas nossas mãos enquanto o cortamos ao meio.

Tenho que vos contar algo ainda mais horripilante. Após 4 aulas semelhantes (na última usámos um rato de laboratório branco, tipo ratazana), no final da experiência com o rato, um colega meu propôs a um grupo, no qual eu estava incluída, se não queríamos "brincar" um pouco mais com o bicho, cortar aqui e ali e ver o que acontecia. Tudo pelo bem da nossa formação. Durante uns segundos brilhou-me nos olhos e nos lábios um sorrisinho sanguinário e cheguei a pegar na tesoura para começar a fazê-lo. Felizmente houve um outro colega que me chamou à razão, dizendo consternado que isso já seria ir longe demais.

Acerca disto, aconselho-vos a ler "A vida de Pi" de Yann Martel. É um livro cru e cruel, principalmente para os vegetarianos e amantes dos animais, mas vale a pena (apesar de não concordar com tudo o que é dito sobre zoos e circos). Neste livro há uma passagem em que o personagem também sente isto que eu senti momentaneamente. Ele traduz isto de forma muito simples, somos capazes de nos habituar a tudo, até a matar, mesmo que sempre tenhamos sido vegetarianos pacifistas.

Felizmente não fiquei com o hábito de matar, mas acredito que se as experiências tivessem continuado, eu me teria habituado de tal forma, que não só deixaria de me impressionar, como passaria a dar-me gozo. Deve ser muito difícil a qualquer cientista que tenha de sacrificar diariamente animais, não se tornar frio e insensível perante a morte e sofrimento dessas criaturas. É contra isso que devemos lutar. Estas pessoas não devem ficar insensíveis. Não devem ver os animais como simples instrumento de trabalho. Devem tratá-los com todo o respeito e sentir necessidade de pedir desculpa a cada animal que tenham de matar, como faziam os caçadores em tempos idos, quando havia veneração pela mãe-natureza e se consideravam todos os animais como nossos irmãos. Isso para mim já seria um grande passo da humanidade.

Quanto à questão de comermos plantas que também são seres vivos sensíveis…

De facto as plantas são seres vivos, mas não são comparáveis aos animais, muito menos em termos de sensibilidade.

O que vou dizer agora é uma opinião de alguém que tem uma ligação profunda às plantas, não apoiada cientificamente, mas que eu penso que possa vir a ser um dia. Digamos que é a minha intuição, misturada com algum conhecimento de biologia vegetal.

A questão é muuuuuuito complexa e assenta na discussão acerca do que é o sofrimento e de quais os seus limites (aonde começa o sofrimento, em que nível de consciência animal começa a noção de si próprio e o horror ao sofrimento).

Apesar de não haver uma ideia do nível exacto em que se dá a transição de organismos que não sofrem, para organismos que sofrem perante a iminência da morte, essa transição ocorre já no reino animal e os vegetais têm uma sensibilidade completamente diferente e sem ligação a esse tipo de problemáticas. Os animais sofrem e receiam a morte quando a sua "inteligência" lhes permite terem consciência da morte iminente. Qualquer animal que lute para se manter vivo e estrebuche quando a sua vida está em vias de se evaporar sente-se "angustiado" e "assustado" com isso. Em muitos casos, consta que isso é mesmo só uma reacção instintiva de sobrevivência, mas talvez devêssemos ser menos precipitados a tirar conclusões nesses casos. Seja como for, o leque de animais que sofre realmente é muito grande, principalmente entre aqueles que o ser humano mata para comer, geralmente mamíferos superiores extremamente sensíveis ao sofrimento.

As plantas sentem. Gostam de música, que falemos com elas, que as acarinhemos, não gostam de ser maltratadas e sentem quando se lhes corta um bocado (mas não com dor, é apenas uma questão de receberem a informação de que foram feridas em determinado sítio).

Mas as plantas têm uma coisa extraordinária que acho que só os seres humanos mais iluminados também têm: desapego a uma personalidade, desapego à individualidade. É difícil falar de indivíduos nas plantas, porque é tão comum propagarem-se vegetativamente e por meios pseudo-sexuais. A sua genética e hereditariedade são incrivelmente complexos e mostram que os limites que impomos à natureza para facilitar a sua compreensão, como definirmos "isto é uma espécie" e "isto é um indivíduo duma espécie", não se aplicam ao reino vegetal. Também é raro que tenhamos de matar uma planta para a comer, comemos os frutos, as folhas, se os tirarmos a planta produz mais sem qualquer dano para si própria.

Elas estão mais ligadas aos grandes ciclos de renovação da matéria. Estão continuamente a contruir-se com o que retiram da terra e a voltar a ela, não têm destas lamechices (perdoem a expressão) que os animais têm com a sua própria vida, este medo desgraçado de morrer, este desespero em se agarrarem à vida com medo do vazio escuro da morte. As plantas são, de certa forma, superiores a isso.

Cada um pensa o que quer, mas eu consigo sentir quando uma planta "sofre" ou não. Já "matei" plantas para fazer composto que nutrisse outras e não senti nelas revolta alguma pela sua "morte", pois apenas iriam ser transformadas noutras plantas. E também já senti plantas infelizes por irem "morrer" por caprichos de humanos que não as respeitam ou amam.

 

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