Impactos ambientais da produção de carne – 6

Impactos sócio-ambientais

A prioridade que o Brasil escolheu dar ao agronegócio é, para dizer o mínimo, discutível. A insustentabilidade desse modelo, que destrói nossos biomas, contradiz o projeto de erradicação da fome dos brasileiros, pois, como se sabe, o agronegócio é primordialmente voltado para a exportação. A soja que devasta o Cerrado e invade a Amazônia não vira alimento para pessoas, é exportada e transformada em ração de bois, frangos, porcos e peixes criados em cativeiro. Enquanto isso, fome e destruição assolam quase metade da população mundial.

O agronegócio de alta tecnologia voltado para exportação, com suas técnicas avançadas de cultivo, é uma opção produtiva absolutamente cruel num país com taxas altíssimas de desemprego. Na Amazônia, uma grande fazenda padrão emprega diretamente um único funcionário para cada 700 cabeças de gado, numa área de 1.000 hectares. Um disparate, se comparado aos mais de 100 empregados de uma cooperativa de agricultura familiar ou aos 250 trabalhadores de uma agro-floresta com regime de permacultura, operando em área equivalente. Eis a prova do custo social da carne. Basta verificar o índice de desenvolvimento humano da Ilha de Marajó, por exemplo, para constatar que pecuária intensiva só é fonte de renda para o fazendeiro. Lá, o lavrador foi marginalizado e expulso da terra para dar lugar aos bois e às máquinas e só quem lucrou com isso, foram os coronéis de gado.

O mesmo se vê em todas as regiões tomadas pela pecuária. A terra fica, invariavelmente, nas mãos de poucos latifundiários e emprega-se o mínimo de mão-de-obra. A atividade ainda requer constantes subsídios governamentais, conquistados à base de lobistas e, principalmente, de uma bancada pecuarista – praticamente vitalícia – no poder legislativo.

O estrago sócio-ambiental da produção de carne vi mais além quando contabilizamos as milhares de pessoas degradadas pela presença de abatedouros em sua vizinhança, resultando na condenação de comunidades inteiras a uma ocupação aviltante e desumana. Boiadeiros, açougueiros, “tratadores” e muitas outras categorias: há todo um contingente profissional envolvido na deplorável indústria da carne, composto por uma classe de pessoas desmoralizadas e barbarizadas, obrigadas pela (o) pressão econômica a despir-se de humanidade e sensibilidade.

Enquanto o país se entrega à falta de escrúpulos do colonialismo ambiental e faz avançar as lucrativas fronteiras agrícolas, populações indígenas continuam sendo brutalmente expulsas de suas terras, comunidades ribeirinhas assistem impotentes à degradação de seu meio de subsistência, pequenos agricultores são massacrados pelos latifundiários e o trabalho escravo é usado com cada vez mais freqüência. Aliás, segundo estudo realizado pela ONG Repórter Brasil, a atividade pecuária é a campeã brasileira da escravidão, pois emprega pelo menos 62% da mão de obra escrava utilizada hoje no país.

Fim da fome?

50% dos cereais produzidos no mundo e 35% das capturas pesqueiras alimentam animais dos países do hemisfério Norte.

A conta é simples: metade da agricultura mundial é voltada para a produção de ração para animais. E a carne dos animais abatidos é acessível a menos de 15% dos seres humanos. O consumo mundial de carne está restrito a poucos países. Estados Unidos, União Européia, China e Brasil concentram o consumo global de cerca de 60% da carne bovina, mais de 70% da carne de frango e mais de 80% da carne de porco. O resto dos países, ou seja, a maior parte da população global, pratica uma espécie de semi-vegetarianismo compulsório. Os lobistas da carne afirmam que o aumento na produção pecuária poderia tornar a carne acessível a todos. Mas não confessam que para alimentar uma população de 6,5 bilhões de carnívoros, seria preciso mais dois planetas como a Terra só para pastagens e produção de grãos/ração.

Então, se o consumo de carne fosse repentinamente abolido, as safras de grãos e hortaliças, antes destinadas aos animais, seriam repassadas para as pessoas, solucionando o problema da fome mundial? Bem, as causas do problema da fome são muitas e o vegetarianismo não pode – nem pretende – assegurar que os alimentos chegarão a quem tem fome, porque isso esbarra em questões políticas e econômicas que dizem respeito à conveniência dos sistema de distribuição de recursos em relação aos interesses de grandes empresas, oligarquias seculares, aspirações imperialistas de alguns governos, etc.

Por outro lado, o vegetarianismo tem uma contribuição inequívoca a dar em termos de produtividade. Qualquer projeto cuja meta seja o combate à fome e a implementação de um sistema produtivo sustentável, em que o uso da terra seja otimizado de forma a satisfazer as necessidades do maior número possível de pessoas, deverá, obrigatoriamente, considerar a ênfase no vegetarianismo. Veja porque:

• A maior parte dos grãos cultivados no mundo é utilizada para alimentar animais de criação. Mesmo que depois estes animais viessem a alimentar todas as pessoas – e este não é o caso – não se justificaria tamanho desperdício: é preciso cerca de 11 a 17 calorias de proteínas de grãos para criar uma única caloria de carne bovina (a carne de peixe, frango ou porco não oferece grande variação nestes valores).

• Como a dieta vegetariana elimina um intermediário – ou mais – da cadeia alimentar, é lícito afirmar que os grãos são usados com mais eficiência quando consumidos diretamente por seres humanos.

• Para se ter idéia do tamanho do desperdício, um exemplo: um gato de estimação norte-americano consome em média, mais grãos por dia, indiretamente, do que um ser humano come diariamente na Ásia, na África ou na América Latina.

• Uma fração irrisória – 0,3% – das 465 milhões de toneladas de grãos utilizados para alimentar animais bastaria para salvar da desnutrição os 6 milhões de crianças menores de cinco anos que morrem todos os anos. Uma parcela de 2,5% deste total seria suficiente para erradicar a fome no Brasil. Com 50%, dá para acabar com a fome no mundo.

Sustentabilidade e novos paradigmas

Na nossa cultura, a natureza é vista como uma grande fábrica, como parte produtiva do todo. Acontece que as peças dessa engrenagem estão quebrando e não há reposição. Nosso modelo de civilização avançou tremendamente no mundo virtual, mas não modificou os fundamentos energéticos da revolução industrial. Evoluímos no plano técnico e quase nada no plano ético. Basta ver todas as conseqüências nefastas do uso da matriz baseada na queima de combustíveis fósseis. Poluímos a água, o solo e o ar, comprometemos a biodiversidade, acumulamos lixo, devastamos florestas e mares. Seguimos um padrão de uso terra inventado no período neolítico e cuja viabilidade já era questionável há 500 anos, quando ainda éramos cerca de meio bilhão de pessoas vivendo no planeta. De lá para cá, a população cresceu 13 vezes e o sistema continua o mesmo – usamos o solo até a exaustão, abandonamos a terra arrasada e, sem pestanejar, iniciamos a exploração de um novo espaço. Moral da história: se continuarmos engessados pela ótica capitalista de mercado, é muito grande a chance de o planeta entrar em colapso de forma irreversível em duas ou três décadas. Pela primeira vez, a sociedade humana, como um todo, se dá conta da enrascada em que se meteu e se vê obrigada a repensar – e reinventar! – o padrão insustentável de consumo que o capitalismo das grandes empresas lhe impõe maciçamente. Se, de fato, cair a ficha do ridículo dessa alienação pelo consumo, a humanidade só terá a ganhar. Haverá possibilidade de mudar também, por tabela, o jogo sujo da concentração de renda e da exclusão social. E de estreitarmos positivamente nossa relação com os demais seres vivos e com o planeta.

Conclusão

É preciso deixar claro que esse guia não pretende insinuar que o consumo de carne seja o único nem sequer o principal responsável pelas mazelas ambientais que a espécie humana tem causado ao planeta. Mas certamente é um dos principais, e o que queremos aqui é enfatizar que esse fator diz respeito, única e exclusivamente, à escolha de cada um. Talvez você não possa morar fora de uma grande metrópole, nem gastar mais para consumir alimentos orgânicos, nem tenha alternativa para se deslocar até o trabalho em transporte coletivo. Mas a decisão de incluir carne em seu cardápio diário está ao seu alcance e, em última instância, só depende de você.

O que você pode fazer

Hoje, a luta pela terra, pelo ar, pela água e pela preservação dos biomas vincula-se ao destino final da humanidade.

Tomar posição e adotar atitudes que perpassem os diferentes níveis de ação micro (indivíduo), meso (local) e macro (global).

No plano pessoal: mudar os padrões de consumo. A dieta carnívora, sobretudo em larga escala, é comprovadamente insustentável. Ao eliminar o consumo de carne, você diminui, ao mesmo tempo, o desperdício de água, de proteínas vegetais, o desmatamento, a desertificação, a extinção de espécies, a destruição de habitats e até biomas inteiros. De quebra, ainda ajuda a diminuir o rebanho bovino e sua emissão de metano – poderoso agente de efeito estufa. Tomado isoladamente, o gesto individual não tem resultado objetivo mensurável, mas quando é uma postura adotada por grande número de pessoas, influi objetivamente nas condições do planeta.

No plano local: podemos participar de eventos e movimentos coletivos, marcando presença em manifestações públicas e abaixo-assinados, denunciando agressões ambientais, etc. Assim seremos uma voz a mais a engrossar a corrente dos que querem mudanças.

No plano global: colaboramos ao participar de entidades ambientalistas e organizações que promovem o vegetarianismo; ao eleger para as esferas governamentais representantes que sejam comprometidos com a conservação de ecossistemas; ao lutar pela proteção das reservas ambientais que já existem e pela criação de novas áreas. Mas nem tudo isso é capaz de mudar as regras do jogo. O produtor de carne não paga a água que usa, nem os abundantes efluentes (água contendo restos químicos e orgânicos) que gera. No preço da carne para o consumidor final não estão contabilizados estes custos, nem os danos ambientais causados pela criação de novas áreas. Mas nem tudo isso é capaz de mudar as regras do jogo. O produtor de carne não paga a água que usa, nem os abundantes efluentes (água contendo restos químicos e orgânicos) que gera. No preço da carne para o consumidor final não estão contabilizados estes custos, nem os danos ambientais causados pela criação de animais. Esses custos, e muitos outros que enumeramos, são subsidiados pelo governo. Ou seja, nós, contribuintes, pagamos para que o setor pecuário desfrute dos lucros. Assim, antes de mais nada, para que a indústria da carne pare de crescer, tem que deixar de ser um bom negócio! Para isso, os custos precisam ser levados em conta – e o consumidor tem de se conscientizar do seu poder sobre o mercado.

FONTES DA PESQUISA:
No Brasil: Cetesb; IBGE; Instituto Akatu; Instituto Cepa; Instituto Nina
Rosa; Instituto Peabiru; Instituto de Pesquisas Amazônicas (INPA);
Instituto Socioambiental; ONG Repórter Brasil; Relatório Unesco para
o Fórum Mundial da Água; Sabesp; WWF Brasil. No exterior:
Conservation International; David Suzuki Foundation; Environmental
Justice Foundation; FAO/ONU – Food and Agriculture Organization of the
United Nations; Federação do Salmão-do-Atlântico; Greenpeace;
Oxfam International; Relatório Our Food Our World – The Realities of an
Animal-Based Diet, da Earth Save Foundation;Worldwatch Institute.
Documentário: Deep Trouble, da BBC. Livros: Amigo Animal: Reflexões
interdisciplinares sobre educação e meio ambiente, ética, dieta, saúde,
paradigmas, de Paula Brügger; Ecologia: Cuidar da Vida e da Integridade
da Criação, do CESEP; Fundamentos do Vegetarianismo, de Marly Winckler.
Artigo: Você já comeu a Amazônia hoje?, de João Meireles Filho.

 

“Cada um compartilha da responsabilidade pelo presente e pelo futuro, pelo bem-estar da família humana e de todos os seres vivos.”

Carta da Terra

REALIZAÇÃO:

Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB)
www.svb.org.br
Departamento de Meio Ambiente
Desde que não haja fins lucrativos e seja citada a fonte, não só permitimos
como incentivamos a divulgação e a reprodução, em qualquer meio, de
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 Fonte: SVB

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