Impactos ambientais da produção de carne – 5

Biomas brasileiros x indústria da carne

Entre 2002 e 2005, foram desmatados 70 mil km² na Amazônia. Do cerrado, que contém um terço da biodiversidade brasileira, hoje restam 20%. E menos de 7% da Mata Atlântica está de pé.

Dezenas de milhões de hectares de vegetação nativa brasileira são queimadas anualmente. Ao contrário do que se pensa, madeireiras, rodovias e urbanização desordenada desempenham papel secundário nessa destruição. A pecuária bovina sempre foi personagem principal na história da ocupação do Brasil. Desde que Cabral aportou por aqui, as patas dos bois, financiadas por seus criadores, foram responsáveis, em diferentes épocas pela destruição da Caatinga, pela quase extinção da Mata Atlântica, pela devastação do Cerrado e hoje, perseguem obstinadamente a meta de acabar com a Amazônia.

Há duas décadas, a pecuária ganhou um poderoso aliado nessa missão destrutiva: a monocultura de soja, que serve para alimentar, nos países desenvolvidos, rebanhos de animais cujas patas não têm mais mato para destruir.

A remoção acelerada da vegetação original transforma completamente o ambiente e torna-se impróprio para a maioria das espécies nativas, o que acaba por eliminá-las. Os raros animais que conseguem se adaptar acabam sendo mortos pelos fazendeiros. Além disso, diversas zoonoses, como raiva, toxoplasmose e febre maculosa, transmitidas do gado para animais silvestres, resultam quase sempre na eliminação destes últimos.

A produção industrial de carne afeta todos os nossos biomas e, de quebra, a biodiversidade, que é a variedade de organismos vivos de todas as origens. E a nossa é das mais ricas do planeta: entre 15% e 20% do 1,5 milhão de espécies catalogadas estão aqui. Veja um resumo dos estragos provocados nos biomas brasileiros:

Zona Costeira – Esse bioma inclui as restingas e os manguezais, estes últimos, áreas de berçário, refúgio e alimentação de uma diversificada fauna marinha. Com a vegetação única e adaptável a elevados teores de salinidade, os mangues estão sendo arrasados pela criação de camarões. No Nordeste, no lugar, desses ricos ecossistemas há centenas de tanques para a carnicicultura e já se verifica a diminuição da biodiversidade, que prejudica diretamente a economia e a segurança alimentar de inúmeras comunidades tradicionais de índios e pescadores. Como o litoral brasileiro é recortado por incontáveis rios e lagunas, o impacto da produção industrial da carne também pode ser medido pela poluição, assoreamento e eutrofização das fontes de água doce de toda a região costeira.

Cerrado – Os cerrados eram considerados áreas improdutivas do ponto de vista agrícola. Havia apenas pequenas lavouras e criações de animais. Com as novas tecnologias agrícolas, no entanto, os cerrados foram tomados por grandes latifúndios de monocultura, responsáveis por 40% d produção nacional de grãos. Há milho, feijão e outros, mas a soja – que vira ração para o gado europeu e norte-americano – predomina: a região responde por 41% da produção nacional. Para completar o estrago, 42% do rebanho bovino brasileiro pasta nessas terras. Desde os anos 70, o cerrado, que é o segundo maior bioma do país, perdeu 50% de sua vegetação nativa e viu comprometidos nascentes, rios e riachos. Se essa vegetação sumir, acabam os mananciais da região, “a grande caixa d´água brasileira”. Um rio como o São Francisco tem ali 80% da origem de suas águas. É do Planalto Central que se alimentam bacias hidrográficas que correm para os quatro pontos cardeais. Mas a devastação é tão veloz que ambientalistas asseguram que só uma moratória integral da expansão agropecuária pode salvar o que resta do cerrado.

Caatinga – A pecuária não ameaça mais esse bioma rico em biodiversidade, tanto vegetal quanto animal (sobretudo de insetos), simplesmente porque não é mais viável economicamente. Mas, no final do século 16, quando o gado do litoral foi levado para o interior, a fim de não competir com a cana e o algodão plantados na zona costeira, é que a tendência à aridez da caatinga começou a se intensificar. A terra que era antes viável, hoje é quase um deserto.

Pantanal – esta vasta planície de inundação, toda entrecortada por curso d´água, é um bioma vital para uma infinidade de aves aquáticas, espécies migratórias, grandes répteis e mamíferos de todos os tipos e ainda apresenta uma das mais ricas reservas de vida selvagem do mundo. Entretanto, as queimadas, derrubadas de árvores e assoreamento dos rios ameaçam sua vida. Mais uma vez, o motivo é a sede da pecuária por novos pastos. O turismo, que parecia ser uma boa alternativa econômica à criação de gado, na realidade é um perigo a mais: tragicamente, pesca e caça esportivas já ultrapassam os limites de sustentabilidade daquele ecossistema.

Mata Atlântica
– Da floresta original que recobria todo o litoral brasileiro, hoje resta menos de 7%. O mais rico bioma brasileiro em biodiversidade por km² foi ao longo da história, trucidado pela exploração de pau-brasil, cana de açúcar, café e, quando ainda havia algo a ser salvo, pela abertura de pastos, sobretudo, para gado leiteiro. É o exemplo mais contundente e visível – no bioma, vivem mais de 80 dos brasileiros – do nosso modelo predatório.

Pampa – Campos vastos, matas ciliares, matas de encosta, banhados e capões. Apesar de caracterizada por extensas planícies aparentemente homogêneas, a região tem fauna e flora ricas – uma infinidade de insetos alimentam enorme variedade de pássaros. O bioma ainda sofre as conseqüências do erro cometido nos anos 60, quando o governo estadual trouxe sementes de um tipo de capim africano sem antes realizar testes. Difundidas entre os fazendeiros, parte dessas sementes escondiam um intruso: o capim annoni. Pesquisas posteriores mostraram o baixo valor do capim africano como alimento para o gado e, em 1978, foi proibida a comercialização daquelas sementes. Tarde demais: o annoni é hoje uma praga que infecta parcela significativa do pampa. Outra ameaça ao bioma é a expansão descontrolada da soja, que vem promovendo a passos largos a transformação dos campos naturais em áreas de monocultura, com uso intensivo de agrotóxicos e emprego de cultivares transgênicos.

Amazônia – A Amazônia guarda a maior diversidade biológica do mundo, escoa 20% de toda a água doce do planeta e é mais um bioma na mira implacável da pecuária. O estrago começou nos anos 70, quando o projeto desenvolvimentista do regime militar vendia a idéia de que a Amazônia era uma “terra sem homens para homens sem terra”. Um dos resultados é que, em menos de 40 anos, o rebanho amazônico passou de 1,5 milhão para 60 milhões de cabeças – um terço do rebanho brasileiro. Hoje, há na Amazônia, três vezes mais bois do que pessoas. E 70% da carne produzida lá é consumida na rica região Sudeste. Churrasco de floresta amazônica: é isso o que as pessoas fazem quando comem o tal “boi verde” brasileiro. Além da perda de biodiversidade, da interferência nefasta no ciclo das águas e da ameaça à vida das frágeis populações locais, o desmatamento de 3 milhões de hectares de floresta por ano, joga 300 milhões de toneladas de carbono na atmosfera, ou dois terços das emissões totais no país. E assim o Brasil fica entre os cinco maiores poluidores no ranking do aquecimento global!

Fnote: SVB

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