Impactos ambientais da produção de carne – 4

Desperdício de energia

• De acordo com estudos, a produção de carne consome 10 a 20 vezes mais energia por tonelada processada do que a produção de vegetais.

• O incremento das colheitas de grãos requer uso intensivo de energia para arar, ceifar, colher, bombear água, transportar e para produzir e aplicar fertilizantes e pesticidas. Depois, gasta-se energia para descascar, triturar, moer, reduzir a umidade e torrar os grãos. Finalmente, mais energia é usada para transformar os grãos em ração e no transporte da ração até os rebanhos.

• A criação de aves e suínos em imensos galpões, sem janelas para ventilação e iluminação naturais, requer muita energia para controle de temperatura e iluminação artificial.

• Abatedouros também usam imensa quantidade de energia para bombear água, alimentar máquinas e processar carcaças.

• O transporte de animais, por trajetos às vezes longuíssimos, entre as fazendas e os abatedouros e frigoríficos, demanda milhões de litros de combustível fóssil.

• A pesca industrial utiliza energia para construir, transportar e manter frotas de imensas embarcações pesqueiras. Cada barco usa combustível para chegar a alto-mar e para manter milhares de toneladas de peixes congelados por semanas – e até meses! – antes de voltar ao porto.

• Produtos à base de carne tendem a gastar muito mais energia em processamento, embalagem, conservação, transporte e refrigeração do que produtos vegetais. Em comparação, muitas hortaliças como frutas, verduras, tubérculos, grãos e leguminosas requerem pouco ou nenhum processamento e refrigeração, gastando muito menos energia em sua cadeia produtiva.

Nos Estados Unidos, metade de toda a energia usada na agricultura é gasta apenas na criação de gado.

Apocalipse Marinho

Imagine que pretendêssemos apanhar todas as vacas de uma fazenda e, por isso, equipássemos uma série de helicópteros de carga com enormes redes e correntes de aço amarradas, em toda sua extensão, a pesadíssimos cilindros de concreto armado. À medida que os helicópteros fossem avançando sobre a fazenda, além das vacas, eles iriam arrastando os cavalos, as galinhas, os patos, o pomar, a horta, o celeiro, a casa da fazenda, o cachorro, a casa do cachorro, o paiol, o fazendeiro, a mulher do fazendeiro, os empregados, as crianças, o padre que passava por ali, e tudo mais que estivesse ao alcance dos cilindros.

Depois, bastaria catar as vacas no meio daquele entulho todo e descartar o resto de qualquer jeito na primeira floresta que aparecesse. Aí seria só limpar as correntes, esticar as redes e rumar para a próxima fazenda. Em poucos dias teríamos apanhado umas duas mil vacas e deixado para trás milhares de hectares devastados, sem a menor chance de recuperação.

Pois é exatamente assim que funciona a pesca industrial de camarão, de longe, a atividade pesqueira mais predatória que o ser humano já inventou. O camarão rende apenas 2% do montante global pescado atualmente, mas responde por 35% do desperdício total. Esta e outras modalidades de pesca industrial são responsáveis pelo chamado “descarte”, hoje avaliado em 27 milhões de toneladas anuais, de peixes e outros organismos marinhos, considerados “do tipo ou tamanho errado”.

Até 2006, 29% das espécies de peixes e frutos do mar entraram em colapso. Isto é, o rendimento da pesca caiu mais de 90%.


Perigo Profundo

A vida nos oceanos está por um triz. Durante séculos, o homem pescou toneladas anuais de peixes e outros frutos do mar e os estoques iam se recompondo naturalmente. Desde os anos 1950, o cenário a mudou de figura com o uso de técnicas novas e “eficientes”. A pesca comercial se incrementou tecnologicamente e resultou no “overfishing” – pesca em excesso, em inglês – e está devastando os oceanos num ritmo que promete colapso total em menos de 4 décadas. É bom lembrar que, como sempre, a atividade humana predatória nos oceanos provoca danos que afetam todas as pessoas, mas só “beneficia” poucos privilegiados endinheirados. Veja o porquê:

1. Os principais mercados consumidores de pescados são Japão e Estados Unidos. Para se ter uma idéia, no Japão, um único exemplar de atum-azul chega a valer mais de 100mil reais! E os últimos remanescentes dessa espécie magnífica são comercializados diariamente, às centenas, naquele país.

2. Espécies marinhas que há menos de 30 anos, sequer eram conhecidas pela ciência, têm sido exploradas exaustivamente “graças” as inovações tecnológicas da indústria pesqueira. São peixes que habitam oceanos profundos, a mais de mil metros sob a superfície, e sobre os quais ainda pouco se sabe, a não ser que correm risco iminente de extinção. Peixes como olho-de-vidro laranja – espécie que vive até 150 anos sob condições naturais! – comuns em regiões abissais da Austrália e Nova Zelândia, são arrastadas aos milhões por redes de profundidade e chegam aos consumidores de todo o mundo com preço elevado. Como são pequeninos, pode-se devorar em poucas dentadas um lindo animal de 80 ou 100 anos…

3. As fazendas de aqüicultura que mais devastam o meio ambiente marinho e os biomas litorâneos são as de salmão e camarão. Ora, quem consome salmão e camarão? Como produzir 1kg de salmão exige 6,2kg de pescado, para alimentar esses peixes de pouco valor comercial como a sardinha. Enquanto isso, as populações desses peixinhos, que são um elo importante da cadeia alimentar marinha, vêm declinando com velocidade assustadora. Mais de um terço das capturas pesqueiras atuais vira ração para animais de cativeiro, e a proporção só tende a aumentar com a formação de novas fazendas.

Se medidas drásticas não forem tomadas urgentemente, logo não haverá mais sardinha nos oceanos. Por tabela, não haverá mais atum, garoupa, tainha, anchova e outros peixes graúdos dos mares, que dependem dos menores na cadeia alimentar. Além das sardinhas, a pesca industrial predatória elimina toda a fauna marinha que estiver “de bobeira” nos arredores. Em compensação, o sushi e o sashimi de cada dia estão garantidos… Mas não por muito tempo. Talvez não seja preciso usar a força de vontade para cortar peixe do cardápio. O mais provável é que não haja mais peixe a ser comprado! Os chamados “estoques” estão acabando: a população de 90% dos grandes peixes declinou acentuadamente nos últimos 20 anos. Entidades que lutam pela proteção dos oceanos estimam que, para reverter essa situação, a atividade pesqueira atual precisa ser reduzida em pelo menos 60%. O que pode ser feito por pessoas comuns, além de não comer peixe? Pressionar os governos para que apliquem moratórias de pesca e criem áreas marinhas de proteção integral e ajudar a disseminar informações que a maioria desconhece.

Se o consumo não diminuir, a população de praticamente todos os peixes e frutos do mar entrará em colapso por volta de 2048.

Aquicultura

As fazendas aquáticas tornaram-se populares com o declínio dos “estoques” selvagens dos pescados de bom valor comercial. A princípio, acreditou-se que seria uma opção viável, lucrativa e minimamente sustentável. Mas, como em todo sistema industrial de produção de carne, há diversos aspectos ambientais que deveriam ser considerados com mais rigor.

A enorme população de peixes e camarões apinhados em espaço exíguo requerem o uso de grande quantidade de pesticidas, bactericidas e fungicidas. Além de obviamente, prejudicar a qualidade da carne que será consumida por seres humanos, todas essas substâncias químicas agravam uma situação que, por si só, já seria alarmante: animais aquáticos em cativeiro lançam milhões de toneladas de excrementos anualmente nos oceanos. O resultado é poluição das águas adjacentes aos cercados, degradação dos ecossistemas costeiros e disseminação de doenças entre espécies marinhas e terrestres, incluindo o homem.
Outro grave problema, segundo a Federação do Salmão-do-Atlântico, é que milhares de peixes fogem dos tanques e se juntam aos cardumes nativos. Além de contaminá-los com doenças de cativeiro, o cruzamento desses peixes é um desastre, pois dá origem a gerações inaptas para sobreviver e procriar no meio selvagem, agravando o declínio de populações exóticas inteiras. As fugas também propiciam o cruzamento de variedades exóticas com nativas e colocam em perigo o delicado equilíbrio genético marinho.Por fim, adivinhe onde essas fazendas são construídas? No litoral, claro. Para armar os tanques e cercados, já se eliminou metade dos manguezais da Terra, pelo menos um terço dos brasileiros. Incrivelmente, a taxa de destruição do mangues já é maior do que as florestas tropicais. O mangue é um ecossistema tão frágil quanto importante em termos de biodiversidade e segurança contra inundações e tempestades. A falta da barreira natural de mangues que cobria, originalmente grande parte do sudeste asiático e da Indonésia é uma das principais causas do número exorbitante de mortes e prejuízos por ocasião do tsunami de 2004.

Atualmente, a pesca ilegal representa 35% do total mundial.

Do explosivo ao arrastão

Recifes de corais magníficos que levaram milênios para crescer são dinamitados em segundos. Os atuns-azuis, peixes imensos e velozes, capazes de nadar milhares de quilômetros em suas migrações anuais, são facilmente localizados com o uso de helicópteros e aviões. Cardumes de sardinhas com milhões de indivíduos não têm como escapar da localização super-avançada por satélites de rastreamento e barcos equipados com emissores de ultra-som, que os capturam em poucos minutos. Tecnologia de ponta e barcos ultra-modernos seqüestram em massa a vida oceânica para o prato de consumidores vorazes.

Os métodos de pesca comercial são de uma brutalidade ímpar: apesar de proibido, ainda se joga dinamite no mar para depois colher os milhares de peixe que flutuam mortos, mesmo que com isso, também sejam sepultados extensos bancos de corais milenares e centenas de outros seres vivos.

Outra técnica, igualmente proibida e praticada clandestinamente, é pulverizar recifes de coral com cianeto de sódio. Os peixes que se abrigam nas fendas dos corais ficam atordoados com a falta de oxigênio e viram presas fáceis para os caçadores de espécies exóticas de aquários, item unicamente de luxo.

Poucos dias depois, os recifes atingidos pelo cianeto morrem, levando consigo dezenas de espécies animais e vegetais que dele dependiam.

Recentemente, outra técnica monstruosa foi proibida e criminalizada: lançar uma rede imensa, presa pelas pontas a pesados cilindros, e arrastar tudo o que estiver entre 750 e 1.500m de profundidade. Técnica macabra, a pesca profunda de arrastão foi vetada depois de arrasar ecossistemas inteiros que abrigam milhões de criaturas únicas e centenas de espécies muitas vezes desconhecidas pela ciência. O acordo que impede esse tipo de pesca, por enquanto apenas no Sul do Pacífico, foi assinado no Chile, no início de maio de 2007, por mais de 20 países. A conquista se deu após muitos anos de luta da Coalizão de Conservação das Águas Profundas (CCAP), entidade que representa a comunidade científica e pesqueira de vários países. No entanto, o arrastão tradicional, entre os quais se inclui a pesca de camarões, continua permitido e é largamente difundido, praticamente sem restrições. Resta saber se as autoridades governamentais tomarão medidas para a erradicação dessa prática a tempo de salvar a preciosa diversidade marinha.

Impacto profundo

A aqüicultura, com seu gigantesco impacto ecológico, chama a atenção, mas não é o único fator degradante dos ambientes marinhos. Há muito mais atrocidade escondida sob a imensidão azul:

• Na pesca de camarão, as redes lançadas voltam com alguns camarões e centenas de peixes, tartarugas, corais, polvos, pássaros, tubarões e outras espécies. Mortos ou agonizantes, são descartados no mar logo após a separação dos camarões que interessam. Para cada quilo de camarão, “sobram” até 20kg de organismos mortos.

• Cerca de mil mamíferos marinhos são capturados e mortos todos os dias, “sem querer”, por redes de arrastão: golfinhos, botos, toninhas, focas e até baleias. Calcula-se que, cada ano, até 150 mil tartarugas marinhas sejam vitimadas pelas mesmas armadilhas submarinas supostamente feitas para camarões.

• Na Ásia, devido à fama das barbatanas como iguaria afrodisíaca, são mortos anualmente cerca de 100 milhões de tubarões de diversas espécies, muitas quase extintas.

• Um dos fatores que mais causa preocupação aos ambientalistas é que a idade e o tamanho dos peixes vendidos no mercado vêm diminuindo drasticamente. O imediatismo inconseqüente da atividade pesqueira industrial tem retirado do mar cada vez mais animais que não atingiram a maturidade sexual e, portanto, não tiveram chance de se reproduzir. De onde a indústria espera que se venha a próxima geração de peixes?

Fonte: SVB

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