Impactos ambientais da produção de carne – 3

Uso, contaminação e degradação do solo

No Brasil, o impacto ambiental da pecuária sobre o solo é fora de série, pois a maior parte dos bovinos é criada pelo sistema extensivo: cada cabeça de gado precisa, no mínimo, de um hectare (10mil m²) de pasto para engordar. Nossos rebanhos já contabilizam 200 milhões de cabeças e a pecuária ocupa mais de 250 milhões de hectares, quase um terço do território nacional! Essa ocupação desmedida do solo compromete nossa terra de várias maneiras.

1. Florestas e cerrados são devastados para formar pastos e grandes monoculturas de grãos, posteriormente destinados a virar ração.

No Brasil, segundo o Instituto CEPA, um boi precisa de um a quatro hectares de terra e produz, em média, 210 kg de carne, no período de quatro a cinco anos. No mesmo tempo e na mesma quantidade de terra, produz-se em média:

08 ton de feijão
19 ton de arroz
22 ton de maçã
23 ton de trigo
32 ton de soja
34 ton de milho
35 ton de cenoura
44 ton de batata
56 ton de tomate

Sem falar que é possível obter duas ou até três safras por ano desses vegetais combinados, aumentando bastante essas quantidades.

2. Quando as plantas originais são eliminadas e os animais que viviam naquele espaço são expulsos por falta de alimento, a conseqüência é a perda da biodiversidade (redução de espécies de determinado habitat). A remoção da cobertura vegetal para formação de pastos também interrompe o equilíbrio do ciclo natural de nutrientes: por baixo da exuberante floresta tropical, por exemplo, costuma haver uma tênue camada de folhiço que é a reserva de nutrientes do solo. Sem a cobertura vegetal não há mais este recurso e o solo, normalmente pobre e arenoso, fica exposto à erosão e às intempéries.

Os 75 milhões de hectares já transformados em pasto só na Amazônia, representam uma área 50% superior a toda a região agrícola do Brasil.

Aquecimento Global – Em uma área cuja cobertura vegetal tenha sido removida e que tenha sofrido ação de pastoreio excessivo, a temperatura média tende a aumentar cerca de 4°C.

Esterco não vira adubo?

Uma vaca produz cerca de 40kg de esterco seco por dia e, cada porco, de 5 a 9kg de fezes. Por que o produtor não transforma esses dejetos em adubo? Simples: basicamente, falta interesse comercial. Numa grande fazenda, o manejo adequado dos dejetos implicaria em armazenamento, tratamento, transporte e distribuição nos campos. O pecuarista não considera investir nesse sistema, pois sua implantação aumentaria o trabalho e os custos sem trazer aumento proporcional da produção – e do lucro. Em geral, o agricultor prefere usar fertilizantes químicos, menos volumosos e de aplicação mais simples. Já a agricultura orgânica, quando utiliza esterco, evita o estrume de animais criados à base de ração, hormônios, antibióticos e pesticidas em geral, que são elementos que contaminam o solo.

3. A destruição de florestas ou cerrados rende pastos verdejantes por pouco tempo. Sem intervenções como adubação e adição de calcário, o pasto enfraquece e o produtor tende a abandonar a área. Em pouquíssimos casos, a cobertura original retoma seu lugar. Em geral, o comprometimento do solo é tamanho que acontece o contrário: iniciam-se processos irreversíveis de desertificação. Testemunha disso é a vastidão de desertos como o Saara, no norte da África e o da Patagônia, na América do Sul – ambos obra de intensa e secular atividade de pastoreio de cabras e ovelhas, respectivamente.

4. O gado pisoteia e compacta o solo o tempo todo. Isso dificulta a absorção de água e facilita o arrasto de material superficial pelo vento e pela água, resultando em processos erosivos. Inundações, deslizamentos e proliferação de ervas –daninhas e arbustos invasores são cortesias da pecuária extensiva para o patrimônio natural brasileiro. Segundo a ONG WWF-Brasil, para cada quilo de carne produzido no Cerrado brasileiro, perdem-se de 6 a 10kg de solo por erosão.

5. A cada ano são produzidos somente nos EUA, mais de 1,4 trilhão de quilos de excrementos animais. São 104 toneladas por segundo de um esterco que, na maior parte dos casos, não pode ser empregado na agricultura e não é direcionado para as estações de tratamento. No meio ambiente, estes excrementos eutrofizam a água e o solo. Para ilustrar a dimensão do problema, basta lembrar que os 5 milhões de suínos de Santa Catarina poluem as águas e o solo do estado com emissões de dejetos e efluentes tóxicos equivalentes aos de 45 milhões de pessoas! Com a diferença que o esgoto das pessoas costuma ser tratado…


É possível alimentar 40 pessoas com os cereais normalmente usados para gerar apenas 225g de carne bovina.

O padrão de ocupação da terra – baseado no sistema de produção industrial de carne – beira o absurdo: as pastagens já constituem um terço de todas as terras não-alagáveis do planeta, ocupando um espaço que ao dobro de toda área usada pelo homem para cultivo de alimentos.

Poluição do ar

Um relatório alarmante da FAO, publicado em 2006, indica que os estoques de animais vivos mantidos para alimentação humana têm mais responsabilidade pelas mudanças climáticas do que todos os veículos automores do mundo somados. No total, nada menos de 18% da emissão de todos os gases causadores do aquecimento global são gerados apenas pelas indústrias da carne. Essa conta inclui além das emissões de metano provocadas pelo sistema digestivo dos animais, as emissões de CO2 geradas pelas queimadas que precedem a formação de pastos, a energia – quase sempre à base de queima de combustíveis fósseis – usada na fabricação de insumos agrícolas, a energia gasta na produção de ração e no bombeamento de água, a energia que vai nos procedimentos de abate e processamento das carcaça, o combustível usado no transporte de animais vivos e de produtos processados de carne, o combustível usado nos tratores e máquinas agrícolas, a energia usada nos navios pesqueiros para manter os estoques congelados por semana a fio em alto mar, a energia para manutenção dos estoques refrigerados nos pontos de venda e, finalmente, a energia gasta nos lares para manter as carnes refrigeradas até o momento do consumo. O relatório ressalta também que, no processamento de alimentos vegetais, todos os procedimentos que vão do plantio ao consumo são sensivelmente mais econômicos do ponto de vista da emissão de poluentes.
O minucioso trabalho da FAO deixou claro, entre outras coisas, que a criação maciça de animais para consumo humano é o centro de quase todas as catástrofes ambientais: destruição de florestas, desertificação, escassez de água doce, poluição do ar e da água, chuva ácida e erosão do solo.

A criação de animais é responsável por 18% e 25% das emissões mundiais de CO2 e metano, respectivamente.

• Apenas os 2 bilhões de bovinos do planeta emitem graças à volatização dos seus arrotos e gases intestinais, 12% do metano lançado globalmente na atmosfera. O metano, que vem logo atrás do dióxido de carbono como principal fator de degradação da camada de ozônio, permanece na atmosfera menos tempo do que o CO2, mas é pelo menos 20 vezes mais potente como gerador do efeito estufa e do aquecimento global.

• Os dejetos dos porcos também são responsáveis por grandes emissões de metano e de mais de uma centena de compostos perigosos na biosfera.

• Os efluentes dos rebanhos mundiais emitem 64% da amônia lançada na atmosfera, responsável, em larga medida, pelas chuvas ácidas.

• Só na Amazônia brasileira, as queimadas geram mais de 300 toneladas anuais de CO2 – cerca de dois terços do total de emissões do país!

Fonte: SVB

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