Ideologia: eu quero uma pra comer – SESC

Cresce o número de adeptos de uma alimentação que dispensa o sacrificío dos animais para consumo. São pessoas que apenas consomem produtos orgânicos cujo cultivo não agride a natureza

Você lembra o que comeu ontem no almoço? Provavelmente, não. Como você, a maioria das pessoas talvez não esteja tão atenta assim ao que põe no prato. Menos atenta ainda à procedência ou meio de extração e produção do que come. Estamos falando, sobretudo, da, por assim dizer, controversa carne. Polêmica no ar? Então inclua também todo e qualquer alimento derivado de animal e está armada uma arena de conceitos, filosofias e até mesmo ideologias acerca do que o corpo humano necessita, de fato, ingerir.
O fato é que alguns grupos politizaram o alimento de cada dia. Se antes a política se fazia apenas nas hostes tradicionais – partidos, sindicatos, jornais etc. -, o conceito foi ampliado até atingir o corpo e o prato sobre a mesa. Embora muitos possam dizer que essa é uma discussão que só poderia ocorrer nos tempos atuais – quando a produção de comida é realizada em quantidades industriais – conjeturas acerca das benesses e os prejuízos de comer ou não carne, por exemplo, vêm de tempos remotos. Na Antiguidade, filósofos como Platão e Sócrates já questionavam tal hábito. Hoje em dia, no entanto, há os que vão ainda mais longe. Os vegans (pronuncia-se "vigans", corruptela do termo em inglês vegetarian), ou vegetarianos puros, não ingerem derivados, como leite e ovos; não usam qualquer produto de origem animal, como couro ou lã, e passam longe de produtos testados em animais, como sabonetes e xampus.

Cardápio de protesto
No que concerne à alimentação especificamente, na maioria dos casos o quesito saúde é considerado, mas não como fator principal. "Sou vegetariano por uma questão ética", começa o advogado Ruy Cavalheiro, de 29 anos, vegetariano há doze e vegan há seis. "Consumir carne implica o massacre desnecessário de animais. Depois parei de consumir outros produtos de origem animal, porque a única maneira de obtê-los no capitalismo é por meio de processos cruéis. Se nosso corpo não precisa de produtos animais, então é um luxo consumi-los. A questão da saúde é uma ótima conseqüência, mas não foi a razão principal da minha escolha", atesta o advogado. Vale esclarecer que o termo vegetariano aplica-se a quem não come nenhum tipo de carne; porém, esse indivíduo é geralmente o que se denomina ovo-lacto-vegetariano, ou seja, consome leite e ovos. "Optei pelo vegetarianismo para conseguir uma qualidade de vida melhor", conta a médica Maristela Vilar, que segue essa filosofia há vinte anos. "Não foi de um dia para o outro, foi um processo que se consolidou aos poucos. Fiz pela saúde, mas também para mudar minha postura perante o mundo, perante a vida. É uma atitude pessoal e política." Por um processo parecido passou a socióloga Marly Winckler, secretária regional para a América Latina da União Vegetariana Internacional. "Tornei-me vegetariana principalmente por razões éticas e espirituais. Acho que somente os benefícios para a saúde não teriam tanto peso. Foram outros motivos, como a relação do consumo de carne com a destruição do planeta, a fome e outras razões igualmente importantes que fortaleceram ainda mais minha convicção de largar definitivamente a carne", diz ela, que desde 1995 também é vegan.
Nenhum tipo de carne de qualquer animal é admitido no prato de um vegetariano – não importa seu grau de desenvolvimento. "Qualquer animal que tenha um sistema nervoso minimamente elaborado sente dor", explica o biólogo Sérgio Greif, mestre em nutrição pela Unicamp, vegetariano desde criança e vegan há sete anos.

Já faz tempo
Não se sabe quem foi o primeiro vegetariano da história. Assim como não se sabe quem foi o primeiro homem a comer carne. Por natureza, o homem é um animal onívoro ou polífago, ou seja, que come tudo. O que preenche nosso prato é, em circunstâncias normais, uma questão de escolha.
Para partirmos de um ponto, consideremos o início da civilização ocidental. Desde os filósofos gregos, o vegetarianismo é observado. Já naquela época, registros mostram que Sócrates tinha uma profunda preocupação com a violência do hábito de comer um animal, além de questionar os benefícios para a saúde e as conseqüências sociais devido à quantidade de terra exigida para a criação dos bichos. Consta também que Pitágoras era vegetariano. Em homenagem ao matemático grego, os vegetarianos eram chamados de "pitagóricos". Esse termo foi usado até 1847, quando foi inaugurada a Sociedade Vegetariana do Reino Unido.
As inquietudes dos vegetarianos continuam semelhantes às de Sócrates. "Na mesma área utilizada para criar um boi, seria possível plantar para alimentar até quarenta pessoas", afirma a socióloga Marly Winckler. De fato, a produção de vegetais pode alimentar um número muito maior de pessoas do que a de carne. Afinal, estudos apontam que para produzir 1 quilo de carne, um boi consome 7 quilos de grãos. Por outro lado, não se pode concluir que se o mundo fosse vegetariano não haveria fome. A desigualdade entre os países ricos e pobres é uma das grandes "vilãs" que dificultam essa equação. É o que explica Luiz Felipe Nascimento, doutor em economia e meio ambiente e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul: "A produção agrícola é mais barata e rende mais alimento. Mas o problema da fome no mundo não é a falta de comida e sim o fato de alguns países comerem demais enquanto outros comem de menos".

"Se os matadouros fossem de vidro, todos seriam vegetarianos."
A frase é atribuída a Linda McCartney, falecida esposa do ex-beatle Paul McCartney, referindo-se ao abate de animais para o consumo humano. Que comportamento a humanidade adotaria se tais locais fossem expostos? Não se sabe. Mas, de fato, a maneira como galinhas, porcos, patos, vacas e outros animais são criados e mortos mostrou-se um dos argumentos mais convincentes para se tornar um vegetariano ou vegan.
Foi depois de uma pesquisa na Internet que a estudante Mayra Vergotti, de dezessete anos, descobriu o que acontecia nos matadouros. Isso foi em 2000 e desde então ela tornou-se vegan. "Adotei o veganismo direto. Minha irmã tentou, mas não conseguiu. Hoje ela é só vegetariana. Será que o prazer de um jantar vale o sofrimento de um animal?", pergunta a estudante. "Isso é especismo. É como o preconceito entre pessoas de diferentes origens, mas nesse caso trata-se do preconceito entre espécies. Por que um ser humano tem o direito de torturar e matar outro animal para saciar seu prazer, enquanto há milhares de alimentos que ele pode consumir?", completa ela que, de tão mergulhada no assunto, escolheu o vegetarianismo como tema para a monografia exigida pelo colégio.
Mas não fica difícil viver com tantas restrições alimentares? "Claro que dificulta um pouco", retoma a médica Maristela Vilar. "Fui à Espanha com uma amiga e tivemos que conversar antes de embarcar. Não vou a qualquer tipo de restaurante e, na maioria das vezes, não poderíamos dividir o mesmo prato." Quanto ao preço, ela acha que acaba gastando mais por optar por uma dieta não comum à maioria. "São produtos com menos aditivos, produzidos em menor escala. Mas tenho outros ganhos que compensam." A estudante Mayra discorda. "Pode até ficar mais barato. A soja é mais barata que a carne e qualquer restaurante tem arroz, feijão e saladas." O advogado Ruy Cavalheiro retoma dizendo que também não vê problema em manter a mesma vida social que qualquer pessoa. "Tenho muitos amigos que não são vegans e que continuam saindo comigo. Eles comem a comida deles e eu a minha."

Dá resultado?
Porém, o que se nota é que é praticamente impossível boicotar todo produto derivado de animal. Até um simples filme de fotografia tem um tipo de gelatina de extratos animais em sua composição. A questão fica sendo, então, onde começa e acaba o boicote. "Vivo nesta sociedade e não me esqueço disso. A intenção não é me retirar. O que vale é protestar como posso", conclui a estudante Helena Thomaz, de 21 anos, vegan há dois. "No Brasil, acho que os efeitos do boicote ainda não são evidentes", admite Marly Winckler. "Na Alemanha, não se pode mais criar animais confinados e nos Estados Unidos o McDonald's, maior símbolo mundial de consumo de carne, não compra frangos criados em condições de horror", informa. O professor Luiz Felipe retoma admitindo que a economia mundial não está preparada para abrir mão dos derivados de animais. "Mas essa resistência é válida", pondera. "Porque pode forçar as empresas a assumir uma posição mais responsável com o meio ambiente e até com a qualidade dos produtos. Esse é um dos pontos do consumo consciente. Se mantivermos o nível e a qualidade atuais do que consumimos, o planeta não agüentará por muito tempo", alerta.

Verdurada
Você já foi convidado para ir a uma feijoada ou churrascada, mas provavelmente nunca ouviu falar em verdurada. Pois ela existe. "Esse nome foi inventado por um amigo, que brincava com o fato de sermos vegetarianos e não podermos nos reunir numa churrascada", explica Ruy Cavalheiro, um dos "fundadores" das verduradas, que existem desde 1996. Atualmente, elas acontecem em um grande galpão na zona sul de São Paulo e reúnem de quinhentas a seiscentas pessoas que vão até lá para assistir shows de bandas hardcores, palestras, debates sobre questões sociais, além de encontrarem barracas que vendem produtos veganos, ou seja, que não contêm nenhum derivado animal. Esses encontros são organizados pelos straight edges, uma versão pacifista dos punks. Indivíduos que também pregam uma sociedade anárquica, mas não usam métodos violentos para combater o sistema. Eles não bebem, não fumam, não usam drogas e muitos são vegetarianos ou vegans. "Já fui punk violento, mas depois que conheci os straight edges, vi que não tenho que bater em ninguém, nem quebrar nada para mostrar minhas idéias. Preciso da minha consciência intacta para conhecer a realidade", conta o estudante Adilson Mendonça, de 21 anos, que adotou o vegetarianismo e há dois meses é vegan. "Fui vegan por cinco anos, mas hoje sou vegetariano", explica Rafael Petroni, de 19 anos. Segundo ele, o preço e a dificuldade em manter esse cardápio no dia-a-dia tornavam a alimentação muito difícil. "Mas agora estou tentando voltar ao veganismo", promete.
Além dos empecilhos levantados por Rafael, a questão da saúde também é ponto polêmico quando o assunto é ideologia à mesa. A maioria dos nutricionistas atenta para os possíveis males carência de alguns alimentos na dieta de um indivíduo pode causar (ver o box). Só para citar um exemplo, é sabido que as carnes e seus derivados são boas fontes de proteína. Além disso, estudos mostram que o organismo absorve 30% desse ferro quando de origem animal; e somente cerca de 2% a 10% quando de origem vegetal. Segundo o senso comum, a deficiência de ferro pode causar falta de ar, dor de cabeça e irritabilidade, além de problemas no processo de crescimento. Porém, para o nutricionista George Guimarães, também adepto da dieta vegan, o ferro encontrado em fontes vegetais pode ter o mesmo grau de absorção daquele originário de fontes animais, é só uma questão de saber combinar os alimentos. "É importante que as refeições sejam acompanhadas de alimentos que contenham vitamina C, que ajuda essa assimilação, como o suco de laranja, por exemplo", recomenda.

Aquela velha questão – E a saúde suporta essa "ideologia alimentar"?
Ao aderir a uma dieta vegetariana, alguns cuidados devem ser tomados para que não haja nenhum tipo de deficiência nutricional. "Este tipo de dieta deve ser adequadamente acompanhada e é muito importante saber substituir e combinar bem os alimentos", começa explicando a nutricionista do Sesc Márcia Bonetti. "Para isso, o vegetariano pode contar com a ajuda de um profissional da área para obter as orientações necessárias". Márcia já adianta algumas delas: "Para evitar a carência de cálcio, é recomendável consumir alimentos como brócolis, quiabo ou cereais matinais que são enriquecidos em cálcio", esclarece. O consumo excessivo de fibras, segundo ela, também pode trazer graves deficiências de nutrientes e de calorias. "Por isso, recomenda-se moderar o consumo, aumentando a quantidade total de alimentos em combinações entre cereais refinados e integrais". Combinar diariamente, nas refeições principais, pelo menos um cereal e uma leguminosa também é recomendado. Assim como aumentar o consumo de verduras de folhas verdes escuras, como beterraba e frutas secas, como nozes e castanhas.
É importante também incluir sucos cítricos em cada refeição. "Além de consultar um médico ou nutricionista para possível suplementação de ferro, cálcio, zinco, vitamina B12 e D" completa Márcia. "Principalmente para pessoas que exijam cuidados mais especiais, como crianças, mulheres grávidas e idosos, por exemplo". Para finalizar, a nutricionista alerta: "Evite consumir chá mate junto às refeições, pois contém ácido tânico, que reduz a absorção de ferro. E procure também não ingerir leite junto ao almoço e jantar. Apesar do leite ser muito nutritivo, o cálcio que ele contém compete com ferro momento da absorção".

Fonte: Portal SESC  

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