HPB e Anna Kingsford

Marina Cesar Sisson  (Artigo publicado originalmente no Informativo HPB n0 07, março/2000)   

Anna Kingsford foi uma grande pioneira em sua época. Dotada de faculdades psíquicas e de um intelecto brilhante, foi defensora incansável do vegetarianismo e da luta contra a vivissecção de animais. Porta-voz da reencarnação e de uma nova interpretação simbólica e não histórica do Cristianismo, segundo a tradição Hermética, após ter presidido da Loja de Londres da ST, fundou a Sociedade Hermética. Escrevendo sobre Anna Kingsford, por ocasião de sua morte, HPB reconhece suas imensas capacidades e o valor de seu trabalho, assim se expressando:   

"Poucas mulheres trabalharam mais intensamente do que ela, ou em causas mais nobres; nenhuma com mais sucesso na causa do humanitarismo. (…) Poucas mulheres escreveram de forma mais gráfica e cativante, possuíram um estilo mais fascinante. O campo de atividades da Sra. Kingsford, entretanto, não estava limitado ao plano puramente físico, ou mundano, da vida. Ela era uma teósofa, uma verdadeira teósofa de coração; uma líder de pensamento espiritual e filosófico, dotada com os mais excepcionais atributos psíquicos. (…) embora suas idéias religiosas diferissem grandemente em alguns pontos da filosofia oriental, permaneceu um membro fiel da Sociedade Teosófica e uma amiga leal de seus líderes. Foi alguém cujas aspirações da vida inteira estiveram sempre voltadas para o eterno e o verdadeiro. Uma mística por natureza – das mais ardentes, para aqueles que a conheceram bem – ela era, ao mesmo tempo, mesmo na opinião de materialistas e descrentes, uma mulher muito notável." (CW IX, p. 89-91) 

A Condessa de Wachtmeister, descrevendo a visita de alguns dias que Anna Kingsford fez a HPB em 1886, que estava em Ostende, Bélgica, relata o embate intelectual que as duas senhoras travavam, partindo de pontos de vista aparentemente opostos e finalmente se encontrando:   

"… era interessante para mim ouvir diferentes pontos da Doutrina Secreta sendo discutidos dos pontos de vista oriental e ocidental do ocultismo. Os poderosos intelectos destas duas dotadas mulheres ficariam envolvidos em animadas discussões, começando de pólos aparentemente opostos. Gradualmente, as linhas de suas conversas pareciam aproximar-se uma da outra, até que finalmente se fundiam em unidade. Novos tópicos então surgiriam, os quais seriam disputados da mesma maneira magistral." (Wachtmeister, p. 58) Sua linha de pensamento adaptada ao Ocidente, resgatando a tradição cristã esotérica ou hermética do ocultismo ocidental, bem como sua luta pelo vegetarianismo e seu amor pelos animais atraíram a atenção do Grande Chohan, provocando sua inusitada interferência na crise da Loja de Londres, como explicou o Mestre KH em carta para Sinnett, em janeiro de 1884:   "…estou simplesmente cumprindo a vontade de meu Chohan (…) É suficiente que você saiba que a luta dela contra a vivissecção e sua dieta estritamente vegetariana, ganharam completamente, para o lado dela, nosso austero Mestre." (MLcr., p. 406, ML-86) 

Quem era esta mulher que discutia de igual para igual com HPB e cujo trabalho cativou a atenção do Maha Chohan? Neste Informativo HPB vamos começar a apresentar Anna Kingsford, seu trabalho, seu envolvimento com a ST e com HPB. 

Breve Biografia de Anna Kingsford 

Anna Bonus Kingsford nasceu em 16 de setembro de 1846, na Inglaterra. Em 1867, casou-se com o reverendo Algernon, com quem teve uma filha. Para desgosto do marido, em 1870, entrou para a igreja católica. Entre 1872 e 1873, editou um jornal ligado aos direitos femininos. (CW IX, p. 439) Em 1873, conheceu Edward Maitland o qual veio a ser, com o consentimento do rev. Algernon, o acompanhante de Anna para ir estudar Medicina em Paris, em 1874. Para evitar falatórios os dois se apresentavam como tio e sobrinha. 

Anna tornou-se vegetariana neste período e sua tese de conclusão do curso foi sobre a alimentação vegetariana para o ser humano. Posteriormente, ela foi revisada e publicada sob o título O Caminho Perfeito em Dieta (The Perfect Way in Diet). O vegetarianismo e a vivissecção se tornaram causas que defendeu publicamente pelo resto de sua vida. (Godwin, p. 335). 

Edward Maitland foi seu grande companheiro de trabalho desde esta época até o fim de sua vida. Ele também era dotado de faculdades psíquicas. O mediunismo de Maitland era totalmente consciente, como um "datilografar automático" e, deste modo, escreveu dois livros. Num deles, The Soul and How It Found Me [A Alma e como Ela me Encontrou], ele descrevia suas experiências e a nova visão das realidades espirituais que estas lhe deram. (Godwin, p. 337)

As Iluminações de Anna Kingsford

Anna Kingsford tinha faculdades psíquicas desde a infância. Na época do curso de medicina, começou a ter experiências, contendo mensagens inspiradoras, às quais deu o nome de "iluminações". Embora algumas fossem transmitidas por meio de um ditado em transe, a maioria era recebida por visões durante o sono natural, que descrevia assim que acordava. Algumas das mensagens vinham em resposta às suas próprias dificuldades, outras em resposta imediata às perguntas mentais de Maitland, das quais muitas vezes ela não tinha conhecimento. 

Freqüentemente eles não conseguiam compreender as respostas no momento em que elas eram dadas, provando que eram independentes das limitações mentais dos dois. "Entretanto, cedo ou tarde, elas nunca falharam em se demonstrarem como verdades necessárias e evidentes, inalteravelmente fundamentadas na própria natureza da existência; e nunca as aceitávamos e as utilizávamos até que assim fossem demonstradas e reconhecidas por nós dois." (Clothed, p. xx) 

Kingsford chamava aquele que a inspirava de seu ‘Gênio’, e o descreve como um "anjo", cujo trabalho era "guiar, advertir e iluminar". (Clothed, p. 36) Numa de suas iluminações, ela fala sobre a relação entre o Gênio, Deus e o homem: 

"O homem é um planeta. Deus – o Deus do homem – é seu sol, e a lua desse planeta é Ísis, seu iniciador, ou gênio. O gênio existe para instruir ao homem e para lhe dar luz. Mas a luz que ele dá é de Deus, e não dele mesmo. Ele não é um planeta, mas uma lua, e sua função é iluminar os lugares escuros de seu planeta. (…) O gênio é a lua para o planeta homem, refletindo para ele o sol, ou Deus, dentro dele. Pois o Espírito divino que anima e eterniza o homem, é o Deus do homem, o sol que o ilumina." (Clothed, p. 39)

Embora seu Gênio conhecesse seu futuro, nada lhe dizia, exceto que podia ter certeza que teria problemas, pois "Nenhum homem jamais alcançou a Terra Prometida sem ter atravessado o deserto." (Clothed, p. 37) Ela diz que ele se parecia "com Dante e, como ele, está sempre de vermelho. E tem um cactos em sua mão o qual ele diz que é meu emblema." (Clothed, p. 36) 

Maitland diz que estas iluminações não eram o produto de qualquer estimulação artificial de faculdades, ou de indução para qualquer estado anormal, seja por meio de drogas, mesmerismo ou hipnotismo. Eram o resultado de um intenso direcionamento da vontade ao mais elevado, e de uma imutável resolução de não ficar satisfeita enquanto não obtivesse a mais profunda e central idéia do fato a ser interpretado. (Clothed, p. xx) Kingsford nunca se declarou uma médium no sentido comum da palavra. Ela se entitulava uma profetisa, ou vidente, e assim explicava seu dom: 

"Não tenho quaisquer poderes ocultos, e nunca aleguei possuí-los. Nem sou, no sentido comum da palavra, uma clarividente. Sou apenas uma ‘profetisa’ – alguém que vê e sabe intuitivamente, e não pela utilização de qualquer faculdade treinada. Tudo que recebo vem a mim por ‘iluminação’, como para Proclus, para Jâmblico, para todos aqueles que seguem o método platônico. E esse ‘dom’ nasceu comigo, e foi desenvolvido por uma regra e um curso especiais de vida. Ele é, foi-me dito, o resultado de uma iniciação anterior num nascimento passado (…) Minha iniciação foi greco-egípcia e, assim sendo, recordo a verdade primariamente na linguagem e segundo o método dos mistérios de Baco, que são de fato a fonte e padrão imediatos dos mistérios da igreja católica cristã". (Clothed, p. xxii)

Estas iluminações, recebidas ao longo de 14 anos, foram publicadas por Maitland após a morte de Anna Kingsford, sob o título Vestida de Sol [Clothed With the Sun], em referência à alegoria da alma iluminada, representada no Apocalipse por "uma mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos seus pés, e uma coroa de doze estrelas sobre sua cabeça." (Apoc., 12:1) Para eles a mulher, na Bíblia, era o simbolismo da alma e da intuição – o princípio feminino no homem.  

Kingsford e Maitland eram profundamente cristãos, mas incapazes de aceitar uma interpretação literal da Bíblia ou o dogmatismo das igrejas. Para eles o Cristianismo era apenas uma das religiões da antigüidade, cujos mistérios ensinavam as mesmas verdades sobre o destino da alma. As iluminações resolveram suas dificuldades, pois nelas os evangelhos eram quase totalmente alegóricos, uma descrição do destino da alma, uma vez que: 

"A religião não é histórica, e de modo algum depende de fatos passados. (…) Jesus não era o nome histórico do iniciado e adepto cuja história é relatada. É o nome que lhe foi dado na iniciação. (…) As Escrituras são dirigidas para a alma, e não dizem respeito aos sentidos externos. Toda a história de Jesus é um conjunto de alegorias, as coisas que ocorreram a ele sendo usadas como símbolos." (Clothed, p. 86)

O Cristo não era uma pessoa, mas um estado de homem regenerado, no qual a alma se tornou una com o Espírito Divino. (Godwin, p. 337) E Jesus era um homem que havia realmente vivido, realizado este estado de união, um iniciado cujo nome ela só conseguia ver a primeira letra – a letra "M". (Clothed, p. 85) 

Os Hinos aos Deuses Gregos

Mas nem todas as iluminações vinham numa linguagem estritamente cristã. Anna Kingsford tinha visões de deuses gregos, brilhando como prata, que lhe ditavam arrebatados hinos, de uma beleza e de uma profundidade poética impressionantes: 

"Como uma luz que se move entre o céu e a terra; como uma nuvem branca assumindo muitas formas;/ Ele desce e sobe, guia e ilumina, se transmuta do pequeno para o grande, do brilhante para o sombreado, da imagem opaca para a névoa diáfana./ Estrela do Oriente conduzindo os Magos: nuvem de cujo seio a sagrada voz falou: de dia, um pilar de vapor, de noite uma chama brilhante./ Eu vos contemplo, Hermes, Filho de Deus, matador de Argus, arcanjo, que carregas o cetro do conhecimento, pelo qual todas as coisas no céu ou na terra são medidas." ("Hino a Hermes". Clothed, p. 150)

O Hino ao Deus-planeta, Iacchos, e às Divindades Elementais, foi dado em sonho, no início de março de 1881, à medida que passava, com um grupo de iniciados, através de um vasto templo egípcio. (Godwin, p. 338) Seu tema principal é o êxodo místico, ou a libertação da alma do domínio do corpo, onde o Egito simboliza o corpo, e Israel a alma. (Clothed, p. 154)

"Oh Pai Iacchos; Vós sois Senhor do corpo, Deus manifesto na carne;/ Duas vezes nascido, batizado com fogo, vivificado pelo espírito, instruído em coisas secretas embaixo da terra:/ Que vestes os chifres do carneiro, que montas sobre um asno, cujo símbolo é a videira e o novo vinho é vosso sangue;/ Cujo pai é o Senhor Deus das Hostes; cuja mãe é filha do Rei./ Evoi Iacchos, Senhor da iniciação; pois por meio do corpo é a alma iniciada." (Clothed, p. 154) [Evoi: grito de invocação dos Mistérios de Baco.] Os Hinos às Divindades dos Elementos são dedicados aos quatro grandes Gênios, que são os espíritos dos elementos do macrocosmo e do microcosmo, representados nas quatro partes da esfinge – a carne, o intermediário, o humano e o divino. O 1° hino é dedicado a "Hephaistoso Rei-Fogo, cujo símbolo é o leão vermelho, Senhor da serpente, da chama e das partes secretas da terra". O 2° é um hino a "Deméter, a justa Mãe-Terra", "anjo do cadinho [provação], guardiã dos mortos, que fazes e desfazes, que combinas e dissolves, que fazes brotar vida da morte e transformas todos os corpos." O 3° é a "Posseidon, Senhor das Profundezas, Mestre da substância de todas as criaturas, que tens a face de um anjo, pois ele é o Pai das Almas". E o 4° a Pallas Athena, "virgem de olhos azuis, Senhora do Ar, com cabeça de águia, que dás a todos os corpos o alento da vida: mãe imaculada da palavra da profecia, símbolo da essência divina". (Clothed, p. 160-163) 

A Doutrina da Reencarnação

Pouco antes de deixar Paris, Kingsford e Maitland descobriram Isis, e souberam da existência da ST. Embora achassem Isis desorganizada e desnecessariamente agressiva, estavam atônitos e encantados por encontrar outros num trabalho paralelo. Indo a Londres, entraram em contato com espíritas, pesquisadores psíquicos e com membros da ST Britânica. Em meados de 1881, fizeram várias palestras, que foram publicadas no início de 1882 como O Caminho Perfeito; ou, a Descoberta de Cristo [The Perfect Way; or, The Finding of Christ]. (Godwin, p. 339)  

Este livro causou grande polêmica no meio espírita, não tanto pelo enfoque simbólico e não histórico do Cristianismo que apresentava, mas principalmente por sua defesa da reencarnação. Mesmo nos meios espíritas da época, não havia um consenso quanto a esta questão, que gerava um debate quase permanente. Até então, seus defensores mais fortes eram os seguidores de Allan Kardec, Lady Caithness, Anna Blackwell, Francesca Arundale, Isabel de Steiger e o espírito Ski, que falava através da Sra. Hollis-Billing. Contra eles estava a maioria dos médiuns ingleses e americanos, como P.B. Randolph, Stainton Moses e Emma Hardinge Britten.  

É interessante notar que a idéia da reencarnação não era uma idéia corrente na ST dos primeiros tempos. HPB durante a primeira parte de sua carreira pública, como em Ísis, parecia negar a doutrina da reencarnação. Somente mais tarde, quando já morava na Índia, é que HPB passou a se declarar publicamente a favor dessa doutrina. Olcott afirma que ele, pelo menos, não conhecia a doutrina da reencarnação:  

    "Naturalmente, não me diz respeito porque ela não nos foi ensinada (…) Não acredito que o mistério da incongruência dos ensinamentos de Nova Iorque de 1875, e os posteriores na Índia possa ser explicado, pelo menos para satisfazer aqueles que atacam o problema do ponto de vista da crítica literária. Para aqueles que têm o poder de levantar o véu e estudar a questão a partir do interno, essa dificuldade desaparece. Mas não se pode esperar que estudantes limitados ao plano físico recebam como sendo conclusivas as explicações de alunos avançados da Loja Branca. A conclusão que cheguei há muito tempo é a de que essa questão deve simplesmente ser deixada como um mistério." (ODL V, p. 38)

Não há dúvidas de que Olcott realmente não havia sido ensinado sobre a reencarnação. Mas, e quanto à Madame? William Judge afirma que, embora ela realmente não ensinasse ao público a doutrina da reencarnação, nesta época de N. Iorque, como o fez mais tarde, "ela de fato a ensinou para mim e para outros, naquela época como agora. (…) HPB me falou muitas vezes, pessoalmente, da real doutrina da reencarnação, reforçada pelo caso da morte de minha própria filha; portanto, eu sei o que ela conhecia e acreditava." (Judge, p. 119)  

Numa carta de março de 1875, para Corson, HPB se posiciona contra a reencarnação como os kardecistas a concebiam. (Corson, item 10). Eugene Corson, que publicou as cartas de HPB para seu pai, comenta que a reencarnação:  

"Era a idéia dominante em todo o Oriente. Era quase a nota tônica da filosofia de Platão. O neo-platonismo de Plotino e Proclus está repleto dela. (…) A única explicação que me vem à mente é que ela ficou em silêncio, como o fez em tantas outras coisas naquela época. Ela deveria estar consciente de que isso seria repugnante aos espíritas americanos, e eu não sei se mesmo hoje é aceitável para eles. (…) A maioria dos espíritas não são filosoficamente inclinados e não se preocupam em olhar além do mero fato da inter-relação entre os dois mundos. (…) Minha opinião é que ela permaneceu em silêncio, do mesmo modo como silenciou em outras questões, que foram extensamente elaboradas em seus escritos posteriores." (Corson, item 27)

Em 1881, quando Sinnett chegou da Índia para publicar seu livro O Mundo Oculto, ele encontrou-se com Anna Kingsford e Maitland. Os três ficaram até tarde da noite discutindo a questão da reencarnação – eles a favor e Sinnett contra. (The Credo, p. 5) Porém, em 1882, ao escrever uma crítica sobre O Caminho Perfeito, Sinnett mostrava ter passado a aceitar a reencarnação. Isto, é claro, causou surpresa a Kingsford e Maitland, ao lembrar do quanto ele havia sido enfático em negá-la, no ano anterior. Escreve Kingsford numa carta para Lady Caithness:

"O próprio crítico – Sr. Sinnett – que escreve com tanta pseudo-autoridade no The Theosophist, no intervalo de um ano, alterou completamente suas visões em pelo menos uma questão importante – eu quero dizer a reencarnação. Quando veio nos ver há um ano atrás, em Londres, ele veementemente negou aquela doutrina e afirmou, com imensa convicção, de que eu havia sido inteiramente enganada em meu ensinamento referente a ela. Leu uma mensagem de Ísis Sem Véu para me contestar e argumentou longamente sobre a questão. Ele não havia então recebido quaisquer instruções de seu Guru hindu sobre ela. Agora, ele foi assim instruído e escreveu uma longa carta ao Sr. Maitland reconhecendo a verdade da doutrina que, desde que nos encontrou, foi ensinado." (Shirley, p. 15)

Além desta crítica de Sinnett, um artigo de Hume, contendo a publicação de mais algumas cartas dos Mahatmas, sob o título de Fragmentos de Verdade Oculta, e um editorial de HPB (CW IV, p. 119) o qual ela, privadamente, atribuiu ao Mestre KH, começaram a mostrar que os Adeptos, afinal, também ensinavam a reencarnação. Esta mudança de atitude causou polêmica na Loja de Londres, levando Massey a pedir esclarecimentos a HPB.  

A Madame, então, argumentou que, na verdade, havia duas maneiras de falar sobre o destino de um indivíduo. Do ponto de vista mais exotérico, dado em Ísis, era correto dizer que uma pessoa nunca reencarna. Porém, de um ponto de vista mais elevado, uma individualidade o faz. E para ilustrar, apresentou o esquema esotérico dos sete princípios do ser humano. Neste, os três princípios inferiores, que compunham o "Ego terreno" (corpo físico, princípio vital e corpo vital) sempre morriam. Os dois princípios seguintes compunham a mônada astral ou "Ego pessoal" (corpo dos desejos ou Kama-Rupa, e a mente ou manas), eram destruídos após algum tempo e só reencarnavam sob circunstâncias especiais, como colocado em Ísis e, finalmente, os dois princípios restantes que constituíam a mônada espiritual ou "Individualidade" (alma espiritual ou buddhi e o espírito puro, ou atman) eram eternos e indestrutíveis. (CW IV, p. 185)  

Para Kingsford, era o fato dela ter exposto a reencarnação em O Caminho Perfeito que havia "provocado" uma reação dos Adeptos, que então também teriam se preocupado em expô-la. Em janeiro de 1883, numa carta a Sinnett, o Mestre KH lhe adverte a este respeito:  

"Apenas deixe-me lhe dar um aviso. Um caso agora tão trivial como parece ser a inocente expressão de vaidade feminina pode, se não for retificado de uma vez, produzir conseqüências muito maléficas. Numa carta da Sra. Kingsford para o Sr. Massey, condicionalmente aceitando a presidência da ST Britânica, ela expressa sua crença – ou melhor, o aponta como um fato inegável – que, antes da aparição de O Caminho Perfeito, ninguém ‘sabia o que a escola oriental realmente sustentava quanto à reencarnação’; e adiciona que ‘vendo o quanto foi exposto naquele livro, os adeptos estão se apressando em abrir seus próprios tesouros…’ (…) Então escreva, bom amigo, a verdade ao Sr. Massey. Diga-lhe que você possuía a visão oriental da reencarnação vários meses antes que o trabalho em questão tivesse aparecido – uma vez que foi em julho (há 18 meses) que você começou a ser ensinado sobre a diferença entre a reencarnação à la Allan Kardec, ou renascimento pessoal – e a da mônada espiritual." (MLcr., p. 342-343, ML-57)  Anna Kingsford Presidente da Loja de Londres

Em 1882, a Sociedade Teosófica Britânica estava em crise. Alguns de seus membros, ainda fervorosos espíritas, não aceitavam as críticas de HPB ao movimento espírita, e outros queriam provas da existência dos Mestres. Seu presidente, Wyld havia renunciado. Pensando em ter mais seções dentro da ST, entre elas, uma católica, Massey convidou Kingsford para juntar-se a eles. Ela, entretanto, inicialmente não aceitou o convite, pois tinha uma imagem bastante negativa da ST, como podemos ler nas palavras de Maitland:  

"…nós já sabíamos o bastante da ST, sua origem, motivos e métodos para não acreditar nela. Seus prospectos originais cometiam a flagrante inconsistência de declarar absoluta tolerância da Sociedade a todas as formas de religião e, depois, afirmar que um objetivo principal era a destruição do Cristianismo. Seus fundadores também a comprometeram com a rejeição da idéia de um Deus, pessoal ou impessoal, e isso ao mesmo tempo em que a chamaram Teo-sófica. (…) A questão não foi adiante nesta época; mas ficamos surpresos ao saber que Mary [nome que Anna Kingsford recebeu de seus Iluminadores] foi reconhecida pelos misteriosos chefes da ST como ‘a maior mística natural de nossos dias, e com incontáveis idades adiante da grande maioria da humanidade’." (The Credo, p. 11-12)

Quando também lhes asseguraram que nenhuma forma de submissão ou obediência aos Mahatmas, a HPB ou a qualquer outra pessoa, real ou não, seria exigida, mas apenas aos Princípios e Objetivos da ST (The Credo, p. 19), Kingsford aceitou o convite. Sob indicação de Massey, ela foi eleita presidente da ST Britânica, em 7 de janeiro de 1883, com Maitland e Wyld como vices. Como nesta ocasião ela ainda estava na França, somente assumiu suas funções após 20 de maio, quando retornou a Londres. Um dia antes da posse de Kingsford, Sinnett recebeu uma carta do Mestre KH, onde lhe advertia que este seria o ano em que as sociedades seriam provadas e o resultado dependeria, portanto, do trabalho coletivo:   

"Quatro europeus foram colocados em provação há doze meses; dos quatro – apenas um, você, se mostrou merecedor de nossa confiança. Este ano serão Sociedades, ao invés de indivíduos, que serão testadas. O resultado dependerá de seu trabalho coletivo e o Sr. Massey engana-se ao esperar que eu esteja preparado para me juntar à heterogênea multidão de ‘inspiradores’ da Sra. K. Deixe-os permanecer sob suas máscaras de São João Batista e aristocratas bíblicos semelhantes. Desde que estes últimos ensinem nossas doutrinas – por mais que misturadas com adições alheias – um grande ponto terá sido ganho." (MLcr., p. 342, ML-57)

Anna Kingsford procurou realmente se empenhar em seu trabalho pela Loja de Londres, para que ela se tornasse um corpo verdadeiramente influente a ativo, saindo da crise em que se encontrava. Para tanto, ela acreditava que seria importante que um dos objetivos especiais da Loja de Londres, a ‘reconstrução da religião numa base científica, e da ciência numa base religiosa; e a elaboração de um perfeito sistema de pensamento e regras de vida’ também fosse aplicada ao Cristianismo e não apenas ao Hinduísmo e ao Budismo. (Ransom, p. 196) Ela escreve, em maio:

"Farei o máximo ao meu alcance para tornar nossa Loja de Londres um corpo realmente influente e científico…. Além disso, nós não queremos nos comprometer apenas com o Orientalismo, mas com o estudo de todas as religiões esotericamente, e especialmente àquele da nossa igreja católica ocidental. Teosofia é igualmente aplicável a tal estudo; mas o Orientalismo só pode se relacionar ao Brahmanismo e ao Budismo." (The Credo, p. 14)

Em junho, a pedido de Anna Kingsford, os membros decidiram alterar o nome de Sociedade Teosófica na Grã-Bretanha, para Loja de Londres da Sociedade Teosófica, a exemplo dos movimentos maçônicos que eram um corpo único com várias subdivisões em Lojas.  

Anna Kingsford foi uma mulher admirável. De uma profundidade mística e de um idealismo como poucos, ela foi um exemplo em várias áreas: na luta pelo vegetarianismo e pela defesa dos animais, no conhecimento Hermético, na restauração de uma leitura esotérica do Cristianismo, na perseverança com que, não obstante sua saúde fragilizada, lutou por seus ideais. Ela poderia ter sido a iniciadora de uma grande abertura da ST para os ensinamentos ocidentais. Entretanto, a história não foi assim. No próximo Informativo HPB, veremos como a publicação do segundo livro de Sinnett, Budismo Esotérico e as diferenças entre HPB e Kingsford, tanto de ordem filosófica quanto pessoal, geraram uma crise na Loja de Londres, na qual o Mestre KH foi obrigado a interferir, cumprindo a vontade do próprio Chohan. Mesmo assim, essa crise culminou com uma grande perda para a ST e com o afastamento de Anna Kingsford da Loja de Londres.  

Bibliografia

Blavatsky, H.P. H. P. Blavatsky Collected Writings, volumes IV, IX, TPH, Wheaton, 1977.  

Corson, E. Some Unpublished Letters of HPB. TUP Online Edition, 1999.  

Godwin, J. The Theosophical Enlightment. State Univ. of New York Press, Albany, 1994.  

Hao Chin Jr., V. (ed.) The Mahatma Letters (in Chronological Seq.) TPH, Quezon City, 1993.  

Judge, W.Q. Letters That Have Helped Me. Theosophy Co., Bombay,  

Kingsford, A.B. Clothed With the Sun. Sun Publ. Co., Santa Fe, 1993.  

Kingsford, A.B. & Maitland, E. The Credo of Christendom, 1916. Kessinger Publ. Co., Montana.  

Olcott, H.S. Old Diary Leaves, vol. V. TPH, Adyar, 1974.  

Ranson, J. A Short History of the Theosophical Society. TPH, Adyar, 1989.  

Shirley, R. Anna Kingsford & Edward Maitland. Mandrake Press Ltd., Thame, 1993.  

Wachtmeister, C. Reminiscences of H.P. Blavatsky and The Secret Doctrine. TPH, Wheaton, 1976  
 

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