Hermetismo e vegetarianismo

Hermetismo – Doutrina ligada ao gnosticismo (q. v.), surgida no Egito no séc. I, atribuída ao deus Thot, chamado pelos gregos Hermes Trismegisto, e formada principalmente pela associação de elementos doutrinários orientais e neoplatônicos. Cristalizou-se num ensinamento secreto em que se misturam filosofia e alquimia.  (Aurélio)  Hermes Trimegisto

Os excertos a seguir foram extraídos de The Credo of Christendom and other Addresses and Essays on Esoteric Christianity (1916), Anna Bonus Kingsford e Edward Maitland. Prefácio biográfico de Samuel Hopgood Hart. Tradução de Marly Winckler 
 
“Embora puramente místico e espiritual, em contraposição ao histórico e cerimonial, o Sistema Hermético distingue-se de outras escolas de misticismo por estar livre da maneira sombria e igrejista de considerar a natureza, e do desdém e aversão ao corpo e suas funções como inerentemente impuros e desprezíveis; e, portanto, longe de repudiar as relações entre os sexos, ele as exalta como simbolizando os mistérios divinos mais sublimes e desfruta de seu exercício como um dever, cujo cumprimento, pelo menos em algumas de suas encarnações, é essencial para realizar o aperfeiçoamento e a iniciação do indivíduo. É, pois, permeado por uma apreciação da beleza e alegria de tom que ao mesmo tempo o assemelha à concepção grega da existência e o diferencia da oriental, e, portanto, redime o misticismo da acusação — muitas vezes merecida — de pessimismo. O Hermético, como o Profeta que encontrou Deus nas profundezas marinhas e na barriga da baleia, reconhece a divindade em cada região e departamento da natureza. E, vendo na ‘ignorância de Deus o maior dos males’, (64) ele busca aperfeiçoar-se, não simplesmente para escapar mais cedo da existência como uma coisa inerentemente má, mas para tornar-se um instrumento de percepção capaz de ‘ver Deus’ em cada região da existência para a qual possa voltar seu olhar. O pessimismo atribuído a algumas afirmações Herméticas, sobretudo em o ‘O Divino Pymander’, é apenas aparente, não real, e implica apenas comparativa imperfeição da existência em contraste com a pura e divina.

“É com este fim que se insiste na renúncia da carne como alimento, como nos ‘Asclépios'. Não pertencendo nem por sua constituição física nem moral à ordem dos carnívoros, o homem pode ser o melhor que há nele quando seu sistema é purificado e construído novamente com os materiais mais puros derivados do reino vegetal, e indicados por sua estrutura como sua dieta natural. O órganon da visão beatífica é a intuição. E não apenas o sistema, quando alimentado com carne, reprime esta faculdade, mas o próprio fracasso do indivíduo em abster-se da violência e do assassinato como meios de sustento ou gratificação é uma indicação de que carece desta faculdade.

“Em nenhum respeito o Sistema Hermético mostrou sua superioridade inigualável aos sistemas pseudo-místicos do que em seu reconhecimento da igualdade dos sexos. É verdade que a história da Queda é de origem Hermética; mas não é menos verdadeiro que esta é uma alegoria, tendo um sentido completamente distante do literal, não implicando, de forma alguma, censura ou inferioridade, seja com relação a um indivíduo ou a um sexo. Representando uma verdade eterna de importância divina, esta alegoria tem servido de justificativa para doutrinas e práticas com relação a mulheres completamente falsas, injustas, cruéis e monstruosas, como as que só poderiam advir de fontes elementares e sub-humanas.

“Em conclusão. Toda a história mostra que é para a restauração do Sistema Hermético tanto na doutrina quanto na prática que o mundo deve olhar para a solução final dos vários problemas concernentes à natureza e conduta da existência, que agora — mais do que em qualquer época precedente — exerce a mente humana. Pois ela representa aquilo para o que toda a investigação, ilimitada pela incapacidade, e não distorcida por preconceito — deve em última análise levar; visto representar os conhecimentos seguros, porque experimentais, concernentes à natureza das coisas que, em qualquer idade, a alma do homem desvenda sempre que atinge a plena intuição. Representando o triunfo do livre-pensar — um pensamento, diga-se, que ousou sondar a consciência em todas as direções, para fora e para baixo na matéria e nos fenômenos, e para dentro e para cima quanto ao espírito e a realidade — representa também o triunfo da fé religiosa, naquilo em que vê em Deus o Tudo em Tudo da Existência; na Natureza, o veículo para a manifestação de Deus; e na Alma — educada e aperfeiçoada mediante os processos da Natureza — a individualização de deus".

Falando dos males do ato de comer carne, Anna Kingsford, em uma nota para  “Asclépios sobre Iniciações”, diz: 

“A chave para o Segredo Hermético é encontrada quando o aspirante adota a Vida Edênica: a vida de pureza e caridade que todos os místicos — hebreus, egípcios, budistas, latinos, védicos, em uníssono consentimento, atribuem ao homem na idade de ouro de sua perfeição primeva. O primeiro resultado da Queda, ou Degeneração, é o derramamento de sangue e o comer carne. A licença de matar é o manual-emblema do ‘Paraíso Perdido'. E o primeiro passo para o ‘Paraíso Recoquistado' é dado quando o homem voluntariamente retorna ao modo de vida indicado por seu organismo como o único que lhe convém, e assim reúne-se à harmonia da Natureza e à Vontade de Deus. Nenhum homem que segue este caminho e lealmente mantém-se nele deixa de encontrar por fim o Portal do Paraíso. Não necessariamente em uma única vida, pois o processo de purificação é longo e as experiências passadas de alguns homens podem ser tais que lhes impeçam, por muitas vidas, de chegar à terra prometida. Mas, não obstante, cada passo fiel e firmemente trilhado os leva cada vez mais perto da meta, cada ano de vida pura cada vez mais reforça o espírito, purga a mente, liberta a vontade e aumenta sua realeza humana. Por outro lado, é vão buscar união com Deus no Espírito, enquanto o organismo físico e magnético permanece insurgente contra a Natureza. A harmonia deve ser estabelecida entre o homem e a Natureza antes de a união poder ser realizada entre o homem e Deus. Pois a Natureza é o Deus manifestado; e se o homem não estiver em perfeita caridade com aquilo que é visível, como pode amar aquilo que é invisível?

"A doutrina Hermética ensina o parentesco e a solidariedade de todos os seres, redimidos e glorificados no homem. Pois o homem não mantém-se à parte e afastado de outras criaturas, como se fora um anjo caído de algum mundo celestial sobre a terra, mas é filho da terra, produto da evolução, irmão mais velho de todas as coisas conscientes; seu senhor e rei, não seu tirano. Cabe-lhe ser com relação a todas as criaturas um Bom Destino; ele é o guardião, o redentor, o  regenerador da terra. Se necessário, ele pode conclamar seus súditos a servir-lhe como seu rei, mas jamais pode, sem perder sua realeza maltratá-los e fazê-los sofrer.

"Todos os filhos de Deus, em todas as terras e épocas, abstiveram-se de sangue, em obediência a uma lei oculta que faz valer seus direitos no peito de todos os homens regenerados. Os Deuses mundanos não são avessos ao sangue, pois por meio dele são revigorados e podem manifestar-se. Pois os Deuses mundanos são as forças do elemento astral no homem, elemento este que domina no irregenerado. Portanto, os irregenerados estão sob o poder das estrelas e sujeitos à ilusão. Na medida em que o homem purifica-se da mancha de sangue, está menos sujeito a ser ludibriado pelos enganos da serpente do astral. Portanto, que todos os que buscam o segredo Hermético façam o máximo para atingir a vida Hermética. Se a completa abstinência de todas as formas de sangue animal for impossível, que seja adotado um grau menor, que admita apenas o uso de carnes menos sangrentas — leite, peixe, ovos e a carne de pássaros. Mas, neste caso, que a  intenção do aspirante esteja continuamente unida com a da Natureza, desejando com firme propósito levar, sempre que possível, uma vida ainda mais perfeita; para que em um nascimento futuro possa atingi-la”. (The Virgin of the World, pp. 94-95.)

Trecho extraído de The Credo of Christendom and other Addresses and Essays on Esoteric Christianity (1916), Anna Bonus Kingsford e Edward Maitland. Prefácio biográfico de Samuel Hopgood Hart.

Tradução de Marly Winckler
 

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