Guerra na terra e no mar

É claro que o ministro falava de uma guerra econômica: ‘Como conquistar o máximo de mercados, no mundo todo?’ Por exemplo, obrigar a Europa recuar na questão do açúcar[1] para, em seguida, com o açúcar e álcool brasileiros, fazer cortadores de cana africanos e asiáticos afundar ainda mais no pântano dos preços ainda mais baixos. A CPT busca dar voz às vitimas silenciosas: florestas, água, solos esgotados, ar poluído com CO2 (5), plantas, sementes, animais, agrobiodiversidade, ecossistemas e – finalmente, mas não menos importante – pessoas assassinadas, pessoas exploradas, pessoas famintas, e até pessoas submetidas a novas formas de escravidão (6).

O modelo da Revolução Verde das décadas de 1960 e 1970 proporcionou prosperidade para uma minoria e miséria, migração e fome para a maioria. Empresas de sementes, como Guerra, vinculadas a outros ramos do complexo agroindustrial – encabeçados pela química – eram a munição neste estado de guerra permanente. Um estudo recente da OCDE [Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico] (7) afirma “que entre 1992-1993 e 2001-2002, o emprego na agricultura diminuiu 14% e que, comparando os períodos de 1990-1994 e 2000-2003, o valor da agro-exportação aumentou em 73%, indo de US$ 9,8 bilhões por ano para US$ 16,9 bilhões”. Pelo jeito não há uma relação direta entre aumento na exportação – destinada à guerra pelo mercado de alimentos – e mais emprego na agricultura. Nem na Europa, nem no Brasil. Leia mais sobre este assunto no texto de encerramento do projeto de intercâmbio: ‘OMC e os fluxos de alimentos Brasil-Europa. Agricultores flamengos e brasileiros querem participar das decisões (8).

Agora nos encontramos em uma nova fase de aceleração: a Revolução Geneticamente Manipulada. Até onde eu sei, Guerra ainda não foi comprada pela Monsanto. Até segunda ordem, esta gigante das sementes e produtos químicos ainda é 100% proprietária da soja geneticamente modificada. Mesmo que outras empresas produzam as sementes patenteadas, os royalties devem fluir na direção dos investidores norte-americanos e europeus da Monsanto.

 

[foto 8]

Caminhonetes como variantes urbanas das colhedeiras-tanques

 

A logomarca que Greenpeace utiliza em sua ‘guerra’ contra os OGMs é surpreendentemente parecida com a logomarca que utilizávamos nas manifestações contra energia e armas nucleares, na década de 1980. Será que há alguma semelhança? Será que, nas lavouras, realmente estamos em um outro nível de guerra do que na década de 1970? Se a Revolução Verde era o início de uma guerra convencional, a (r)evolução atual seria a guerra nuclear no campo? Com ainda mais vítimas, avançando de maneira invisível como ainda ocorre, 60 anos mais tarde, nas vidas e nos corpos de Hiroshima/Nagasaki? De geração em geração. Será que ambas as formas de guerra nuclear não estão realmente atingindo o núcleo, o poder de germinação da vida? Ou será que estamos exagerando? Será que sabemos a resposta?


[1] O Brasil apresentou – junto com alguns outros países – uma reclamação contra a União Européia na OMC. A Europa deveria parar com os subsídios à exportação de açúcar. Na qualidade de líder mundial na produção de açúcar, o Brasil é capaz de produzir a um custo muito mais baixo… e, portanto, ocupar estes mercados sem subsídios. Isto não beneficia a agricultura familiar no Brasil nem na África, mas favorece o agronegócio.

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