Globo News promove touradas

Senhores(as) editores(as) e jornalistas,

Causou-me perplexidade e indignação a matéria intitulada “Proibição de touradas gera polêmica em todo o mundo”, veiculada no programa “Sem Fronteiras”, da Globo News. Não é preciso ter estudado análise de conteúdo para perceber o lamentável viés que prevaleceu nessa peça jornalística, dando muito mais voz aos defensores da prática covarde e abjeta em questão – a tauromaquia – em comparação com aqueles que se opõem a tais espetáculos sinistros, convenientemente tratados como “tradição” em vários momentos da matéria. De fato, a própria chamada para o programa já acenava na direção dos simpatizantes das touradas quando questionava: “Por que fecha-se o cerco contra um dos maiores símbolos da Espanha?”  

Sob o manto da neutralidade, a matéria enaltece as touradas ao associar ideias ou frases como  “ser toureiro é ser valente, famoso, é correr perigo de morte” a ícones da cultura mundial como Ernest Heminway (autor da frase), Garcia Lorca, Goya e Picasso “que celebraram os touros”… Se houvesse um mínimo de isenção, e a intenção fosse mesmo a de associar as touradas a pessoas de notório saber, ou excelência nas artes, a matéria teria feito menção a nomes como o “Nobel” José Saramago, que condenava essa chacina (1).

O caráter tendencioso da reportagem também fica evidente quando esta reforça, em inúmeros depoimentos, a possibilidade de a proibição das touradas na Catalunha se dever a motivos de ordem política, e não aos direitos dos animais:  “A Catalunha quer fazer uma limpeza de identidade, uma limpeza de seus traços e símbolos espanhóis”, diz um entrevistado.

A matéria macula o bom jornalismo ao privilegiar, também de forma sub-reptícia, a visão de mundo especista que marca nossa cultura. Isso fica patente em passagens como “no século XVI, o papa Pio V proibiu as touradas porque, quando o touro não era morto, podia ser usado de novo, em outros espetáculos e, como aprendia as ´manhas´, muitos toureiros eram mortos”. Ou seja, trata-se de uma preocupação de natureza totalmente antropocêntrica e especista.

Em outros depoimentos da reportagem, “lamenta-se que os jovens não sejam educados para apreciar as touradas”, e que “a população do país Basco também esteja sendo ´cutucada´ pelas ideias abolicionistas”. Um entrevistado  associou de forma implícita a proibição das touradas ao nazi-fascismo, ao dizer que esse tipo de rebeldia pode resultar em um grande problema, pois  (como naquele contexto) “busca uma pureza na História”. Já outro entrevistado, diz abertamente que “proibir uma coisa é fascismo”.

Mas talvez o depoimento mais especista e perverso seja o do escritor Edward Levine, que inicia sua fala relatando alguns danos causados pelos touros aos “matadores”  (toureiros) e dali em diante exalta, muito entusiasmado, o suposto glamour e beleza das touradas. Num tom clean, o escritor glorifica friamente o aspecto de “dança entre o animal e o homem, num cenário sem  propaganda, e com uma banda tocando ao fundo”. “Se as touradas se acabarem, destaca ele, os touros que são criados para isso também se acabarão, porque não haverá mais razão para criá-los. Isso é lamentável, pois eles são lindos….Há sangue, mas, paradoxalmente, se não houver violência, o espetáculo não será tão belo e emocionante” (sic).  A reportagem atinge aqui o seu auge em termos de pseudoneutralidade: não se trata mais apenas de festas, alegria, ou acrobacias na arena, mas de elegância, arte, erudição. A tauromaquia é definitivamente associada à expressão do ser humano em diversos contextos artísticos como a arquitetura, a música e a dança. Para piorar o “pacote de maldades”, ainda são mencionados os interesses econômicos envolvidos, sobretudo os turísticos.

Como pode um bom jornalismo fazer tal apologia à barbárie? Não se sensibilizaram os jornalistas que fizeram essa matéria com as cenas em que as pobres bestas subjugadas aparecem arfando aterrorizadas, e implodem sob seus membros trêmulos, diante dos urros da multidão ensandecida? Não perceberam o olhar de medo e doçura dos animais, sua natureza pacata, e seu desespero para tentar escapar do seu calvário? Não se deram conta  que, longe de um ato de bravura, o matador e seus numerosos “asseclas” se atiram sobre um animal que já entra na arena intimidado, psicologicamente debilitado e geralmente ferido, tal como no combate entre o gladiador Maximus e Commodus (2)? Cruel pão e circo!

A matéria é finalizada com uma reflexão sobre a famigerada farra do boi, que ocorre no litoral catarinense. Mais uma vez, sob a pretensa fachada de tratar o assunto de forma neutra, a matéria premia depoimentos de moradores da cidade de Governador Celso Ramos – “terra da farra do boi” – entre outros, que identificam a “farra” com as festas populares, com tradição, e com a alegria do povo (sic), ou seja, transmite-se efetivamente a ideia de que ser contra a farra é ser contra o povo e sua alegria (re-sic!). Exemplos de argumentos patéticos são: “A farra é menos violenta do que os rodeios, que não são proibidos no país” (dentro dessa lógica talvez seja o caso de liberar o estupro, desde que não seguido de morte, não é mesmo?); ou “a farra se tornou violenta depois da lei que a proíbe”. Esse último argumento enfureceu muitas pessoas que residem em Santa Catarina, nativas ou não, que, como eu,  conhecem muito bem tal realidade e sabem que os animais sempre sofreram todos os tipos de abusos e danos físicos e psicológicos, e jamais foram consultados sobre se queriam participar ou não da violência que chamam eufemisticamente de “brincadeira”.

Vale questionar a serviço de quem, ou o quê, encontra-se tamanha ausência de isenção? Aos que lucram com os rodeios?

O bom jornalismo deveria abordar, com o máximo grau de isenção possível, os mais diversos aspectos que envolvem qualquer temática. Mesmo sabendo que a neutralidade é impossível, a boa prática procura equilibrar opiniões e depoimentos, o que não foi feito nessa matéria.

Já ouviram falar em abolicionismo animal, ou nos movimentos antiespecistas que crescem em todo o mundo? Sugiro que, numa próxima matéria que envolva o sofrimento de animais não-humanos, não permitam que ideias como “festa, sem touro, não é festa”, e palavras como tradição e arte, inundem suas reportagens de forma acrítica.  Em vez disso, incluam os termos apontados no início deste parágrafo e seu ideário correspondente. Ouçam e gravem os depoimentos dos defensores dos direitos dos animais. Os argumentos dessas pessoas certamente têm muito a contribuir no que tange a uma ética altruísta, à compaixão e outros valores imprescindíveis para a construção de um mundo melhor. Finalmente, como  professora, gostaria de lembrar aos jornalistas a responsabilidade que têm como educadores. E que o ideário dos velhos de idade e de espírito que defendem touradas e outras práticas igualmente vis contra seres sencientes faz parte do mesmo paradigma responsável pela destruição do planeta. Se a Catalunha não quer mais “pegar o touro à unha” (3), louvemos essa nova conduta ética.  

Profª Paula Brügger (Deptº de Ecologia e Zoologia; Programa de Pós-graduação em Engenharia e Gestão do Conhecimento  – UFSC)

A matéria pode ser acessada em:

http://globonews.globo.com/Jornalismo/GN/0,,MUL1619342-17665-320,00.html

Notas:

(1): Com relação a José Saramago, visite:

http://matportugal.blogspot.com/2010/06/jose-saramago.htmlhttp://caderno.josesaramago.org/2009/06/29/espanha-negra/

(2): Referência ao filme Gladiador, de Ridley Scott, e à cena de combate numa arena entre Maximus (Russel Crowe) e Commodus (Joaquin Phoenix).

(3): Referência à música “Toureiro de Madrid”, de Braguinha.

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