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George Harrison – All Things Must Pass

All Things Must Pass

Pablo Aluísio

Clássico de George Harrison é relançado / março 2001

George Harrison tinha um grande problema nos Beatles, a companhia de dois excelentes compositores que mal lhe deixavam espaço para encaixar suas próprias canções. No apagar das luzes da banda, em 1969, ele emplacou o maior sucesso do LP Abbey Road, a balada Something, uma campeã de regravações, mas só tinha uma outra faixa no disco, a singela Here comes the sun. Daí quando Paul McCartney oficializou o fim dos Beatles em abril de 1970, ao anunciar McCartney, seu primeiro álbum solo que foi para as lojas inglesas no dia 17, Harrison tinha um acervo razoável que formaria o repertório de um álbum triplo, All thing must pass, que ele lançaria em 27 de novembro do mesmo ano, e que agora ganha uma reedição de luxo remasterizada, com cinco novas faixas e um libreto com letras e explicações do autor.

Uma produção complexa e luxuosa que na época contrastou com o som caseiro de McCartney. Com John Lennon não foi diferente. Seu John Lennon & Plastic Ono Band, lançado em 11 de dezembro, trazia algumas canções que fizeram história, como God e Working class hero, mas a produção também ficou pálida. Harrison esbanjou recursos em três LPs, o terceiro um bônus com jam sessions, os dois primeiros com 17 canções, todas dele, com exceção de I'd have you anytime, parceria com Bob Dylan, e If not for you, que Dylan deu para Harrison, mas acabou lançando antes, em outubro de 70, no seu LP New morning.

O tema da canção de Dylan era o amor ("Sem seu amor/ eu não chegaria a lugar algum/ Estaria perdido se não fosse você"), principal mote do disco de Harrison, que usou seu primeiro disco individual para expressar a visão do mundo conseguida nos quatro anos anteriores, quando mergulhou na filosofia oriental e na música indiana, adotando a meditação, a alimentação vegetariana e a visão milenar de que o caminho para o aperfeiçoamento do mundo começa dentro de cada indivíduo através do amor.

"Cuidado com maya (ilusão), cuidado com a tristeza, com a falta de esperança que te cerca na solidão da noite. Cuidado com os líderes ambiciosos que querem te levar para onde você não quer ir", alerta ele em Beware of darkness, uma canção lenta que abre o segundo CD, musicalmente parecida com Something, uma das mais bonitas mas não a mais conhecida. A mina de ouro do álbum foi My sweet Lord, que vendeu 8 milhões de cópias como single e levou George a dizer, com certo orgulho vingativo, que ganhara US$ 1,8 milhão. Essa confiança foi abalada quando um tribunal deu ganho de causa a um processo de plágio por John Mack, autor de He's so fine, gravada em 1963 pelo grupo feminino Chiffons. A sentença reconheceu que o plágio foi involuntário mas ele teve que coçar o bolso em quase US$ 700 mil (ainda ficou no lucro).

My sweet Lord em arranjo quase acústico pontuado por uma slide guitar reflete o fervor religioso de George: "Quero ficar com você/ Meu doce Senhor/ Quero estar com você/ E não vai demorar muito tempo." O coro das George O'Hara Smith Singers – canta "aleluia, hare krishna, hare hare" – para refletir o pluralismo religioso. George gravou uma nova versão para a edição comemorativa com o filho Dhani, 22 anos, e vocais adicionais do cantor Sam Brown. Vale como mera curiosidade, já que o arranjo é praticamente o mesmo: faltou imaginação aos Harrison.

Há quatro outras faixas adicionais, uma delas inédita. I live for you, lenta e rústica como um rascunho, a demo de Beware of darkness, George de voz e violão mostrando a canção para Phil Spector, ainda sem a letra definitiva, numa interpretação forte. Dois takes alternativos de What is life, para cima ao estilo Motown com sopros, cordas e uma guitarra forte marcando, apresentada também só com a base instrumental. Let it down na gravação original tem uma introdução barulhenta com sopros, teclados e guitarras, depois cai numa balada conduzida por piano e teclados, enquanto na segunda versão, em voz e violão, George acrescentou solos de violão.

O escrete convocado por Harrison começa com o produtor Phil Spector, criador da famosa muralha sonora (wall of sound), uma massa instrumental conseguida através do uso de grande número de instrumentos dobrados várias vezes. O deus Eric Clapton trouxe não apenas sua guitarra, mas três músicos com quem tinha excursionado na América com a entourage do casal Delaney & Bonnie e que logo a seguir lideraria no efêmero grupo Derek and the Dominoes: Carl Radle (baixo), Bobby Whitlock (teclados) e Jim Gordon (bateria). E ainda o guitarrista do Traffic Dave Mason, o amigo alemão Klaus Voorman, artista plástico que fez a capa do LP Revolver, dos Beatles, depois virou baixista e logo se incorporaria à Plastic Ono Band, o baterista Alan White, que também iria para a Plastic Ono e, mais tarde, para o Yes. E Ringo Starr, o único outro beatle presente no disco, o tecladista Billy Preston, herdado do projeto beatle Let it be e os sopros arrasadores de Bobby Keyes (sax) e Jim Price (trompete), que mais tarde participariam de Exile on main street, dos Rolling Stones (Bobby ficou como músico contratado).

Entre as 17 canções, George colocou sete na linha de mensagens espirituais, sete de amor e três com outros temas. As levadas ficam sempre do médio para o lento, não há explosões ou rocks agitados com exceção de Wah Wah, uma brincadeira com um pedal de efeitos, em que o barulho come solto, a citada What is life e Art of dying, em que a animação contrasta com o tema, a aceitação da morte. Além de Wah wah, George exerce o humor apenas em Apple scruffs, uma referência às mulheres que se infiltravam nos escritórios da gravadora Apple, dos Beatles, e acabavam ficando por lá.

Logo após o sucesso de All things must pass, George promoveu o Concert for Bangladesh para ajudar os refugiados desse país asiático, lançado também em álbum triplo. Daí em diante emendou uma carreira solo regular com sete LPs até 1982, cada vez com menos sucesso até que o último, Gone troppo, não passou do 108° lugar nos Estados Unidos. Desde então lançou apenas dois discos, Cloud nine (1987), em que o maior sucesso foi uma regravação alheia, Got my mind set on you (Ruddy Clark), e um ao vivo, no Japão (92), com a banda de Eric Clapton. Participou de dois discos com os Travelling Wilburys, grupo de curta duração com Bob Dylan, Jeff Lynne, Roy Orbison e ele. George está gravando um novo disco que sai ainda este ano e que ameaça chamar de Seu planeta está condenado, volume 1. Ele sobreviveu a um atentado a faca ano passado, a um câncer da garganta em 1997 e permanece fiel aos seus princípios filosóficos e religiosos. George completa 58 anos no domingo e o sucesso estrondoso da coletânea 1, com mais de 20 milhões de cópias vendidas em pouco mais de três meses no mundo inteiro, mostra que ele e seus colegas Beatles não vão passar jamais.

(Jamari França)


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