Galinha viva

Kledir Ramil
 
Tem muita gente que nunca viu uma galinha viva. Vou explicar. Galinha é uma espécie de passarinho grande que não consegue voar porque é muito gordo. Aquele frango assado que vem douradinho, com as perninhas pra cima, um dia foi uma galinha cheia de penas, ciscando pelo pátio. Bem, isso no meu tempo de guri. Hoje em dia elas são criadas em gaiolas e depois oferecidas em espetos giratórios, na vitrine da padaria.

Antigamente, comprava-se galinha viva. Na feira. Nós, as crianças, ajudávamos a escolher a mais bonita: branca, marrom, preta com a crista vermelha. Eram lindas. Dentro da beleza possível a um passarinho gordo. O vendedor amarrava as patas da ave escolhida e cortava as asas pra ela não fugir. Como se fosse possível. Então a gente carregava a coitada, pendurada de cabeça p ra baixo, se debatendo e tentando voar com todo seu excesso de peso e aquelas meias-asas.

Lá em casa, só se comia galinha naqueles domingos em que meu pai resolvia não fazer churrasco. Ou seja, só de vez em quando. O detalhe é que, na hora de comer, alguém tinha de matar a galinha. Sim, não era como esses frangos assados que já vêm prontos e muita gente se ilude com a idéia de que ninguém matou o bichinho. "Ele já veio morto", "Não é um animal, é apenas comida".

Para nós, as crianças, aquilo que faziam com as galinhas era muito claro: um assassinato. Afinal, nossas amigas penosas eram até batizadas com nomes como Marizilda, Garnizélia e Gorduchinha.

Meu pai era um verdugo com técnica perfeita. Em pouco tempo a condenada partia pra outra melhor. No caso, a panela. Depois de passar pelo carrasco, o "alimento" era encaminhado para a cozinheira – uma mulher má e insensível – que jogava água fervendo na Marizil…, quer dizer, na galinha, e arrancava as penas até ela ficar pelada. O que restava, depois de limpo, temperado e levado ao forno, era o que se convencionou chamar de comida.

Certa vez meu pai viajou e a "missão degola" sobrou pra mim e para meu irmão. O único bicho que eu havia matado na vida era um mosquito. E mesmo assim, em legítima defesa. Tentamos imitar o ritual de nosso pai, mas a galinha continuou em pé. Saiu cacarejando, como se estivesse rindo da nossa cara. Aí eu peguei as pernas, meu irmão puxou a cabeça e a teimosa insistia em não morrer. Desesperado, agarrei o bicho pelo pescoço e comecei a girar, como uma boleadeira. E então, contra todas as previsões aerodinâmicas, quase num passe de mágica, aquela ave gorda e desajeitada finalmente saiu voando. Por cima do muro. Mas a cabeça, infelizmente, ficou na minha mão.

Foi aí que começou o meu processo de consciência, e me tornei vegetariano.

 
Fonte: Zero Hora 
 

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