Fernanda Ferreira de Ferreira (publicado na revista Bodigaya)

Porquê me tornei vegetariana

 

Qual é mesmo a diferença…?

Venho de uma família tipicamente carnívora. Meu pai sempre dizia que uma refeição sem carne era uma “refeição fraca”. Várias também foram as vezes em que ouvi ser “a carne fundamental para uma boa saúde” ou ainda que “os vegetarianos são todos uns raquíticos” e por aí a fora.  Devo também dizer que esta mesma família carnívora sempre foi apaixonada por animais. Nossos cachorros, gatos e passarinhos sempre foram tratados como iguais – mantendo-se a devida proporção de sanidade, é claro. Quando íamos “para fora,” visitar alguns parentes, as vaquinhas, as cabras, os porquinhos eram sempre “tão queridos,” tão parecidos com aqueles outros bichinhos que viviam dentro da nossa casa. E para mim, por muito tempo foi perfeitamente natural o fato de que existem os animais que “servem como alimento” e os que “servem como nossos bichinhos de estimação”. Afinal de contas, hierarquias existem e devem ser respeitadas. Primeiro vêm os humanos, depois os animais domésticos, depois aqueles animais que existem para nos servir e finalmente os outros, sem qualquer utilidade prática e que devem, de fato, ser exterminados. Além disso, aquele suculento pedaço de carne, tão nutritivo em nossos pratos, não tinha absolutamente nada a ver com qualquer um daqueles bichinhos tão queridos e mimosos que víamos “lá fora,” muito menos com o nosso cachorro.

Um dia, porém, num daqueles momentos em que a realidade à qual estamos habituados parece não se encaixar tão bem assim, olhei para um dos meus gatos e a pergunta surgiu: “Mas qual é, afinal, a diferença entre o meu gato e a vaquinha ou o porquinho que estão sendo engordados unicamente para serem brutalmente sacrificados e transformarem-se naquele pedaço de carne no meu prato? Por que é mesmo que posso, sem qualquer ressentimento ou compaixão, comer a vaca ou o porco ou a ovelha, mas me horrorizo ao simples pensamento de comer o meu gato ou o meu cachorro? A partir desse dia me tornei vegetariana.

Acredito que desde então tive ainda mais razões para gostar dos bichos. Tantas que decidi não mais morar em um apartamento. Queria ter uma casa, com um pátio onde pudesse ter meus gatos e meus cachorros livres (tanto quanto fosse possível) além de um jardinzinho e, quem sabe até uma hortinha modesta. Afortunada que sou, não tardou muito e lá estava eu na minha casa com os meus dois gatos (que em seguida já eram quatro, além de uma cusca vira-lata) e a possibilidade de um jardim cheio de flores que em breve estariam atraindo milhões de beija-flores e outros tantos passarinhos. Marinheira de primeiríssima viagem, meu belo jardim não durou mais do que uma semana: lesmas, formigas, bichos-cabeludos, insetos com caras de monstros e mais uma vasta fauna que eu nem sonhava existir pareciam não se alimentar há séculos! Nova tentativa. Mesmo resultado.

_ “Não adianta”, diz a vizinha, “tem que pôr veneno”.

_ “Veneno?” perguntei, “Mas e se os meus gatos e a minha cachorra comerem? Não vou matar os meus bichos!”

É verdade. Eu, que há muitos anos atrás havia percebido não haver diferença entre a vaca e o meu gato, estava agora fazendo diferença entre os meus bichos e aquelas criaturas “sem qualquer utilidade prática” que estavam ali única e exclusivamente para arruinar com o meu jardim. Depois vieram as uvas e, junto com elas uma legião de “bichinhos” que se deliciavam, tanto quanto eu, com as uvas da minha parreira.

E foi no meu pátio, observando a imensidão de diferentes criaturas que vivem num pedacinho de terra, que eu novamente me fiz a mesma pergunta: “Qual é, afinal, a diferença entre os meus bichos e todas essas criaturas que vivem da mesma forma que eles e eu? O que é mesmo que me permite matar todos aqueles que “existem para me servir” ou que considero “sem utilidade” ou que julgo “atrapalhar os meus planos” de ter um belo jardim? A partir desse dia meu jardim se tornou, digamos assim,  “rústico”. Vivemos todos juntos: gatos, lesmas, plantas, lagartixas, insetos, passarinhos, cachorro, eu, e mais um milhão de criaturas que tenho certeza jamais conhecerei. No último verão, colhi alguns cachos de uva e deixei outros para os passarinhos e aqueles outros bichos. Alguns dias atrás parei para observar um bicho-bola. Ele caminhava tão faceiro e determinado que eu não tive a menor dúvida de que aquele é mesmo o seu lugar.

Temos uma visão extremamente individualista do mundo. Olhamos para ele quase que única e exclusivamente a partir da nossa perspectiva, com os nossos olhos, com as nossas necessidades, desejos e verdades, os quais julgamos serem absolutos. Aonde quer que vamos, tentamos fazer do nosso jeito, sem ao menos termos o cuidado de observar o que vai a nossa volta.

Você pode pensar que eu perdi um bocado da razão quando me pergunto qual a diferença entre um cachorro, uma vaca ou uma lesma; poderá pensar que o pouco de razão que me sobrou extingue-se, definitivamente, quando “insinuo” que todos temos o mesmo direito não só de viver mas de cumprir com a nossa função nesse mundo. É que eu fico imaginando que se mais pessoas se perguntassem qual é mesmo a diferença entre brancos, pretos, muçulmanos, judeus, palestinos, asiáticos… Pois é, as coisas poderiam ser diferentes. Assim como eu olho para o meu jardim e decido matar aquelas criaturas que não colaboram com a minha vontade, há os que decidem ser os animais, meros produtos de consumo. Da mesma forma, há aqueles que olham para mim ou para você e decidem que nós estamos somente atrapalhando, ou que simplesmente não fazemos parte dos seus planos, não é mesmo? E o que é o mundo senão aquilo que nós decidimos que ele seja?

Por favor, não me entenda mal. Não quero aqui dizer que homens valem o mesmo que lesmas, vacas ou bichos-bola. Mas gostaria imensamente que pudéssemos todos olhar àquilo que está a nossa volta de uma maneira mais profunda. Tenho certeza de que as montanhas, as árvores, as plantas, os rios, o céu, os bichos e os seres humanos ficarão infinitamente agradecidos.

 

 

Texto de Fernanda Ferreira de Ferreira

publicado na revista Bodigaya

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