Febre do biodiesel

Luc Vankrunkelsven

Estou de partida rumo à Bolívia, para um seminário internacional sobre ‘soja na pequena propriedade’. Os organizadores me pediram para falar sobre a história do acúmulo de capital a partir da década de 1930, quando se optou por deixar a produção de alimentos para consumo humano e passar a produzir ração animal para sistemas agrícolas intensivos (1). Na mesma época, ocorre em Erechim (RS) um encontro de 400 agricultores da Fetraf em torno da excitante palavra mágica ‘biodiesel’. Muitos já o consideram o novo ciclo econômico do Brasil. Mais um! Principalmente o governo acredita no futuro do biodiesel. Até 2025, o governo também quer multiplicar por 12 a produção de etanol no rastro dos norte-americanos, que extraem seu etanol principalmente do milho.

Será que – pelos fatos e nos bastidores – toda essa evolução não está sendo estimulada por Monsanto?

Com agradecimentos a Al Gore

Será que estou vendo fantasmas? De novo a Monsanto!

Com o fato consumado da soja transgênica, a Monsanto conseguiu o apoio do governo brasileiro para sua estratégia de transformar a soja transgênica em biodiesel ‘verde’. Em seguida virá o milho transgênico. O consumidor europeu continua desconfiado em relação aos OGMs. Enquanto isso, os EUA, Argentina, Brasil – mas também a Romênia, na Europa – estão cobertos de soja transgênica. Felizmente, para a Monsanto & Cia, as mudanças no clima e o Protocolo de Kyoto para redução de CO2 estão vindo em nossa direção na velocidade de um trem-bala. A onda em torno/repercussão do filme de Al Gore faz com que, internacionalmente, as pessoas se voltem cada vez mais na mesma direção: reduzir as emissões de CO2 a qualquer custo sem redução de conforto (por exemplo, redução de veículos, veículos mais econômicos, menos diesel para transporte internacional). É que isso nós resolveremos com o biodiesel da soja, certo?! Caso contrário, quem comprará nossos milhões de toneladas de óleo de soja? Na década de 1990, a criação de gado intensiva ainda poderia responder: “Você e suas críticas… Você deveria ficar feliz por nossos suínos e aves ajudarem a limpar o farelo produzido pela indústria de extração de óleo vegetal!” E quando, após 15 anos de luta, conseguimos esvaziar este falso argumento, o ‘biodiesel de soja’ cai como um presente do céu. Afinal, o óleo é ‘necessário’ para o transporte de mercadorias e para a redução de nossas emissões de CO2. Quem é que pode ser contra isso? E o ‘resíduo’, as proteínas de alto valor nutritivo – porém transgênicas –, vai ser difícil transformar toda ela em tofu para consumo humano?! Sem problema, com ajuda da China e da Índia, o consumo mundial de carnes está aumentando vertiginosamente. O farelo de soja segue rapidamente para os cochos de alimentação das indústrias de processamento de carne. Globalização sem precedentes.

Com agradecimentos a Kyoto

As florestas já foram queimadas e transformadas em monocultura de soja. Ou seja, precisamos continuar com o grão maravilhoso. Desta vez, por causa do motor a diesel e para os estômagos dos suínos/aves/peixes/gado bovino. Carro particular e consumo elevado de carne: no grão de soja eles se encontram, estes símbolos máximos de nosso modo de vida ocidental e hoje espalhados pelo mundo todo. Ou será que devemos transformar as áreas devastadas em monoculturas de eucalipto ou pinus transgênico?

Isto também está ocorrendo em grande escala e ainda é chamado – inescrupulosamente – de ‘reflorestamento’ e é considerado interessante no combate global ao aquecimento. Portanto, a partir dos acordos de Kyoto, também concedemos subsídios para estes desertos de eucaliptos geneticamente modificados! Árvores geneticamente modificadas vão se tornar interessantes para a ‘segunda geração’ de culturas energéticas.

Mas, por enquanto, vamos ficar com esta febre do biodiesel-de-soja. É louvável que se busque por fontes renováveis de energia, mas do ponto de vista econômico e ecológico toda a história da soja soa um pouco estranha. Enquanto a cana-de-açúcar e sorgo podem produzir até 6 mil litros de etanol por hectare, no caso da soja estamos falando de míseros 560 litros de óleo. O dendê produz até 3,5 toneladas e mamona até 1,7 tonelada por hectare. O girassol também é uma alternativa. Será que o óleo de soja é, realmente, o caminho mais interessante? Deve ser dito: os desertos verdes de cana-de-açúcar e das palmeiras de dendê também têm uma ação devastadora sobre a biodiversidade. Os cultivos exigem uma grande ocupação de terras e a produção de um litro de etanol consome 30 litros de água. Em comparação com o biodiesel-de-soja ainda é (economicamente) defensável. Os fazendeiros, radiantes, lavam as mãos na inocência. “Vamos produzir energia limpa e o Brasil é praticamente o único país no mundo onde a fronteira agrícola pode avançar ainda mais na floresta! Nós somos os novos fornecedores de energia. Os potes de ouro estão à nossa espera.”

Com agradecimentos às gêmeas Monsanto-Cargill

Já se sabe de longa data que Monsanto-Cargill arrasam pelo mundo como gêmeas siamesas. Ambas podem ser encontradas tanto no lado dos insumos (sementes, agrotóxicos, adubos) quanto no lado dos produtos (compra de ‘matérias-primas’ e processamento primário) do(a) agricultor(a). Talvez este seja o fato mais interessante do meu trabalho em ambos os lados do oceano. Você se depara mais rapidamente com suas estratégias internacionais.

O que a Cargill pretende com sua nova fábrica de biodiesel e etanol no porto de Gent? Há alguns meses ela está preparada para produzir 250 mil toneladas de combustível. Se tivéssemos que utilizar como matéria-prima nosso próprio milho, seria necessário cerca de 1/3 da área plantada com milho na Bélgica – ou seja, 300 mil hectares – para atender a demanda de etanol desta mesma Bélgica. Compare isto com os 750 mil hectares de terras agrícolas que, com muito custo, procuramos preservar em Flandres. E quanto à semente de colza para biodiesel? Uma vez que, na Bélgica, não temos só muitos veículos e caminhões (cerca de seis veículos para cada dez habitantes), mas também estômagos de pessoas e ainda mais interesses de exportação de alimentos, jamais aceitaríamos isso. Ou seja, os 300 mil hectares para abastecer a fábrica da Cargill não estão localizados na Bélgica e, sim, no Brasil, Argentina, Paraguai, Bolívia e nos Estados Unidos. Ou no Canadá, pelo fornecimento de sementes de colza. É por isso que a fábrica ‘flamenga’ está localizada próxima ao porto, assim como muitas granjas de suínos e de aves já estão, há 30 anos, agrupadas em torno dos portos. É por isso que o estado brasileiro do Maranhão é tão interessante. Seu porto, em São Luís, é o mais próximo da Europa. Após o ciclo da soja-para-produzir-carne, iniciado na década de 1980, segue agora o ciclo da soja-para-biodiesel. E ambos se fortalecem mutuamente ao passar o rolo compressor sobre a terra e a população local (2).

Vamos esquecer

Tanto o preço do açúcar quanto o da soja e de outras commodities está, agora, vinculado às variações do preço do petróleo. Isto promete ficar interessante. Por enquanto vamos nos calar sobre a emissão de CO2 dos caminhões brasileiros na viagem ao porto –  percorrendo distâncias que chegam, às vezes, a dois – até três – mil quilômetros – e dos navios que cruzam os oceanos mundiais. Ou vamos nos calar sobre as queimadas em 60% da área plantada com cana-de-açúcar, no estado de São Paulo, para facilitar a colheita? Então, vamos esquecer também que apenas nos países do Mercosul (Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile e Bolívia) já há 30 milhões de hectares em processo de desertificação.

E, por fim, vamos esquecer que no Maranhão, por exemplo, foram consumidos, em média, 509,38 kg/ha de agrotóxicos e adubos químicos na safra agrícola de 2005/2006. Ou seja, energia – seja ela originária de petróleo ou não. E ainda só nesse estado foram consumidas, nessa mesma safra, 189.385 toneladas de adubos químicos e agrotóxicos.

Na euforia do biodiesel será necessário, principalmente, que aprendamos a esquecer.

 

Exatamente agora está sendo lançado, no Brasil, o livro sobre soja ‘Navios que se cruzam na calada da noite. Soja sobre o oceano.’ Hesitei muito se, nessa edição em português, devíamos incluir uma carta minha, datada em 7 de fevereiro de 2004, para Altemir Tortelli, Coordenador Geral da Fetraf. Esta carta pessoal tratava de ‘soja e biodiesel’ e, com a publicação, se tornaria uma ‘Carta Aberta’. Inesperadamente, esta epístola de repente se torna politicamente relevante e controversa. Esta semana, o Ministério do Desenvolvimento Agrário encomendou o livro. Justamente eles defendem a inclusão do biodiesel na agricultura familiar. Eles falam de ‘energia social’ e lutam para que a agroindústria – no seu empenho pela construção de fábricas de biodiesel – garanta que 30% do fornecimento de matéria-prima venha da agricultura familiar. Isto é até estabelecido na legislação. Inesperadamente, o capítulo que – nestes tempos acalorados de CO2 – chama mais atenção é esta ponderação crítica sobre a mais nova onda econômica. Os agricultores se reúnem e pegam o livro. Ler livros ainda não faz parte de sua cultura. De todo o Brasil chegam pedidos, dos círculos mais diversos: professores da faculdade de agronomia de Campinas, vegetarianos, de Florianópolis, membros do movimento contra transgênicos, de Belém, sindicalistas de Santa Catarina.

Com agradecimentos às sementes crioulas e ao óleo vegetal 

Neste meio tempo, surge entre um número considerável de agricultores e consumidores um movimento de resistência. Aparentemente não há mais volta na questão da soja e milho transgênicos. Monsanto, Syngenta & Cia venceram a batalha. Parabéns. A maioria das lavouras está contaminada. A única via de resistência que resta é preservar e recuperar a agrobiodiversidade de sementes. Os agricultores se reencontram na produção e troca de ‘sementes crioulas’: a diversidade das sementes da agricultura familiar, transmitida de geração em geração. Parece ser a grande oportunidade para ficar longe das garras das multinacionais de agrotóxicos e sementes.

 

[Foto 51]

Sementes crioulas promovem a reunião de pessoas.

 

Ao mesmo tempo em que reconquistam a autonomia das sementes (3), os agricultores e consumidores da Rede Ecovida começam a colocar o óleo vegetal – após utilizá-lo na cozinha – nos motores de seus próprios veículos. Os brasileiros consomem muitas frituras. O consumo médio direto é de 6 kg de soja por ano, principalmente para o óleo vegetal. Despejar o óleo usado diretamente no meio ambiente significa poluição. Colocá-lo no tanque de combustível reduz a poluição e contribui para a redução de emissão de CO2. Além disso, tudo é realizado na seqüência correta: a agricultura familiar é voltada, primeiramente, para a produção de alimentos; só depois ela se volta para produtos não-alimentícios. É por isso que Ecovida se recusa a falar de ‘biodiesel’, tratando-o sempre como ‘óleo vegetal’, para se manter independente das novas indústrias que surgem como cogumelos. Fábricas para gerar dinheiro, às custas do agricultor e do meio ambiente. O que Ecovida está criando é comparável com o que buscam alguns agricultores na Europa com obtenção de energia própria a partir de óleo vegetal. Veja, entre outros: <http://www.ppo.be>.

 

Estou curioso em relação ao foguetório que isto ainda vai gerar.

Será que serão fogos de artifício renováveis?

 

Bocaiúva do Sul, 26 de novembro de 2006.

 

(1)   Veja o capítulo ‘Dia Internacional da mulher e… soja’, em Navios que se cruzam na calada da noite. Soja sobre o oceano. Curitiba: Editora Gráfica Popular/Cefuria, 2006.

(2)   Veja o impressionante trabalho de Mayron Régis: ‘Nem à vista e nem a prazo. Os cerrados e suas lutas’. Fórum Carajás, São Luís, 2006. Veja: <http://www.forumcarajas.org.br> e o artigo no interessante site holandês Notícias: <http://www.noticias.nl/milieu_artikel.php?id=1617>.

(3)   Velt, Vredeseilanden [Ilhas de paz], Wervel, Intach e Greenpeace organizaram, no dia 3 de novembro de 2006, uma noite sobre autonomia em relação a sementes, em Leuven. À tarde, também ocorreu uma reunião frutífera com a Administração Flamenga de Agricultura e Horticultura sobre a importância de recuperar e preservar nossa agrobiodiversidade. Como resultado do evento, à noite foi lançada a publicação ‘Biodiversidade’, sobre a recuperação da autonomia das sementes. Pode ser adquirida junto a <http://www.wervel.be>.

Please follow and like us: