Estilo americano

Nos anos 70, o New York Times perguntou ao primeiro embaixador da China na ONU o que mais o havia impressionado nos Estados Unidos. ''O tamanho do lixo'', foi a resposta. Tamanho cada vez maior. É o que está na série documental e didática O desafio do lixo, que Washington Novaes preparou para a TV Cultura. Cada americano produz 730 quilos de lixo por ano e o que fazer com eles aperta o cerco em torno da capacidade inventiva e dos recursos dos encarregados de recolhê-los, armazená-los ou reciclá-los.

A desfaçatez com que Bush se desgarrou do Protocolo de Kyoto, destinado a evitar alterações climáticas danosas para toda a humanidade, coloca mais uma vez a questão do way of life americano e sua convivência massacrante com o resto do mundo. Os Estados Unidos entram em choque sistematicamente com tentativas de regulamentação ambiental. ''Os americanos vão à guerra, mas não mudam de hábitos'', garante um sociólogo. São 100 milhões de carros com ar-condicionado, queimando gasolina a granel.

Numa tumultuada conferência, diante da revelação de que os Estados Unidos com 4,5% da população mundial consomem um quarto de todo o petróleo produzido, exclamou um inglês: ''Mas que deselegância''! Einstein se dizia confuso. No inverno botam a calefação a 25 graus porque 15 é muito frio. No verão o ar refrigerado fica em 15 porque 25 é muito quente. ''O modelo EUA é simplesmente insustentável'', conclui o estudo intitulado Third World Ressurgence, de busca de alternativas para o universo pobre, de um malgache (habitante de Madagascar) que só dispõe de cinco litros de água por dia.

O americano, segundo a ONU, consome 600, os europeus 200. Há uma hiperprodução de lixo nos Estados Unidos. Campeões da poluição, das emissões de gases venenosos, são também responsáveis por um quarto do efeito estufa, origem de alterações climáticas que podem estar na raiz da penúria de água das nossas hidroelétricas. Do clima à biodiversidade nenhuma regulamentação é aceita. O primeiro-ministro da França, Leonel Jospin, em disputa do troféu de contraponto de Bush na Europa, recomenda aos europeus pautarem seu futuro tomando os Estados Unidos como exemplo a não ser seguido.

É uma sociedade que não aceita regras, reclama Jospin. Consome 40% dos recursos do mundo. Devora energia em quantidade per capita de 9,73 ''tep'' ou tonelada equivalente de petróleo por ano. Os 48 países mais pobres ficam com 0,38. Cada americano precisa em média de tanta energia quanto três suíços, quatro italianos, 160 tanzanianos e 1.100 ruandenses. O último levantamento, aparecido em relatório do World Watch Institute, constata que 25,5% do petróleo extraído são tragados pelos Estados Unidos.

As projeções aterrorizam. Ou deviam aterrorizar. Se o resto do universo se igualasse aos americanos na queima de petróleo, seriam necessários 360 milhões de barris por dia. A produção atual é de 67 milhões. De 89 a 99 essa queima aumentou em 11% e a produção interna caiu em 17%. As necessidades de importação já vão a 522 milhões de toneladas por ano, 60% a mais do que o extraído em casa. Embora pátria da alta tecnologia, os Estados Unidos figuram em 32° lugar em eficiência energética. Para produzir uma unidade do PIB, gastam o dobro da energia que gastam França e Itália.

As emissões per capita de gás carbono são 27 vezes maiores ''do que a cota sustentável num mundo equilibrado''. Tem mais no estudo The Natural Wealth of Nations. Se o restante dos seres humanos se alimentasse como os americanos, a comida disponível só daria para 2 bilhões de pessoas. Índia e China têm mais de 2 bilhões. A população mundial ultrapassa os 6 bilhões. Os Estados Unidos são os maiores devoradores de carne, 100 quilos per capita por ano.

Informação do New York Times: foi de um alto industrial de energia um dos primeiros telefonemas recebidos pelo novo diretor da agência reguladora da área energética. Em pauta o máximo de ausência de controles nas relações entre produtores e consumidores. O vice Cheney, homem do petróleo como o próprio Bush, já disse que conservacionismo é atitude filosófica e pessoal. No geral, é preciso aumentar a oferta e não reduzir o consumo. Gastança em nome de lucros.

E se a China seguisse o mesmo caminho? O Banco Mundial diz que a China tem ''potencial'' para tornar-se o segundo país mais rico do mundo por volta de 2020. Projeção que é homenagem às reformas econômicas, à globalização e à decisão do PC de privatizar boa parte das 13 mil empresas estatais chinesas. O mais rico, desde já, são os Estados Unidos, onde cada diminuto lote de 1,7 habitantes possui carro, enquanto na China a relação é 700 para um. Seria injusto negar aos chineses a caminho das glórias do enriquecimento, o direito de buscarem o mesmo tipo de ''conforto'' desfrutado pelos americanos.

O que significaria, no entanto, motorizar a China de mais de 1 bilhão, outorgar-lhe o merecido brasão da prosperidade? Gandhi disse que a terra tem como dar a cada ser humano o que ele precisa, ''mas não o que ele cobiça''.

Newton Carlos – jornalista

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