Esta noite dormi com uma mulher

Luc Vankrunkelsven

Flores na favela

De uma conferência internacional para outra. Hoje, em Curitiba, inicia-se a Convenção da ONU sobre Biodiversidade, que durará duas semanas. No fim de semana entre os dois eventos, fui visitar Rogério e Eliziana em Florianópolis, a capital de Santa Catarina, uma das mais belas cidades do mundo. Não que a cidade em si seja tão bela, mas ela é parte de uma grande ilha no meio do oceano. Uma vista de tirar o fôlego.

Curitiba

Caminho pela Rua Quinze de Novembro. Nos municípios brasileiros, freqüentemente a rua principal é denominada ‘XV de Novembro’, data em que foi proclamada a República. O slogan militar, e do primeiro presidente, ‘Ordem e Progresso’, deveria servir de inspiração para que o Brasil fosse, rapidamente, incluído entre as nações de destaque mundial. O Brasil se tornaria o único país onde o positivismo adquiriu ares de uma religião organizada, com catecismo e tudo mais. Na verdade, o ideal é sonoro: “O amor por princípio, a ordem por base, o progresso por fim”. Sinto-me integrado, pois tenho uma ‘identidade’. Existem aqueles símbolos que revelam exatamente que você pertence ao grupo: um ou dois celulares, pelo menos um – mas de preferência uma porção – de cartões de bancos, um veículo 4 x 4, viajar de avião. No Brasil, isto se aplica ainda mais do que na Europa. Tenho meu lugar na ‘ordem’ daqueles que estão a bordo e em segurança. Não é uma desordem para a massa de pessoas que ficaram de fora?

 

[Foto 27]

Biodiversidade na Rua Quinze

 

Acabo de descobrir que estou quase sem dinheiro. Sem problema: com um cartão ‘Maestro’ é possível tirar dinheiro dos caixas eletrônicos em quase toda a Europa, mas também no Brasil. Eu me viro com um celular simples e um cartão Maestro, mas o contraste é sempre grande quando você entra e sai do banco. Com sua jóia, seu pedaço de plástico na mão, com ‘chip’ que te dá acesso ao trânsito internacional de capital, você quase tropeça nos sem-tetos e mendigos. Talvez eu seja sensível demais, observador externo demais, pois – infelizmente – não consigo me acostumar. Será que é necessário ter uma alma com calo para não enxergar, não sentir?

Biodiversidade

Na Rua Quinze, estão expostos painéis maravilhosos. Patrocinados por diversas instâncias governamentais (Governo Federal, Governo do Paraná, Prefeitura de Curitiba), eles informam sobre a ‘história do meio ambiente no Paraná’. Interessantes, elaborados de maneira didática, por ocasião do MOP-3 e COP-8 (1) que está ocorrendo no Expo Trade, em Pinhais. Vamos simplificar: ‘Uma exposição no âmbito da missa solene sobre biodiversidade’. Os painéis tratam de perda da diversidade – como, em 150 anos, a multiforme natureza do Paraná foi desperdiçada – e sobre as tentativas de salvar ou recuperar o que restou. A usina hidrelétrica de Itaipu é um belo exemplo disso: primeiro expulsou os guarani e os agricultores familiares. Inundou 1.350 km2 de terras e, em seguida, empenhou-se em louváveis atividades de recuperação: reflorestamento com espécies nativas, recuperar ou preservar a biodiversidade de fauna e flora, atividades de educação ambiental visando o uso racional da água, apoio financeiro a movimentos sociais no Paraná.

Itaipu também tem, portanto, seus painéis.

Belíndia[1]

Logo adiante paro, estupefato. Ao lado de um painel, no meio do tumulto de dezenas de milhares de pessoas, uma senhora pobre está destruindo um arbusto. Pelo menos, é o que parece à primeira vista. Mas, em seguida, fiquei comovido. Trata-se de uma mulher que, na ‘ecológica’ cidade de Curitiba, é marginalizada e segregada para a periferia. Para as favelas, onde o porcentual de afrodescendentes é elevado. Escondida, pois esta é uma cidade branca. Na periferia não há espaço para biodiversidade, muito menos para arbustos em floreiras. Não há dinheiro para flores. E o que faz esta senhora anônima, no anonimato da massa? Ela tenta retirar dois ramos da floreira. Dois ramos com duas flores maravilhosas. Ela segue seu caminho mancando, pois é deficiente e marcada pela vida dura. Sigo-a com um nó na garganta. Vejo ela olhar, regularmente, com orgulho e satisfação para sua conquista. Pela janela da universidade ouço uma cantora de ópera. Ela exercita sua voz para alegrar as pessoas que podem pagar. Produto cultural para a elite. Duas mulheres, em dois mundos distintos. Na mesma cidade. Em Belíndia. Às vezes, a literatura chama o Brasil de ‘Belíndia’: Bélgica e Índia num mesmo país. ‘Bélgica’ representa a parte rica, ‘Índia’ a grande maioria dos excluídos. A Bélgica que, em 1865, forneceu as pontes para a arrojada ferrovia pela Serra do Mar do Imperador? Para o trem que – hoje – não pára de transportar soja pela serra, de Curitiba rumo ao Porto de Paranaguá. E, de lá em direção a Roterdã. Em direção às aves, suínos, gado e peixes na Bélgica e na Holanda.

 

[Foto 27bis]

Os trens cruzam a serra, a serviço de Bunge e sua soja.

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[1] Belíndia – Em 1974, Edmar Bacha cunhou essa expressão para definir o que seria a distribuição de renda no Brasil. Fonte: <http://www.economiabr.net/colunas/henriques/belindia.html>.

A biodiversidade está na gente

‘Minha’ mulher desaparece atrás de um ônibus. As flamejantes flores vermelhas alegram seu dia e, mais tarde, enfeitarão seu barraco. Talvez seria ela uma das 30 milhões de pessoas que, nos últimos 40 anos, foram obrigadas a abandonar o campo? Devido à ‘Revolução Verde’, que despreza a (agro)biodiversidade. A Revolução Verde que formava um contra-ataque perfeito para a ameaça da Revolução ‘Vermelha’ da reforma agrária. A ‘Contra’-Revolução dos militares, do século XX, que defendiam a ‘Ordem e Progresso’. O Brasil do século XXI, engajado na onda desenvolvimentista das nações. De modo ordeiro. Cada um no seu lugar.

Quer apostar como a mulher das flores sente saudades da riqueza de flores de seus campos sulinos? Eles estão descritos aqui nos painéis como uma relíquia do passado. “Resta somente 1% da área original”, informam os painéis sobre a biodiversidade.

Os ônibus e as paradas de ônibus foram lindamente decorados e ostentam os dizeres: ‘A biodiversidade está na gente’.

 

[Foto 28]

A biodiversidade está na gente

 

Com muito amor e saudade, esta mulher me acompanha quando vou dormir. Ela e as muitas outras pessoas que sentem falta dos campos floridos e da vida na roça, no meio rural.

Será que a recuperação ainda é possível neste mundo?

 

Curitiba, 13 de março de 2006.

 

(1)    MOP3: 3ª Encontro das Partes do Protocolo de Cartagena sobre Biossegurança, que trata do comércio de produtos transgênicos (geneticamente modificados ou GGOs).

COP 8: 8ª Conferência das Partes da Convenção da Diversidade Biológica.

 

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