Essa ciência não entrega a cura prometida – Sônia Felipe

A carta abaixo foi escrita a convite da Folha de São Paulo sobre o tema vivisecção, para a culuna Tendências / Debates, responde à pergunta "A ciência pode abrir mão de fazer experiências com animais?". Abaixo neste texto da resposta positiva, de Sônia Felipe, veja a resposta negativa, de Luiz Eugenio Mello

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Resposta: SIM

AS INVESTIGAÇÕES científicas mais relevantes para a preservação da saúde e da vida humanas resultaram de estudos feitos com base na clínica, na observação e no mapeamento das doenças que mais incidem sobre a população humana ou de estudos voltados para a prevenção das doenças, não exclusivamente para o combate de seus sintomas.

As descobertas científicas que mais contribuíram para prolongar a vida humana resultaram basicamente de estudos e observações clínicos, e não de testes feitos em animais vivos de outras espécies.

Via de regra, estudos baseados no modelo animal vivo (vivissecção) servem apenas para desenvolver a habilidade dos cientistas na construção de modelos que terão de ser, mais tarde, redesenhados para a aplicação em estudos destinados à investigação de possíveis terapêuticas para doenças humanas.

Após todo esse esforço, as drogas não funcionam como prometido. Muitas delas são retiradas do mercado após constatada sua letalidade para humanos. A ciência usa o dinheiro e investe o tempo de seus operadores se perdendo nos labirintos da vivissecção. Seu investimento nesse único método de pesquisa é diretamente proporcional ao seu fracasso em responder satisfatoriamente às questões às quais se propõe responder com a investigação.

Enquanto gerações e gerações de jovens cientistas são transformadas em vivisseccionistas sob a imposição hegemônica de uma ideologia claramente fracassada, outras tantas gerações de jovens, bebês e adultos morrem a cada ano daquelas mesmas doenças que o cientista há mais de cinco ou seis décadas promete curar ao buscar em organismos de ratos e camundongos a resposta para males que afetam cada vez mais devastadoramente organismos de indivíduos humanos.

A ciência vivisseccionista não tem feito nenhum progresso na busca da cura dos grandes males que produzem as doenças crônicas, dolorosas e letais mais comuns em organismos humanos: câncer, acidentes vasculares, diabetes, hipertensão, mal de Alzheimer, mal de Parkinson. Além do fracasso evidente de todas as drogas até hoje empregues para a "cura" dessas doenças, é preciso contabilizar o fracasso de outras inventadas a partir do modelo vivisseccionista para o tratamento das demais doenças que afligem os seres humanos, a exemplo da depressão e de outras formas de sofrimento psíquico.
Ao adotar o organismo de camundongos, ratos, cães, gatos, porcos, cavalos, aves e primatas não humanos como referência para a investigação, a ciência deixa de estudar e conhecer o organismo e o psiquismo dos seres da espécie humana, a destinatária de seus resultados.

O que o cientista vivisseccionista faz é estudar a fisiologia dessas doenças em organismos que, via de regra, nem sequer as produzem naturalmente. É preciso "fabricar" um camundongo com câncer para testar nele as drogas prometidas para curar o câncer em organismos que não foram "fabricados" com câncer, mas que o desenvolvem. A morte por câncer continua a ser praticamente previsível, apesar das drogas às quais o paciente humano é submetido na "luta contra" ele. Adiar a morte não cura.

Essa ciência pode abrir mão do uso de animais vivos, pois, embora ela tenha produzido uma quantidade incalculável de drogas para combater os sintomas de tais males, ao sustentar sua investigação no vivisseccionismo, não produz resultados que garantem a "cura" de nenhum daqueles males mais freqüentes que afetam crônica ou agudamente a saúde e destroem a vida humana.

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SÔNIA TERESINHA FELIPE, 53, doutora em filosofia moral e teoria política pela Universidade de Konstanz (Alemanha) com pós-doutorado em bioética-ética animal pelo Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa (Portugal), é professora da graduação e da pós-graduação em filosofia e do doutorado interdisciplinar em ciências humanas da Universidade Federal de Santa Catarina.

 

Carta publicada na Folha de São PauloTENDÊNCIAS/DEBATES

ão Paulo, sábado, 10 de novembro de 2007

 

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TENDÊNCIAS/DEBATES

A ciência pode abrir mão de fazer experiências com animais?

Resposta: NÃO

Uma necessidade científica básica

Luis Eugenio Mello

PRECISAMOS respirar? Essa poderia ser a tradução da pergunta sugerida. O uso de animais é tão básico para a ciência como é respirar para qualquer um de nós. Para explicar de outra forma, a interrupção da experimentação animal representaria a morte de parte importante da ciência, do ser humano e do planeta.

É claro que podemos voltar para a Idade da Pedra e tentar viver sem energia elétrica, sem os excessos do mundo moderno e em plena harmonia com a natureza. Para os que não percebem a falácia oculta nessa utopia, relembro apenas que nesse mundo idealizado não haveria tampouco os avanços médicos que permitem a milhões de pessoas existir. Ideal para quem, portanto?

Digamos que não se trate de renegar toda a ciência e os avanços do mundo moderno, mas simplesmente de impedir o sofrimento dos animais de experimentação. Dizendo de outra forma, deveríamos impedir a experimentação animal, pois o sofrimento de qualquer criatura deve ser evitado a todo custo. Fora dessa equação, ficam todos os pacientes que hoje sofrem de doenças incuráveis. Fora dessa equação, ficam todas as futuras vítimas de novas doenças. Poucas pessoas? Lembremo-nos apenas da dengue. Doença antiga e ainda sem cura.

Neste ano, as pesquisas com animais de laboratório indicam que há uma possível vacina. Teríamos essa vacina sem animais? Não. Talvez no século 22, 23 ou no futuro remoto.

Espécies animais são extintas o tempo todo. Teríamos capacidade de preservar ou recriar animais sem experimentação animal? Não. É só porque aprendemos a dominar a fertilização in vitro e a clonagem que hoje somos capazes de impedir a extinção de aves, gatos selvagens etc.

Cientistas são pessoas como quaisquer outras. Não são sádicos nem monstros. Assim, é importante esclarecer a população sobre alguns aspectos. A primeira delas é que ciência não se associa a maus-tratos de animais.

Nas atividades de pesquisa, o uso de cobaias segue normas éticas. Os cientistas trabalham arduamente na busca de respostas para questões que afligem tanto homens como animais.

Outro argumento apresentado é a existência de diferenças anatômicas e fisiológicas entre ratos, rãs, cães, gatos e gambás e os humanos. Certamente há diferenças, mas há muito mais similaridades. A biologia molecular tem sido pródiga em demonstrar a riqueza de informações possíveis de serem obtidas a partir da biologia comparativa.

O fato de testes de drogas em ratos e chimpanzés terem mostrado alguns efeitos diferentes quando aplicados a seres humanos também tem sido listado entre os argumentos contra o uso de animais de experimentação.

Os que se opõem fazem referência ao caso da talidomida. Após a talidomida, as regras mudaram. Podemos dizer que, se não fosse a experimentação animal, teríamos dezenas de casos equivalentes ao da talidomida.

Outra questão polêmica é a introdução de técnicas alternativas que substituam a utilização de animais em ensino e pesquisa, tais como uso de células em cultura e biologia computacional. Esses procedimentos são completamente diferentes. Se os computadores pudessem prever tudo, a experimentação animal certamente seria desnecessária. Isso não é assim em nenhum país do mundo.
Não há como prever todas as interações de um organismo complexo.

Em 1995, o então deputado Sérgio Arouca apresentou o projeto de lei 1.115, que estabelece procedimentos para o uso científico de animais. O projeto foi elaborado com competência e integridade intelectual, mas questionado em alguns pontos. Foi então apresentado o PL 3.964/97.

Em outubro de 2007, completaram-se 12 anos desde a proposição de Arouca e uma lei ainda não foi regulamentada no país.

O uso de animais na ciência é absolutamente necessário. Ciência é questão de soberania nacional. Não se trata de procedimento obsoleto. Nossa segurança estaria mais comprometida caso não pudéssemos antes testar esses medicamentos em animais de laboratório. Analgésicos, antiinflamatórios, vacinas, antibióticos, hormônios em suas versões mais modernas dependeram tanto da experimentação animal como nós dependemos do ar para respirar e viver.

LUIZ EUGENIO ARAUJO DE MORAES MELLO, 50, graduado em medicina, mestre e doutor em biologia molecular com pós-doutorado em neurofisiologia pela Universidade da Califórnia, em Los Angeles (EUA), é professor titular de fisiologia e pró-reitor da Universidade Federal de São Paulo e presidente da Federação das Sociedades de Biologia Experimental.

Fonte: http://www.folha.uol.com.br/fsp/ – Sábado, 10 de novembro de 2007.

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