“Escolhe, pois, a vida”

A turnê pelo Brasil vai de vento em popa. Meu roteiro nunca foi tão intensivo: de universidades e escolas agrícolas, passando por grupos de agricultores carnívoros no Rio Grande do Sul e até vegetarianos em São Paulo. No fim de semana passado estive em Sananduva, no momento em que centenas de milhares de mulheres de todo o mundo se reuniam para encontros e mobilizações. O “Dia Internacional da Mulher”, celebrado anualmente, está se tornando um marco. Enquanto as mulheres da Via Campesina realizam manifestações de impacto contra multinacionais, como Aracruz ou Syngenta, Fetraf-Sul prefere optar pela realização de encontros em massa. Em Sananduva, o encontro conta com 400 mulheres; em Constantina são 1500. É uma opção política da Fetraf-Sul para promover ainda mais integração do gênero e criar mais oportunidades de encontros para as mulheres da agricultura familiar. 

Vida após o nascimento 

“Escolhe, pois, a vida” (Deuteronômio 30:19) é o título de um dos livros mais conhecidos da teóloga Dorothee Sölle. Em 2008, a frase foi escolhida como slogan da campanha da fraternidade da Igreja Católica no Brasil. No ano anterior, esse espaço foi ocupado pela preocupação ecológica vivaz e libertadora com a Floresta Amazônica; na maioria das igrejas, o lema “escolhe, pois, a vida” é interpretado principalmente como vida após a concepção, porém antes do nascimento. É bom defender essa vida. Mas causa certa estranheza quando se observa como os movimentos sociais estão agindo em relação ao aborto planetário após o nascimento: a privatização das sementes por Syngenta, Monsanto e companhia; os monocultivos de soja, milho e cana-de-açúcar; a loucura da ascensão dos biocombustíveis; fome e morte após o nascimento. 

As oportunidades da crise 

Segunda-feira: um programa intenso em Passo Fundo. Visitamos a Embrapa, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. No início da década de 1970, no auge da ditadura militar e da Revolução Verde, esses centros de pesquisa foram estrategicamente alocados em todo o país. O mesmo se aplica às escolas agrícolas, que tiveram início já na década de 1960. Estrategicamente? A agroindústria, como a Sadia, necessitava de mão-de-obra barata para o sistema de produção integrado de aves, perus e suínos. Na terça-feira, sou recebido na escola técnica de Concórdia. Passo o DVD “A vaca 80 tem um problema” e faço uma palestra para 150 alunos e professores. Depois da palestra, um professor confidencia: “Nós, as escolas agrícolas e a Embrapa, estamos em crise. Na época, foram criadas para atender aos interesses das grandes agroindústrias que estavam em ascensão. Elas necessitavam de mão-de-obra capacitada e barata, não de pessoas com espírito crítico. Por exemplo, no início, a Sadia incorporou imediatamente 80 ex-alunos no sistema de integração. Agora não contrata qualquer um. Eles não precisam mais da agricultura familiar.”

Um estudante pergunta: “Cerca de 75% dos estudantes daqui vêm da agricultura familiar. Alguns tentam nos convencer dos benefícios da Revolução Verde, mas, e você, o que tem a dizer à juventude rural daqui? Qual é o nosso futuro?” 

A palavra “crise” é derivada do verbo grego krinein (julgar). Uma organização, um modelo agrícola ou uma sociedade pode se encontrar em uma crise, mas será que essa não é exatamente a hora da verdade? Um momento Kairos,1, um momento oportuno, no qual uma escolha pode ser feita. Escolher, por exemplo, a vida, contrapondo-se aos deuses da morte e da mentira. Será que é por isso que as portas da Embrapa, universidades e escolas agrícolas se abrem para um belga um tanto fora do comum com alguns livros? Livros que pregam coisas diferentes daquilo que, há 40 anos, era considerado convencional. Daquilo em que se acreditava há 40 anos e que já exigiu tantos sacrifícios.

O professor continua: ”É um momento histórico. Nossas instituições estão em crise e o Governo Lula espera que nós não optemos somente pelo agronegócio, mas também apoiemos a agricultura familiar. Nós somos oriundos de uma tradição de mutirão, de colaboração. A ‘revolução’ fez de nós concorrentes e individualistas. Podemos redescobrir o mutirão e a verdadeira agricultura familiar. Aliás, uma pesquisa mostrou que filhos de agricultores familiares independentes recebem, em casa, estímulo para assumir as propriedades das famílias, enquanto os pais – que estão presos na integração – preferem que seus filhos partam para as cidades. Pode ser um momento histórico para nos reorganizarmos. O governo pode desempenhar um papel dinamizador desse processo.” 

Assesoar 

Quinta-feira eu estou na Assembléia Geral da Assesoar, em Francisco Beltrão. Assesoar: constituída no ano de 1966 pelo visionário padre belga Jef Caeckelbergh. É comovente como, também aqui, se luta pela vida. No meu grupo de discussão aflora a tristeza pelo rumo que a igreja tem tomado. Um homem diz: “A maioria de nós, na casa dos 30 e 40 anos, foi formada numa igreja combativa, inspirada pela teologia da libertação. Agora, há anos sentimos o abandono da igreja, enquanto há tanta coisa que ela poderia fazer para apoiar as causas dos movimentos sociais.”

Pois é. Pelo jeito, “escolhe, pois, a vida” pode receber interpretações bastante distintas.

E como nós vamos reverter essa maré? Será que a crise atual vai expor a nudez do rei e suas mentiras? Na década de 1960, padre Jef plantou uma semente. Cerca de 42 anos mais tarde, os agricultores e agricultoras cuidam para que a “mãe das organizações de agricultores familiares do Oeste do Paraná” possa continuar fazendo seu trabalho. Sempre se renovando. “Para que tenham vida e a tenham em abundância” (João 10:10). 

O difícil equilíbrio entre cooperativa e sindicato 

Os últimos cem anos de história do sindicato belga de agricultores nos ensinaram quão difícil é o exercício de equilíbrio entre o sindicato de agricultores e suas cooperativas – isto posto eufemisticamente, para não chamar de luta pelo poder. O poder sempre está presente onde há concentração de dinheiro. Isso não ocorre, principalmente, na atividade econômica dos agricultores, em vez de em sua atividade sindical? Quem paga a banda, escolhe a música. Até que ponto o trabalho sindical pode ser enfraquecido ou paralisado pelos crescentes interesses econômicos dos bancos e do setor de indústrias de processamento?

Essas considerações passam pela minha cabeça enquanto eu faço minhas palestras na Cooperativa de Leite da Agricultura Familiar – Claf, em Nova Prata do Iguaçu, e na assembléia geral do sindicato da Fetraf, em Salto do Lontra. Trata-se de duas organizações sadias e renovadoras e de encontros interessantes. Há muita dinâmica no meio dos agricultores familiares.

Como será que encontrarão o equilíbrio entre o necessário apoio econômico e o apoio político do movimento? 

Escolhe, pois, a vida. As escolhas não se impõem somente nas igrejas ou na segurança dos seios familiares.

“Escolha a vida” deve ser a faixa para todas as organizações que, juntas, defendem a terra castigada e seus habitantes torturados. 

Luc Vankrunkelsven,

Nova Prata do Iguaçu, 14 de março de 2008.

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