Aurora no Campo - Soja Diferente

Erva mate e chimarrão

Luc Vankrunkelsven

Chimarrão

Glaucus Saraiva

 

Amargo doce que eu sorvo

Num beijo em lábios de prata.

Tens o perfume da mata

Molhada pelo sereno.

E a cuia, seio moreno,

Que passa de mão em mão

Traduz, no meu chimarrão,

Em sua simplicidade,

A velha hospitalidade

Da gente do meu rincão.

[1a estrofe]

 

 

 

No fim de semana, sou hóspede de Roselaine Pasquali e Orlando Vincenci.

Rose trabalhava para o sindicato dos comerciários da CUT – Central Única dos Trabalhadores. Agora, trabalha em tempo integral na secretaria da Fetraf-Sul/CUT e dá aula de economia na universidade de Chapecó. Durante anos, Orlando trabalhou para o ‘departamento rural’ da CUT, sediado em São Paulo. Nesta função ele viajou por este imenso Brasil, visitando os sindicatos locais. Naquela época pioneira, a maioria das viagens era feita de ônibus. Por exemplo, uma pessoa do estado do Pará, Avelino Ganzer (vice-presidente da CUT-nacional, coordenador do ‘departamento rural’) vinha de ônibus para as reuniões nacionais em São Paulo. Ele levava dez dias para chegar a seu destino…

Mesmo que, em função do trabalho, Orlando morasse em São Paulo, ele nunca cortou os laços com seu querido Rio Grande do Sul. Apesar do intenso trabalho de sindicalista, ele continuou a cultivar suas terras, a 1100 km da Grande Metrópole.

Amazônia de hoje, Chapecó de ontem 

Conversamos longamente sobre passado e presente. Sobre os caboclos (1) que, naqueles tempos, eram assassinados ou expulsos pelos imigrantes europeus, sobre racismo, sobre a versão oficial da história e a história das vítimas – que somente vem sendo estudada nos últimos anos; sobre soja transgênica; sobre trabalho sindical; sobre mudanças nos usos e costumes (“de um banho por semana para duas ou três chuveiradas por dias!”); sobre o descaso dos brasileiros no uso de, por exemplo, energia elétrica, água e outras evidências diárias; sobre consumo elevado de carne e desmatamento (“Porque o que hoje ocorre na Amazônia – desmatamento provocado pela explosão nas exportações de carne de gado e de soja – ocorreu nesta região há cinqüenta anos atrás”). Sobre o sonho de realmente voltar a viver e trabalhar num sítio.

Por causa do trabalho sindical, há dez anos eles se conheceram num ônibus que ia de Brasília a São Paulo e o casal comprou uma chácara em Chapecó. Orlando toma conta do sítio de 24 hectares / 9 alqueires com gado (nove vacas leiteiras e vários novilhos; Jersey e ‘a vaca holandesa’), ovelhas, alguns porcos, a dupla soja/milho, capim-elefante, mandioca, piscicultura, uma horta variada. Chama a atenção a ‘vassoura’, uma planta que lembra o milho, mas é mais alta. Sua panícula ainda é muito utilizadas pelas pessoas para varrer o chão.

Dentro em breve, o filho de Orlando vem ajudar no sítio. Provavelmente a lavoura de soja será transformada em pasto para manter mais cabeças de gado leiteiro. “Em longo prazo, a soja não será mais rentável para a agricultura familiar. A relação entre custo e produção e preço e a ferrugem asiática vão cuidar disso”, é a previsão de Orlando.

 

[Foto 21]

O chimarrão e a garrafa térmica vão juntos para todo lugar

Seio moreno

Não só durante esta conversa em torno da mesa, mas também quando percorremos o sítio, somos acompanhados pelo eterno chimarrão e a garrafa térmica cheia de água quente. O seio moreno passa de mão em mão, a bomba de boca em boca. O doce amargo faz com que as pessoas ingiram muita água (quente), mas também é um ritual que simboliza comunhão.

Originalmente era um hábito dos guarani (2). Os imigrantes europeus, que se misturaram aos gaúchos (3), no Rio Grande do Sul, incorporaram este hábito. Tal como numa Liturgia das Horas nos mosteiros, a água é aquecida e a cuia preparada, pelo menos, de manhã, à tarde e à noite. E, em muitos casos, o chimarrão está por perto o dia todo. Como numa vigília contínua e de poucas palavras.

Na cozinha, onde as pessoas se reúnem em torno da mesa, o poema ‘Chimarrão’ – caligrafado sobre couro – enfeita a parede.

 

Intermezzo

Enquanto digito esta crônica, a vizinha vem trazer uma capelinha com uma imagem de Maria, cercada de rendas e rosas. Ela está sobre uma nuvem que, por sua vez, envolve a terra. Na base, está localizada – discretamente – uma fenda para colocar uma oferta.

Como não sei do que se trata (“Será uma vendedora de imagens de Maria? Uma charlatã devota?”), peço que vá falar com Orlando e Rose que estão fazendo a ordenha. A mulher olha desapontada porque não conheço o ritual e, portanto, não participo do mesmo.

Um pouco mais tarde, a capelinha está ao lado do meu laptop. Pela primeira vez na vida, escrevo uma crônica sob a vigilância da Mãe de Deus. Um texto sobre a Mãe Terra. Pode acontecer!

A comunidade aqui é predominantemente católica com um costume antigo, cuja existência eu nem suspeitava existir. Amanhã a imagem será levada adiante, para o próximo vizinho. E assim por diante, dia após dia, durante o ano todo. Fico sem palavras. Enquanto europeu secularizado você pode sorrir ao deparar-se com este costume, mas quais rituais nós mantemos? Nós ainda encontramos rituais para celebrar a comunhão?

Pessoas, comunidades necessitam de rituais para viver, para expressar a vida em sociedade e dar sentido a ela. Tomar Chimarrão é uma delas. A, em alguns contextos, a capelinha também pode sê-la. (4)

 

A erva-mate é uma árvore que ocorre naturalmente nas extensas matas de araucária. Os guarani cortavam e secavam suas folhas. A cuia é feita com um fruto que parece uma pequena abóbora, porém, seca, um purungo cortado. Os gaúchos continuam a imitar os indígenas e, há muito tempo, não somente os gaúchos do sul do Brasil. Com os gaúchos e a Revolução Verde, a soja, o chimarrão, a erva-mate se espalharam rumo ao norte do país: via Santa Catarina para o Paraná, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Rondônia, Goiás, Maranhão, Bahia e assim por diante. A primeira vez que tomei contato com o chimarrão foi em 2000, na capital Brasília. O homem, um colaborador do então deputado Padre Roque, do Paraná, tomava chimarrão e fumava um cigarro, simultaneamente. Este observador belga ficou totalmente confuso. Achei que se tratava de um narguilé[1]. Cigarro e cachimbo, simultaneamente? Estava totalmente equivocado!

_________
[1] Narguilé ou narguilê é um cachimbo largamente usado pelos turcos, hindus e persas, composto de um fornilho, um tubo e vaso cheio de água que o fumo atravessa antes de chegar à boca. (wikipedia)
 
 ‘O amargo doce que sorvo’.
 

Os brasileiros gostam de mate doce. Os argentinos gostam mais da bebida amarga. Aliás, os argentinos, uruguaios, paraguaios e bolivianos tomam, além do chimarrão (mate quente) uma variante feita com água gelada, o tererê. Nas regiões mais quentes do Brasil, como em Mato Grosso, ele também é tomado desta maneira. A erva-mate é uma espécie que se desenvolve à sombra de outras árvores mais altas e produz uma bebida de sabor suave. Quando é cultivada na forma de plantações e a céu aberto, a bebida é mais amarga. Na década de noventa parecia que a erva-mate produzida de forma mais artesanal no sul do Brasil seria substituída pela produzida em larga escala e, portanto, mais barata, da Argentina. Como ela é mais amarga, era adoçada com açúcar.

Para a Agricultura Familiar isto era um desastre, pois, principalmente nas regiões com florestas, a erva-mate é uma importante fonte de renda nas chácaras. Também possui uma participação não desprezível na economia local, embora distante da importância que tinha no século 19. Nessa época, representava praticamente a única atividade econômica de peso no Paraná. Graças a uma ação política conjunta dos três estados do sul do Brasil foi possível aprovar uma lei que proíbe a comercialização de erva-mate com açúcar.

 

Quando, no sul do Brasil, se discute uma agricultura mais sustentável, erva-mate é um importante componente deste sistema. Os guarani obtinham, certamente, mais alimentos de um hectare de floresta do que os descendentes de europeus hoje. Eles se alimentavam de pinhão, erva-mate, frutos silvestres, um pouco de mandioca e milho cultivada e, de vez em quando, alguma caça. Enquanto diversidade de alimentos por hectare, eles estavam muito acima da produção de alta tecnologia atual, que propõe a monocultura de soja e milho. Além disso, a soja provoca desmatamento enquanto a erva-mate requer florestas e biodiversidade.

 

Chapecó, 25 de fevereiro de 2006.

 

 

(1)   Caboclo: a miscigenação de nativos com imigrantes europeus. Atualmente, praticamente todos desapareceram do meio rural e das florestas (devastadas). Segundo Orlando, eles só conseguem sobreviver nas grandes cidades.

(2)   Veja: ‘Chimarrão’, em Vankrunkelsven, Luc, Brazilië: spiegel van Europa?. Op zoek naar eigen spirituele bronnen. [Brasil: espelho da Europa. Em busca de fontes espirituais próprias]. Dabar/Heeswijk, 2000.

(3)   Gaúchos: os orgulhosos habitantes do estado mais ao sul do Brasil, o Rio Grande do Sul.

(4)   A origem do culto a Fátima na América Latina tem uma grande carga ideológica. Quando, em 1917, a revolução russa foi bem sucedida, a tradição portuguesa de levar a imagem de Maria de casa em casa foi, maciçamente, exportada para a América Latina. Assim, mo Brasil, Nossa Senhora de Fátima protegeu muitos grupos de oração e santuários da ‘ameaça comunista’. Em muitas comunidades, a circulação das imagens de Maria data deste período de exorcizar ‘os comunistas ateus’. Não é porque um ritual surge em circunstâncias duvidosas, que ela não pode ter sentido em outro contexto e época. Aqui, a circulação da imagem proporciona coesão numa comunidade local onde as famílias moram distantes umas das outras. A repetição do ritual é expressão da comunhão, sentido e vida destas pessoas.

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