Entrevista – veg fashion

Jaqueline – A Veg Fashion / Moda sem Crueldade é um conceito que alia questões éticas, sociais e ambientais. Quais são as questões básicas / condições deste novo conceito de moda e como elas estão interligadas?

 

Marly Winckler – A questão básica é o consumo ético e consciente, respeitando os animais e o meio ambiente. A moda é algo que tem sido muitas vezes ligada à futilidade e ao consumo desenfreado. Todo mundo precisa se vestir, assim como todo mundo precisa comer. No mundo de hoje mais do que nunca estes atos simples da vida estão inseridos num contexto maior de destruição dos ambientes naturais, exploração sem precedentes dos animais para utilizar sua carne, sua pele, seu couro, sua lã. Eles precisam de sua pele, nós não precisamos. Para questionar tudo isso e mostrar os ´bastidores´ da moda que não se preocupa com os materiais que utiliza é que criei o Veg Fashion, que aconteceu durante o 36 Congresso Vegetariano Mundial, em Florianópolis.

 

Jaqueline –  Quais são as principais opções de materiais que não têm origem animal para a confecção de roupas, sapatos e acessórios?

 

Marly Winckler – Hoje existe uma infinidade de materiais sintéticos e derivados de fibras naturais, como algodão, bambu, cânhamo etc. Não faz o menor sentido a utilização de peles e couros – com todo o sofrimento que sua obtenção necessariamente impõe aos animais, além de graves impactos ambientais associados à criação intensiva de animais tanto silvestres quanto ditos de criação.

 

Jaqueline – Além de peles e couros, que outros tipos de materiais usados comumente na confecção de roupas são provenientes de exploração animal?

 

Marly Winckler – Lá, seda, penas, cornos, ossos, dentes e os vários ´tecidos´ feitos a partir do couro. Não esqueçamos também das secreções, gorduras, essências etc. que também são usados na indústria da beleza, como perfumes, xampus, cremes etc. Essa exploração não tem fim.

 

Jaqueline – Existe alguma legislação (no Brasil e em outros países) que regulamente o uso de peles de animais e outros materiais provenientes de exploração animal na confecção de roupas?

 

Marly Winckler – Há leis que protegem os animais de maus tratos, porém essas leis dificilmente são aplicadas ou observadas e o que se vê são muitos animais sendo submetidos a toda a espécie de crueldades para obtenção de sua pele, couro, carne e um sem número de ´produtos´ feitos com seu corpo. Quando a imensa maioria simplesmente come o corpo de um animal morto o que esperar de uma civilização assim?

 

Jaqueline –  Algumas dicas para o consumidor ficar atento na hora de comprar suas peças de roupas. Enumerar motivos para todos, independente de serem veganos ou vegetarianos, fazerem a opção pela Veg Fashion (consumo consciente). Qual é o papel do consumidor final para o fortalecimento da moda sem crueldade?

 

Marly Winckler – O consumidor ético e consciente preocupa-se em não se associar com a crueldade e os impactos nefastos da exploração de animais para o vestuário. Ele se informa, se preocupa com a procedência do que consome, procura ver todos os ângulos da questão, desde o sofrimento imposto aos animais, o impacto negativo ao meio ambiente, o trabalho em condições indignas envolvido etc. Hoje começa a haver reação às barbaridades cometidas no campo do consumo. Campanhas e organizações estão chamando a atenção para o comércio justo e assim por diante. Esse é o caminho.

 

Jaqueline – As roupas e acessórios sem crueldade são mais caros que os convencionais? Por que?

 

Marly Winckler – Nem sempre. A não ser que sejam de griffes ´chiques´ não são mais caros. Os materiais sintéticos e naturais quase sempre saem mais em conta que os de origem animal.

 

Jaqueline –  A divulgação de fatos e dados sobre o massacre covarde de vários animais para uso de sua pele , inclusive cachorros e gatos na China, ganhou notoriedade nos últimos anos e alguns estilistas famosos como Calvin Klein, Ralph Lauren, Kenneth Cole e Tommy Hilfiger já aderiram publicamente à idéia de não mais usar essas materiais em suas coleções (embora outros nomes da moda, como Anna Wintour, continuem ignorando solenemente os protestos..). Há uma tendência dos estilistas seguirem esse novo conceito num médio e longo prazos. O que o mercado está pedindo?

 

Marly Winckler – Cada vez mais se alastra essa consciência do que está por trás da moda que utiliza materiais de origem animal. O que esperamos com desfiles como o Veg Fashion, o modaCOMpaixão e outros é que essa consciência se expanda ainda mais chamando a atenção para as atrocidades cometidas contra os animais, seres indefesos e sensíveis. Ano que vem a SVB vai participar de um desfile de carnaval que aborda essa questão, não permitindo o uso de nenhum material de origem animal nas fantasias etc.

 

Jaqueline –  No Brasil, que estilistas e marcas se destacam na linha da Veg Fashion? Obs: gostaria destas informações para fazer um box dando dicas bem práticas sobre as marcas confiáveis, onde encontrar as roupas, preços etc. Provavelmente farei contato com estes estilistas/marcas. Nos grandes eventos de moda (Rio e SP Fashion Week) esta tendência está presente de alguma forma?

 

Marly Winckler – Os dois desfiles que criei foram dirigidos pela estilista Danielle Ferraz, que criou a campanha Chique é Ser Consciente. Tivemos a presença da Udesc – Escola de Moda da Universidade de Santa Catarina em ambos. No Veg Fashion além das alunas da Udesc tivemos um dia de desfile com os estilistas da Treetap (Amazon Life), Será o Benedito, Suzana Rodrigues, Yepp, Nara Guichon e outros.

 

Este ano o Fashion Week de SP incorporou o conceito de respeito ao meio ambiente a partir dos materiais utilizados. Espero que essa tendência avance e se aprofunde, eliminando também os materiais provenientes de peles, couros e outros derivados de animais.

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Em 02/07/07, Jaqueline B. Ramos

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