Enquanto isso

Mesmo assim, ainda há um outro ‘enquanto isso’. A questão do poder sempre deve ser formulada novamente. O rolo compressor destruidor das multinacionais e do agronegócio deve ser parado. O ponto em discussão aqui é: que meios se deve usar para fazer isso?

Enquanto este grande trabalho espera para ser realizado, agricultores familiares e campesinos seguem trabalhando. Eles enfeitam suas propriedades e comunidades com plantas e árvores. Eles recuperam, gradativamente, o que se perdeu ao longo do tempo por desconhecimento. Espécies arbóreas nativas são replantadas nas propriedades. Enquanto isso, políticos interessados, com base no Protocolo de Kyoto, tomam providências para que não só as grandes empresas estrangeiras ganhem dinheiro. O agricultor familiar também será remunerado por preservação e recuperação da natureza e replantios em sua propriedade. Ainda há muitas críticas a fazer em relação ao governo Lula, mas raramente algo é completamente branco ou preto. O retrato global é negativo porque, ao analisar os números, ainda são o agronegócio e os bancos que ficam com o grosso do dinheiro. Mas, enquanto isso, também foram feitas mudanças em temas estruturais e de grande impacto. Para permitir a revitalização do campo, da agricultura familiar, dos jovens no meio rural. Para recuperar a biodiversidade. Será que haverá um dia em que o global e o local apertarão as mãos? Aceleramos o tempo em que o grande trabalho político e as pequenas mudanças locais se alimentam e se inspiram mutuamente?

 

‘Pense globalmente, alimente-se localmente!’ é o chamamento que Wervel lança para os próximos anos.

É ‘a’ resposta? Não, é uma orientação na direção de um outro mundo.

 

Porto Alegre, 8 de março de 2006.

 

(1)   ‘Agricultura familiar e camponesa versus agroindústria’. No período de 2003-2005, as grandes empresas receberam do governo federal, na forma de crédito, 115 bilhões de reais. Neste mesmo período, 20 bilhões de reais foram destinados a um milhão de famílias da ‘agricultura camponesa e familiar’. Desde 2003, dez grupos econômicos (principalmente estrangeiros) receberam do Banco do Brasil cerca de 8 bilhões de reais. A Aracruz celulose foi um deles. Na safra de 2003/2004 recebeu 1,167 bilhão de reais; na safra de 2004/2005, a mão estendida da empresa rendeu 455 milhões de reais. Como os empréstimos não foram pagos, o governo tem agora uma participação de 12,5% na empresa. Este é um truque que já é utilizado há décadas no Brasil e é um dos motivos pelos quais o governo afunda cada vez mais em dívidas.

(2)   Veja as crônicas anteriores sobre o conflito entre dois modelos agrícolas e sobre o domínio esmagador do agronegócio. Leia principalmente ‘Soja e guerra’, de 28 de outubro de 2005.

(3)   A balança comercial do agronegócio registrou, em fevereiro de 2006, uma exportação de 2,887 bilhões de dólares; um crescimento de 3,8% em relação ao ano passado. Enquanto o complexo soja diminuiu em 3,2%, cresceram, principalmente, fumo (22,4%), papel e celulose (18,3%), couro (15%) e café (14%). Não é exatamente uma produção de alimentos. O capital financeiro, do qual o agronegócio e os bancos fazem parte, não vai nada mal. Em 2005, o conjunto dos bancos obteve um lucro 36% superior (cerca de 28,3 bilhões de reais) ao ano anterior, que já foi um ano recorde. A rentabilidade do setor bancário é de 22,65%. Em outras palavras, se você investir em ações, para cada 100 reais investidos você recebe 22,65 reais. Em 2000, a rentabilidade média era de apenas 11,49%. O lucro está relacionado, principalmente, com o aumento explosivo de concessão de crédito e com a elevada taxa de juros. Enquanto escrevo esta crônica, escuto sem-tetos desesperados gritando enlouquecidos nas ruas. Você não precisaria de muito menos para enlouquecer? Um homem é cego e grita por horas algo ininteligível, mas sempre o mesmo mantra, sobre um chuveiro. Quem é que está cego para o chuveiro de benefícios que rega os ricos? Este pobre homem que clama ou o Banco Central e o governo, que mantêm os juros desse país no nível mais elevado do mundo? O cego como vidente.

(4)   Uma muda de eucalipto recém-plantada pode consumir até 30 litros de água por dia. Uma árvore adulta, em um reflorestamento, consome 700 a 1000 litros, dependendo do espaçamento entre as árvores. Uma árvore adulta isolada pode absorver até 20 mil litros por dia. Como explicar isso? Os eucaliptos são originários das regiões áridas da Austrália. A partir do processo evolutivo ao longo de milhões de anos, ele desenvolveu a capacidade de absorver com grande intensidade a pouca água disponível. Se você colocar esta espécie extraordinária em uma região (sub)tropical com muita água, os resultados são bem diferentes. Enquanto, na Austrália, um eucalipto necessita de cem anos para atingir um determinado diâmetro, num ambiente rico em água ele realiza a mesma proeza em dez anos. Leia, do mesmo autor: ‘Eucalyptus en Canada’ [Eucalipto e Canadá] em: “Brazilië: spiegel van Europa? Op zoek naar eigen spirituele bronnen” [Brasil: espelho da Europa? Em busca de fontes espirituais próprias] Dabar/Luyten, 2000. Ou veja ‘Iraque, soja, pinus e eucalipto’ em: “Navios que se cruzam na calada da noite. Soja sobre o Oceano” Curitiba: Gráfica Popular/Cefuria, 2006.

(5)   Satyagraha’ = ‘de kracht van de waarheid’ [Satyagraha = a força da verdade]. Vandana Shiva encerra sua argumentação a favor do policultivo versus monocultura com a ‘Satyagraha van het zaad’ [‘A força da verdade da semente’]. Veja: Wervelforum 1, ‘Patent op leven?’ [Patente sobre a vida?], Wervel, 1996. Os agricultores indianos invocam Gandhi e a Satyagraha. Partindo de uma profunda indignação, porque suas sementes são roubadas, desde o final da década de 90, eles também destroem o algodão transgênico da Monsanto. Não está claro para mim o que Gandhi pensaria hoje desta maneira de agir. No dia 30 de janeiro de 2008 faz 60 anos que Mahatma Gandhi foi assassinado. Para relembrar a data foi editado um calendário de aniversários com belas fotos e textos de Gandhi, em quatro idiomas (inglês, francês, alemão e holandês). Informações com <stefvermuyten@telenet.be>.

(6)   Exatamente no período da manifestação é divulgada uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística  (Ibope), com entrevistas realizadas na rua, entre 16 e 20 de fevereiro, com 2002 pessoas em 142 cidades: ‘O que o brasileiro médio acha das manifestações do MST?’ Cerca de 56% acham que as manifestações têm resultado negativo, enquanto 32% as consideram positivas; 13% não opinou. As invasões servem à democracia? 76% respondeu ‘não’, 16% ‘sim’ e 8% não opinou. Em comparação com pesquisas anteriores, parece que a simpatia e o apoio da população está diminuindo. Naturalmente o agronegócio e os grandes fazendeiros utilizam estas pesquisas para apoiar os seus interesses. E, talvez, as perguntas até tenham sido sutilmente direcionadas por eles.

Pelo que eu sei, não há democracia em multinacionais como a Aracruz. A relação democrática com a sociedade inexiste. O trabalho de lobby em Washington DC, Bruxelas e Brasília proporciona legislações adaptadas e fluxos de dinheiro em direção à Coca-Cola, Aracruz, Monsanto, Chevrolet, Mercedes, etc.

(7)   A Organização Mundial da Saúde, das Nações Unidas, afirma que cada pessoa deveria dispor de 40 litros de água por dia. O consumo médio de um brasileiro é de 200 litros. Portanto, cinco vezes mais. É claro que ‘consumo médio’ quer dizer que um consome (muito) mais água que outro. Recentemente foi criado um site no Brasil no qual é possível calcular seu consumo de água: <http://www.h2c.com.br>. Tanto a existência deste site quanto o aumento nos vários movimentos de sensibilização visam mudanças no estilo de vida neste país rico em recursos hídricos. Afinal, dependendo da forma de cálculo, o Brasil possui 12% a 20% da água doce do planeta. Só para comparar: a China, com mais de 20% da população mundial, dispõe de 6% da água disponível do planeta. Outra comparação, em relação ao consumo médio de água: Flandres, 115 litros/pessoa ao dia; Bélgica, 120 litros; Alemanha, 127 litros; França, 137 litros; Canadá, 350 litros; Estados Unidos da América, 375 a 400 litros.

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