Brasil - Europa em fragmentos?

Energia para o “imperador presunto”

Pelo terceiro ano consecutivo, faço uma visita à Rureco1, em Guarapuava. O programa de atividades é sempre intensivo, com entrevistas nas emissoras locais de TV e rádio, bem como uma palestra na universidade. 

Feijoada vegetariana 

Como resultado do encontro do ano passado com os “estudantes de História”, a recepção deste ano é realmente especial. No ano passado, havia um número considerável de vegetarianos no auditório. Graças a Mábia Camargo – que agora trabalha na Rureco – eles entraram em contato com os agricultores para reanimar o mercado de produtos orgânicos, que sofreu uma retração.

A Rureco e os jovens aproveitaram minha vinda e o lançamento do livreto “Pensar globalmente, alimentar-se localmente” para construir uma ponte sobre o abismo que separa esse grupo de jovens vegetarianos de alguns agricultores agroecológicos. Para as boas-vindas foi preparada uma feijoada, um prato comum em festas: feijão com pedaços de carne de porco. É óbvio que, nessa ocasião, a carne foi substituída por proteína de soja. Pelo jeito, a mídia também se interessou, pois a TV RPC (integrante da Rede Globo nacional) e o “Diário de Guarapuava” também compareceram. 

Após a refeição, faço uma exposição introdutória sobre a distância entre produtores e consumidores, destacando especialmente o crescente poder dos supermercados em prejuízo das feiras de agricultores familiares. Os dois grupos se encontram numa discussão animada e, finalmente, chegam a alguns acordos. Sinto como se estivesse na recriação dos Voedselteams2, em Flandres [Bélgica]… Os estudantes querem estabelecer um ponto de vendas na universidade. Espera-se que, na sequência, outros moradores da cidade também sejam atraídos. Foram combinadas ações concretas acerca dos próximos passos. 

Carne e desperdício para 9 bilhões de pessoas 

No dia seguinte, vou dar uma palestra para os agrônomos na mesma universidade. Como há um número considerável de filhos e filhas de fazendeiros, procuro fazer uma abordagem “leve”. Faço uma pequena introdução tomando por base os dois livros, principalmente temas sobre a conexão entre ração animal e a dupla “milho-soja”. Depois passamos o novo filme sobre sistemas agroflorestais, um DVD francês que Wervel distribui na Bélgica e na Holanda. Para minha grande satisfação, eles acharam tudo muito interessante. Segue um acalorado debate.

A discussão trata das possibilidades dos sistemas agroflorestais, passando pela soja e cana-de-açúcar até chegar ao biodiesel e ao etanol. Alguém afirma: “A agroecologia jamais será capaz de alimentar a população mundial.” Isso é lenha na fogueira para Mábia: “Isso é perfeitamente possível se deixarmos de comer carne. Também precisamos parar de produzir biodiesel de soja e etanol de cana-de-açúcar. Não há alternativa senão uma mudança radical.”

“Sim” – argumenta um estudante – “mas como vamos resolver a questão da energia se não optarmos pelas culturas energéticas? Será que a energia solar fornecerá energia para tudo? Um professor de Chapecó estimou quantos painéis solares seriam necessários para fornecer energia à indústria de carnes Sadia, em Chapecó. Seria necessária uma área de painéis solares equivalente a toda a área do município somente para abastecer a Sadia!” 

Que belo presente! Em meio à crise financeira mundial, enquanto os EUA e a Europa se desdobram para manter as montadoras do “rei carro”, esse estudante levanta a questão desse segundo grande consumidor de energia: a produção de carne. E ele faz essa intervenção no momento em que a Perdigão e sua concorrente Sadia anunciaram uma possível fusão. Desse modo, elas se tornariam uma das maiores indústrias processadoras de carne do mundo. E, nesse caso, quantas “Chapecós” seriam necessárias para fornecer energia elétrica para a Perdigão-Sadia? 

Será que Wervel realmente está no caminho certo com seu folheto “Rei carro e imperador presunto”? São os dois símbolos máximos que resumem o padrão de consumo ecologicamente insustentável de nossa sociedade (1). 

Luc Vankrunkelsven,

Guarapuava, 17 de março de 2009. 

  1. Para cada província da Bélgica, Wervel editou um folheto com o título “Rei carro e imperador presunto”. Na frente, encontram-se dados sobre o impacto ecológico e social desses dois símbolos máximos. No verso, os nomes e endereços para as alternativas (diferentes para cada província), visando tanto uma cadeia mais curta para alimentos quanto um uso mais coletivo de veículos e estimulando, entre outras ações, a “carona solidária”.
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