Em tempos de vacas magras

Patrocinadas por grandes empresas, as coloridas vaquinhas de R$ 35 mil da CowParade causam polêmica e protestos por onde passam

14/08/2006
Carina Teixeira

A CowParade nasceu em 1998 na Suíça, idealizada por Pascal Knapp. O artista plástico, que escolheu a vaca, animal-símbolo da Suíça, para representação do projeto, acreditava ser essa  uma forma de expressão artística que promovia a criatividade e atraia a população para o centro de Zurique, além de ser uma alternativa à exposição de obras em galerias e museus.

O evento se popularizou quando o advogado norte-americano Jerry Elbaum, em viagem a Zurique visitou a exposição e comprou os direitos autorais de Knapp. A partir daí, ele criou a empresa CowParade Holdings Corporation, com a finalidade de promover exposições semelhantes em cidades norte-americanas. Em 1999, as vacas ganharam fama e passaram a percorrer vários lugares do mundo.

O projeto, que já percorreu mais de 28 cidades ao redor do mundo, incluindo Chicago, Nova York, Londres, Las Vegas, Bruxelas, Lisboa, Praga e São Paulo, já arrecadou mais de US$ 11 milhões de dólares para projetos de responsabilidade social. Segundo os organizadores do evento, estima-se que mais de 3000 vacas já foram pintadas, sendo que pelo menos 160 viraram miniaturas e ítens de coleção, sendo consideradas o quarto maior ítem de coleção dos EUA. (ShopCowParade.com ).

As esculturas feitas de fibra de vidro em tamanho natural, são decoradas das mais diversas formas por artistas convidados e também por artistas selecionados através de projetos inscritos. Para essa seleção são feitas triagens por um comitê de especialistas em arte, mas os escolhidos só podem fazer parte da exposição se alguma empresa patrocinar seu projeto, que além de participarem dessa seleção, também escolhem o local onde querem suas vacas expostas.

Essas empresas patrocinadoras, que vão desde empresas de laticínios e derivados a bancos, redes de lanchonetes, fabricantes de pneus e joalherias, pagam uma cota de 35 mil reais por cada vaca. Os artistas recebem um cachê de 1.000 reais e o material para fazer sua obra.

Espalhadas pelas cidades escolhidas por cerca de 60 dias, as vaquinhas são vendidas em um leilão beneficente, que teve um lance mínimo de 5 mil reais quando estiveram na cidade de São Paulo, primeira cidade da América Latina a receber o evento, em 2005. O evento reuniu cerca de 70 empresas e um orçamento de 4 milhões de reais.

Um dos participantes do evento com sua escultura exposta em São Paulo, o artista Nelson Leirner, acredita que a CowParade não seja diferente de exposições dentro de instituições culturais ou feiras de arte, onde tudo acaba sendo patrocinado por uma grande empresa. "Esse processo é repetitivo do próprio sistema de arte. O artista não tem mais como ser agressor da sociedade ou do sistema de arte. Tudo acaba sendo consumido, englobado", disse Leirner. "Acho que para o público será interessante, mas para a cidade é apenas mais poluição visual."

O evento é considerado por seus organizadores um dos maiores eventos "contemporâneos de arte de rua do mundo", mas cria polêmica entre especialistas que trabalham com o conceito arte urbana.

"Um objeto decorativo em um espaço público não significa que seja arte", disse o filósofo Nelson Brissac, organizador desde 1994 do Arte/Cidade, projeto de intervenções urbanas. "Isto está mais próximo de um produto de entretenimento. Mas não tem consistência artística, muito menos urbana. É um formato limitador", completa Brissac.

Citando obras que fazem referência a outros artistas, como uma escultura que imita o "Pensador", de Rodin, Catherine Deuvignau, uma das diretoras da Toptrends, licenciadora e organizadora da CowParade em São Paulo, defende o caráter artístico. "Sem dúvida é arte. A arte está onipresente. Em todos os eventos do mundo a arte aparece muito forte", defende.
Dividindo opiniões, o evento vem causando polêmica e protesto em cidades em que passou. No ano de 2004, em Estocolmo, um grupo de artistas “seqüestrou” uma das esculturas e ameaçou "decapitar" o animal caso os participantes não assinassem uma carta declarando que a CowParade não era um evento de arte. A organização do evento, que se pronunciou contrária a exigência dos manifestantes, recebeu a escultura em pedacinhos dentro de um saco. 
 
Quando a exposição passou por Belo Horizonte, em Minas Gerais, três esculturas foram alvos de intervenções críticas. Um dos trabalhos, que foi apelidado de "Cowburguer" e patrocinado pelo Grupo Alimenta e Picanha Fine, foi pichada com a frase "Seja Vegetariano" e recebeu riscos sobre os olhos. A crítica se deve ao fato de que a “CowBurguer” originalmente é uma referência ao hambúrguer comercializado por seus patrocinadores, que além do patrocínio, aplicaram um código de barras sobre o lombo da escultura para batizá-la como um produto de propriedade registrada.

Outros dois trabalhos também foram alvo de manifestações, a vaca “Ouro”, escultura que tem um pingente em forma de cifrão no pescoço do Grupo Poro, patrocinada pela Belgo Bekaert Arames, e a vaca “Mazoca”, que mostra uma vaca vestida com roupas de couro e piercings. As frases “compre minha dor” e “vire vegetariano” e a palavra “fetiche” foram escritas com spray nas esculturas.

“As pessoas ainda não entenderam bem o que é a exposição. À medida que forem se familiarizando com as peças, elas passarão a fazer parte da cultura da cidade e começarão a surgir os guardiões. Este ato foi uma manifestação artística, uma mensagem urbana, que mostra a interação do público com a arte”, diz Éster Krivkin, uma das diretoras da TopTrends, empresa que licencia a CowParade no Brasil.

O criador da vaca “Mazoca”, Matheus Felipe Dias, estudante de design na FUMEC, não se ofendeu com a intervenção feita em seu trabalho: “acho essas intervenções muito válidas. Uma pichação que passa um ideal não é um vandalismo, é uma forma de passar sua idéia. Se as vacas têm o direito de estar nas ruas, por que as pessoas não teriam o direito de se expressar através delas?”.

Depois desses ocorridos, as vacas passaram a ser fixadas por uma base de 350 quilos de concreto e receberam um verniz antipichação. Além disso, os organizadores possuem uma equipe, que fazem parte do “CowHospital”, responsáveis pela manutenção diária dos trabalhos.

Com criatividade, artistas mineiros realizaram, em paralelo, uma outra forma de protesto, o movimento “Vacas Magras – A Cow Paródia”. Os artistas também criaram suas versões para as vaquinhas, mas usando material reciclado e, principalmente, tratando de temas políticos. Segundo declaração feita no site do grupo “Cansados de reclamar e permanecerem com seus braços cruzados, dezenas de artistas e coletivos de arte (de rua) belo-horizontinos resolveram fazer trabalhos conjuntos e misturar boas idéias. As vacas se reúnem sem nenhum fundo financeiro relacionado a qualquer mega-evento. Somos patrocinados por uma vaquinha de pessoas comuns, cada uma com sua questão e ideologia”. 

 “São vários grupos, uns criticando a miséria, outros criticando o fato de não ter incentivo cultural em BH, outros falando sobre o que a vaca realmente é”, conta João José, ativista do Grupo Treze, coletivo que participou da paródia.
Os manifestantes apontam várias questões que envolvem a “Cow Parade”, como sua isenção política, o alto custo na produção das vacas e, principalmente, o patrocínio. “Se você for pegar todas as vacas que são feitas, pelo menos 80% tem uma mensagem publicitária. A questão da arte virou só mais um desculpa pra colocar mais publicidade na cidade”, declara João José.

Uma outra crítica apontada pelo grupo é o fato de que um dos maiores patrocinadores do evento em Belo Horizonte foi uma grande indústria de laticínios. Os artistas criticaram a representação da vaquinha “alegre” da exposição, enquanto essa mesma indústria utiliza o modo industrial de produção de leite, que causa grande sofrimento aos animais.

Como representação desses questionamentos, o Grupo Treze, criou o LactoMatiq, uma caixa que simula uma máquina. “Na caixa, havia dizeres explicando o conteúdo: contém uma vaca, hormônios de crescimento, e a gente colocou as fotos das vacas como elas são na realidade. Teve até gente que chorou quando viu as fotos”, conta João. Outros grupos apresentaram obras com cartazes, panfletos, fantasias, performances e esculturas para manifestar sua indignação a CowParade.

Próxima Parada: A próxima parada do CowParade será na cidade de Curitiba. A organização do evento já está recebendo os projetos que farão parte da exposição. As vacas em tamanho natural vão ocupar os principais espaços urbanos da cidade a partir do final de outubro.

As inscrições, que estão abertas até o dia 16 de agosto, podem ser feitas através do site www.cowparade.com/curitiba. Podem participar do processo designers, publicitários, estilistas, artesãos e grafiteiros, que terão seus trabalhos incluídos no acervo mundial da Cow Parade, em Chicago.

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