Em Carne Viva

Ética, saúde e religião são apenas três pontos visíveis de uma questão bastante complicada, ao menos para alguns: criar uma dieta que poupe os animais

Publicado em 30/01/2010 | Irinêo Baptista Netto

Boi De uma hora para outra, os vegetarianos cresceram e se multiplicaram. A ambição de levar uma vida saudável está cada vez mais atrelada à ideia de se evitar carnes. Para arrematar, a discussão a respeito de um mundo sustentável e os problemas do meio ambiente flertam com o vegetarianismo e com a proposta de uma vida em harmonia entre os animais, incluindo os seres humanos.

No Brasil, existem publicações interessadas nesse público, como a Revista dos Vegetarianos e a Vida Natural. Marco Clivati, editor da primeira, conta que o número de leitores só aumentou. Em 2006, a estreia teve uma tiragem de 10 mil exemplares e a edição mais recente, sobre “Medicina integrativa”, somou 30 mil exemplares. Ele cita ainda o aumento no número de restaurantes do gênero – frequentados inclusive por carnívoros –, de produtos lançados no mercado e da movimentação na internet em torno do tema.

Uma vida sem leite e sem sofrimento

A sensibilização quanto à ex­­ploração dos animais e a consciência em relação ao impacto ambiental causado pela indústria de produtos de origem animal estão entre as principais razões que levam um número cada vez maior de pessoas a defender uma causa cujas restrições alimentares vão muito além do não-consumo de carne: o veganismo.

Leia a matéria completa

Nos Estados Unidos, os vegetarianos ganharam há pouco um entusiasta articulado. Jonathan Safran Foer, autor do romance Tudo Se Ilumina, lançou um livro de não-ficção chamado Eating Animals (Comendo Animais), em que escreve sobre os processos de produção das propriedades ocupadas em criar animais para a indústria alimentícia.

Na crítica publicada pelo New York Times, o livro é elogiado por ter vários argumentos coerentes, mas é detonado por equiparar a opressão vivida por seres humanos àquela sofrida pelos animais.

Safran Foer “faz os leitores se perguntarem como o autor pode gastar tanta energia e compaixão falando do destino de porcos e galinhas, quando, digamos, a malária mata quase um milhão de pessoas por ano (a maioria delas é de crianças), enquanto conflitos e doenças no Congo, desde meados dos anos 1990, deixaram aproximadamente cinco milhões de mortos, centenas de milhares de mulheres e meninas estupradas e expulsou mais de um milhão de pessoas de seus lares”, contra-argumenta o Times.

Essa é uma discussão velha, encarada antes por um escritor muito menos otimista que Safran Foer. Prêmio Nobel de Literatura de 2003, J.M. Coetzee não come carne de nenhum tipo e não disfarça a decepção quando vê alguém comer.

No livro A Vida dos Animais, Coetzee fala sobre o “campo minado das interdições alimentares”. Na história de ficção, Elizabeth Costello, alter ego do autor, diz: “Não dá para adivinhar o que se pode comer ou onde se pode pisar a menos que se possua um mapa, um mapa divino”.

A obra toca em vários tópicos difíceis, contemplando argumentos de defesa e de ataque, sempre na voz dos personagens. Norma, a nora de Elizabeth, compra a briga e afirma que “A proibição da carne que se vê no vegetarianismo é apenas uma forma extrema de restrição alimentar e uma restrição alimentar é uma forma rápida e simples de um grupo de elite se definir”. Quem se recusa a comer carne, nas palavras de Norma, considera os hábitos de mesa dos outros “impuros”, está seguindo um modismo e se engajando num exercício de poder.

Essa é uma maneira de ver a questão. Existem muitas outras e os motivos que levam alguém a evitar carne passam por religião, afeto, saúde, política e paladar.

Vegetariana há 52 anos, Esther Moreira Xavier, hoje com 84, lembra que sofria dores estomacais terríveis quando ainda comia carne. Desconforto que remédio nenhum resolveu. Espírita, ela foi orientada a evitar carne por um de seus colegas e o mal-estar desapareceu. “Foi uma questão pessoal, de saúde, parei meio forçada”, diz e lembra que seu pai, Julio Antonio Moreira, também era vegetariano. “Ele adorava as religiões orientais, como o budismo.”

De fato, por volta do século 6 a.C., hindus, budistas e jainistas sentiram que as pessoas não deviam comer animais. A informação parte da historiadora Wendy Doniger, uma das quatro especialistas convidadas a debater as conferências de Coetzee no mesmo A Vida dos Animais.

“A conclusão lógica de que qualquer animal que se coma teve de ser morto por alguém levou à associação natural entre o ideal de vegetarianismo e o ideal de não-violência contra criaturas vivas”, escreve Wendy. Referindo-se à Índia, ela cita também a crença na reencarnação, segundo a qual as pessoas que morreram podem retornar como um boi, um porco ou um carneiro. Aqui, as razões para não se comer carne são claras.

A escritora Adriana Lisboa, que traduz Eating Animals para a Rocco – o livro deve sair neste ano –, é vegana e não apenas vegetariana (leia mais na página 2). Ela conta que suas razões são éticas, relacionadas aos direitos dos animais. Questões de saúde são “um bom efeito colateral”.

“Os animais vivem pessimamente e morrem pessimamente”, diz. Adriana fala de um dito conhecido entre os vegetarianos, comparando a relação entre humanos e animais com a relação de desigualdade que havia entre brancos e negros e entre homens e mulheres. “Houve épocas em que o mundo pensava diferente com relação aos negros e às mulheres. Quem sabe um dia o mundo venha a pensar diferente com relação aos animais”, diz a escritora. “O fato de acharmos que temos direito sobre a vida (e a morte) dos animais é uma imensa arrogância.”

Criador do projeto Embaixador do Churrasco, feito de cursos, serviços e produtos, o chef Mauro Abreu de Camargo conta que já teve chance de acompanhar o processo de abate de um boi – motivo que, por ve­­zes, leva alguém a se tornar vegetariano. “A meu ver, o abate faz parte de um processo idêntico ao da decapitação de um pé de alface, que, é bom lembrar, também é um ser vivo”, diz Camargo.

A questão ética do vegetarianismo tem a ver ainda com a maneira como as pessoas veem a si mesmas. É comum encontrar quem não come carne porque não quer ser o tipo de gente que impõe aos animais os sofrimentos dos processos de criação e abate.

“É um argumento evocado muitas vezes contra a pena capital”, diz Wendy Doniger, “que ela devia ser abolida não por causa de seus efeitos nocivos sobre os criminosos, mas porque ela é ruim para nós, ruim para nós sermos gente que mata gente desse jeito.”

 Fonte: Gazeta do Povo

Please follow and like us: