Aurora no Campo - Soja Diferente

Efeitos perversos do protocolo de Kyoto

Luc Vankrunkelsven

Hoje foi um dia interessante no evento paralelo à Conferência sobre Biodiversidade. Lideranças rurais e integrantes de organizações de assessoria técnica de diversos estados do Brasil reuniram-se para trocar idéias sobre uma agricultura mais ecológica. O tema é: como obter recursos para remunerar o esforço ecológico de agricultores familiares.

Pensamento compartimentalizado

Lembra um pouco os ‘acordos de gestão’, em Flandres [Bélgica], que buscavam uma maior integração entre natureza e agricultura. Hoje, o contexto mais amplo é o Protocolo de Kyoto, que entrou em vigor em 2005 e que imediatamente apresentou alguns efeitos indesejados. Dos muitos recursos, poucos – ou nada – chegam às pessoas que, há gerações, vivem em relativa harmonia com a natureza. Ao contrário: há – inclusive na região de Curitiba – muitos exemplos de pessoas que são expulsas da mata, enquanto eles já vivem e se sustentam lá desde os primeiros registros feitos pelo homem. Devido a uma visão estreita de preservação da natureza e com recursos decorrentes de uma lógica capitalista, tenta-se recuperar a natureza enquanto as pessoas são transferidas para as favelas das cidades. O que também lembra a visão dominante em Flandres: um pensamento compartimentalizado das funções ‘agricultura e natureza’, ao invés de recuperação da natureza a partir de uma ótica de entrelaçamento. Esta mentalidade impregna tanto o ‘Plano Estrutural de Flandres’ quanto as cabeças de algumas organizações ambientais e agrícolas. É claro que Wervel defende o entrelaçamento de agricultora e natureza, pelo menos nos locais onde isso é possível e para o enriquecimento de ambas (1). ‘Separação’ é uma boa solução para regiões vulneráveis. Estas são representadas por reservas naturais, em Flandres, e pelas reservas florestais, no Brasil.

O dinheiro graúdo compra medidas vazias

Para nós, na Europa, o discurso soa bonito: os países ricos destinarão recursos para a preservação de natureza no Sul. Na verdade, é um mecanismo para comprar ‘ar puro’ em outros lugares do planeta. Enquanto isso, nosso próprio modelo de desenvolvimento poluidor, no qual está baseada nossa riqueza, pode continuar funcionando.

Estão presentes dois representantes do Ministério do Meio Ambiente para esclarecer as oportunidades e dificuldades do financiamento futuro de uma agricultura mais ecológica. Da exposição que segue, selecionei somente a lógica e alguns efeitos do Protocolo de Kyoto. Neste protocolo, o objetivo é reverter o efeito estufa no mundo. Muitos pesquisadores afirmam que, se não houver mudanças, ao final do século o planeta terá um clima semelhante ao de 130 mil anos atrás. Naquela época, o nível do mar estava 6 metros acima do atual. O derretimento de geleiras e calotas polares é o prenúncio deste triste cenário. O CO2 seria o grande vilão. Ou seja, o trânsito, calefação de prédios, indústria pesada, refinarias de petróleo, indústria química, geração de energia elétrica com combustíveis fósseis, etc. Mundialmente, 80% das emissões de CO2 são provocadas pelo uso de combustíveis fósseis e 20% pelas queimadas visando desmatamento. No Brasil, é o inverso: 80% devido a queimadas e 20% pelo ‘combustível’ (2). É óbvio onde se concentra o dinheiro e onde as ‘alternativas’ têm, portanto, preferência. Os países industrializados, com seus 80%, direcionam as alternativas. Alguns exemplos que me ocorrem:

          Biomassa em crescimento seqüestra mais CO2 do que a floresta nativa. Dentro de uma lógica antropocêntrica e mercantilista que – além de tudo – está voltada somente para a redução do CO2 na atmosfera, os assim chamados ‘reflorestamentos’ com pinus ou eucaliptos podem, em breve, contar com o dinheiro do Protocolo de Kyoto. Ou seja, seria melhor queimar de vez a floresta amazônica e em seguida reflorestar com pinus e eucaliptos.

          A biodiversidade não é prioridade, somente a redução do aquecimento. Durante as duas semanas destes eventos sobre biodiversidade isto soa muito cínico. Um fazendeiro esperto poderia não só ganhar muito dinheiro com o elevado preço da cana-de-açúcar e a ‘energia verde’ desta cana, mas a monocultura ainda poderia gerar também um dinheiro extra no âmbito de Kyoto. É a mesma mentalidade das pessoas que, na Europa – sem ao menos ficarem ruborizadas – afirmam que um hectare de beterraba açucareira seqüestra mais CO2 do que o ecossistema de uma floresta formada.

          A cana-de-açúcar é um caso a parte. Enquanto os preços de quase todas as commodities estão numa linha descendente, o preço da cana-de-açúcar está no mesmo nível há anos e até apresenta uma tendência de crescimento. Atualmente, um fazendeiro no estado de São Paulo consegue, em um hectare de soja, uma renda de 220 reais. Com um hectare de cana-de-açúcar ele consegue, hoje, 900 reais. Se acrescentarmos a isso a possibilidade de recursos decorrentes do Kyoto, não é difícil fazer a conta. Graças à febre mundial da energia ‘verde’, renovável, a cana-de-açúcar continuará em ascensão durante anos. O fato da UE não conseguir melhorar sua posição em relação à comercialização de açúcar no âmbito da OMC faz aumentar ainda mais a febre de canaviais no Brasil. Desde 2005, houve um grande aumento na área plantada com cana-de-açúcar, na esperança de conquistar a fatia européia do mercado de mundial e, ainda, o mercado da própria Europa. Além disso, o capital francês, japonês e de outros estrangeiros está sendo investido em usinas de açúcar ‘brasileiras’. Posso estar enganado, mas minha previsão é que, novamente, haverá uma rápida mudança na paisagem de grandes regiões do Brasil. Muitos desertos de soja serão convertidos em desertos de cana-de-açúcar. Um pouco semelhante à transformação da paisagem de Flandres, após 1992 (3), resultando em ainda mais milharais. Só que desta vez é graças a Kyoto e graças ao fato de que, na Europa, não queremos alterar nosso padrão de consumo (como, por exemplo, cada um ter seu próprio carro). Agora, o bioetanol e o biodiesel são a grande esperança do agricultor. Ele finalmente recebeu uma tarefa ‘socialmente relevante’: não mais alimentar estômagos, e sim motores.

          Devido à relação mundial, anteriormente mencionada, de 80% ‑ 20%, é evidente que os ônibus a biodiesel, em Curitiba, atraem mais investimentos do que a agricultura familiar que, desde quando há registros, se preocupou em não deixar que toda biodiversidade desaparecesse de suas propriedades.

          Desde a década de 1950, uma colônia alemã domina uma região próxima a Guarapuava. Eles foram assentados lá pela Cruz Vermelha internacional, após o fim da Segunda Guerra Mundial. Nas últimas décadas, eles conseguiram reunir 600 mil hectares de terras agrícolas, sem se preocupar com a norma dos 20% (4). Nos últimos tempos, eles têm comprado terras com florestas, numa tentativa de legalizar sua prática ilegal. Além disso, eles anteciparam a chegada dos recursos do Kyoto, o que não se pode dizer dos agricultores familiares, menos informados. Não; estes, às vezes, são expulsos de seus habitats, numa nova onda de concentração de terras.

Preocupação seletiva

 

Será que não estou preocupado com o esgotamento dos combustíveis fósseis?

É claro que sim, mas eu só quero fazer alguns questionamentos acerca das soluções que estão sendo impostas com tanta violência.

 

Eu não sou a favor de alternativas?

É claro que sou a favor, mas será que não podemos questionar o mérito de cada alternativa? Podemos saber por que o desenvolvimento de motores a hidrogênio, por exemplo, ficou lá para trás, enquanto o biodiesel, de repente, se tornou ‘a’ solução para os problemas da agricultura e do aquecimento?

 

Será que eu sou contra acordos internacionais?

Não, em absoluto, desde que estes acordos não sejam somente ‘papo furado’ dos políticos que, no fim das contas, só estão em busca de novos mercados para suas próprias indústrias ao invés de efetivamente solucionar o problema fundamental. Será que neste mercado livre internacional do direito de poluir não podem ser feitos questionamentos sérios?

 

Será que, então, sou contra a redução das emissões de CO2 e a favor do aquecimento do planeta?

Não, mas será que não é uma opção muito limitada para barrar o aquecimento global? É de conhecimento geral que o gás metano aquece 23 vezes mais do que o CO2. Além disso, ainda há o hemióxido de nitrogênio (N2O), derivado do esterco líquido e sólido. Entretanto, percebo que não são tomadas medidas em relação a isso. São principalmente os ruminantes que emitem este gás para a atmosfera, numa quantidade que não deve ser subestimada. Em termos de emissão de metano, uma cabeça de gado tem um potencial poluidor equivalente a um veículo de passeio pequeno. Adeus Kyoto?!

 

Um veículo de passeio pequeno ainda pode ser abastecido com etanol ou, no futuro, quem sabe, ele terá um motor a hidrogênio. Mas o que vamos fazer em relação à crescente pressão ecológica do aumento no consumo de carne? Equipar cada boi com um balão coletor (5)?

Ou será que não podemos falar (ainda?) dessa vaca sagrada?

Em termos planetários, o boi e o carro têm em comum uma ocupação de terra extraordinariamente grande e ambos contribuírem para o aquecimento global.

 

Bocaiúva do Sul, 25 de março de 2006.

 

(1)   Veja no Wervelkrant [Jornal de Wervel] ‘Het Ruimtelijk Structuurplan Vlaanderen. Blijft duurzame landbouw in de kou?’ [‘O Plano Estrutural Espacial de Flandres. A agricultura sustentável continua de fora?’], Wervel, 1997.

(2)   O desmatamento na região tropical (que continua sendo a principal fonte da nossa madeira) libera uma quantidade relativamente grande de gás carbônico, porque praticamente todo o carbono está na vegetação e muito pouco no solo. A perda de florestas naturais, no mundo, contribui anualmente para a emissão de carbono mais do que o setor de transportes! Veja outros artigos sobre este assunto no site <http://www.wervel.be>, tema agroforestry [sistemas agroflorestais].

(3)   Devido à reforma da política européia para agricultura (a reforma de McSharry, em 1992), de repente tornou-se extremamente interessante plantar milho. Pastagens centenárias foram convertidas em plantações de milho. Leia: ‘Het McSharryplan en het GATT-voorakkoord, gekaderd in de doelstellingen, achtergronden en evolutie van het EG-landbouwbeleid’ [O planto McSharry e o acordo preliminar do GATT, no âmbito dos objetivos, histórico e evolução da política agrícola da Comunidade Européia], Wervel, 1993.

(4)   A lei determina que 20% da floresta original devem ser preservados. Na Amazônia este percentual é de 80%. Leia sobre a colônia alemã no artigo sobre soja da revista MO*-magazine, de maio de 2005. O livro ‘Brazilië: spiegel van Europa? Op zoek naar eigen spirituele bronnen.[Brasil: espelho da Europa? Em busca de fontes espirituais próprias] (Luc Vankrunkelsven, Dabar-Luyten, 2000) também contém uma contribuição sobre este tema.

(5)   O último Censo Agropecuário foi realizado em 1995. Em 2006, as estimativas do rebanho de gado bovino, no Brasil, variavam de 164,5 milhões a 204,5 milhões de cabeças, dependendo da maneira de cálculo, ou seja, uma diferença de 40 milhões! De qualquer forma, o Brasil possui o maior rebanho de gado bovino do mundo. Algumas fontes limitam a estimativa a 180 milhões: um boi para cada brasileiro, como em Flandres e na Holanda – há alguns anos – também se estimava um porco para cada habitante. Deste rebanho, 80% é destinado à produção de carne e 20% à produção de leite. Entre 2000 e 2005, as exportações brasileiras de carne de gado aumentaram mais de 300%, precisamente de 314 mil toneladas para 1,3 milhão de toneladas. Com isso, o Brasil ultrapassou a Austrália que, até recentemente, era o maior exportador.

 

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